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TECIDO DE SAUDADE

(Chico Ribeiro Neto)

Sempre tenho saudade quando preciso me desfazer de uma roupa velha, manchada, rasgada ou apertada. Vai um pouco de mim naquela roupa.

Toda roupa tem uma história. Tive uma namorada que usava uma saia cáqui, de grande lembrança. Outra usava uma calça de malha coladinha que matava Chiquinho. E aquela de blusinha Ban-Lon azul celeste!

Todo mundo tem um casaco que adora. Aquele casaquinho azul é um velho chamego, apesar do furinho na manga.

Tem uma comida muito gostosa chamada de Roupa Velha. É a comida que se improvisa com as sobras que estão na geladeira. Em Caculé (BA) se chama também de Mexidão. Você pega todas as sobras da geladeira – um pedaço de bife, um pouco de arroz, resto de macarrão, uma coxa de galinha, um pouco de abóbora com quiabo – e esquenta tudo junto. Fica um prato delicioso e você esvazia a geladeira de vasilhas.

Sempre achei que a gente deveria dar a última volta com uma roupa antes de se desfazer dela. Leva ela pra ver o mar antes da despedida.

Quem nunca achou uma nota de 50,00 dentro de um velho casaco? E tem também aquela roupa nova que a gente não gosta. Comprou, nas não tem jeito de usar. Tá lá pendurada no cabide até hoje. Quando fui morar em pensão, estudante em Salvador, mamãe Cleonice me deu uns cabides de madeira e os marcou com tinta preta, talvez de caneta-tinteiro: “Xico Ribeiro”. Guardo um até hoje.

Segue um trecho do artigo da jornalista Jéssica Natacha, intitulado “Que sentimento está escondido no seu guarda-roupa?” (labdicasjornalismo.com): “Sabe aquela peça de roupa que você não usa há tempos? Ela tem um significado. Muitas vezes, os objetos guardados remetem a uma lembrança tão importante na sua vida que, toda vez que o encontra na gaveta, você para por uns segundos e revive aquele momento; a sensação de prazer e felicidade faz sorrir instantaneamente; ou chorar”.

Velhas roupas, grandes lembranças. Roupas velhas são um aconchego, golas que aquecem, quem nos entende; Com elas saio caminhando por aí, vestido de saudades.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

“VIDAS SECAS” E “SEU GRAÇA”

Na abertura da II Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo- a II FLIBELÔ, aberta oficialmente ontem (dia 19/10) com lançamentos de livros, mesas temáticas, apresentação de trabalhos escolares e conferência sobre a cultura nordestina, lá estava um estande sobre a vida e a obra de Graciliano Ramos, “Seu Graça,”  o alagoano que se notabilizou com sua linguagem dura, concreta e objetiva, como no livro “Vidas Secas”. É um escritor que muito admiro por retratar de forma simples a força do poder sobre o homem comum, além de ter sido um defensor do livre pensar e dos direitos humanos quando esteve preso na Ditadura Vargas, como em Memórias do Cárcere. Graciliano Ramos é um autor diferenciado pelo seu estilo realista de escrever. Seus personagens vivem e levam o leitor ao mundo da realidade. Eles não parecem ser imaginários, e o livro Vidas Secas é um deles, como São Bernardo e outros da sua lavra. Além de Graciliano Ramos, a Feira de Belo Campo, que segue até o próximo domingo (22/10), tem uma pegada sertaneja e conta também com a presença de muitos escritores de Vitória da Conquista que estão apresentando suas obras, contemplando diversos gêneros literários, como romances, poesia, história, ensaios, contos e livros infantis.

    

NÃO ACEITO

Autoria do jornalista, escritor e poeta Jeremias Macário

Não aceito

Esses seres malditos,

Com seus poderes malignos,

Do ocidental moralista,

De história opressiva terrorista,

Seletivos canalhas das muralhas,

Das terras arrasadas de guerras,

Que fazem da pobreza,

Produto de consumo,

Do insumo sangue humano,

Entre gritos, gemidos e fome,

De gente que vaga sem nome,

Pelos escombros desses monstros.

 

Não aceito

Que cortem meu cérebro,

Em seu laboratório,

Para enxertar seu chip,

Do sistema totalitário.

Prefiro meu bip,

Do pensar contraditório,

Longe do seu sofisma,

Da sua hipnose de massa,

Do quem eu sou

Para aonde vou

Conversa mansa de raça,

Do seu pensador,

Que confunde prazer com amor.

 

Não aceito

Sofia sem poesia,

Por que uns cantam louvores,

Outros choram suas dores,

Nesse vale de lágrimas,

Num mundo tão desigual,

Dividido entre o bem e o mal,

E ainda procuramos saída,

No sentido da vida.

RESGATE DE BRASILEIROS NA ÁSIA

Carlos González – jornalista

O jornalista e escritor Elio Gaspari comparou em sua coluna no jornal “A Folha de S. Paulo” o comportamento dos governos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva em duas crises humanitárias, com motivações diferentes, mas com finalidade única: o resgate de brasileiros, moradores ou a passeio, em países distantes. Em 1920, as 34 pessoas que se encontravam na China, berço do coronavírus, clamaram por ajuda; nos últimos dias, milhares de nossos compatriotas foram retirados de Israel assim que irrompeu o conflito que mancha de sangue as terras por onde Jesus Cristo percorreu.

Gaspari lembra que, num primeiro momento, Bolsonaro, obstinado pela cloroquina e outros medicamentos ineficazes na cura da Covid 19, descartou a ida de uma aeronave da FAB a China para trazer brasileiros ameaçados por uma “gripezinha”. “É preciso antes resolver os entraves diplomáticos, jurídicos e financeiros”, questionou o presidente ao comentar a carta aberta escrita pelos 34 brasileiros que estavam confinados na província chinesa de Wuhan

Diante dos argumentos apresentados por Luiz Henrique Mandetta, então ministro da Saúde, o presidente negacionista concordou em montar, numa encenação teatral, a operação “Regresso à Pátria Amada Brasil”. Quatro aviões e 120 militares, além de funcionários do Itamaraty e uma equipe de filmagem, foram enviados à China. “Um exagero”, comentou Mandetta. A montagem da peça custou R$ 4,6 milhões aos cofres públicos.

Dos quatro médicos que ocuparam a pasta da Saúde, Mandetta foi o único que não dizia “amém” aos “conselhos” do chefe. Pagou caro pelo seu profissionalismo, exonerado após passar 15 meses no cargo. Pelo menos, não testemunhou a revogação de 23 decretos relacionados com a pandemia que matou 660 mil brasileiros, o segundo maior número de vítimas do vírus no mundo.

Não poderíamos deixar de registrar uma outra – foram várias – omissão de Bolsonaro, relacionada com a covid-19: em janeiro de 2021, o sistema de saúde do Amazonas entrou em colapso com a falta de oxigênio nos hospitais, insumo necessário para os pacientes internados em UTIs. Mais de 50 contaminados pelo vírus morreram por asfixia e mais de 500 tiveram que ser transferidos para hospitais em 15 estados. O socorro veio da Venezuela, o vizinho “comunista” que na época não mantinha relações com o governo do acusado de genocida.

Longe das cenas de pânico observadas em Manaus e no interior do estado, Bolsonaro provocou revolta, mostrando em público como se morre com falta de ar. Sobre a crise sanitária no Norte do País, afirmou que “não é competência e nem atribuição” do governo federal levar oxigênio para o Amazonas, e que enviou recursos financeiros para o Estado enfrentar a pandemia.

O presidente aproveitou para elogiar o trabalho do seu ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, que dias antes tinha enviado para o Amazonas 120 mil unidades de hidroxicloquina. A omissão de Pazuello foi alvo de pedido de investigação da Polícia Federal.

Uma nova conjuntura

Na sua “viagem” pelo continente asiático, Gaspari chegou à Terra Santa, onde a maioria dos brasileiros que lá estavam – três deles foram assassinados pelo grupo terrorista Hamas – temiam permanecer na região em conflito desde o último dia 7.

Sem lances teatrais, a FAB e o Itamaraty organizaram em poucas horas os procedimentos de resgate. Vários voos vêm sendo realizados, inclusive com utilização do avião da Presidência da República, entre o Brasil e Israel. Até o momento, 1.100 brasileiros e 24 animais de estimação desembarcaram no Rio e São Paulo. Os governos da Argentina, Paraguai, Chile e Uruguai têm aproveitado esses voos para repatriar seus cidadãos.

A maioria dos repatriados, moradores de Tel Aviv e de outras cidades israelenses, votou em Bolsonaro – 53,4% contra 46% para Lula – no segundo turno das eleições passadas. Em Ramallah, capital da Autoridade Palestina, foi o contrário – 90,5% contra 9,5%.

Em qualquer lugar do mundo o judeu tem duas pátrias, sendo que uma delas é Israel. Ao atingir a maioridade ele tem o direito de ir viver em Israel para servir ao exército (obrigação de todos os homens e mulheres aos 18 anos), estudar ou morar num kibutz, optando por um trabalho que normalmente rejeitaria em seu país. O judaísmo, com relação ao casamento, chega a ser inflexível quando se trata da união conjugal entre um judeu e uma não-judia. Quem violar esse mandamento é considerado morto.

A missão desempenhada pelas administrações Bolsonaro e Lula na questão dos regates de brasileiros na China e em Israel não convenceu alguns raros oposicionistas de que há diferenças entre o Brasil de ontem e o de hoje. Liderados por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), meia-dúzia de saudosos do bolsonarismo insiste em associar Lula ao Hamas. Nos últimos dias, o gabinete do ódio usou as redes sociais para divulgar fake news (publicações já desacreditadas pelo povo), transformando o velho e cansado presidente num terrorista.

O bolsonarismo nasceu na sombra do nazismo e do fascismo – Silvinei Vasques, ex-diretor da PRF, colecionava fotos dos ditadores Adolf Hitler e Benito Mussolini -, ideologias que tentaram exterminar com o povo judeu. O antissemitismo era uma das bandeiras da extrema direita brasileira. Tudo indica que, depois que o pastor Everaldo Pereira (preso em agosto de 2020, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro) deu três “caldos” em Bolsonaro no Rio Jordão, a direita brasileira passou a fazer peregrinações a Jerusalém, colocando o Muro das Lamentações como prioridade no roteiro de viagem.

 

UM RACISMO VELADO

“Estamos preparando nossa ficha técnica e precisamos de uma jornalista, residente em Conquista, mulher preta, e com experiências em redes sociais para compor nossa equipe como assessora de imprensa”.

Confesso que fiquei chocado e estarrecido com este anúncio de emprego que saiu em um grupo do Zap, até imaginei se tratar de uma provocação de alguém ou de uma fake news. Não aparece a procedência do anunciante, nem o nome da empresa contratante.

Em minha opinião, não resta dúvida de que se trata de um racismo velado, principalmente nos tempos atuais onde buscamos tolerância e igualdade de cor, sem discriminação e preconceito, seja do lado que for. Não se deve medir o mérito das pessoas pela cor da pele. Não há nada que justifique.

Entendo até que tipo de anúncio como este merece todo repúdio, sem muitos comentários. Lembrei do discurso de Martin Lutter King que pregou, em seu sonho, uma união de todos, sem ódio e distinção de cor.

Fico aqui a imaginar o que diriam os movimentos negros, as entidades que lutam pela igualdade, as organizações de direitos humanos como OAB e os próprios órgãos do governo federal, se veiculasse um anúncio ao contrário, isto é, ao invés de “mulher preta”, uma mulher branca.

Esta espécie de anúncio não combina com o slogan do Governo do PT de “União e Construção”. Considero uma provocação e uma forma de criar mais ainda um clima de animosidade em nossa sociedade, além de ser um “prato feito” para os extremistas e fascistas.

Mesmo os excluídos há séculos neste país, inclusive com mais de 300 anos de escravidão, não podem agir com radicalismo dessa maneira, porque em nada estão construindo para a união.  Portanto, considero o anúncio um absurdo, isso se não se tratar apenas de uma pegadinha, ou uma fake news plantada por alguém.

A EVOLUÇÃO DO POVO JUDEU

Estava lendo alguns textos nos grupos do Zap sobre a evolução tecnológica e cientifica medicinal do povo judeu e seus benefícios para a humanidade, uma exaltação à sua inteligência em contraste com o outro lado vizinho palestino, mas não mostra a outra versão da história.

Por que na outra parte (os palestinos) existe apenas uma pequena faixa de areia estorricada de pobreza e miséria? Ali não passa de um vele de lágrimas, como se fosse um campo de “leprosos” de alta contaminação na era romana. Esse outro lado é burro e desprovido de inteligência e capacidade?

Percebi nos comentários uma visão vesga enviesada e de viés tendencioso seletivo de raça superior. Será que foi intencional ou falta de maior conhecimento do passado? Por que muitas nações africanas, talvez a maioria, que viveram e ainda vivem séculos de colonização e subjugação não conseguiram se desenvolver o bastante para reduzir e erradicar suas desigualdades sociais, e ainda se matam em guerras fraticidas? O mesmo diria das Américas do Sul e Central.

Olhai os lírios dos campos onde uns florescem e outros não, bem como os frutos da terra quando ela é bem fertilizada e adubada, desde que receba os recursos necessários. O pomar do pobre não é igual ao do rico. Será que o dinheiro para Israel se evoluir caiu no deserto como maná vindo do céu?

Por que a Palestina, encurralada e cercada o tempo todo por Israel, é tão pobre ao ponto de até hoje não lhe derem um estado independente? Por que o mundo ocidental, principalmente os Estados Unidos, não criaram seu país? Os incluídos são inteligentes e os excluídos periféricos não? Todos só carecem de condições para provarem seu grau de inteligência. Quem são os culpados pelo que está acontecendo hoje? A grande mídia capitalista é induzida a distorcer os fatos e, ao invés de informar de forma imparcial a opinião pública, desinforma.

É muito fácil citar as proezas de Israel e não procurar as razões do porquê a outra banda vive na pobreza extrema, amontados num curto espaço que mal dá para respirar. Ademais, é bom que se faça um recorte da história desde antes de Cristo quando os hebreus, conduzidos por Moisés e Josué, saíram do Egito para a terra prometida. Depois de muita espera no deserto, eles atacaram a cidade de Jericó e ali cometeram um massacre.

Na história mais recente, logo após a Segunda Guerra Mundial, por volta de 1946/47 ali viviam os árabes, cristãos e palestinos, além de judeus que retornaram desde a Primeira Guerra Mundial. Aquele território foi dominado por vários povos há mais de três mil anos, mas quem estavam lá quando foi criado o Estado de Israel eram os ingleses.

Para forçar a constituição do Estado Israelita, os judeus atuavam com dois grupos principais de terroristas, o Haganá e a Gangue Stern que jogavam bombas em hotéis e instituições diversas. Sempre atacavam com força total reivindicando que aquela terra era deles. Quem colocou em votação na ONU para a criação de Israel foi um brasileiro chamado Graça Aranha.

Por que não foi instituído também o Estado da Palestina, cujo povo foi sendo empurrado e abandonado para uma faixa estreita da Cisjordânia, separada por muros? Quem se lembra da Guerra dos Sete Dias, em 1967, quando Israel, com seu poderio militar e ajuda dos Estados Unidos, avançou mais ainda? Depois de 1948 o Oriente Médio virou um vespeiro e não houve mais paz.

Como um povo oprimido e subjugado há anos pode se evoluir, se não tem infraestrutura, poder político e financeiro, quanto mais alimento para matar a fome? Os curdos também no Iraque, na Turquia e na Síria têm histórias semelhantes. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental fizeram vistas grossas para a criação de colônias israelenses do outro lado e negaram a criação do Estado Palestino.

Não estou aqui justificando o ataque sangrento do Hamas em Israel, nenhum um outro tipo de carnificina humana, seja de onde vier, mas a maioria dos países europeus e os norte-americanos não têm moral para chamar qualquer grupo de terrorista, principalmente os ianques que já invadiram com matanças brutais diversas nações, como a Guatemala, Filipinas e o Iraque, só para citar esses povos.

 

VIZINHOS NÃO SE CONHECEM MAIS

Foi-se o tempo em que os vizinhos e moradores da mesma rua numa cidade se conheciam e tinham intimidades. Uns frequentavam as casas dos outros e se ajudavam nos momentos de maior aperto. Colocavam suas cadeiras nos passeios em final de tarde para prosear.

As amizades eram sinceras e sempre havia uma fofoqueira ou fofoqueiro, mas sem muitas maldades e o ambiente era até engraçado. A fofoca fazia parte das conversas e tinha que ter um do tipo repórter social. Havia aquela (ele) que dizia que sua boca era um túmulo, mas soltava tudo que ouvia. Se você tivesse algum segredo, guardasse, mas se queria espalhar era só contar sua notícia no pé do ouvido do fofoqueiro (a).

Os mais velhos lembram bem quando uma comadre batia na porta da outra comadre pedindo uma xícara de açúcar, um pouco de sal, uns ovos para fazer uma omelete, um pó de café, uma porção de farinha ou feijão porque a situação não estava boa. O compadre recorria ao outro solicitando um dinheirinho emprestado.

Hoje, principalmente nas grandes cidades, o vizinho nem sabe quem mora ao lado, e quando se batem de frente na vida de correria, não passam de um bom dia. Tem casos que nem isso. São sinais de quanto o progresso desumanizou as pessoas e acabou com os bons relacionamentos.

Às vezes o funcionário dos Correios ou de uma empresa qualquer de entregas confunde-se com o endereço e bate na porta errada quando a encomenda, na verdade, é do vizinho ao lado. Mesmo citando o nome, de Daniel, Mateus ou seu José, o cara que atende diz desconhecer. Certifica-se que a rua está correta, mas não conhece a pessoa.

O mesmo ocorre com os motoqueiros entregadores de comida, com agentes de saúde e outros prestadores de serviços quando existe uma troca no número da casa. Na maioria das vezes, o pedido foi feito pelo vizinho ao lado que o outro afirma desconhecer, mesmo citando o nome. “Não é aqui a casa de dona Dalva”? A rua é esta, mas não sei quem é esta Dalva – responde o vizinho. A Dalva é a vizinha.

Nos tempos de hoje, o vizinho desconhece a existência do outro que mora ao lado, divididos apenas por uma parede. Pior ainda são moradores de uma mesma rua que se cruzam para o trabalho ou seus afazeres do dia a dia e um não sabe o nome do outro.

Quando alguém morre ou acontece uma tragédia e começa a juntar gente na porta, o cara do outro lado, no meio ou na ponta da rua começa a indagar o que está ocorrendo e quem é a vítima que mora naquela casa. Quando descobre por outras bocas, apenas diz que sempre passava pela pessoa, quase que diariamente.

Não adianta pedir informações a um morador sobre outro que reside na mesma artéria. Vivemos na mesma aldeia, na mesma rua, travessa, praça ou avenida com problemas parecidos, cada um com suas dores e sofrimentos, mas todos são desconhecidos.

Ainda se encontra um calor humano quem vive no campo, na zona rural onde o tempo do progresso e da tecnologia ainda não acelerou tanto como nas cidades. Nos distritos e povoados, mesmo onde uma moradia é distante da outra, as pessoas se conhecem. Qualquer problema, especialmente se for grave, é só gritar por socorro. Ah, ainda tem os adjutórios nas roças, os chamados mutirões.

Ainda existe aquele hábito do compadre ou da comadre correr até o vizinho (nem tanto) para solicitar uma ajuda quando está necessitado, quer seja na forma de comida, dinheiro e em caso de doença.

Ainda bem que vivem mais distantes dessa loucura que se tornou nosso mundo, todo fragmentado, cheio de guerras, ódio e intolerância. No entanto, lá já chegou o celular, o rádio e a televisão (nem em todos lugares), mas as pessoas ainda preservam o sentimento humano e o respeito de um para com o outro.

 

“DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS” III

AS CRÍTICAS DE TOLSTÓI ÀS PEÇAS DE SHAKESPEARE E A DEFESA DE GEORGE ORWELL EM RESPOSTA AO RUSSO.

No capítulo “Lear, Tolstói e o Bobo”, o autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, George Orwell expõe as críticas de Tolstói contra o escritor e dramaturgo Shakespeare onde, ao mesmo tempo, rebate o russo relatando partes negativas de sua vida e afirma que ele não tinha propriedade para menosprezar as obras do poeta inglês, especialmente quanto a sua habilidade para com as palavras, que soavam como música.

Ao analisar a peça Rei Lear, Tolstói, através do seu panfleto, considera que Shakespeare não é nem “um autor mediado”, quanto mais um gênio. Em sua apresentação sobre o do enredo de Rei Lear, o russo julga como estúpido, verborrágico, antinatural, incompreensível, bombástico, vulgar, tedioso e repleto de episódios inverossímeis, “loucos desvarios”, cheio de obscenidades, sem contar as faltas morais e estéticas.

“Lear é, de qualquer forma, plágio de uma peça mais antiga e muito melhor, Rei Leir, de autoria desconhecida, que Shakespeare roubou e arruinou”. Em seu panfleto, o russo arrasa o inglês com termos depreciativos. O veredicto final de Tolstói sobre Lear, conforme descreve Orwell, “é que nenhum observador não hipnotizado, se um observador assim existisse, conseguiria ler a peça até o fim com nenhum sentimento, exceto “aversão e fastio”.

Sua crítica áspera inclui todas suas outras peças, segundo ele, sem sentido que foram, dramatizados, como Péricles, Noite de Reis, A Tempestade, Cimbelino, Troilo e Créssida. Ele acha que Shakespeare tem alguma habilidade técnica, devido em parte ao seu passado, como ator, mas absolutamente nenhum outro mérito.

Para Tolstói, a linguagem do inglês é exagerada e ridícula, que enfia os próprios pensamentos aleatórios na boca de qualquer personagem que por acaso esteja à mão. “Demonstra “uma ausência completa de senso estético, e suas palavras ”não têm nada em comum com a arte e nem com a poesia. Shakespeare pode ter sido o que você quiser, mas ele não era um artista” – diz Tolstói, acrescentando que sua tendência é do “tipo mais baixo e imoral”. “Seu princípio é que o fim justifica o meio”.

Na análise do russo, a fama do inglês está em uma espécie de “hipnose das massas” ou em uma “sugestão epidêmica”. Ressalta ainda que o mundo civilizado vem sendo induzido a pensar que Shakespeare é um bom escritor. Sobre a fama do inglês, o russo declara que ela foi promovida por acadêmicos alemães no final do século XVIII. “Sua reputação surgiu na Alemanha e de lá foi transferida para a Inglaterra”.

Do outro lado, com relação às críticas de Tolstói, o autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios”, retruca que o sentimento que se tem é de que, ao descrever o inglês como um mau escritor, ele está dizendo algo demonstrativamente inverídico. Para Orwell, não existe nenhum tipo de evidência ou argumento pelo qual se possa demonstrar que Shakespeare, ou qualquer outro escritor, seja “bom”, nem que seja “ruim”. “Não existe teste de mérito literário, a não ser a sobrevivência”.

“Teorias artísticas como a de Tolstói são bastante inúteis porque não apenas partem de princípios arbitrários como dependem de termos vagos, que podem ser interpretados de qualquer forma que se queira”. Orwell indaga o porquê dos ataques de Tolstói. Em sua opinião, o russo usa muitos argumentos fracos ou desonestos. “Sua análise sobre Rei Lear é “imparcial”, como duas vezes ele alega ser. Ao contrário, é um longo exercício de distorção”.

Orwell afirma que nenhuma dessas interpretações equivocadas é por si muito grosseira, mas o efeito cumulativo é exagerar a incoerência psicológica da peça. Diz também que Tolstói não é capaz de explicar por que as peças de Shakespeare ainda estavam sendo impressas e encenadas duzentos anos depois de sua morte. Mais diante chama o trabalho de Tolstói de simples adivinhação, pontuado por declarações falsas explícitas.

Destaca que muitas das acusações do russo se contradizem mutuamente. “De modo geral, é difícil sentir que as críticas de Tolstói são feitas de boa-fé”. Entende ser impossível que ele acreditasse na tese principal que, por um século ou mais, todo mundo civilizado tenha sido engolfado por uma mentira enorme e palpável que ele, e somente ele, tenha sido capaz de perceber.

Em determinado trecho, Orwell chega a concordar com Tolstói quando critica que a peça Lear não é muito boa por ser longa demais e ter excessos de personagens e de subtramas.

Entretanto, assinala que “Tolstói era capaz de repudiar a violência física e de enxergar o que isso implica, mas não era capaz de tolerância nem de humildade, e, mesmo sem conhecer nenhum de seus outros textos, uma pessoa poderia deduzir sua tendência à intimidação espiritual a partir desse único panfleto”. Sua rixa com Shakespeare vai além. É uma rixa entre as atitudes religiosas e as humanistas diante da vida – rebate Orwell.

O autor de “Dentro da Baleia e Outros Ensaios” observa que existe um episódio de semelhanças entre a peça de Lear e a vida de Tolstói que foi seu ato imenso e gratuito de renúncia. “Em sua velhice renunciou às propriedades, aos títulos e direitos autorais e fez uma tentativa, não bem-sucedida de escapar de sua posição privilegiada e levar a vida de um camponês. Tolstói renunciou ao mundo na expectativa de que isso o faria feliz, mas não foi feliz”.

 

 

SOLTARAM UM AÍ!

(Chico Ribeiro Neto)

“Quem primeiro sentiu, do buraco saiu” – sentenciava mamãe Cleonice, que dizia saber identificar o peido de cada um lá em casa: “Esse é de Waldemar (papai), esse é de Luiz, esse é de Zé Carlos. Ah, esse eu já conheço, é de Cleomar, e esse já sei que foi de Chico”, citando os filhos.  Menino tem arte. A gente soltava um embaixo da coberta pra ficar sentindo o “aroma”.

A velha sempre repetia um velho ditado sobre um casal: “Quem gosta dos beijos gosta dos peidos”. Haja amor!

Uma amiga me contou que, menina, estava no recreio da escola, quando uma colega muito afoita gritou: “Você peidou”. E ela, muito tímida, disse que não. A outra insistia, ela negava e já se formava a roda de meninas. “Peidou, sim, que eu vi seu short tremer”.

Piada que surgiu na pandemia: antes, a gente tossia pra disfarçar o peido. Hoje, a gente peida pra disfarçar a tosse.

Muita gente tenta disfarçar quando solta um peido. Alguns procuram sair rapidamente do local da detonação, outros dão um sorriso constrangido ou começam a falar sem parar, como se a voz dissipasse o gás. Impossível disfarçar mesmo é quando você vai descendo sozinho no elevador, solta um e entra alguém.

Ele é também chamado de bufa, trovão de baixo, traque, bomba. Tem uns que assoviam, mas o pior é aquele que não faz barulho. Esse é igual a um escapamento de gás, fruuuuu, que quando começa vem sibilante e contamina todo o ambiente em questão de segundos. O que faz barulho não passa de um pum que logo se dissolve.

Uma vez, um amigo presenciou uma cena inusitada dentro de um ônibus Viaduto da Sé – Brotas, em Salvador. Entrou um bêbado e ficou em pé, quando um passageiro que estava sentado cedeu o lugar para uma mulher cheia de embrulhos. Quando ela se curvou para colocar o embrulho maior na poltrona deixou escapulir um sonoro peido. Ouvido de bêbado é o diabo e ele foi logo arrematando: “Minha senhora, a senhora peidou, não tenha vergonha, não. Todo mundo peida. Eu peido, o papa peida, o presidente Geisel peida, o cobrador peida, o motorista peida…” e aí houve logo um freio de arrumação. O motorista ouviu e veio tirar satisfação com o bêbado: “Você me ofendeu”. “Mas você peida ou não peida? “Peido, sim, mas você está me faltando com o respeito e vai descer do ônibus agora”. Motorista e cobrador agarraram o bêbado e o colocaram pra fora do ônibus. Quando o carro arrastou, ouviu-se a indignação do bêbado: “Quer dizer que ela peida e quem desce sou eu”.

Em Ipiaú, minha terra natal, existiu o Cine Bufa, assim descrito pelo jornalista José Américo Castro: “No ano de 1969, Dren (José de Assis Filho) inaugura na Rua Castro Alves, em um antigo armazém de cacau, uma sala com o seu próprio nome. O Cine Dren roubou do Cine Éden o público mais vibrante e ganhou, por motivos óbvios, o honroso apelido de “Cine Bufa” (…) No meio da projeção costumava-se ouvir: “Bufaram aqui, tá um fedor retado!” (…) Quando a coisa chegava às raias do insuportável, Dren interrompia a projeção e saía cheirando o cangote de cada cinéfilo. Aos cascudos, o principal suspeito era expulso do recinto”. (Fonte: livro “Porta do Éden – A poética de José Américo Castro e o Imaginário Coletivo de Ipiaú”, org. Paulo Andrade Magalhães).

Uma vez, Dren recebeu uma intimação do delegado de Polícia por causa da exibição de filmes de putaria. Diz o mesmo livro: “A queixa foi prestada pelas freiras do Instituto Sagrada Família, que moravam na vizinhança do cinema. Elas estavam incomodadas com os chiados indecentes dos atores e com as frases ditas em voz alta pela plateia. As mais moderadas eram do tipo: “vai, sacaninha…”

Lembro ainda de um colega de pensão que gostava de se exibir no quarto  soltando um pum e riscando um fósforo para que a plateia visse a chama. Acho que ele foi parar num circo.

Zorra! Queimaram um aí!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

O CRISTO DA SERRA

Mais uma vez, volto a falar aqui sobre o monumento do Cristo de Mário Cravo, em Vitória da Conquista, ou simplesmente, o Cristo da Serra do Periperi, que nunca recebeu a devida atenção dos poderes públicos desde quando Ele foi erguido nos anos 80. Discutimos esta questão no Conselho Municipal de Cultura, do qual estive à frente até o início deste mês (final de mandato), onde uma conselheira chamou a atenção de que a estrutura interna da estátua se encontrava deteriorada, com risco de desaparecer. Em julho do ano passado, numa audiência do Conselho com a prefeita, tocamos nessa questão e a chefe do executivo garantiu não ser verdade o comentário. Logo depois ela anunciou uma “revitalização” do local, em conjunto com a Cúria da Igreja Católica. Estive lá e captei algumas fotos onde funcionários limpavam a área, sem contar a instalação de um mirante. Não constatei nada além disso em termos de uma obra maior, como área de estacionamento e outros equipamentos de proteção e urbanização. É sempre assim: Alguns prefeitos, quando pressionados, fazem uns serviços “meia boca” e chamam isso de revitalização e urbanização. Ali é um cartão postal e, como tal, era para todos os dias receber centenas de visitantes, o que não ocorre. Em minha opinião, aquela área carece de um grande projeto, inclusive um teleférico ligando o Cristo ao centro da cidade, dentre outras obras onde moradores e turistas de fora possam desfrutar com segurança daquela bela paisagem até num certo período da noite, como ponto turístico de atração.





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