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OS GENERAIS DEBOCHAM ENQUANTO SE LAMENTA PELO LEITE DERRAMADO

Por que os generais debocham quando aparecem novas denúncias de torturas durante a ditadura civil-militar de 1964? A resposta é porque os torturadores não foram punidos quando terminou o regime e começou a redemocratização com os governos civis, como ocorreu na Argentina, no Chile e no Uruguai.

As feridas ficaram abertas com a anistia de 1979, e não adianta ficar aí agora lamentando pelo leite derramado, com falas de historiadores, das vítimas e especialistas no assunto. Além de debochar, com a maior cara de pau, eles estão agora no governo do capitão-presidente tentando desconstruir a história, até negando de que não houve ditadura no Brasil.

De certa forma, o vice-presidente, general Hamilton Mourão tem razão quando diz que, “apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô. Vai trazer os caras do túmulo (…) A mesma coisa que a gente voltar para a ditadura de Getúlio Vargas. São assuntos já escritos em livros, debatidos intensamente”.

O presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Luis Carlos Gomes Matos “esnobou” os áudios da ditadura, dizendo que “não atrapalharam a páscoa de ninguém”. Enquanto isso, eles compram 35 mil comprimidos de viagra superfaturados e próteses penianas para o exército, além de bacalhaus e outros artigos de luxo num país de 50 milhões de subnutridos.

Pois é, recentemente, com 93 anos, se foi o general Newton Cruz, chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações, entre 1977 e 1983. Em 2014, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou Cruz por participação no atentado a bomba no Riocentro, em 1981. Meses depois a Justiça Federal concedeu habeas corpus aos cinco militares e um delegado envolvidos.

No mesmo ano, o general foi apontado pela Comissão da Verdade, que ficou no papel, como um dos 377 militares que cometeram crimes durante a ditadura. Antes de morrer, em 1982, o jornalista Alexandre von Baumgarten deixou um dossiê no qual acusava integrantes do SNI de planejar sua morte, e apontava o general Cruz como autor da sentença. Todos foram absolvidos.

A ação no Riocentro foi planejada por seis acusados integrantes da linha dura do regime, para causar pânico em um show pelo Dia do Trabalho que reuniu cerca de 20 mil pessoas. Ocorreu que a trama deu errada, e uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, que morreu no local.

Muitos outros, como o general Newton Cruz e o maior torturador coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-Codi do II Exército entre 1970 a 1974 (um dos órgãos da repressão política), já se foram sem terem sofrido nenhuma punição. Com base no código da anistia, o próprio Supremo Tribunal Federal absolveu os torturadores.

Os governos ditos de esquerda do PT, nos períodos de Lula e Dilma, não chegaram a empreender qualquer esforço no sentido de punir os torturadores. Em algumas ações, como na Comissão da Verdade, eles foram rechaçados e até ameaçados com pronunciamentos duros. Todos se calaram, e alguns até disseram tratar da questão seria revanchismo e ameaça à democracia.

O Brasil foi covarde e o único país da América do Sul onde essas feridas da ditadura ficaram abertas. Boa parte dos documentos foram queimados e destruídos. Na época, de 1964 a 1990, cerca de 500 presos políticos foram mortos e desaparecidos. O maior massacre aconteceu na Guerrilha do Araguaia. Está aí a explicação mais plausível do deboche quando são revelados episódios de torturas durante o regime militar.

UMA ESTRELA “REVOLUCIONÁRIA” QUE SE RENDEU AO CAPITALISMO

Ainda nas asas do discurso da teologia da libertação da Igreja Católica, nascia na década de 1980 um partido com uma estrela “revolucionária” no peito, mas logo ela foi se desbotando quando se rendeu ao deslumbre das escamas douradas do neoliberalismo capitalista de mercado.

Sua linguagem de mudanças atraia multidões na voz rouca bluseira de um nordestino pau-de-arara, trazendo uma “boa nova” para os pobres e todos aqueles que ficaram largados nessa estrada da justiça e da igualdade social. Por diversas vezes, tentou chegar ao poder, mas foi repelido pelo brutal sistema dono do senhor capital.

Essa estrela, então, resolveu misturar a sua cor com outras diversas, muitas das quais carraspentas e manchadas pela ganância do sempre ter mais, mesmo que sejam por vias inescrupulosas. Para galgar o Planalto teve que fazer o pacto com o diabo, ou aliás, com vários diabos que passaram anos treinando praticar as piores maldades contra o povo na escola do inferno.

Mil maravilhas e muita empolgação na junção de bandeiras diferentes a tremular pelas esquinas, praças, ruas e avenidas deste gigante varonil adormecido. De braços dados com a burguesia, logo o medo se dissipou para dar lugar à esperança e à fé de que logo se chegaria à terra prometida. Nem se questionou que aqueles acompanhantes não passavam de malfeitores.

Para os mais sensatos e analistas do sistema imoral apodrecido, aquele cruzamento com animais diferentes deformados não iria dar certo, e dali poderia gerar um dragão devastador e centenas de outros monstros. Não deu outra, e a estrela, que logo deixou de ser “revolucionária”, foi expelida do ventre de seus “companheiros” cafajestes.

Ao perceber que essa estrela estava se desviando de rota, dos seus princípios fundamentais humanistas e sendo conduzida por uma cambada oligarca de canalhas corruptos, onde os meios justificavam os fins, muitos caíram fora porque as bases foram desprezadas em detrimento de uma governabilidade sem escrúpulos.

As principais lideranças dessa estrela do PT foram os primeiros a se lambuzar na sujeira dos mais espertos que nunca aceitaram distribuir renda para os mais necessitados, e isso é histórico na dialética da humanidade. A elite burguesa sempre foi retrógrada nesse sentido por pensar somente em seus interesses de enriquecimento próprio, inclusive roubando, e não no desenvolvimento da nação como um todo, não sabendo ela que mais igualdade social significa mais crescimento econômico e mais lucros para todos.

A história nos mostra que todas as vezes que a esquerda fez alianças com a burguesia. Como Carlos Prestes com Getúlio Vargas, terminou sendo expurgada lá na frente, e quem mais perdeu foi a classe operária, as camadas mais vulneráveis e toda população. Nesse país, as esperanças sempre vão e voltam.

O partido da estrela passou 20 anos no poder e perdeu várias oportunidades de deixar sua marca revolucionária, como, por exemplo, empreender uma luta pela punição dos torturadores da ditadura civil-militar de 1964. Fez as comissões da verdade, cujas denúncias ficaram no papel. Hoje os generais debocham quando se fala em torturadores.

No entanto, outros governos da América Latina, como Argentina, Chile e Uruguai prenderam os mentores do regime que cometeram atrocidades. As feridas continuam abertas, tanto que os generais, tendo à frente o capitão-presidente, negam a história e ainda elogiam o golpe que, para eles, foi uma revolução.

Por não se redimir de seus pecados, essa esquerda foi destroçada pela negação de seus ideais construídos lá na frente nos tempos da sua fundação. Para arrancar do trono o dragão que criou, agora retorna com a mesma leitura prepotente e os mesmos métodos e táticas autoritárias, fazendo as mesmas alianças com o satanás.

Estamos condenados a assistir o mesmo filme de polarização estúpida de 2018, recheada de mais mentiras, sem a opção de uma terceira via para exterminar os monstros e os fantasmas que saíram de seus túmulos para infernizar a vida dos brasileiros.

Para o bem do Brasil, no quadro atual, a estrela desse partido não deveria ter candidato a presidente da República, principalmente com um vice que comparou o PT, lá no passado, como o diabo saído do inferno. A extrema-direita dos fanáticos terraplanistas só cresce. Como vampiros, se alimentam e se fortalecem exatamente do sangue do ódio e da intolerância. Sem essas substâncias, eles perecem. Vamos ter mais quatro anos de terror, com cenas apocalípticas? Quem viver, verá!

Essa esquerda precisa urgentemente sair de seus gabinetes teóricos e voltar a lidar e a se comunicar diretamente com as bases periféricas e faveladas de milhões de famintos e desempregados. Caso contrário vai dar com os burros n´água ou na lama novamente. Ela não pode entrar nesse laço do radicalismo que só favorece o monstro-dragão.

 

 

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL

Carlos González – jornalista

Na madrugada de 2 de julho de 1994, ao deixar uma discoteca na cidade colombiana de Medellin, o zagueiro Andrés Escobar, 27 anos, recebeu 12 tiros de um torcedor de futebol do seu país, que, segundo as investigações policiais, seria um apostador; no dia 31 de março, a esposa de Cássio, goleiro e ídolo do Corinthians, encontrou em sua conta no Instagram uma nota assinada por um tal $heik Caçador, também viciado em apostas,  com xingamentos e ameaças de morte ao casal.

Os autores dos dois crimes e os motivos por eles apresentados foram colhidos pelas autoridades policiais de Medellin e de São Paulo. Os colombianos Humberto Muñoz Castro, Pedro David e Juan Santiago Gallón Hernao revelaram que perderam muito dinheiro no jogo realizado em 22 de junho de 1994, pela Copa do Mundo dos Estados Unidos, no qual os sul-americanos foram eliminados pelo país anfitrião com um gol contra de Escobar.

Diante da repercussão dada ao episódio de violência contra o Cássio, com o envolvimento do Ministério Público, e da intenção do jogador, bastante assustado, de deixar o Corinthians, o autor das ameaças se apresentou à Polícia.  Igor Maranhão, que já foi preso por porte ilegal de arma e por receptação de furtos, alegou que se encontrava nervoso por ter perdido dinheiro num site de apostas, responsabilizando Cássio pelas derrotas que o time paulista vem sofrendo ultimamente.

Nas narrativas violentas que acompanham o futebol sul-americano há décadas, os homicídios ou tentativas praticadas contra atletas sejam raros, mas não se pode omitir do noticiário policial as verdadeiras batalhas, com mortes, entre torcedores dos clubes cariocas e paulistas, ao ponto do MP determinar torcida única nos estádios.

Os chamados jogos de azar (bingos, cassinos, jogo do bicho e apostas online) estão proibidos no Brasil desde abril de 1946 (decreto-lei 9.215, assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra), sob o argumento de serem degradantes para o ser humano, desempregando 60 mil trabalhadores. A proibição ficou apenas no papel, porque em qualquer esquina se encontra uma banca do jogo do bicho, e as casas lotéricas, licenciadas pela Caixa Econômica, funcionam em todas as cidades do país.

“Cassino” na Fonte Nova

Recordo-me que no antigo e saudoso Estádio Octávio Mangabeira funcionava um “cassino a céu aberto” no último degrau das arquibancadas freqüentadas pela torcida do Vitória. Apostava-se de tudo, como, por exemplo, a ordem de entrada em campo das equipes, o primeiro escanteio, etc. Nunca soube de atitudes violentas entre os apostadores. Em 2018, o presidente Michel Temer decretou a legalização das apostas esportivas, dando oportunidade à abertura de dezenas de empresas, difundindo suas marcas em placas de publicidade nos estádios, na internet e até nos uniformes dos times, inclusive da Seleção Brasileira. O futuro dirá se as ameaças de morte a Cássio ou tentativas de suborno a jogadores não contribuirão para o aumento da violência no futebol brasileiro.

No passado, costumava-se chamar argentinos e uruguaios de “catimbeiros” e violentos, qualificativos transferidos mais tarde para jogadores (Casimiro, uma das estrelas do Real Madrid, é recordista europeu de punições com cartões) e comissões técnicas dos clubes brasileiros. O torcedor paga caro para assistir jogos com mais de 40 faltas, muitas delas brutais, as enervantes “ceras”, as ridículas cenas de empurra-empurra, e a falta de compostura dos atletas e treinadores ao se dirigirem a árbitros e assistentes.

O futebol do Espírito Santo é um dos menos divulgados do país, mas recentemente ocupou o noticiário esportivo e policial da imprensa, com repercussão internacional. No intervalo de uma partida válida pelo campeonato estadual, o técnico da Desportiva Ferroviária, Rafael Soriano, desferiu uma cabeçada, atingindo o nariz da auxiliar de arbitragem Marcielly Netto. O agressor foi expulso de campo, suspenso preventivamente pela Justiça Esportiva e demitido do cargo de treinador da Desportiva. Marcielly prestou queixa numa delegacia policial e se submeteu a exame de corpo de delito, além de receber o apoio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e do clube capixaba.

Pretendo questionar neste parágrafo a ausência de idosos e deficientes físicos nos locais dos estádios onde os ingressos são mais baratos. Esse público que, por lei, goza de prioridades, está sendo obrigado a adquirir um camarote ou uma cadeira especial, por falta de condições de permanecer de pé por mais de 90 minutos, Enquanto nos estádios da Europa 80 mil torcedores se mantêm sentados durante um jogo, no Brasil, 100 ou muito menos insistem em ficar de pé. Trata-se, sem dúvida, de mais um ato de violência, marcante no futebol brasileiro.

“Organizadas”

Você já viu torcida organizada fazer um trabalho social ou protestar nas ruas contra a inflação e os aumentos constantes do gás de cozinha e da gasolina? Claro que não, mas, frequentemente, adeptos do Corinthians, Palmeiras, Flamengo e Vasco são convocados pelas redes sociais para batalhas campais, com probabilidade de haver mortes. Entre os atos praticados por essas verdadeiras gangues, que deveriam merecer uma ação mais enérgica das autoridades, estão os ataques com pedras e paus aos ônibus que conduzem as delegações dos adversários, e a invasão dos centros de treinamentos dos seus clubes para dar uma “prensa nos pipoqueiros”.

As duas maiores torcidas organizadas de Salvador, a Bamor (Bahia) e a Invencíveis (Vitória) se limitavam a leves contendas entre seus membros, embora as duas não possam estar juntas num mesmo estádio. Essa calmaria foi quebrada por um gesto impensado de três ou quatro sócios da Bamor. Revoltados com a desclassificação do Bahia na Copa do Nordeste e no Campeonato Baiano, arremessaram explosivos contra o ônibus que conduzia a delegação tricolor para a Fonte Nova, ferindo o goleiro Danilo Fernandes, que passou por uma bateria de exames oftalmológicos, desfalcando seu time em várias partidas. Sete sócios da Bamor  foram identificados e detidos pela polícia, que até o momento não chegou aos autores da tentativa de assassinato. Um dos carros usados no ataque pertence a Half Silva, presidente da organizada.

 

 

 

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (VIII)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No capítulo “Visão do Inferno”, o autor da obra descreve que as caldeiras dos engenhos daquela época ferviam em meio à escuridão da noite brasileira. “As labaredas, frequentemente comparadas ao fogo do inferno, ou à lava incandescente dos vulcões, eram alimentados por escravos – vultos que se movimentavam ao redor de gigantescos tachos de cobre onde borbulhava o caldo de cana a ser depurado para se transformar em açúcar”.

Em sua visão, Laurentino diz que açúcar é sinônimo de escravidão. Quem faz relatos mais macabros ainda é o padre André João Antonil que, em companhia do padre Antônio Vieira, o defensor da escravidão, chegou à Bahia em 1681. Seu livro “Cultura e Opulência do Brasil por suas Dragas e Minas”, foi publicado em Lisboa, em 1711.

Em um trecho do livro, Antonil escreve que, junto à casa da moenda, que chamam casa do engenho, segue-se a casa das fornalhas, bocas verdadeiramente tragadoras de matos, cárcere de fogo e fumo perpétuo e viva imagem dos vulcões Vesúvio e Etna(…)

Prossegue relatando que nos engenhos reais, costumava haver seis fornalhas, e nelas outros tantos escravos assistentes, que chamam metedores de lenha. “O alimento do fogo é a lenha, e só no Brasil, com a imensidão dos matos que tem, podia fartar como fartou por tantos anos, e fartará nos tempos vindouros, a tantas fornalhas, quantas são as que se contam nos engenhos da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro…”

“Nunca consideramos este tráfico ilícito, Na América, todo escrúpulo é fora de propósito” – Luis Brandão, reitor do colégio jesuíta de Luanda, mas a Igreja produziu um grande santo que foi o padre Pedro Claver, natural de Catalunha, nascido em 26 de junho de 1580. Passou mais de 40 anos de sua vida visitando os navios negreiros que atracavam no porto de Cartagena das Índias, Colômbia. Levava conforto espiritual e material aos cativos.

Os escravos sempre chegavam desidratados e desnutridos, sem condições de se manter em pé. Claver descia aos porões escuros, fétidos, sem ventilação e, durante dias, se dedicava a cuidar dos mais fracos para curar suas feridas, dar comida e agasalhos. Ele fez um voto de ser escravos dos etíopes, aethiopum semper servus. Era nome genérico usado para designar os africanos nessa época. “Pedro Claver é o santo que mais me impressionou depois da própria vida de Cristo” – declarou o papa Leão XIII, ao canonizá-lo em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea. Ele hoje é padroeiro da Colômbia.

“Durante cerca de 400 anos, padres, bispos, cardeais e ordens religiosas, não apenas apoiaram como participaram do tráfico de escravos e lucraram com ele” – destacou Laurentino, acrescentando que poucos ergueram suas vozes contra o cativeiro dos africanos.

O começo do século XIX, a Ordem dos Beneditinos tinha mais de mil cativos trabalhando em suas fazendas no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Maranhão, os frades do Carmo e das Mercês possuíram escravos até março de 1887.

   O bispo do Congo e Angola recebia um ordenado de 600 mil reis por ano da Coroa Portuguesa, que era pago com direitos de exportação de escravos. O colégio jesuíta de Luanda enviava regularmente cargas de africanos para os colégios de Salvador e Olinda que, por sua vez, os revendia para os senhores de engenhos da Bahia e da Zona da Mata de Pernambuco.

O padre Antônio Vieira atribuía o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário porque, segundo ele, tirados da barbárie e do paganismo na África, os cativos teriam a graça de serem salvos pelo catolicismo no Brasil. Não consigo entender essas irmandades de apego a Nossa Senhora do Rosário. Falta de consciência ou conhecimento histórico?

Este é o maior e mais universal milagre de quantos faz cada dia e tem feito por seus devotos a Senhora do Rosário – dizia o padre Vieira em suas homilias para uma irmandade de escravos de um engenho na Bahia, em 1633. No mesmo sermão, afirmava que aos escravos, cabia não apenas aceitar o sofrimento do cativeiro, mas se alegrar com a inestimável oportunidade que tinham de imitar os sofrimentos de Jesus no Calvário. “Em um engenho, sóis imitadores de Cristo Crucificado”.

Até mesmo filósofos e intelectuais respeitados por suas ideias libertárias, caso do britânico John Locke, participaram do tráfico escravo. No caso da Igreja Católica, de acordo com Laurentino, havia uma contradição insolúvel entre suas práticas e os ensinamentos de Jesus Cristo que ela pregava, ou seja, a própria razão da sua existência.

A REFORMA DO “CRISTO”

Assim como o Teatro Carlos Jheová e outros equipamentos que já fazem parte do nosso patrimônio cultural e precisam de atenção especial para que não pereçam, a obra do “Cristo de Mário Cravo”, lá no ponto mais alto da Serra do Periperi, necessita, com urgência, de uma reforma em sua estrutura para que não venha a ser corroído pelo tempo. Quer chova, faça frio, neblina, calor e sol, lá está o monumento ao Cristo nos oferecendo uma visão privilegiada da cidade, principalmente o pôr-do-sol deslumbrante. Por várias vezes já esteve abandonado ao ponto do local não ser recomendado a visitantes por causa do perigo de assaltantes. Passaram-se governantes e vários projetos foram propostos, como até a construção de um bonde ligando o Cristo ao centro da cidade, mas, a maioria ficou no meio do caminho. Era para ser o cartão postal mais visitado de Vitória da Conquista, inclusive com a implantação de um restaurante e outros serviços, como existe no Rio de Janeiro. Fizeram alguns reparos, mas o tempo está a exigir uma reforma mais completa, pois corre o risco de ser completamente deteriorado.

O maior Cristo crucificado do mundo, com 33 metros de altura, foi instalado, em 1980, na data do aniversário de Vitória da Conquista (9 de novembro). Com o abandono, o local chegou a se transformar num covil de ladrões. Até hoje continua sendo pouco visitado pelos moradores e turistas que passam por Conquista. Devido ao seu isolamento, ainda persiste aquele receio de assalto. Por isso, não se trata apenas da reforma do Cristo, que não é do artista Mário Cravo, mas de todo Planalto da Conquista e sua região. É também de todos baianos e brasileiros. Além da estátua, o local carece de urbanização e projetos de infraestrutura ambiental e turística.

 

MINHA FILHA DOWN

Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou continente e ilha;

Navegante errante,

Dessa insensata nau.

Esse meu verso e canto,

É para minha filha Down,

Que perdoe meu egoísmo,

Por tanto lidar com esse ismo,

Que me deixa confuso,

Mas seu olhar de ver,

Acalanta o meu ser.

 

Sou deserto e mar,

Horizonte finito e infinito;

Você é facho de luz,

Ternura que me conduz;

Desculpe esse meu ego conflito;

Sou como vento cortante;

Você rosa perfumante.

 

Minha filha Down!

Sou dúvida do sentido sentir;

Você é certeza do existir,

Sem pecado, imaculada,

Pedra reluzente preciosa,

Alma de encanto formosa,

De pura beleza sideral:

Down estrela da natureza,

Do ventre da mãe Tereza.

A INTERDIÇÃO DO TEATRO CARLOS JHEOVÁ

Desde o início da pandemia, portanto, já são mais de dois anos que a casa de espetáculos de Vitória da Conquista, Teatro Carlos Jheová, localizado na Praça da Bandeira, se encontra interditado, privando os artistas conquistenses de realizarem suas atividades artísticas.

Durante esse período correu um boato na cidade de que aquelas instalações junto com o Mercado de Artesanato, que fica ao lado, seriam demolidas para, em seu lugar ser erguido um shopping comercial.

Atento ao problema, um grupo de jovens dos setores de audiovisual e teatro fizeram um movimento condenando essa possível derrubada do prédio e cobrando do poder público municipal uma urgente reforma das duas unidades.

Provocado pelas manifestações, o Conselho Municipal de Cultura realizou, no final do ano passado, vários debates com os artistas em torno do assunto, chegando a enviar ofícios ao poder executivo solicitando explicações em torno das especulações imobiliárias e providências para recuperar o teatro.

A prefeitura desmentiu qualquer possibilidade de demolição do conjunto artístico da cidade e reiterou que está em andamento o plano de uma reforma do Teatro Carlos Jheová e do Mercado de Artesanato. Segundo informações, a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer está empenhada em resolver o problema e na busca por soluções efetivas.

Na ocasião, o grupo de jovens chegou a se manifestar perante à Câmara de Vereadores visando intermediar ações no sentido de que a reforma fosse agilizada em tempo hábil para a reabertura do teatro. Sensibilizados, alguns parlamentares chegaram a liberar emendas para somar recursos com fins de iniciar a obra. No entanto, com o passar do tempo, a situação só tende a piorar para uma maior degradação.

Com o abrandamento da pandemia e a flexibilização dos encontros e shows, os artistas de um modo geral, inclusive do setor musical onde existe uma maior demanda, estão sem um local apropriado, no caso um teatro específico de arena, para apresentar seus trabalhos ao público.

UMA CATEGORIA ENFRAQUECIDA POR CAUSA DO INDIVIDUALISMO

Sempre foi vista, até certo tempo, como o quarto poder por ser formadora de opinião, tida por muitos como “o cão de guarda” em defesa da liberdade de expressão e a voz por uma sociedade mais justa e igualitária. Era para ser uma das categorias mais fortes e respeitadas do país, com sindicatos bem estruturados e com grande poder de barganha sobre os patrões.

Claro que estou falando da classe jornalística, que depois de passar por tantas adversidades, como ser censurada durante o regime militar de 1964; fazer história; romper com barreiras; e ser guardiã da democracia quando levanta matérias investigativas sobre corrupção e complôs na política, vive hoje uma crise de identidade, a começar pelo enfraquecimento de suas entidades, sem falar dos xingamentos de um presidente da República que odeia as críticas e abomina a liberdade.

Na minha concepção particular, essa falta de fortalecimento da categoria está no individualismo, naquele egoísmo do cada um cuidando de si para sobreviver. Sempre foi uma profissão mal paga em termos de remuneração e, para preencher essa deficiência, o trabalhador ou operário da notícia (jornalista não gosta de ser assim chamado) tem dois ou três empregos por fora, alguns deles até chamados de bicos. A prepotência é outro mal.

CADA UM QUE SE VIRE

Até hoje ainda persiste aquela ideia fechada de que cada um que se vire no mercado. Quando comecei a atuar na atividade, lá pelos anos 70, ouvia muita essa conversa de que o sindicato só faz atrapalhar. Somente poucos falavam o contrário e me apoiaram quando resolvi me filiar. Outro problema que atrapalhava na busca pelos interesses do profissional era a politização em demasia. Muitos preferiam se afastar.

Naqueles anos ainda existia uma militância mais robusta que foi definhando até os dias de hoje, principalmente com o fim da obrigatoriedade do diploma, por volta de 2009/10, mas a decadência já havia batido na porta bem antes disso. Não são propriamente os dirigentes que são culpados.

Estou falando no geral em termos de Brasil, a partir da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), mas quero trazer esse problema para a questão local, no caso o nosso Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), que só consegue arrecadar seis mil reais por mês dos seus minguados associados.

Será que foi a tecnologia da internet e a diversificação do mercado que provocaram esse enfraquecimento? Ou a própria desunião? As redes sociais têm alguma culpa nisso? Atualmente, para ser jornalista é só abrir um site, ou mesmo um perfil na internet. Numa discussão sobre jornalismo, todos se acham entendidos no assunto.

Sem união, uma rede de proteção e uma regulamentação da profissão, os sindicatos tendem a se esvaziar, ficando apenas alguns abnegados na trincheira da resistência. A realidade baiana não é diferente da de outros estados. Aqui mesmo em Vitória da Conquista, faz quantos anos que não se teve uma reunião?

CASA E MUSEU

Não deveria estar falando isso, mas quando aqui cheguei, nos anos 90, a diretoria regional e de outras cidades maiores eram bem mais atuantes. Digo isso porque fui diretor por várias vezes e até vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas. Recordo dos memoráveis encontros onde se discutia e se “brigava” por melhorias. Estávamos sempre vigilantes no combate aos desvios de conduta, os chamados “picaretas”.

Foi nesse idos que juntos conseguimos um terreno, doado pela Prefeitura Municipal, com intuito de construirmos a “Casa dos Jornalistas”, uma espécie de clube onde ali teríamos uma local de reunião e condições de realizarmos atividades culturais, de esporte e lazer. O lote, com planta e tudo, está localizado, isto é, se ainda existe, no Bairro Santa Cecília.

Há muitos anos que não se fala mais nisso, e o Sindicato não se pronuncia a respeito do assunto.  Infelizmente, a classe é desunida e individualista. Outra ideia que nasceu daqueles movimentos de outrora foi a implantação do Museu da Imprensa de Vitória da Conquista, um tipo de resgate da nossa história.

CORRUPÇÃO INVADE FORÇAS ARMADAS

O capitão presidente disse certa vez em seu “cercadinho de seguidores” que a Lava-Jato havia acabado porque em seu governo não existia mais corrupção. Como tantas de suas bravatas, essa soou como mais uma piada, a começar pelas rachadinhas dele e de seus filhos.

No Ministério da Educação apareceram os pastores vendilhões da pátria pedindo dinheiro e quilos de ouro para liberar projetos dos prefeitos. Antes disso, as forças armadas, tidas como de conduta ilibada, abriram suas portas para compras superfaturadas as mais diversas, como bacalhau, filé mignon e outros produtos de luxo. Enquanto isso, milhões passam fome.

Como se não bastasse tudo isso, agora estourou mais um escândalo por deveras inusitado que foi a compra de 35 mil comprimidos de viagra com sobrepreço. Isso deu vazão a uma enxurrada de memes, como de que o medicamento, recomendado para casos de impotência sexual, seria para levantar a moral dos soldados.

Outros casos vêm sendo denunciados, como a concessão de verbas para reforma e construção de igrejas evangélicas na Amazônia, dentre outros absurdos nunca visto em sua história. Essa reputação de seriedade das forças armas (exército, marinha e aeronáutica) com a coisa pública caiu por terra nesse governo que se blindou com os generais.

Antes do capitão, que se cercou dos generais de pijama para atentar contra a democracia e pedir intervenção militar, algumas pesquisas apontavam as forças armadas como uma das instituições do país mais bem conceituada. Depois de tantas atrapalhadas, como a do viagra, temos certeza que essa visão dos brasileiros deixou de existir.

Diante de tanto descalabro, muito generais, talvez a grande maioria, não estão nada satisfeitos e não concordam com o que está acontecendo, pois tudo isso mancha a corporação que já vem de uma passagem tenebrosa durante a ditadura civil-militar de 1964.

Os militares, nem todos, se incorporaram a esse governo para arrancar privilégios e mordomias, se nivelando às mazelas do Congresso Nacional e a políticos contumazes da corrupção. Por vaidade, status e dinheiro aceitaram cargos num governo que tem como sua maior marca a destruição da pátria, a começar pelo meio ambiente e extinção por completo do povo indígena.

O que eles estão fazendo é de estarrecer, e os quarteis deveriam ou devem estar envergonhados com tudo isso, pois eles, os generais, estão no lugar de dar o bom exemplo e cumprir com suas funções determinadas pela Constituição Federal, e não enlamear suas fardas como vem ocorrendo. Um dia, a história vai condenar todos eles por prevaricação.

CURIOSIDADES DO TRÁFEGO NEGREIRO (VII)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No século XVII, o consumo de açúcar estava em franca ascensão na Europa. Na Inglaterra, as importações saltaram de 10 mil para 150 mil toneladas entre 1700 e 1800, ajudadas pela novidade que, em 1662, a princesa portuguesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV, levou para Londres ao se casar com o rei Charles II. Ela introduziu o hábito de se tomar chá açucarado todo final de tarde (o chá das cinco da tarde).

Em 1580, de acordo com o autor do livro “Escravidão”, Laurentino Gomes, Pernambuco tinha 66 engenhos operados por duas mil famílias portuguesas e já liderava a produção de açúcar no Brasil. Os primeiros engenhos eram pequenos, movidos a bois e cavalos ou rodas d´água. No Recôncavo Baiano, a prosperidade do produto fez com que a população de Salvador triplicasse num curto período de 65 anos, passando de 14 mil habitantes em 1585 para cerca de 40 mil em 1750.

A malandragem brasileira já vem desde os tempos coloniais. Nas operações de vendas para a Europa, muitas vezes, açúcar de baixa qualidade era declarado como de primeira e entregue em quantidades inferiores à declarada. Os exportadores colocavam o açúcar de boa qualidade no alto da caixa, enquanto embaixo, em volume maior, o açúcar inferior. Em casos extremos de fraude, botavam pedras no lugar do produto. Os comerciantes portugueses reclamavam da má reputação do açúcar brasileiro, embora de melhor qualidade que o do Caribe.

A maior parte (dois terços) do açúcar era transportada pelos holandeses, que também cuidavam do refino. Outra curiosidade era que quase metade das propriedades pertencia aos cristãos-novos (judeus forçados à conversão), isto entre 1587 e 1592. Por volta de 1590, a Inquisição Católica descobriu uma sinagoga escondida num engenho, em Matoim, Recôncavo Baiano. Diogo Lopes de Ulhoa, comerciante e plantador de cana foi denunciado, mas livrou-se da fogueira graças à riqueza e o poder que acumulou na Bahia.

Além dos cristãos-novos, jesuítas, padres carmelitas e beneditinos eram donos de algumas das maiores fazendas açucareiras do Nordeste, com numeroso plantel de escravos.

O corte da cana era feito em dupla de escravos, com base em cotas diárias prefixadas. No século XVII, a média era de 4.200 canas por escravo do Engenho Sergipe, situado no Recôncavo Baiano. Os mais fracos e idosos só conseguiam preencher a cota ao anoitecer e sob pressão do chicote.

Havia diferentes especialidades desde os canaviais aos engenhos. Os mais valorizados eram os purgadores, mestres de açúcar, supervisores, carpinteiros, ferreiros e ferramenteiros. Os trabalhadores do campo eram tratados com mais desprezo e os que tinham menos privilégios, bem como jornadas de trabalhos mais árduas.

Os grupos mais especializados compunham-se, majoritariamente, de mulatos ou crioulos, que trabalhavam lado a lado com pessoas livres ou alforriados. Existia uma hierarquia social entre os próprios escravos. A moagem e o processamento requeriam habilidades, em geral mulheres que introduziam as hastes das canas nas prensas.

Qualquer descuido resultaria em mutilação de uma mão ou um braço. Os engenhos movidos a água eram mais perigosos que os tracionados a bois. Segundo o padre jesuíta André João Antonil, o lugar de maior perigo era a moenda porque a escrava poderia ser mutilada.

Por esse motivo era comum manter ao lado da prensa um facão afiado, que poderia ser usado para amputar um braço, impedindo que seu corpo inteiro fosse tragado e esmagado pela máquina. Houve o caso de uma rainha do povo Cabinda, norte de Angola, que se tornou escrava e acabou tendo seus dois braços amputados enquanto tentava salvar outra escrava presa pela moenda.





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