:: 8/abr/2022 . 23:07
CURIOSIDADES DO TRÁFEGO NEGREIRO (VII)
O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.
Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:
No século XVII, o consumo de açúcar estava em franca ascensão na Europa. Na Inglaterra, as importações saltaram de 10 mil para 150 mil toneladas entre 1700 e 1800, ajudadas pela novidade que, em 1662, a princesa portuguesa Catarina de Bragança, filha de D. João IV, levou para Londres ao se casar com o rei Charles II. Ela introduziu o hábito de se tomar chá açucarado todo final de tarde (o chá das cinco da tarde).
Em 1580, de acordo com o autor do livro “Escravidão”, Laurentino Gomes, Pernambuco tinha 66 engenhos operados por duas mil famílias portuguesas e já liderava a produção de açúcar no Brasil. Os primeiros engenhos eram pequenos, movidos a bois e cavalos ou rodas d´água. No Recôncavo Baiano, a prosperidade do produto fez com que a população de Salvador triplicasse num curto período de 65 anos, passando de 14 mil habitantes em 1585 para cerca de 40 mil em 1750.
A malandragem brasileira já vem desde os tempos coloniais. Nas operações de vendas para a Europa, muitas vezes, açúcar de baixa qualidade era declarado como de primeira e entregue em quantidades inferiores à declarada. Os exportadores colocavam o açúcar de boa qualidade no alto da caixa, enquanto embaixo, em volume maior, o açúcar inferior. Em casos extremos de fraude, botavam pedras no lugar do produto. Os comerciantes portugueses reclamavam da má reputação do açúcar brasileiro, embora de melhor qualidade que o do Caribe.
A maior parte (dois terços) do açúcar era transportada pelos holandeses, que também cuidavam do refino. Outra curiosidade era que quase metade das propriedades pertencia aos cristãos-novos (judeus forçados à conversão), isto entre 1587 e 1592. Por volta de 1590, a Inquisição Católica descobriu uma sinagoga escondida num engenho, em Matoim, Recôncavo Baiano. Diogo Lopes de Ulhoa, comerciante e plantador de cana foi denunciado, mas livrou-se da fogueira graças à riqueza e o poder que acumulou na Bahia.
Além dos cristãos-novos, jesuítas, padres carmelitas e beneditinos eram donos de algumas das maiores fazendas açucareiras do Nordeste, com numeroso plantel de escravos.
O corte da cana era feito em dupla de escravos, com base em cotas diárias prefixadas. No século XVII, a média era de 4.200 canas por escravo do Engenho Sergipe, situado no Recôncavo Baiano. Os mais fracos e idosos só conseguiam preencher a cota ao anoitecer e sob pressão do chicote.
Havia diferentes especialidades desde os canaviais aos engenhos. Os mais valorizados eram os purgadores, mestres de açúcar, supervisores, carpinteiros, ferreiros e ferramenteiros. Os trabalhadores do campo eram tratados com mais desprezo e os que tinham menos privilégios, bem como jornadas de trabalhos mais árduas.
Os grupos mais especializados compunham-se, majoritariamente, de mulatos ou crioulos, que trabalhavam lado a lado com pessoas livres ou alforriados. Existia uma hierarquia social entre os próprios escravos. A moagem e o processamento requeriam habilidades, em geral mulheres que introduziam as hastes das canas nas prensas.
Qualquer descuido resultaria em mutilação de uma mão ou um braço. Os engenhos movidos a água eram mais perigosos que os tracionados a bois. Segundo o padre jesuíta André João Antonil, o lugar de maior perigo era a moenda porque a escrava poderia ser mutilada.
Por esse motivo era comum manter ao lado da prensa um facão afiado, que poderia ser usado para amputar um braço, impedindo que seu corpo inteiro fosse tragado e esmagado pela máquina. Houve o caso de uma rainha do povo Cabinda, norte de Angola, que se tornou escrava e acabou tendo seus dois braços amputados enquanto tentava salvar outra escrava presa pela moenda.
UMA REFORMA ESCRAVAGISTA
Quando o governo Temer (o mordomo de Drácula), há cinco anos, com o lobby dos empresários e apoio do Congresso Nacional, implantou a maldita Reforma Trabalhista logo disseram que iria aumentar os empregos, e o país tomaria o rumo do desenvolvimento social e econômico. Quando o setor empresarial aplaude, coisa boa não é.
Passado esse tempo, nada disso aconteceu, muito pelo contrário, o que houve foi uma volta à escravidão do trabalhador brasileiro onde não existe mais negociação, e quem manda é o patrão. O operário se cala porque não tem outra alternativa. Na verdade, criaram uma reforma escravagista.
Confesso que eu já sabia disso, porque, na época, o capital, advogados, juristas e até mesmo a Justiça Trabalhista, com algumas exceções, foram unânimes e, somente os sindicatos fizeram algumas manifestações contrárias. Hoje está aí a realidade, nua e crua de uma nova escravidão.
Inventaram o trabalho intermitente, cortaram benefícios da CLT, podaram a ação dos sindicatos nos acordos, expandiram a terceirização para todas as atividades, justamente num país de mais de treze milhões de desempregados e com uma das maiores informalidades do mundo. Deu no que deu!
De lá para cá, a situação só fez piorar, e não me venham com essa de que a culpa foi da pandemia! Sem poder de barganha diante dos empregadores, os operários tiveram que baixar a cabeça para não entrarem na lista dos mais de 50 milhões de famintos e em condições subalimentar.
Hoje, o cidadão aceita qualquer valor irrisório, sem carteira assinada e outros benefícios que teria, para não ficar no olho da rua pedindo esmolas, ou até mesmo furtando em feiras e supermercados. Os sindicatos foram quase todos enfraquecidos, e o postulante ao emprego aceita qualquer coisa, como o subemprego. Isso não é escravidão?
Agora, está do jeito que os capitalistas queriam, só que eles são imediatistas e têm uma visão atrasada. Se existe menos emprego e o cara tem seu salário reduzido, fatalmente cai o poder de consumo e a economia não cresce, conforme está ocorrendo. Nesse ciclo de horror, o industrial corta sua produção, e os setores comercial e de serviço faturam menos.
De acordo com pesquisas dos institutos do IBGE, Fundação Getúlio Vargas, Dieese e outros, nos últimos anos da Reforma Trabalhista para cá, o rendimento do trabalhador caiu quase 9% e aumentou a informalidade. Na quase sua totalidade, os chamados “colaboradores” do capital não tiveram reajustes salarias numa inflação superior a 10%. Isso não é uma calamidade, uma escravidão?
Somando subemprego ou subutilizados (27 milhões) onde as pessoas poderiam trabalhar mais, desempregados (12 milhões), desalentados (4,7 milhões) e outras espécies, temos no pais mais de 50 milhões sem ocupação, uma legião de desesperados. Foi tudo isso que a Reforma Trabalhista gerou da sua barriga fétida neoliberalista burguesa.
Diante de tudo isso, o endividamento das famílias atingiu o índice de mais de 77%. Quem se atreve hoje entrar no gabinete do chefe para pedir um aumento salarial por merecimento? Ele pode correr o risco de ser demitido sumariamente. Já se foi o tempo em que se fazia isso e saia de lá com alguma coisa a mais. O cara tem que comer a gororoba calado! Isso não é escravidão?
Milhões hoje trabalham sem carteira assinada, ou com valores abaixo do mínimo, que não correspondem ao que eles deviam receber no final de cada mês. Labutam dia e noite em péssimas condições, sofrendo assédio moral e sexual. Engolem tudo isso porque precisam da merreca para levar um pouco de pão para suas famílias. Aliás, comem o pão que o diabo amassou!
Os empregados hoje não podem reclamar e nem dar uma queixa no Ministério do Trabalho ou na Justiça Trabalhista, pois temem ser botados para fora, porque existem milhões batendo a porta para aceitar a miséria salarial. As filas por emprego são quilométricas. Isso é, ou não é escravidão trabalhista? Essa Reforma não é boa para ninguém, nem para o ganancioso e selvagem capitalismo mundano e nem para o país. É uma vergonha para a nação.
Trabalho escravo não é somente os registrados em fazendas, empresas de construção civil, carvoarias e outros serviços onde se encontram pessoas vivendo em estado degradante, sem o direito de ir e vir, comendo rações limitadas sem nada receber no final do mês. Isso também que está aí nesse mercado é escravagismo.
EM PLENO VOLUME
FotoATardedivulgaçãoIvandeAquino
Depois de 16 anos, a Barragem de Sobradinho, no norte do estado, próximo a Juazeiro, alcançou seu pleno volume de água (100% da sua capacidade). Nesse período, sofreu também sua pior baixa por causa da seca e da degradação do Rio São Francisco pelo homem que, ao invés de revitalizá-lo, prefere dele tudo extrair sem repor e preservar, principalmente suas margens. No dia 31 de março teve sua vazão defluente reduzida de três mil metros cúbicos por segundo para 1.500. Todo processo é controlado pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf. Com isso, houve uma baixa no nível de água que invadiu vários bairros de cidades ribeirinhas. O reservatório foi construído na década de 1970 com a finalidade de produzir energia elétrica e acumular água para o consumo das populações locais, bem como irrigar plantações de frutas e outras lavouras da região. O aproveitamento dessa água beneficia toda sociedade, principalmente os pequenos produtores. Mesmo assim, o Comitê da Bacia do Lago de Sobradinho, que abrange 11 municípios, vem cobrando do governo federal que seja feito um estudo geológico do fundo da barragem, para calcular o volume de sedimentos decantados para o leito desde a edificação do lago, que não tem mais 34 bilhões de metros cúbicos devido ao assoreamento. Essa situação ocorre pela falta de mata ciliar em longos trechos do reservatório e em toda extensão do “Velho Chico”. Com certeza, esse governo que destrói o meio ambiente não vai fazer estudo nenhum.
CABARÉ PÉ DE SERRA
Mais um poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
A terra pegando fogo em guerra,
E eu aqui nesse cabaré
Do Nordeste pé de serra
Dos poros transpiro sofrência
Nas luzes ultravioletas
Bani da alma toda crença
Sem mais fé e consciência
Sangrando pela Julieta
Que na cama me traiu
Com um cara de nome Capeta
Sem você acabou melodia
Tô pior que cachorro de rua
Vira-lata todo pulguento
Ninguém cura meu sofrimento
Nem sei mais o que é noite e dia
Nem vejo o sol, nem vejo a lua
Nesse cabaré pé de serra
Entre mulheres quebrantes
Só vejo o rosto de Julieta
Com suas coxas rebolantes
Nesse cabaré pé de serra
Como cartucho na linha de frente
Nem sei mais o que é ser gente
Na embriaguez dessa agonia
Ninguém escuta meu pranto
Sou como papel em branco
Na lagoa uma simples gia
Um inseto lá no canto
Jogado numa sarjeta
Por aquela ingrata Julieta
Que fugiu com o Capeta.
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