:: jan/2022
UMA PETROBRÁS ESQUARTEJADA
Só os mais velhos (muitos já se foram) se lembram da campanha, há cerca de 80 anos, do petróleo é nosso. Nos últimos anos, a Petrobrás, símbolo desse pertencimento nacional, foi sendo esquartejada, primeiro pela corrupção a partir do governo petista, e logo depois pela venda de seus ativos. Triste país onde cada títere maluco e psicopata se incube de depená-lo!
Nos áureos tempos do passado, quem aí imaginaria que a Refinaria Landulpho Alves (RLAM) de Mataripe, na Bahia, seria vendida a preço de banana para um grupo árabe? Primeiro foram os poços do recôncavo, as distribuidoras e outras empresas. Nosso país está virando pó! Cada governante mete o seu machado na lasca, e a nação vai se transformando em gravetos.
Como na reforma trabalhista, ou melhor escravista, do Temer (o mordomo de Drácula) em que os empresários do capitalismo predador disseram que serviria para aumentar o número de empregos, o mesmo está acontecendo com o esquartejamento da Petrobrás. São todos mentirosos que nem pensem em seus filhos que vão ficar com essa maldita herança.
A saída da Petrobrás da Bahia gerou uma das piores crises de sua história na geração de emprego e renda, conforme assinalam os economistas Claudiane de Jesus e Pedro Gilberto Filho, em coluna assinada no jornal “A Tarde”.
De acordo com Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do IBGE, comparando a média anual dos trimestres de 2021, enquanto o volume de trabalhadores do setor no Brasil reduziu 2,4%, passando de pouco mais de 159 mil, em 2020, para mais de 155 mil no ano passado, no estado a queda foi em torno de 30% (25.788 em 2020, para 18.328 em 2021).
De um modo geral, segundo a pesquisa, também houve drástica redução da renda média dos trabalhadores na Bahia, especialmente no ramo de óleo e gás, na faixa de 23%. Disseram que que a saída da Petrobrás de alguns segmentos iria surtir efeitos positivos na criação de novos postos de trabalho.
Está comprovado que a desintegração da empresa estatal não foi nada benéfica para a economia brasileira e baiana, muito menos para o consumidor baiano que agora está pagando um combustível bem mais caro com a venda da refinaria em relação a outros estados da federação. Agora são os sultões e xeiques árabes que ditam os preços. Cadê os sindicatos? Cadê a “oposição de merda” no Congresso? São todos cafajestes e farinha do mesmo saco!
Não me venham com essa colocar a culpa na pandemia. O esquartejamento da Petrobrás já vem ocorrendo há quase 20 anos, desde a roubalheira e os desinvestimentos da estatal a partir de 2015. Nesse ano, quando se deu a venda dos campos terrestres do recôncavo baiano, no terceiro trimestre o setor de óleo e gás empregava quase 38 mil pessoas. Hoje são 8.760 postos na região, conforme dados do terceiro trimestre da PNAD 2021.
Estamos mesmo lascados, sem ninguém para apelar! São verdadeiros bandidos salteadores dos nossos bens públicos que deveriam ser condenados por uma corte internacional, já que não existe justiça no Brasil. O que fizeram com o nosso dinheiro? Sempre gastam em orgias e em mesas de carteados em seus prostíbulos e cassinos clandestinos. Os ladrões estão todos soltos, e a Lava-Jato foi dissolvida pelo ácido assassino.
MATÉRIAS QUE EXCLUEM OS POBRES
Com o aprofundamento das desigualdades sociais no Brasil e a consequente redução do nível de instrução das pessoas, a linguagem da mídia com determinadas matérias, sobretudo a televisiva, exclui cada vez as camadas mais pobres de baixo poder aquisitivo.
Programas e reportagens noticiosas hoje oferecem “receitas” variadas para o bem-estar das pessoas, como prevenir das doenças através de uma alimentação saudável; controlar suas finanças com base num cálculo econômico de suas dívidas mês a mês; não se automedicar quando sentir alguns problemas de saúde; e até usar constantemente o protetor solar contra o câncer de pele.
Existe uma lista enorme de matérias na mídia onde recomendações dessa natureza deixam naturalmente os mais pobres de fora. É até uma afronta! É uma linguagem com um conjunto de normas que só podem ser seguidas a partir da classe média mais alta. A impressão é que estamos vivendo em uma nação desenvolvida.
Quando se diz, não se automedique, procure seu médico, você está falando para quem? Para um público mais restrito, porque somente poucos têm um médico neste país. Se o pobre sofre um mal-estar, ele vai logo para uma farmácia porque o paciente sabe que é difícil marcar uma consulta no SUS, e o atendimento leva meses. Cá com meus botões, fica complicado!
O repórter vai para um supermercado ou uma feira e leva um nutricionista em meio àquelas imagens coloridas de produtos, frutas, hortaliças e carnes, de preferência brancas, para o profissional dar as dicas de como comer bem para ter uma vida mais longa. Como é a reação daqueles que dependem de uma cesta básica para sobreviver? Imagine em sua mente.
Na atual realidade do nosso Brasil, é uma coisa surreal para milhões de pobres e desempregados que passam fome. Como o indivíduo vai comprar frutas, tomate e hortaliças se ele nem tem dinheiro para o feijão e o arroz? Será que o nutricionista tem alguma receita para o pobre miserável ter uma alimentação saudável?
O caso do protetor solar é outro exemplo clássico de reportagem jornalística que só atinge a poucos. Como recomendar a um pobre que ele sempre use uma substância química protetora dos raios solares? É até uma insensatez mental. Como já existe o auxílio absorvente para as mulheres, poderia se criar também o do protetor solar.
Sugeria às redações da imprensa em geral fazer uma pauta sobre essas questões e entrevistar especialistas em cada assunto específico, para ver se existe alguma solução para o problema, ou perguntar dentro da própria entrevista, como fica o pobre.
Controle de finanças só para quem tem hoje um salário razoável e, mesmo assim, o cara se endivida por causa do seu padrão de vida. Existe uma lista enorme de outras matérias nas áreas de saúde, alimentação e lazer onde os pobres são fatalmente excluídos. Por outro lado, a elite burguesa não aceita que os mais necessitados tenham acesso a esses bens. É mais uma vergonha em nosso país capitalista selvagem.
OS CURRAIS DOS BANQUEIROS
Minha tensão aumenta quando tenho que ir a uma agência bancária para resolver um problema, que seja um simples saque de um dinheirinho. Às vezes, fico adiando o compromisso, mas não tem como se escapar da tortura. Quando chegou no centro, olho para todos os lados da praça e só vejo filas amontoadas no Bradesco, na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil. Aquilo vai me deixando mais desesperado e começo a suar.
Acho que estou com transtorno de pânico e trauma de banco, se esse é o termo correto na psicologia. A primeira batalha é ultrapassar aquela porta giratória que muitas vezes emperra. Depois de vencer a fila, introduzo, meio tremulo, o cartão no caixa eletrônico e recebo uma resposta na tela de que não foi possível fazer a leitura. Passo para outro e acontece o mesmo. Àquela altura, não é mais possível controlar a irritação. Continuo tentando até conseguir. Ufa, que alívio!
Olho para os lados e só vejo filas de pessoas de todas as idades, mais de idosos, naquele curral apertado dos banqueiros. Dia desse fui resolver uns “pipinos” e contei quatro filas, uma para o caixa eletrônico, outra para pagamentos em caixas presenciais, outra para prova de vida (o vivo tem que provar que está vivo) e uma última para pedidos de empréstimos, portabilidades e refinanciamento de dívidas. Ah, ia me esquecendo! Tem ainda a fila da senha.
Quando tenho que ir para essa “guerra de nervos” sempre levo comigo um livro para passar o tempo, mas fixo a atenção na leitura e os ouvidos atentos para as conversas de sofrimentos, queixas, malandragens de gente que quer levar vantagem em tudo (furar a fila) e brigas contra os vigias que ficam ali naqueles currais procurando orientar os clientes, ou pacientes, como queiram.
Ouço coisas estranhas de comadres com comadres, compadres com compadres ou entre um compadre e uma comadre. O papo gira em torno de doenças, de vizinhos chatos, da situação de pobreza no país, fake news sobre determinados fatos, informações deturpadas e outras coisas curiosas que rendem uma boa crônica.
Tem aquele que se faz de “inocente” e vai entrando no meio da fila. Não meu senhor e minha senhora, a fila é lá atrás. Ah sim, desculpe. Uma vez dessa ouvi um diálogo engraçado de um senhor a respeito de uma mulher, dessa “sabida astuciosa” que queria furar a fila.
– Veja só, um dia estou aqui, nesse mesmo lugar, e aí me aparece uma senhora, já meio idosa, não sei de onde, dizendo que estava sentada naquelas poltronas e entrou em minha frente – contava o senhor para uma comadre. Discuti com ela e disse que estava mentindo. A dona não gostou, e ainda me desatacou me chamando de ignorante, que tive uma professora égua. Respondi que realmente era uma égua igual a ela.
Quando chegou minha vez, até que fiquei um pouco mais calmo, mas só estava começando minha cruzada rumo a Jerusalém para combater os turcos, ou os mouros “infiéis”. O atendente mandou que eu procurasse um determinado funcionário do setor específico para meu caso, que me devolveu de volta como se fosse um pacote imprestável para o mesmo lugar.
Afinal de contas quem vai me atender? Pergunto, já meio alterado. Aguenta coração! Meu pânico e meu trauma se elevam! O cara liga novamente para o colega, e só então, fui recebido. Era quase meio dia, e a barriga já dava sinais de ronco. Era fome mesmo! Só chegando mais gente e os currais mais cheios que antes.
Nesse meio tempo, um moço meio forte, sujeito mulato, tipo com jeito acostumado de passar rasteira nos outros, que queria ser atendido na frente de todos, discutia com o guarda, dizendo que estava passando mal. Meu senhor, se está passando mal, vou chamar o Samu – respondeu o vigia.
Não sei no que deu a conversa. Finalmente, quando já ia embora, naquele sufoco danado de espera, um senhor, visivelmente nervoso, batia na porta de vidro, gritando que queria falar com o gerente. Também não sei no que deu a discussão, ou confusão.
São coisas dos currais feitos pelos banqueiros financistas gananciosos que fecharam agências, demitiram bancários, reduziram o horário de atendimento e espremeram as pessoas numa só unidade. Quando alguém se revolta e parte para a violência – toda paciência e submissão têm o seu limite – chamam a polícia e leva o indivíduo no camburão. É a cara do Brasil, de um povo marcado como gado em curral.
A BURRICE E O FANATISMO BRASILEIRO NUMA NAU DE INSENSATOS ASSASSINOS
Pandemia, surto de gripe influenza, ômicrom, incêndios nas florestas, enchentes torrenciais, desastres da natureza com tragédias humanas, seca, inflação, desemprego e fome estão assolando o nosso país, como pragas do Egito, exterminando nosso povo. Mas, o que tem a ver tudo isso com burrice e fanatismo? Se formos analisar com mais profundidade filosófica, tem muitas ligações, principalmente em se tratando da Covid-19, da intolerância, do preconceito e dos desequilíbrios climáticos.
No último dia 11 (terça-feira), a Bahia registrou mais de cinco mil casos ativos de Covid, quase o mesmo patamar de agosto de 2021, enquanto um milhão e 500 mil baianos ainda não foram tomar a segunda dose da vacina contra o coronavírus. A imprensa noticia que 80% dos casos graves do coronavírus são de não vacinados que sobrecarregam os hospitais, inclusive nas UTIs.
Mesmo assim, diante desse caos, multidões se aglomeram nas praias e festas de paredões, sem máscaras, e o uso de álcool é só de cachaça. Tudo isso tem a ver com burrice e fanatismo, que não podem ser considerados como doenças pelos psicólogos, mas matam. Agora, a cegueira dos não vacinados individualistas da liberdade procuram as unidades de saúde e se submetem aos medicamentos fortes, os quais eles mesmo rejeitaram e negaram, alimentando e disseminando mentiras contra a vacina.
Por que, mesmo depois do avanço da imunização comprovar queda na expansão do número de óbitos e internações graves, milhões de pessoas negacionistas insistem em não se vacinar e se posicionar contra a ciência? Só pode ser burrice e fanatismo que, como tufões de grandes proporções, estão varrendo o Brasil e deixando rastros de destruições de terra arrasada.
Pronuncia-se muito o termo solidariedade quando se trata de doações de alimentos e produtos para as vítimas das chuvas na Bahia e em Minas Gerais, mas onde está essa solidariedade coletiva quando milhões se recusam tomar a vacina? De um lado as doações de cestas básicas e roupas, do outro o desdém em relação aos mortos pela Covid, seguindo o sentimento frio psicopata do capitão-presidente. Que solidariedade é essa?
Milhões se aliam às mentiras do banditismo digital. No lugar dos fatos confirmados cientificamente, colocam os falsos e menosprezam a chegada da variante ômicron com novas explosões do vírus em todo mundo. Como se saídos das trevas de uma toca ou de um armário, os radicais ignorantes, burros e fanáticos se multiplicam como pulgas ou piolhos nas redes socais, em mesas de bar e botequins, para propagar fake news e baboseiras de imbecis. A internet virou uma nau de insensatos.
Esse turbilhão de ignorância/idiotia tem uma obsessão por disseminar conceitos sem nenhum fundamento, valendo-se de distorcer ideias; inventar; afirmar que pesquisou tal coisa em algum lugar; e que viu um estudioso falar. Para o fanático doente crônico, vale tudo, e não adianta tentar um diálogo com ele. É até perigoso, porque o burro e o fanático são violentos e podem lhe assassinar.
O que leva o fanático a defender o ilógico, como declarar que a terra é plana, e que a vacina pode transformar a pessoa num jacaré ou lhe deixar enfermo numa cama? É como se fosse uma droga que emite um prazer na mente e vicia. O indivíduo sente a necessidade de estar sempre produzindo delírios mentais de forma descontrolada. O fanático possui dentro de si um comportamento disfuncional obsessivo e não aceita tratamento. O fanático se fecha dentro de suas convicções, para não lidar com seu medo e sua frustração interior.
Quanto as outras questões de enchentes, secas devastadoras, incêndios, fome, desastres da natureza e outras mazelas que invadiram nosso país nos últimos anos, também tem a ver com burrice e fanatismo. Ambos desagregam e provocam males adversos na coletividade. Não respeitar o meio ambiente é uma burrice do ser humano irracional que, com seu fanatismo, nega o aquecimento global. O consumismo não deixa de ser uma burrice fanática que não prejudica somente o dono.
UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (II)
“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário de Andrade a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais.
A Semana pregava a tomada de consciência da realidade brasileira – dizia José Nicola, em sua obra “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”. Na conjuntura geral, de acordo com Mário de Andrade, São Paulo era a cidade mais moderna do Brasil e estava em contato espiritual e técnico com as mudanças no mundo. Graça Aranha foi um dos idealizadores do evento.
O cenário nacional era comandado pelas oligarquias através do poder na “política do café com leite” somado ao surto de uma burguesia industrial com a I Guerra Mundial. Nesse bojo, veio a urbanização da cidade nos primeiros 20 anos do século XX.
Eram os barões do café verso o operariado. Era um Brasil dividido entre o rural e o urbano de origem europeia, com vocação na luta de classe, tanto que entre 1901 a 1911, os anarquistas publicaram o jornal “La Battaglia”. Circulou ainda “A Terra Livre” (1905-1910 e ocorreram greves em 1905 e 1917. Somente em 1918 os jornais passaram a noticiar a Revolução Russa.
Antes da Semana de 22, num estilo ainda decadente, Manuel Bandeira escreveu “As Cinzas das Horas”. Mais ousado, veio em 1919, “Carnaval” e o poema “Os Sapos”, de sátira, declamado durante o evento de São Paulo e bem recebido pelo público.
Sobre Ribeira Couto em “Jardim de Confidências”, em 1921, o crítico Alfredo Bosi destaca que seus versos se inseriam no penumbrismo. Já Ronald de Carvalho, em “Luz Gloriosa” (1913) e “Poemas e Sonetos” (1919) e Guilherme de Almeida, com “Nós” (1917) “A Dança das Horas” (1919), “Livro de Horas de Soror Dolorosa” (1920) ficaram entre o parnasiano e o decadentismo, com substância lírica.
Com influência mais moderna e face política, Cassiano Ricardo escreveu “Dentro da Noite” (1919) e “Evangelho de Pã” (1917). Havia uma dispersão, mas o grupo ficou mais coeso a partir de 1920 e 21, aderindo mais à arte nova. Na turma dos futuristas, Bosi lista Di Cavalcanti, Vicente do Rego, o próprio Monteiro Lobato e Anita Malfatti que sofreram influência do italiano Marinetti (fascista).
Os artigos de Menotti del Picchia, na coluna “Hélios”, no “Correio Paulistano”, que deu muito espaço para a Semana, faziam promoção do grupo vanguardista. Do outro lado, Oswald de Andrade e Cândido Moto, no “Jornal do Comércio” davam ao movimento uma direção de liberdade formal com ideias nacionalistas, mas sem o ufanismo patriótico. Oswaldo chegou a denominar o movimento de aglomeração revolucionária futurista.
No entanto, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda em seus comentários, negam esse futurismo paulista na esteira de Marinetti, mas admitem uma revisão de valores, o que denota que não havia hegemonia dentro do grupo que nascia.
Antes da Semana, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, seu primeiro livro de poesias onde mostra uma São Paulo misturada, miscigenada, estrangeirada, com a existência de diversas classes e ideias diferentes. Em seus artigos “Mestres do Passado” (seis no total), ele entoa um canto funeral para os parnasianos, numa forma de sepultar o passado de Francisca Júlia, Raimundo Correia, Olavo Bilac, dentre outros.
A esta altura, tudo se encaminhava para a realização da Semana da Arte Moderna, com mais união entre os intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro. Tudo indicava que o modernismo poderia ser lançado. Sobre “Paulicéia Desvairada”, Oswald considerou um marco, e chama Mário de meu poeta futurista em artigo no “Jornal do Comércio”, na edição de 27 de maio de 1921.
Em “Língua, Literatura e Redação” e “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”, o autor José de Nicola faz uma análise da época dos primeiros anos do século XX, destacando que existia uma divisão entre o meio rural e o urbano. O meio urbano era caracterizado pela luta de classe do operariado, com influência anarquista dos imigrantes vindos da Europa, principalmente da Itália.
Nesse aspecto, o crítico literário cita o jornal “Terra Livre” (1905 – 1911) e a greve de 1917 sob forte influência da Revolução Russa. Tudo isso foi se somando para as mudanças de ideário no meio intelectual. Em 1922 aconteceu também a fundação do Partido Comunista Brasileiro, provocando um declínio do anarquismo e abrindo caminho para a organização da Semana.
Os elementos sociais e políticos formaram um palco ideal em direção a um movimento que mostrasse uma arte inovadora de maneira a romper com as velhas estruturas. Era uma São Paulo do café e da indústria conectada com o mundo. A Semana, então, apresentou, segundo Nicola, o lado político contra a aristocracia e a burguesia.
Di Cavalcante, segundo a pesquisa de Nicola, foi um dos primeiros a sugerir a organização da mostra. Anos depois, em seu livro de memórias, afirmou ter sugerido a Semana, que seria de escândalos literários e artísticos, “de meter os estribos na barriga da burguesinha paulistana”.
O NINHO
Estava nesta semana podando minha árvore de flores (ela já estava quase tombando ao chão do quintal) onde pousa o beija-flor e cantam os passarinhos. A poda tinha que ser feita, mas fazia aquilo com pesar porque por uns tempos lá se vão meus pássaros que todos dias aparecem e me saúdam com bons presságios. Quando partia para o outro lado, deparei com um ninho e, por pouco, minha faca não o atingiu. Tive que interromper o restante do corte para deixar que a natureza e a vida sigam seu curso. Não vai demorar muito para ter outras aves para me alegrar nesses momentos tão difíceis. A minha árvore logo vai voltar a florir e, com certeza, abrigar outros ninhos da vida.
SEM RETORNO
Poeminha mais recente de autoria de Jeremias Macário (rascunho)
Você não mais pensa no fim,
No ser vivo existir,
Sem mais retorno,
Sua batata queima no forno.
Esse caminho não tem retorno,
O amor perdeu sua cor,
Para onde você for,
Sua cabeça está no torno.
Dos penhascos caem as rochas,
Derretem gelos dos icebergs,
O nível do mar afoga focas,
E os homens abrigam nos albergues.
Rugem fuzis e metralhadoras,
Ogivas cortam espaço,
Motosserras, pastos e lavouras,
E da terra arranca o aço.
Os animais passam vírus,
Visões em confusões,
E nos campos de secos varais,
Não nascem mais lírios.
Você está sem retorno,
Na idade do fóssil carvão,
Do inverno que virou verão,
Sem primavera de flores,
Num inferno de dores,
Sem seu outono morno.
COPINHA, UMA FEIRA DE NEGÓCIOS
Carlos González – jornalista
Devido à grandiosidade que adquiriu nesses 53 anos, a Copinha se transformou numa feira internacional de negócios, onde o único produto é o Homem, em seus primeiros 20 anos de vida. Esse mercado humano, que funciona sem a fiscalização de nossas autoridades, é oficialmente batizado de Copa São Paulo de Futebol Júnior, popularmente conhecida como Copinha.
Analisada pelo lado esportivo o torneio tem enormes virtudes, sendo a principal delas de trazer aos dias hoje o futuro do futebol brasileiro. Os méritos são da Prefeitura de S. Paulo, com o apoio da Federação Paulista de Futebol (FPF). Em sua 51ª edição, a tradicional competição nacional – deixou de ser disputada em 1987, por desinteresse do então prefeito Jânio Quadros, e, no ano passado, por causa da pandemia – reúne cerca de 3.000 atletas de 128 clubes, representantes dos 27 estados e de Brasília, com jogos em 30 cidades paulistas e final programada para próximo dia 25.
Empresários do mundo do futebol; “olheiros” e “espiões” enviados pelos grandes clubes da Europa, Oriente Médio, China e Japão; organizações comerciais, de entretenimento, educacionais e até a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), estão percorrendo nesses dias o interior paulista, com a finalidade de vender sua mercadoria, ou adquirir jovens talentos, a baixo custo, devido a desvalorização do real.
Aqui na Bahia, em Irecê, foi criado em outubro de 2018 o Canaã F.C., resultado da parceria entre a Igreja Universal e um projeto social da região. Sob o lema “Atletas com Cristo”, obedientes aos pastores e proibidos de dar palavrões, seus jogadores, os primeiros no grupo 31, acreditam que dessa vez “um de nós vai deixar o sertão baiano”.
Além do Canaã, figuram na relação dos participantes da Copinha times desconhecidos do torcedor, como o Perilma (mantido por uma fábrica de bolachas e rapadura de Campina Grande, na Paraíba); Ibrachina (os donos são japoneses). Todos eles apostam chegar ao mesmo nível do Red Bull Bragantino, representante do Brasil na próxima Taça Libertadores, graças ao apoio de uma forte multinacional.
A sanção em 2021 da lei que regulamenta o clube-empresa tem atraído o interesse de empresários nacionais e internacionais em clubes brasileiros, que estão passado por um grande aperto financeiro. Além do Cruzeiro, Cuiabá e Bragantino, estão em processo de negociações, Botafogo (RJ), Atlético (PR), Coritiba, América (MG) e Chapecoense.
Esperança e frustração
O River recebeu na véspera a notícia de que o governo do Piauí desistira de pagar a viagem ao interior de São Paulo. Os dirigentes do clube saíram atrás dos R$ 17 mil pedidos por uma empresa de ônibus. Resolvido o problema, a delegação deixou Teresina na noite de 29 dezembro, chegando a São José dos Campos na madrugada de 2 de janeiro, poucas horas antes da estreia, onde seus atletas foram alvos de cãibras, por força do longo tempo sem atividade física.
Neste momento, o Ríver, desclassificado na fase de grupos, está voltando ao Piauí, numa viagem muito mais espinhosa do que a ida, devido a substituição, na bagagem, da esperança na vitória pela frustração da derrota. O mesmo sentimento deve acompanhar atletas (de Abraão Lincoln a John Kennedy) das 64 equipes que não passaram da 1ª fase. Uma exceção talvez seja o goleiro Tomate, do Assuá (RN), convidado a fazer testes no Atlético Mineiro, após chorar desapontado diante das câmeras de TV
A opção
O desemprego, a fome, a falta de moral entre os homens públicos, o fanatismo religioso e a violência que crescem nas favelas e na periferia das cidades, são fatores que levam o jovem, que está chegando à idade adulta, a mirar o horizonte, pensando no amanhã. O quê o Brasil coloca a sua escolha: correr atrás de uma bola, fazer carreira no tráfico de drogas ou colocar uma Bíblia debaixo do braço e virar pastor.
A fortuna e a vida de prazeres exibidas por poucos brasileiros antes de chegar aos 32 anos servem de exemplo para milhões de jovens. A Copinha ou a “Copa dos Empresários”, como também é chamada, funciona como um vestibular.
Nordestinos
Em 1972, o Bahia se tornava um dos primeiros clubes do País convidado para disputar a Copinha, criada em 1969, com a presença única de representantes paulistas. A melhor campanha do clube baiano ocorreu em 2011, com a conquista do vice-campeonato. O torneio tem como maior vencedor o Corinthians, com 10 títulos, seguido do Fluminense e Internacional, com cinco. A participação de clubes estrangeiros se deu entre 1993 e 1997.
Na edição deste ano foram inscritos 27 clubes do Nordeste, com passagem de 12 para a segunda etapa, incluindo Bahia, Canaã e Jacuipense; Vitória e Camaçariense já estão na estrada. Chamam atenção por sua originalidade, além do Canaã, o Chapadinha (MA), Falcon (SE) e Perilima (PB)
“EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É REI”
No noticiário de esportes da TV Bahia e outras emissoras, a impressão que se tem é que no estado só existem dois times, o próprio Bahia e o Vitória, um na segunda divisão e o outro na terceira. O campeonato estadual, que eles chamam de “Baianão” (até hilário), está próximo, mas quando se fala de futebol, a “resenha” só faz comentários dos dois, que só dão vexames nos campeonatos brasileiros. É uma vergonha só!
Não é somente na televisão, a mídia em geral só dá cobertura jornalística para o Bahia e o Vitória. Esquecem do Vitória da Conquista, Juazeirense, Atlético de Alagoinhas, Jacuipense, Bahia de Feira, Fluminense de Feira e outros. Quase sempre a final é disputada entre os dois, pois como diz o ditado popular, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.
Saudades do futebol baiano daqueles tempos do Botafogo, do Ipiranga, Galícia, Leônico e outros que tinham bons times valentes, grandes torcidas e jogadores famosos que sabiam como levar a redonda até o gol, com dribles desconcertantes. Os cartolas do Bahia e do Vitória cuidaram de acabar com o nosso futebol, em muitos anos o melhor do Nordeste. Hoje é um dos piores e feios de se ver nos gramados. No momento, é o gavião comendo o carcará em tempo de seca.
A mídia esportiva também é culpada por tudo isso, porque se “vendeu” ao dar todo tempo e espaço para Bahia e Vitória, com argumento de que só eles davam e ainda dão audiências por terem maiores torcidas. O tempo se encarregou de provar de que não é bem assim, e o jornalismo tem que se esforçar para ser imparcial e ajudar também os pequenos.
Vem aí o “baianinho”, que é uma vergonha em termos de estrutura física dos clubes e profissionalismo, principalmente com relação às equipes do interior, desprovidas de patrocinadores, sem estímulo, sem torcida e jogadores de quinta categoria, com raras exceções. É tempo de pegar estradas e viajar de ônibus com sanduiches na mochila para chegar cansado no campo na hora do jogo.
Aqui, Bahia e Vitória são considerados grandes, mas quando começam os campeonatos brasileiros (agora séries B e C) viram anões, e é aquele sofrimento do torcedor apelando para secador, promessas ao Senhor do Bonfim, visitas a pai de santo e de olho na tabela para contar os pontos. Os repórteres, editores e apresentadores de programas passam mais o tempo fazendo isso, e xingando os árbitros, ao invés de mostrar o outro lado da questão. O maior craque do Bahia e do Vitória tem o nome de “Secador”, que joga nos dois times, ao mesmo tempo.
Acompanhava muito o noticiário do futebol baiano e frequentava o estádio da Fonte Nova até na década de 70 quando torcia pelo meu Galícia, que foi estraçalhado pelos cartolas donos do futebol da Bahia e abandonado pela colônia espanhola (alô meu amigo Gonzalez). Nas rádios, tvs e jornais, mais de 90% das notícias eram e ainda são reservadas para Bahia e Vitória. O decadente campeonato baiano hoje deveria ser só entre os dois, o B contra o C.
NA LINHA DE FRENTE DA EDUCAÇÃO
Logo no início da pandemia, um vírus desconhecido, a mídia deu o maior destaque para os trabalhadores da saúde que estiveram na linha de frente para salvar vidas. Foram chamados de heróis, e imagens apareciam na televisão de médicos e enfermeiros apressados nos corredores dos hospitais tratando dos doentes.
Na área da educação, poucas matérias foram elaboradas sobre o grande esforço que tiveram, e ainda têm, os professores para lidar com a tecnologia da internet, para oferecer aulas remotas a estudantes isolados em suas casas sem aprender as lições de matemática, português, geografia, história, ciências, biologia e outras disciplinas.
Conheço casos de professores que tiveram que se desdobrar para cumprir suas tarefas de mestres e até colocaram dinheiro do bolso para comprar equipamentos e aprender como chegar ao outro lado da linha do aluno (muitos ficaram para trás por não dispor de internet em casa).
As prefeituras não deram o devido suporte para esses profissionais que estiveram na linha de frente da educação e foram heróis anônimos incansáveis que tudo fizeram parta passar conhecimento e saber. Sabemos que as perdas foram grandes, mas o trabalho deles foi hercúleo para minimizar os prejuízos, levando ainda em consideração que o nível da educação no país é baixo.
Agora, com o retorno presencial (não totalmente), os professores vão ter que se virar mais ainda para reforçar o aprendizado dos alunos que estão atrasados nas matérias, sem contar os milhares que abandonaram as escolas e precisam de estímulo do corpo docente para retornar aos estudos.
Além de não ser bem remunerada pelo poder público como deveria, a categoria não dispõe dos recursos materiais necessários para passar um ensino de qualidade, e é pouco reconhecida pela sociedade como profissão essencial para o desenvolvimento de um país.
A educação também salva vidas (não somente a saúde), mas num país de incultos como o Brasil, as pessoas dificilmente param para refletir nesse aspecto fundamental que é o ensino. Nenhum governo colocou em sua política a educação como prioridade porque aprenderam a aproveitar da ignorância, do analfabetismo e da falta do saber para se perpetuarem no poder através do voto.
Com todas as dificuldades pela frente, como nessa pandemia que obrigou o isolamento e fechou as escolas, os professores de um modo geral foram os heróis da linha de frente, se bem que não gosto de citar essa palavra herói porque foi muito banalizada nos últimos tempos. Eles fizeram aquilo que não estava ao seu alcance, e tiveram que se atualizar e a se adequar, sem o apoio ideal dos governantes.















