Com o aprofundamento das desigualdades sociais no Brasil e a consequente redução do nível de instrução das pessoas, a linguagem da mídia com determinadas matérias, sobretudo a televisiva, exclui cada vez as camadas mais pobres de baixo poder aquisitivo.

Programas e reportagens noticiosas hoje oferecem “receitas” variadas para o bem-estar das pessoas, como prevenir das doenças através de uma alimentação saudável; controlar suas finanças com base num cálculo econômico de suas dívidas mês a mês; não se automedicar quando sentir alguns problemas de saúde; e até usar constantemente o protetor solar contra o câncer de pele.

Existe uma lista enorme de matérias na mídia onde recomendações dessa natureza deixam naturalmente os mais pobres de fora. É até uma afronta! É uma linguagem com um conjunto de normas que só podem ser seguidas a partir da classe média mais alta. A impressão é que estamos vivendo em uma nação desenvolvida.

Quando se diz, não se automedique, procure seu médico, você está falando para quem? Para um público mais restrito, porque somente poucos têm um médico neste país. Se o pobre sofre um mal-estar, ele vai logo para uma farmácia porque o paciente sabe que é difícil marcar uma consulta no SUS, e o atendimento leva meses. Cá com meus botões, fica complicado!

O repórter vai para um supermercado ou uma feira e leva um nutricionista em meio àquelas imagens coloridas de produtos, frutas, hortaliças e carnes, de preferência brancas, para o profissional dar as dicas de como comer bem para ter uma vida mais longa. Como é a reação daqueles que dependem de uma cesta básica para sobreviver? Imagine em sua mente.

Na atual realidade do nosso Brasil, é uma coisa surreal para milhões de pobres e desempregados que passam fome. Como o indivíduo vai comprar frutas, tomate e hortaliças se ele nem tem dinheiro para o feijão e o arroz? Será que o nutricionista tem alguma receita para o pobre miserável ter uma alimentação saudável?

O caso do protetor solar é outro exemplo clássico de reportagem jornalística que só atinge a poucos. Como recomendar a um pobre que ele sempre use uma substância química protetora dos raios solares? É até uma insensatez mental. Como já existe o auxílio absorvente para as mulheres, poderia se criar também o do protetor solar.

Sugeria às redações da imprensa em geral fazer uma pauta sobre essas questões e entrevistar especialistas em cada assunto específico, para ver se existe alguma solução para o problema, ou perguntar dentro da própria entrevista, como fica o pobre.

Controle de finanças só para quem tem hoje um salário razoável e, mesmo assim, o cara se endivida por causa do seu padrão de vida. Existe uma lista enorme de outras matérias nas áreas de saúde, alimentação e lazer onde os pobres são fatalmente excluídos. Por outro lado, a elite burguesa não aceita que os mais necessitados tenham acesso a esses bens. É mais uma vergonha em nosso país capitalista selvagem.