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:: ‘Na Rota da Poesia’

DESILUSÃO

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Vagueia no recôndito

Da minha alma

Uma desilusão sofrida,

Sem mais aquele sopro,

Do viver encanto

Do vento fresco humano,

Que fazia o nosso canto

Contra o fútil profano.

 

A gente carregava o manto,

Da cultura e do saber,

Era lindo de se ver:

As ideias em confronto.

 

Os sonhos como vultos,

Somem entre os incultos,

Que mataram o conhecer,

E não mais se acredita

No clarear do alvorecer.

 

A massa insossa alienada,

Passa em louca disparada,

Consome porcarias no lixo,

Nas entranhas do consumismo,

E fica toda fedorenta empolada,

Pelo percevejo do capitalismo.

 

Minha alma está seca cinzenta,

Nesta cacimba, sedenta,

Como um estorricado chão,

Que definha na desilusão.

 

A juventude do não pensar,

Sem mais atitude e metas,

Guiada por falsos profetas,

Caminha nesse escuro,

Em meio ao besteirol,

E meu único alento,

É apreciar um pôr-do-sol.

PRINCESAS FERROVIÁRIAS

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ah, estações ferroviárias!

Princesas centenárias,

Trilhos do “Trem das Sete”,

“O último do sertão”,

Tempo de esperança e fé,

Nas serras de Wilson Aragão,

No canto do “Capim Guiné”.

 

Tuas lindas fotografias

Me enchem de fantasias,

De moleque piritibano,

Saindo do chão da praça,

Correndo de calça curta,

Para esperar a Maria Fumaça.

 

Formosas princesas,

De arcadas inglesas,

Minha saudade ainda voa,

Nos códigos do telégrafo,

E na paisagem da janela,

Eu livre viajo numa boa.

 

Em meu apaixonado olhar,

Princesas do Além-Mar,

De belas construções,

Embarcaram passageiros,

Inspirando lindas canções.

 

Princesas sertanejas,

De encantadoras fachadas,

Ainda vivas na memória,

Da nossa gente viajante,

Do passado de muita história.

 

Princesas ferroviárias

De esculturas elegantes,

Te amo entre as amantes,

Poéticas e relicárias.

NO TEMPO DAS QUESTÕES

Do grande Ariano Suassuna, retratando como era e se vivia no antigo sertão, terra isolada e sem lei.

Aqui reinava um Rei quando eu menino:

Vestia ouro e castanho no Gibão.

Pedra-da-sorte sobre o meu Destino

Pulsava junto ao meu seu coração.

 

Para mim, seu cantar era divino

Quando, ao som da viola e do baião

Cantava, com voz rouca, o Destino.

O riso, o sangue e as mortes do Sertão.

Também, coisas das antigas do fundo do baú, uma modinha do século XIX, cantada por João Flor em suas andanças na caatinga durante seus combates contra os cangaceiros. Era assim:

“Há quatro anos passados

Eu era alegre e feliz

Hoje me vejo sofrendo

Foi minha sorte quem quis.

 

Antes eu nunca te visse

Porque não te tinha amizade

Hoje me vejo sofrendo

No rigor desta saudade.

 

Antes eu nunca te visse

Porque não te tinha amor

Hoje me vejo sofrendo

No rigor da cruel dor

 

Quem por si se despreza

Merece ser castigado

Não me queixo da sorte

Vivo de ti separado”.

 

Também gostava de cantar:

 

“Morena, minha morena

Quem te ensinou a nadar?

Foi o tombo do navio

Foi o balanço do mar”

Vale lembrar que “Muié Rendeira” era de um cangaceiro por apelido “Cacheado”.

Extraído do livro “O Canto do Acauã”, de Marilourdes Ferraz

 

CANÇÃO DO SABER

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Esta canção que laço,

Tem raízes fincadas na terra;

É do menino de pés descalço,

Nascente de água cristalina,

Que desce daquela serra,

Como uma graça divina.

 

Quando se está triste,

A alma cálida padece,

Parece que nada existe;

Dá vontade de chorar:

Oh, Senhor, meu pai Oxalá!

 

O vento zune lá fora,

Como canção de ninar,

Nem sei mais fazer a hora,

Desse doer se acabar,

Mas, como disse Vandré,

“É só saber querer,

Para poder chegar”.

 

Esta é a canção do saber,

A canção do sofrer, do amar,

De quem lutou e foi calado,

Pelo facínora do ditador,

Quando sua viola solou,

Que gente unida é pra ganhar.

 

Esta é a canção do saber,

Saber viver e saber morrer.

TUDO TEM SUA VEZ

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Deixe a inspiração fluir,

Para nascer a poesia,

Espere a maré baixar,

Para fazer a travessia.

 

Tem a vez do nascer e crescer,

Do aprender e do saber,

Trabalhar e do curtir,

Do ganhar e do perder,

O tempo da velhice:

Foi o sábio que assim disse.

 

Tudo tem sua vez,

Do início e do fim,

Do não e do sim;

Tem a tristeza e a alegria,

A vida tem prazo de garantia.

 

Não fique aí com cara de tacho,

Esperando o acontecer,

Na base do eu acho,

Que tudo vai melhorar,

Sem a labuta enfrentar.

 

Tudo tem sua vez,

O primeiro beijo,

A primeira transa sexual,

E é você quem faz

Ser divina sensacional;

Tem a vez do amar,

E também a do odiar.

 

Tudo tem sua vez,

A do sofrer e a do prazer,

Depois do pôr-do-sol,

Vem o alvorecer.

 

Tem o choro e o sorriso,

Cada um com sua vez,

Como no sinal do aviso.

 

A flor perfuma o ar,

Tem sua hora de murchar,

O produto do consumir,

Se torna lixo do poluir.

 

Só os deuses são imortais,

Tudo tem sua vez,

A esperança da mudança,

O plantar e o colher;

As sementes que caem no chão

São espíritos dos ancestrais,

No sentimento e na razão.

 

É o ciclo da vida,

Se há entrada, existe saída,

Na corrida do ter e do ser,

Tudo tem sua vez,

Do primeiro cavalo selado,

Não pegue a estação errada,

Para não entrar numa furada.

 

Tudo tem sua vez,

O mar revolto e a calmaria,

O acidente na rodovia,

Um dia é da caça,

O outro é do caçador,

Não existe vencer sem dor.

ASSIM QUIS O DESTINO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

No ferro, fogo e aço,

Entre jurema e o calumbi,

Na imbira da macambira,

Rifle, fuzil e punhal,

Na alpercata do carrasco,

O agreste era seu quintal,

Na glória e no fracasso.

 

Assim quis o destino,

Não importa se terreno ou divino,

Aprendeu menino ser bandido

De um povo isolado sem lei,

Onde foi governador e rei.

 

Meia dúzia de balas,

No corpo carregava,

Cegueira e doenças renais,

No Angico apertado se refugiava,

Com seus deuses e satanais,

Sertão dos tempos medievais.

 

Acabou o corpo fechado,

No cinzento da oração,

Maria Bonita caiu junta,

Com seu amor Lampião,

E o tenente Bezerra atirava,

Nove cabras tombaram no chão.

 

Eram dois pernambucanos,

Da região do Pajeú,

Celeiro de cangaceiros,

De nordestinos espartanos,

Renegados pelo sul.

 

Um aprendeu a atirar,

Com a pontaria de Antônio Silvino,

Depois entrou para a volante,

E assim quis o destino,

Que caísse o Virgulino.

 

O outro, aluno de Sinhô Pereira,

Que ensinou sua cabroeira,

A ser andante bandoleiro,

Como negócio, refúgio e vingador,

Na terra de coronéis e doutor.

 

Só sobrou o velho Corisco,

Que até serviu o exército,

Cabra valente e arisco,

Como lutador teve seu mérito,

Mas o Governo Getulista,

Em quarenta fechou a lista,

Do Nordeste cangacista.

 

 

CAVERNA VIRTUAL

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Você é produto do meio,

Ilusão e devaneio,

Nessa caverna virtual,

De morcegos vampirescos,

Dentes dantescos,

Que sugam seu sangue,

Até a medula cerebral.

 

Desculpe companheiro,

Se meu verso não lhe agrada,

Pela lasca da pedrada.

Livre-se desse cativeiro,

Do influenciador superficial,

Seja mais racional

 

Fique aí em sua rede,

Com sua bicharada,

Como caça do caçador,

Nem sente mais fome e sede,

Alienígena social,

Do vazio virtual.

 

Ao invés de curtir na tela,

Veja a vista da sua janela,

Sua caverna virtual,

Cria taquicardia,

Morte lenta, passional,

Drogaria, psiquiatria,

Clique no amor presencial,

O resto é idolatria.

 

 

AS SECAS E OS BANDOS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Vejo pelas estradas e veredas

Levas de esfarrapados famintos,

Ao sol das labaredas,

Bandos enfeitados de cartucheiras,

Nas lágrimas secas das secas,

Balas varam quintais,

Coronéis derrubam cercas.

 

Êta Nordeste de guerreiros!

Infestado de bandoleiros!

Lá vem Antônio Silvino,

Ventania de um furacão,

No aço reluzente do cangaço,

Depois os bandos de Lampião,

Pelas secas dos Pereiras e Quelés,

Vinte e Dois, os Patriotas e Sabinos,

Jararaca, os Marianos e Porcinos,

Fechando lojas e até cabarés.

 

Nesta terra sofrida sem lei,

O bandido é o dono e rei.

Nas secas não existem feiras,

“Padim Ciço” derruba governador,

Pajeú, Cariri e Piancó das bagaceiras,

Há anos que não se colhe uma flor,

Neste agreste de tanta desgraça e dor.

 

As secas com seus bandos,

Os bandos com seus santos,

Com rezas de corpos fechados,

Os beatos com seus pobres rebanhos,

Cada cabra com seus comandos,

E nordestinos expulsos de seus cantos.

 

Chusmas de maltrapilhos,

Estirados pelo árido chão,

E os debilitados sobreviventes,

Em campos de concentração.

 

Meus versos não têm graça,

Oh, Senhor Deus dos desamparados,

Cadê sua divina Graça:

Deixar seus filhos morrem,

Nas florestas do ciclo da borracha?

 

Os bandos têm seus coiteiros,

Os chefes políticos, o poder,

E as secas parem os cangaceiros.

 

A Coluna Prestes passa,

No meio dessa confusão,

Querendo justiça social,

Mas o reacionário capital,

Metralha sua Revolução.

 

A marcha é arrastada difícil,

Dos levantes em busca de comida,

Sacrificam até suas crianças,

Para sustentar suas andanças,

No labirinto entre morte e vida.

 

As secas são implacáveis,

Como nas antigas guerras romanas,

Acossadas pelos bandos desumanos.

É arder no caldeirão do inferno,

De almas na espera

Das chuvas de inverno.

 

O último bando foi de Corisco,

As secas continuam por séculos,

E eu por aqui fico,

Sem mais nenhum rabisco.

TORMENTOS DA ALMA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O ser, do ser Criador,

Servo do tempo infinito,

Matéria e espírito de dor,

Tormentos da alma:

Luta entre o existir do viver,

Mesmo sem sentido no crer.

 

Neste embate entre vida e morte,

Transitam a angústia e a felicidade,

Nas frestas do vencer do mais forte,

Mistérios da Suprema divindade:

Com linhas tortas universais,

Conflitos humanos animais.

 

Para os tormentos viscerais:

Religiões, amuletos das muletas,

Versões morais e imorais,

Somos almas atormentadas,

Até mesmo santos canibais,

Com suas cores multifacetadas.

QUEM VIVER, VERÁ…

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

É o início do fim,

Quem viver, verá

Subirem as águas do mar.

 

Cidades serão inundadas,

Quem viver, verá

Capitais sairão do radar.

 

Os escombros da terra,

Quem viver, verá

A poluição apagar o luar.

 

Toda geleira vai derreter,

Quem viver, verá

Os viventes tombarem sem ar.

 

As florestas vão deixar de existir,

Quem viver, verá

O solo deserto salgar.

 

Ventos, raios e furacões,

Quem viver, verá

Ranger de dentes e chorar.

 

A luxúria do consumismo,

Quem viver, verá

O planeta de lixo se lixar.

 

Enchentes, secas e fome,

Quem viver, verá

Não se ter mais nada pra comprar.

 

As quatro estações do ano,

Quem viver, verá

Não haverá mais tempo pra plantar.

 

Os poços do óleo petróleo,

Quem viver, verá

Não terão mais energia pra jorrar.

 

O rico vai ficar pobre,

Quem, viver, verá

Todos vão se igualar.

 

Os segredos vão ser revelados,

Quem viver, verá

E o amor vai perdoar.

 

Seus desuses não vão mais te olhar,

Quem viver, verá

Não adianta mais orar.

 

Sem mais abelhas pra florar,

Quem viver, verá

Não terão mais flor a polinizar.

 

A noite vai virar dia,

Quem viver, verá

É o aquecimento solar.

 

Quem sabe as trevas!

Quem viver, verá

Sem mais tempo pra clarear.

 

Não mais cientistas pra alertar,

Quem viver, verá

Porque não tem mais nada pra profetizar.





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