Com a participação de intelectuais, estudantes, professores e artistas em geral, o “Sarau Colaborativo A Estrada”, que está entrando nos seus 14 anos de existência, colocou em pauta no último sábado (dia 17/02/24, no Espaço Cultural do mesmo nome, o tema dos 60 anos da ditadura civil-militar de 1964 que durou mais de 20 anos e, durante este período, além de amordaçar a liberdade de expressão, torturou milhares de brasileiros, matou e desapareceu com cerca de 500 presos políticos.

Lembrar este triste episódio que aconteceu em nosso país é fundamental para que este fato de terror não mais se repita em nossas vidas, conforme frisaram os presentes. O assunto é tão importante que os participantes do Sarau aprovaram continuar com a discussão no próximo evento, tendo como foco a ação do regime dos generais em Vitória da Conquista, no dia 6 de maio de 1964, quando o prefeito Pedral Sampaio, eleito pelo povo, foi cassado e cerca de 100 conquistenses foram presos.

O presidente da comissão do Sarau, professor Itamar Aguiar abriu os trabalhos culturais da noite e deu a palavra ao jornalista e escritor Jeremias Macário que fez um histórico geral de como se deu o golpe de 64, começando pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.

Antes disso já havia sido criada a Escola Superior de Guerra (ESG), em 1950, que já tramava um regime ditatorial junto com o serviço de inteligência da CIA norte-americana, tendo como maior inimigo a ameaça de um comunismo num país da América Latina. Era o tempo da Guerra Fria num cenário geopolítico polarizado entre Estados Unidos e União Soviética. Era o medo das influências socialistas das revoluções na Rússia (1917), na China (1949) e em Cuba (1959).

De acordo com Macário, que escreveu o livro “Uma Conquista Cassada”, quando Getúlio se suicidou os militares golpistas entraram em ação logo que Café Filho assumiu o poder e sofreu um enfarto. O presidente da Câmara, Carlos Luz, que ficou na presidência, chegou a aderir ao grupo de militares a favor de um golpe, mas foi impedido pelo general Henrique Teixeira Lott e Nereu Ramos governou sob o regime de Estado de Sítio até as eleições de 1955 vencidas por Juscelino Kubistchek.

Juscelino tomou posse em 1956 e, mesmo assim, tentaram dar um golpe entre o meado e final do seu mandato. Nas eleições de 1960, Jânio Quadros foi o vencedor, empossado em 1961, só que renunciou em 25 de agosto do mesmo ano. No momento, seu vice João Goulart, o Jango, estava numa viagem de negociação em Pequim, na China.

A rejeição contra Jango, herdeiro do populismo getulista, era grande nos meios militares e a UNE (União Nacional dos Estudantes), a classe operária, a Igreja Católica (a Polop –Política Operária) e as ligas camponesas já clamavam por reformas de base no campo e nas cidades.

Os generais tentaram impedir a posse de Jango, mas o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, enfrentou a tropa a favor de um golpe, com a criação da Campanha da Legalidade e da força do Grupo dos Onze. A reação dos militares foi forte contra o que eles chamavam de República Sindicalista.

Jango retornou ao país através do Uruguai (Montevidéu) e num acordo com o general Amaury Kruel e Tancredo Neves aceitou governar sob o regime parlamentarista que teve o seu fim com um plebiscito popular, em 1963. Goulart tinha o apoio do 18º Regimento de Infantaria do RGS, do III Exército, do governador de Goiás, Mauro Borges e de outros comandos militares e voou de Porto Alegre a Brasília no início de setembro de 1961 para tomar posse (Ranieri Mazzilli era o presidente interino).

Apesar de tudo acertado, um grupo de oficiais (Operação Mosquito) tentou derrubar o avião de Jango, mas a ação foi abortada por sargentos da aeronáutica. Do final de 1961 a março de 1964 Jango governou diante de um turbilhão de acontecimentos com as esquerdas – Leonel Brizola, Miguel Arraes, governador de Pernambuco, o deputado Francisco Julião e o Partido Comunista Brasileiro – pressionando o presidente para colocar em prática as reformas prometidas.

A Igreja Católica fazia seus movimentos sociais, mas se posicionava contra uma possível implantação do comunismo no país. A classe média, a própria Igreja e as elites burguesas reacionárias, principalmente fazendeiros latifundiários, se colocaram ao lado de um golpe militar, daí a ditadura ter sido civil-militar.

O comício do presidente na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, o discurso dos sargentos e fuzileiros navais no mesmo mês, as pressões de Carlos Lacerda (RJ), Magalhães Pinto (MG) e Adhemar de Barros (SP), a fala de Jango no Automóvel Clube, em 30 de março de 64, foram os principais estopins para estourar o golpe com a marcha do general Olímpio Mourão Filho que desceu de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro, no dia 31/03, mas o ato só se consolidou mesmo no dia 1º de abril do mesmo ano.

O palestrante citou ainda o golpe sobre o golpe que ocorreu em 1968 quando todos direitos humanos foram suspensos através do AI-5 e a ditadura se tornou mais tirânica no governo do general Médici. O professor José Carlos pontou sobre as torturas, as mortes cruéis e o desaparecimento de presos políticos. Também falaram sobre a questão os professores Itamar Aguiar e José Rubens, o “Binho” ambos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, dentre outros que fizeram suas intervenções.

Logo após os debates, o músico e compositor Manno di Souza nos abrilhantou com suas cantorias ao lado da cantora Marta Moreno e seu Armando Santos. Jhesus, mais uma vez, nos encantou com seus causos de autoria do poeta Jessier Querino. Houve também declamações de poemas autorais de Jeremias Macário, Edna Brito, da Casa da Cultura, Eliene Teles, Rubens, dentre outros, num clima de amizade, troca de ideias e muita cultura.

Maris Stella aproveitou a ocasião para lembrar o falecimento dos professores Caetano e Nivaldo, da Uesb, que deixaram um grande legado para nossa cidade de Conquista, para a Bahia e até a nível nacional. No mais, o papo rolou descontraído sobre diversos temas até a madrugada numa noite rica culturalmente e acompanhada de um bom vinho, umas geladas, petiscos e um bode cozido preparado pela anfitriã da casa, Vandilza Gonçalves.

Participaram ainda do Sarau Colaborativo o galego espanhol Fernando, Rogério Mascarenhas, José Rubens (novos componentes), Rose Emília, Dall Farias, Cleu  Flor, Cleide Teles, Manoel Domingues Neto, o português Luís Altério, Odete Alves, Karine Grisi, Giovana, João Victor, Maria Clara, o músico Baducha e sua esposa Céu.