AS CARTAS E AS PROCISSÕES DAS ORDENS COM OS ESCRAVOS CRISTÃOS RESGATADOS
No último capítulo, “Celebrando a Escravidão”, do livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, o autor, historiador e pesquisador Robert C. Davis divulga as cartas dos cativos libertados, especialmente pelas ordens dos trinitários e mercedários. Descreve a figura do pecado e da redenção na escravidão, bem como as procissões espetaculares para comover os fiéis a participar de mais doações. Esses atos promoviam o trabalho das missões de resgates dos escravos na Costa da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli).
As negociações de remições de escravos entre as ordens e os senhores proprietários, reis, paxás, turcos e mouros, já naquela época dos séculos XVI e XVII, eram constituídas de trapaças, subornos e corrupções. Os escravos libertos caiam nas mãos do Estado, de seus tutores e passavam por um processo de humilhação e descriminação social, sem falar do período de quarentena que eram submetidos para voltarem às suas famílias. Como sempre, os mais pobres eram os mais excluídos da integração na sociedade.
O pecado, a misericórdia, a punição e a salvação são onipresentes nos escritos dos escravos brancos na Berbéria. Como diz Robert, todos abraçavam esses conceitos como forma de compreender qual seria o propósito de Deus para infligir tanto flagelo a seus fiéis. Certa vez o abade Pietro Caissotti perguntou qual será o crime desses pobres escravos para serem sujeitos a uma punição tão severa? Ele mesmo respondeu que suas culpas e crimes eram reconhecer Cristo como o mais divino salvador.
“Pelos meus pecados, fui capturado num lugar chamado Ascea” – disse um cativo, em 1678. Esses homens e mulheres sempre se colocavam como passíveis da ira de Deus num inferno especialmente criado com essa finalidade. Escreveu (as cartas duravam cinco, seis meses ou mais para chegarem aos seus destinatários) outro em 1735: “Sinto-me como se estivesse em outro mundo de sofrimentos e dos tormentos do inferno”. Outro descreveu como uma alma no purgatório à espera de algum tipo de alívio. “Minha grande aflição, a aflição do purgatório e das chamas do inferno”.
Segundo Robert, essa penitência, sob o cruel jugo da escravidão, significava para a maioria dos escravos que eles seriam “espancados, praguejados e chamados de cães infiéis” por seus carrascos. Eles eram expostos aos riscos mais severos. Alguns viam a escravidão de uma forma mais positiva. Seria uma maneira como Deus testava os fiéis, colocando à prova a força de sua devoção diante do flagelo da escravidão.
Muitos não passavam no teste e abandonavam suas crenças, “vivendo como meras bestas”, em total embriaguez e depravação. Outros abraçavam o islamismo, desistindo de suas almas, como se tivessem feito um pacto com o satanás – escreviam alguns observadores da época.
De acordo com o autor da obra, o mínimo que se esperava de seus familiares é que mantivessem contato com o escravo, na esperança de que suas cartas ajudassem a levantar seu ânimo para suportar os efeitos corrosivos da submissão sobre sua fé.
Muitas das mulheres, crianças e idosos, conforme ressalta Robert, perderam para a escravidão o homem que trazia o sustento para dentro de casa, e agora, tendo de enfrentar a fome, rebaixavam-se e deixavam a fé de lado para recorrer à mendicância, ao crime ou à prostituição, para sobreviver.
Eram os lamentos que os cativos reportavam em suas cartas e acusavam, por vezes, suas comunidades e terras natais por não responderem aos seus clamores. “Ai de nós, pobres e abandonados, sem ninguém movido por compaixão, já que, com essa esperança… poderíamos continuar vivendo e crendo, sem abjurar em decorrência de muitas chibatadas que temos de tolerar nas mãos desses bárbaros”. Quem abjurava à sua fé e depois retornava ao cristianismo, era condenado à morte.
Os problemas dos agentes redentores estatais ficaram piores com o passar do tempo por causa da escassez de financiamento confiável, informação fidedigna sobre quem estava escravizado e habilidades comerciais para negociar com os proprietários. Os religiosos trinitários e mercedários eram mais espertos e começaram a mudar o quadro no final do século XVII.
No início dos anos 1700, os muçulmanos na Berbéria que investiam em escravos expandiram seus negócios nesse mercado cada vez mais, pois estavam interessados no lucro rápido advindo dos resgates, ao invés de explorar a mão-de-obra deles. Segundo registros do observador Laurent D´ Arvieux, por conta da Coroa Espanhola, os escravos dessa nacionalidade eram comprados e libertados com mais presteza.
Também os trinitários, criados na França no tempo das Cruzadas, eram talentosos negociadores, quando, em 1762, ofereceram seus serviços aos venezianos. Mesmo proibidos de coletar ofertas nesse território, os padres se colocaram apenas como agentes de remição do governo veneziano. Eles forneceram ao Senado Veneziano uma vasta coleção de materiais convincentes, como listas impressas com todos escravos que tinham remido em nome de outros estados clientes, bem como uma tabela comparativa entre os resgates que pagavam e os cobrados pelos “hereges e judeus”.
Por negociarem a libertação de escravos há anos, os trinitários e mercedários eram treinados em gerenciar os resgates com destreza. Sabiam dos truques que os proprietários usavam para elevar o preço. Usavam de artimanhas, como comprar o médico do rei, para declarar que o escravo estava doente, fazendo acreditar que o cativo corria o risco de morte. Terminavam adquirindo o escravo por uma quantia irrisória.
PROCISSÕES DE EX-ESCRAVOS
Como habilidosos, bons pregadores e arrecadadores na Espanha e na França, eles levaram aos estados italianos uma combinação de misericórdia e organização que encontrou forte eco nos sentimentos religiosos da península. Eles eram conhecidos por suas grandes procissões de ex-escravos, eventos que o padre Camillo di Maria chegou a chamar de “um triunfo da paz, da liberdade e do júbilo…”
Essas procissões eram incrivelmente populares entre as pessoas de todas as classes. Eram espetáculos urbanos mais característicos na Itália do século XVIII. Quando os cativos libertos eram apresentados aos romanos, em 1701, “as ruas ficavam lotadas com as inúmeras carruagens e com a aglomeração de pessoas, desde a Igreja de Santa Sussanna até o Palácio Apostólico do Quirinal.
Um acadêmico chegou a chamar essas procissões de fuzuê, que não passava de um meio para gerar contribuições, um espetáculo que visava, nada mais nada menos, estimular as emoções e, assim, as doações das pessoas mais religiosas.
O historiador narra uma procissão que houve em janeiro de 1764, quando houve uma parada com 91 escravos pela cidade de Veneza, com gastos em torno de 2.550 ducados, um valor cinco a dez vezes à quantia arrecadada nessas ocasiões.
Dentro do esquema dessas ordens, todo contingente de ex-escravos, os padres que os acompanhavam e seus auxiliares eram submetidos a uma quarentena. No século XVII, um período de isolamento era necessário e obrigatório para qualquer um que chegasse à Itália do norte da África e do Levante, porque estavam assolados de praga.
Após terminada a quarentena, os ex-escravos eram reunidos numa das igrejas relacionadas à ordem redentora. Era costume entre os mercedários, nas procissões que realizavam na Espanha e na França, vestir os escravos libertos com trapos que usavam na Berbéria, ornando-os também com correntes, porém quebradas.
Os padres redencionistas compravam humanos como qualquer outro traficante de escravos. Assim também pensavam muitos que viviam na Berbéria, conscientes de que não apenas missionários e cônsules estavam acostumados a alugar escravos cristãos como criados. Os padres redentores frequentavam o mercado badistão e davam seus lances ao lado de traficantes de escravos turcos e mouros.
Mesmo depois de comprados, os escravos, de certa forma, continuavam na posse dos padres, simbolizados pelas fitas no lugar das correntes durante as procissões. Os que contribuíam com alguma parte do resgate, tinham mais liberdade de ação, voltando diretamente para suas casas sem ter de antes viajar para a capital. Escravos pobres tinham noção de suas dívidas que estavam contraindo perante os padres e seus conterrâneos.
As procissões significavam um processo de purificação. A própria recompra tinha conotações interessantes. Os padres redencionistas compraram humanos como qualquer outro traficante de escravos. Homens e mulheres deixavam de ser mercadorias de um senhor muçulmano para serem tutelados pelos padres e pelo Estado. Logo que chegavam às cidades, eles eram entregues às autoridades estatais e confinados em quarentena por mais de um mês por causa da praga.
Os clérigos, na maioria jesuítas, trabalhavam para recatequizá-los, purificar suas almas da influência do islã. Muitos dos escravos remidos entravam em depressão, especialmente aqueles mais pobres que tinham poucas opções de trabalho, a não ser retornar ao mar e arriscar serem escravizados novamente. Quando estavam na escravidão, muitos apelavam para as elites para serem libertados, com a promessa de serem seus escravos.











