Carlos González – jornalista 

Genocídio, segundo os dicionaristas, significa promover uma série de ataques sistemáticos a uma população civil; extermínio deliberado de grupos étnico, racial ou político. A intensa operação militar, promovida pelo Estado de Israel, logo após o massacre articulado pelo Hamas, em 7 de outubro passado, que causou a morte de 1.200 judeus, dá ao mundo um exemplo de genocídio.  Os bombardeios, sem alvos definidos, já mataram 22,3 mil civis, a maioria mulheres e crianças. O responsável por esses crimes contra a humanidade é o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que reage enfurecido contra seus acusadores, como procedeu recentemente contra o governo da África do Sul.

A denúncia do país africano foi feita na Assembleia Geral da ONU e levada à Corte Internacional de Haia. A decisão tomada pelos juízes do tribunal com sede na Holanda frustrou os palestinos que esperavam uma ordem de cessar fogo. Ao governo israelense foi determinado que adotasse medidas para evitar um genocídio. Tel-Aviv refutou as alegações sul-africanas, qualificando-as de falsas, distorcidas e ultrajantes, e argumentando que está  exercendo simplesmente seu direito de defesa.

“A galeria a seguir contém imagens fortes”. Ao clicar sobre o aviso dado no jornal “A Folha de S. Paulo” online, o leitor se comove com as fotos de crianças palestinas mortas ou desfalecidas, atendidas em hospitais improvisados. Desde o início dos bombardeios 10.6 mil pequenos seres humanos tiveram a vida interrompida. O governo de Israel diz que suas ações bélicas visam os homens do Hamas. Será que mulheres e crianças são membros do grupo terrorista que reivindica há 80 anos o fim do apartheid e a criação de uma pátria?

As famílias palestinas receiam enterrar os seus mortos. Sair às ruas em Gaza é como participar de uma “roleta russa”. Na caçada ao Hamas não há necessidade de calcular onde um míssil vai cair; barreiras de tanques impedem que socorristas do Crescente Vermelho (a Cruz Vermelha no Oriente) atenda aos feridos nas ruas.

O jornal de Tel Aviv  “Yedioth Ahronoth” investigou a possibilidade do Exército de Israel ter colocado em prática o “protocolo Hannibal” na noite de 7 de outubro, atirando contra veículos que levavam terroristas e reféns. O comando militar reconhece ter matado três israelenses que haviam sido libertados pelo Hamas. Na semana passada, soldados disfarçados em profissionais de saúde invadiram um hospital e fuzilaram civis palestinos. Justificativa: “Eram terroristas do Hamas”.

No século passado, os dois povos foram vítimas de atos genocidas. Seis milhões de judeus foram assassinados pela Alemanha nazista durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945); nos anos do apartheid (1948-1994), centenas de africanos foram assassinados pelo governo colonialista da África do Sul. A perseguição dos palestinos pelos seus vizinhos começou em 1948 com a criação do Estado de Israel. Em maio daquele ano 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas; em 1967 foram mais 350 mil, e, ao longo das últimas décadas, colonos judeus, com apoio do Exército, vêm dando continuidade às ações de banimento de um povo que há séculos ocupa aquela porção da Terra Santa.

Uma visão dos mapas da Palestina em 1948 e hoje revela que houve uma redução territorial tanto em Gaza quanto na Cisjordânia. O objetivo prioritário de Bibi Netanyahu não é destruir o Hamas, mas a ocupação por meio da força de toda a Palestina, cujo povo terá como destino a morte ou a fuga para o deserto.

Enquanto cresce entre as populações das grandes nações o antissemitismo, com frequentes manifestações, os governantes dos Estados Unidos e da Europa Ocidental – a ONU tem se mostrado irrelevante – fecham os olhos para o caráter expansionista de Israel. Nos Estados Unidos, a guerra em Gaza provocou uma convulsão nas universidades.

Mais da metade dos jovens entre 18 e 24 anos consideram os judeus uma classe opressora e se mostram revoltados com o financiamento e apoio de Washington a Israel, o que pode dificultar a reeleição do presidente Joe Biden. No final da década de 60 a juventude americana adotou um posicionamento semelhante. Os protestos foram contra a invasão do Vietnã, que resultou na perda da guerra e na morte de 56 mil militares.

Nem todos os judeus apoiam o massacre ao povo palestino. Um deles, o jornalista Breno Altman, usa seu site “Opera Mundi” para denunciar o caráter violento da ideologia sionista. Braço do governo de Israel no Brasil, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) pediu à Polícia Federal (PF) que investigue o jornalista, a quem acusou de racista. Entidades jornalísticas já se levantaram em defesa do profissional de imprensa.

Candidato a prefeito de São Paulo nas eleições deste ano, Guilherme Boulos (PSOL) foi o mais novo brasileiro incluído na lista dos antissemitas criada pela Conib, que promete apoiar o político indicado por Jair Bolsonaro. A entidade ultradireitista, na verdade, se posiciona contra o presidente Lula, que se manifesta simpatizante da causa palestina.

O Brasil foi o primeiro país a realizar uma operação de repatriação de judeus brasileiros. A Força Aérea realizou cinco voos, a partir de Tel-Aviv, retirando da zona do conflito 1.100 pessoas. Até hoje ninguém questionou que esses brasileiros, com dupla nacional, optaram no passado por viver em Israel, servindo ao Exército ou cuidando de idosos e crianças. A vinda ao Brasil, à custa do governo, pode ser avaliada como um simples passeio, porque são muitas remotas as possibilidades de o conflito colocar em risco a população da capital israelense.