O PERÍODO MAIS CRÍTICO DO TRÁFICO NEGREIRO

No livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, de mais de 900 páginas, ele faz um trabalho detalhado e acadêmico com cartas e documentos da época, desde o século XVI, sobre o tráfico negreiro, especificamente do Golfo do Benin (Reino de Daomé) para a Bahia.

No início do século XIX, por volta de 1807/08, quando a Inglaterra decretou a abolição da escravatura, esse tráfico entrou em seu período mais crítico, justamente por ter se tornado ilegal através dos acordos e convenções estabelecidos entre os ingleses e Portugal e depois com o Brasil independente.

Como esses tratados não eram obedecidos pelos governos e comerciantes de escravos, os britânicos passaram a usar a força naval para aprisionar navios que continuavam a embarcar ilegalmente cativos para o Brasil, especialmente para os centros da Bahia e do Rio de Janeiro.

Por pressão da Inglaterra, após Brasil independente, o Governo Imperial criou várias leis, como a de 1831 que ficou conhecida para “inglês ver”, porque os traficantes faziam suas trapaças, como desvios de rotas, embarques e desembarques em outros locais fora dos portos tradicionais e uso de bandeiras estrangeiras, para manter o tráfico ilícito.

Nas trocas de cartas com as autoridades do Império (também faziam seus conluios com os senhores patrões e traficantes), os cônsules ingleses se irritavam com os brasileiros até que por volta do final dos anos 40 a Inglaterra começou a apertar o cerco com cruzadores que aprisionaram dezenas de navios que estavam com cargas irregulares.

Nesse interim, houve um acordo onde determinava que os traficantes só podiam transportar escravos abaixo da linha do Equador, ou seja, eram proibidos fazer esse tipo de negócio no Porto de Uidá ou Ajudá, no Golfo do Benin. Mesmo assim o comércio ilegal não parou de ser feito.

Chegou ao ponto que os navios ingleses invadiram as águas brasileiras para impedir o tráfico e até ameaçou bombardear o Porto do Rio de Janeiro. O estopim de tudo ocorreu no Porto de Paranaguá quando o forte daquele local reagiu atirando contra um cruzador inglês matando um marujo.

Os comerciantes colocavam o povo contra os ingleses e estes tentavam comover a população de que aquele comércio era vergonhoso e desumano. Como o poderio britânico era de longe maior que o do Brasil, o Império apressou uma lei mais dura em 1950 que ficou conhecida como Lei Eusébio de Queirós. Somente em 1951 esse tráfico ilegal cessou, mas alguns ainda se atreviam a colocar navios para realizar esse comércio.