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O CANGAÇO, A AÇÃO DA POLÍCIA E OS CRIMES ORGANIZADOS NO BRASIL

  O modus operandi é praticamente o mesmo. Até parece que os comandos dos crimes organizados, as milícias e os narcotraficantes dos centros urbanos do Brasil de hoje aprenderam na mesma cartilha do cangaço nordestino de há cem anos, profissionalizado por Lampião.

  Dentro desse contexto, a polícia dos tempos atuais (não atingindo todos) não difere muito das tropas que combatiam o cangaço em termos de brutalidades, matanças e violências. Os sertanejos tinham mais medo daqueles soldados do que dos cangaceiros.

  O conceito hoje do cidadão brasileiro entre bandido e polícia, mudou pouca coisa. Os pobres, os negros e excluídos em geral continuam sendo massacrados em seus direitos, e a Justiça normalmente está do lado do rico e do poderoso. Essas categorias desassistidas ficam entre a cruz e a espada.

   As origens dessa violência e barbárie também se repetem. Nos séculos passados, até meados dos anos 1900, o território do Nordeste viveu completamente isolado do Estado, sob o comando dos coronéis, dos grandes proprietários de terras, dos chefes políticos corruptos. Reinavam as injustiças sociais.

  Nos últimos cem anos ou mais, os morros foram sendo invadidos pela pobreza miserável, inclusive de retirantes nordestinos, sem nenhum amparo e presença do Estado. O cangaço nordestino se tornou num cangaço urbano. Os bandoleiros cangaceiros de ontem são os bandidos criminosos de hoje que deixam a população entre a cruz e a espada, como vivia o sofrido nordestino.

   Os personagens só trocaram de pastos; os governantes por anos cruzaram os braços; o banditismo mudou de lugar; parte da polícia faz papel de coiteiros; políticos se envolvem com as máfias; a injustiça social pouco mudou; os lampiões comandam os crimes organizados; o cidadão é obrigado a pagar suas taxas de proteção; delator é morto barbaramente; e os subgrupos seguem as ordens dos chefões.

   O nordestino daqueles tempos, por mais de 50 anos, sofria muito mais nas mãos dos bandoleiros e policiais do que atualmente nas favelas. Viviam acossados por todos os lados e ainda tinham que enfrentar as secas inclementes que mataram milhares de pessoas de fome e doenças.

As mulheres eram as mais violentadas, discriminadas, presas pelo pai carrasco, estupradas ainda meninas de onze e doze anos e centenas obrigadas a seguir o cangaço. Estudar as questões políticas e sociais do Nordeste é se aprofundar no martírio daquelas mulheres, muitas ferradas com ferro em brasa, arrastadas pelos cabelos caatinga a dentro e mortas a pauladas, pior que animais selvagens.

    Nos anos 30, Lampião dividiu seu bando em subgrupos (Corisco, Virginio, Zé Baiano, Labareda, Zé Sereno e cada um dominava uma região, como acontece hoje nas grandes cidades. As arrecadações das extorsões contra os sertanejos, os saques, os sequestros, os pedágios de proteção eram divididos, sendo que a maior parte ficava com Lampião. Os métodos urbanos pouco diferenciavam dos de hoje.

Tudo era bem administrado e organizado. Para os denunciantes e delatores, a morte era certa e bárbara. Cabeças eram decapitadas e degoladas. Os comandos de hoje também têm seus códigos e “éticas de conduta”. Aqueles que cometem desatinos ou delatam, são queimados em pneus, esquartejados e até enterrados vivos.

 Coincidência, ou não, no meado dos anos 30 para e final da década, Lampião e seus bandos se tornaram personagens internacionais, inclusive cobiçados pelo comunismo da União Soviética para fazerem parte da Intentona Comunista de 1935, chefiada por Carlos Prestes.

   Eram até vistos como guerrilheiros revolucionários do povo camponês. Na era Vargas, considerados como “extremistas” e terroristas, como Trump classificou os comandos brasileiros. O cangaço passou a ser uma questão de ameaça à soberania nacional.

   As empresas alemãs Bayer e Zeiss (Alba Filme-Fortaleza) financiaram as filmagens de um documentário sobre suas ações criminosas, feitas pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão (1936). Contava até com a simpatia dos nazistas de Adolf Hitler. O Governo Getúlio Vargas estava mais preocupado em combater os comunistas do que as atrocidades dos cangaceiros.

  Quanto ao fornecimento de armas e munições para os cangaceiros, a prática era quase semelhante. Além dos coronéis, fazendeiros, políticos e comerciantes que eram protegidos, o próprio exército e oficiais da polícia abasteciam Lampião com modernos equipamentos de última geração.

   Para disfarçar, os armamentos, muitos contrabandeados, eram transportados em cargas de farinha e outras mercadorias que iam para as feiras. Até meados dos anos 30, os cangaceiros tinham armas sofisticadas fabricadas na Alemanha, na Bélgica e Estados Unidos, enquanto as volantes, chamadas de “macacos” usavam velhos trabucos do início do século XX.

  Com sua estratégia militar, sua inteligência, astúcia, esperteza e como bom político nos relacionamentos com autoridades municipais e estatais, exemplo do compadrio com o governador de Sergipe, Eronides de Carvalho, eleito em 1935, Lampião seria hoje o chefe mais famoso de qualquer cartel ou organização criminosa. Naquela época, ele já era reconhecido internacionalmente como tal, como o bandoleiro mais famoso da América Latina.

 

SESSÃO VAI HOMENAGEAR A ACL

 Nesta quarta-feira (dia 02/09/2026), a partir das nove horas, a Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista vai realizar uma sessão ordinária mista para homenagear os 46 anos da Academia Conquistense de Letras-ACL, fundada em 03 de setembro de 1980.

   Durante o evento, o legislativo ainda vai discutir diversas pautas de interesse da população nas áreas da educação, do meio ambiente, da saúde, infraestrutura, dentre outros projetos enviados pelo poder executivo.

   Naquela época em que a Academia foi criada, Conquista vivia uma efervescência cultural, embora o país ainda estivesse vivendo num regime militar já em decadência, com pedidos de eleições diretas e retorno à democracia após a decretação da anistia geral e irrestrita, em 1979.

   A entidade cultural foi instituída por um grupo de intelectuais, com o objetivo de preservar a memória, incentivar a leitura e fortalecer a produção literária e cultural da região, passando a funcionar numa sala cedida pelo Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

    Naquele mesmo ano de 1980, a antiga Faculdade de Formação de Professores passou a ser a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, que ajudou a consolidar o ensino superior e a vida intelectual da região, um marco na história da educação conquistense.

   Nesses 46 anos de existência, a instituição congregou nomes expressivos da cultura regional, como Heleusa Câmara (primeira presidente mulher), Nilton Gonçalves, Carlos Jheovah, Ricardo Benedictis, Evandro Gomes de Brito, Erathósthenes Menezes, Mozart Tanajura, dentre outros.

  Nas comemorações dos seus 45 anos, em 2025, a ACL renovou seus quadros recebendo novos artistas como membros, com o propósito de incentivar a arte, com destaque para o poeta, cantor, músico e compositor Eugênio Avelino (Xangai), ex-secretário de Cultura do Município.

  Na ocasião, a ex-presidente Elvarlinda Jardim ressaltou o valor especial da posse dos novos acadêmicos. Xangai chegou a receber o reconhecimento por sua atuação, por exemplo, com o Prêmio Sharp de 1997 de melhor disco com “Qué Qui Tu Tem Canário” e o Prêmio Música Brasileira de melhor cantor regional, em 2016. O artista passou a ocupar a 37ª Cadeira da ACL, que representa simbolicamente seu patrono, o poeta Carlos Drummond de Andrade.

    Os presidentes sempre buscaram um espaço físico definitivo para sediar a ACL, e agora, mediante articulações políticas, ela passará em breve a funcionar no prédio do histórico Solar dos Ferraz, tendo como atual presidente o acadêmico Valmir Henrique de Araújo.





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