Até onde alcança as vistas no infinito do horizonte, só o cinzento da caatinga no semiárido baiano e pernambucano. É o cenário da seca e da terra estorricada na espera das chuvas de trovoadas que devem bater nesta época de final de ano.

  Quando o vento bate forte, as águas caem do céu e molham o chão. O sertanejo tira o seu chapéu de couro e faz sua prece de agradecimento ao Criador Todo Poderoso. Sempre diz que é uma maravilha e já pensa logo em jogar a semente nas valas do solo para a reprodução.

  Em algumas partes, mesmo entre as pedras em formatos humanos e de pássaros, resistem os mandacarus e o florido de algumas plantas para embelezar a paisagem como símbolos de esperança e fé que nunca se acabam entre os nordestinos.

  Em oito dias cruzei terras baianas e pernambucanas atravessando o grande rio mar, Opará para os índios e São Francisco para os colonizadores, também carinhosamente chamado de “Velho Chico”. Nas margens das pistas, o bodada se alimenta das plantas nativas e, às vezes, dão susto aos motoristas quando atravessam em filas as estradas.

   O mormaço do calor de 40 graus com as pesadas nuvens escurecidas, que deixa escorrer o suor pelo seu corpo, é prenúncio de chuvas em breve. Num só dedo de prosa agradável, o sertanejo diz sentir que seu organismo garante que a chuva está chegando.

  Fico a matutar sobre a sabedoria popular que vem dos ancestrais, mais sábia que a acadêmica pesquisadora que erra em suas previsões, principalmente nos imprevistos atuais das mudanças climáticas, ou melhor do aquecimento global.

  Pelo papo com o nordestino do agreste, sei que em pouco tempo essas imagens cinzentas logo estarão renovadas com o colorido exuberante do verde e o brotar das flores. A terá exala outro cheiro perfumado e as aves em revoada voltam a voar entre as árvores fazendo a festa da alegria. O calango e a lagartixa correm entre o úmido dos gavetos e cascas, colhendo os insetos. É época de fartura e barriga cheia para todos. A tristeza dá lugar à esperança, que nunca morre.

  As secas são cruéis e têm a cara da morte, aquela encapuzada com a foice na mão para ceifar o sertanejo, as plantações e os rebanhos. Com os tanques, cacimbas e as aguadas vazias, o boi berra sedento de sede. É um berro de dor.

  Pelas estradas de cascalhos empoeiradas corre o carro-pipa para acudir os necessitados e, por maldade e insensibilidade humana, alguns chefes políticos ainda dão ordens aos seus contratados para atender somente àqueles que nele votaram.

  Quando as estiagens são prolongadas, sem outra saída, milhares de sertanejos maltrapilhos, como nas secas de 1877/79, 1915, 1932/35 e tantas outras fatídicas, partem em retirada para outras terras estranhas para nelas serem escravos de patrão.

 Em “Triste Partida”, o poeta Patativa do Assaré e o músico cantor Luiz Gonzaga narram e cantam toda triste saga do sofrido nordestino fugindo do flagelo das sequidões. A imprensa e a mídia em geral sempre estampam suas manchetes de horror e miséria onde milhares tombam de fome.

 

O nordestino isolado, sem amparo dos governantes, diz misericórdia Senhor Deus com tanto sofrimento! Perdoai os nossos pecados pelo mal que tanto fizemos porque toda fauna e a flora chora! Chama os compadres e as comadres para rezar e fazer suas procissões, para que São Pedro mande água, ao invés do sal.

  Tudo é beleza e contentamento quando as preces são atendidas. É a seca que se vai com as chuvas, mas, infelizmente, sempre vem outra para o homem do campo enfrentar com resignação. Das sementes brotam os frutos e as cidades também se beneficiam das colheitas. Esse ciclo está sempre se repetindo.