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:: 9/out/2026 . 0:24

SENIL, LESO E CAQUÉTICO

   Em certos momentos e circunstâncias da vida, geralmente existem pessoas que, levadas pela simples aparência, pensam certas coisas de você que não correspondem com a realidade. Melhor deixar que assim seja porque você pode se dar bem e ainda não cria discussão desnecessária, nem se estressa ao tentar convencer o outro do contrário.

  Neste início de semana ocorreu um fato comigo que me fez refletir sobre esta questão. Pelo semblante em que me encontrava, de uma noite não bem dormida, fui tratado como um senil, gagá, leso, caquético e em estado deplorável como se estivesse com o pé na cova.

   Acordei por volta das oito horas da manhã e me dei conta que tinha que fazer exames de sangue, urina e fezes no Laboratório Central do Hospital Esaú Matos, o que detesto por demais e acho que ninguém gosta. Meu caso é trauma psicológico mesmo.

    Sempre falo e termino não cumprindo com a intenção de que nesta idade nunca mais irei a médico justamente por causa da carretada de exames que o profissional pede. Isso me deixa mais irritado e até agrava minha saúde. Tenho que levar essa opinião ao pé da letra.

 Bem, vamos deixar de lero-lero e nos ater ao senil, leso e caquético, como assim fui considerado pelas atendentes do laboratório. Ainda bem que minha esposa me acompanhou nessa árdua empreitada e confesso que me dei bem.

  Ainda um tanto zonzo, calado e fora do planeta terra, a atendente foi logo me perguntando se já havia completado 80 anos – pelo jeito estava para mais que isso – no que balbuciei confirmando.  Foi  o bastante para ela não mais se dirigir a mim e sim à minha mulher, para a funcionária legítima cuidadora de um velho caindo aos pedaços.

 Por um motivo ou outro que não sei bem explicar, talvez estivesse meio dopado, resolvi aceitar aquela condição e fiquei quieto em minha cadeira. Naquele instante não passava de um senil, leso e caquético sem nenhuma capacidade para resolver o trâmite burocrático dos exames de saúde.

  Olhei para todos os lados e o ambiente estava lotado. A moça pegou os papéis com a “cuidadora” e foi lá dentro, logo retornando com uma ficha de especial. Pensei comigo que ia ser logo chamado e assim aconteceu.

   A partir dali, não tive mais o direito de falar porque não passava de um incapaz aos olhos das atendentes. Nunca me senti assim, mas deixei o processo fluir e até me bateu na “telha” reagir e dizer que eu ainda tinha condições de ser o “cuidador” da minha mulher, e não como estava sendo tratado.

  A recepcionista chamou a “cuidadora” para lhe acompanhar e fazer a entrega das excrecências ou excelências da minha bosta e do meu mijo. Ainda nos achamos importantes e superiores metidos a merda.

  Permaneci sentado como uma criança comportada (não existe mais isso) só observando o andar das coisas. Melhor não reclamar, senão deixaria de ser especial para entrar na fila dos normais e aí, meu camarada, ia ficar mofando por mais tempo como os outros pobres coitados sofredores da saúde! Matutei o quanto a velhice nos faz de anormais.

  Não tardou muito e de lá saiu uma certa mulher de idade coletora de sangue e me chamou para o sacrifício. Antes de me levantar da cadeira ela pediu que a “cuidadora me acompanhasse. Era uma ordem. Resolvi continuar em silêncio diante daquela cena, apenas como observador.

   – O senhor ainda pode e está apto a assinar aqui o pedido de requisição dos exames? Ela olhou para a “cuidadora” e eu balancei a cabeça que sim. Enfiou aquela agulha maldita rasgando a minha veia. Pela sua cabeça, não era mais que um senil, leso e caquético em estado terminal.

 – Quando chegar em casa a senhora (cuidadora) dá um cafezinho para ele. Para completar, fez uma série de recomendações à “cuidadora”, seguidas de orientações quanto a data de pegar os resultados e documentos exigidos para tal.

 Nessas de senil, leso e velho caquético até que levei vantagem, mesmo sem aquela malícia malandra e antiética de levar “vantagem em tudo” dando rasteiras nos outros, mas sai cafangando e esbravejando, soltando fogo pelas ventas.

  Não imaginou aquela senhora furadora de veias e sua colega que ainda estou bem ativo, trabalho cerca de 12 horas ao dia, faço meus exercícios, tomo umas geladas e quentes em finais de semana, escrevo e leio diariamente, brigo, xingo, sou ranzinza, nojento e falo alto.

Coitada da “cuidadora”! Agora vou sempre levar ela nessas ocasiões, principalmente onde o paciente tem que ir além do seu limite de paciência para não virar bicho selvagem. Como dizia, deixem que pensem que sou mesmo um senil, leso e caquético. Ainda tem gente que acha que a velhice é uma felicidade só!

DIA DO NORDESTINO

  Minha aldeia é sem igual no mundo, pois aqui existe o bioma denominado de caatinga, ou terras do semiárido, onde tem o pereiro, a aroeira, o juazeiro, o umbuzeiro, o xiquexique, as catingueiras, o rompe gibão, os marmeleiros, os facheiros e o imponente e resistente mandacaru.

 Na minha aldeia ouve-se o piado e o canto do carcará, do gavião, da asa branca, da graúna, o pássaro preto reluzente do sertão, da mãe-da-lua, da cauã e outras infinidades de espécies símbolos do meu Nordeste onde o seu valente povo é conhecido e chamado de nordestino.

  Não poderia deixar passar em branco o “Dia do Nordestino”, comemorado todos os anos em 8 de outubro. O nordestino é o sertão profundo de gente simples sofredora, diferente do cerrado cheio de águas e cachoeiras do famoso escritor Guimarães Rosa, se bem que aqui também temos corredeiras da Chapada Diamantina.

  Com todo respeito ao grande “Rosa”, mas lhe parodiando, tenho dentro de mim a “Caatinga Veredas”, que nos leva às histórias de lutas do cangaço, da Coluna Prestes, dos misticismos religiosos, do Conselheiro, do “Padim Ciço” e demais personagens que fazem parte da nossa cultura.

  Foi aqui em nosso Nordeste que proliferou a poesia de cordel e gerou grandes escritores, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Câmara Cascudo, José de Alencar, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, dentre tantos outros, sem falar nos baianos jurista Ruy Barbosa, o Águia de Haia, e no poeta dos poetas, o condoreiro Castro Alves com suas “Espumas Flutuantes”.

   Temos cineastas do quilate de Glauber Rocha, economistas planejadores do desenvolvimento brasileiro, a exemplo do paraibano Celso Furtado, ativistas políticos que deram suas vidas e lutaram até a morte contra as ditaduras.

 O nordestino é o Nordeste dos repentistas, dos trovadores, contadores de causos e chulas, dos grandes compositores músicos como Zé Ramalho, Geraldo Vandré, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga, com sua sanfona ao som de “Asa Branca”, que voou pelo mundo a fora, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinam, Tom Zé, Novos Baianos e toda uma geração conhecida internacionalmente.

 Neste “Dia do Nordestino”, quero também falar da nossa terra de bravos, mulheres e homens anônimos que fizeram e fazem parte da nossa história e da nossa rica cultura, cheia de mistérios, fé e religião. Nosso sertão é único, cinzento nos engaços e bagaços, misturados com o verde e o colorido quando chegam as trovoadas de final de ano.

  O nordestino tem um cheiro próprio e peculiar. Brilha em seus olhos a paisagem do seu solo. Sua pele é queimada e mestiça do sol onde exala pura poesia. Em seu sangue corre a arte como matéria-prima em suas diversas linguagens.

O nordestino é também o Nordeste dos retirantes, dos caminhões paus-de-arara que daqui saíram na “Triste Partida”, de Patativa do Assaré, para construir São Paulo e outras terras estranhas. O nordestino é o retorno de saudades pelo torrão querido.

  O nordestino é o Nordeste da Bahia, dos heróis que consolidaram a independência do Brasil, do Maranhão, do Ceará, do Piauí, do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, de Alagoas e Sergipe. O nordestino é o São Francisco, o “Velho Chico”, ou melhor, o Opará indígena, com suas águas dando vida aos ribeirinhos, banhando nossas margens e abrindo canais de irrigação para nossa agricultura.

  O nordestino é esse Nordeste que reverencio, do qual tenho orgulho de dizer que dele sou filho, e repudia os preconceituosos racistas e xenófobos dos imbecis sulistas que em muito contribuíram para que houvesse essa desigualdade regional, desde os tempos coloniais.

Por cerca de quatro séculos, o Nordeste viveu isolado e submetido à chibata dos coronéis, dos grandes latifundiários, dos chefes políticos, castigado pelas secas que dizimaram milhares de almas e das injustiças sociais que empurraram os sertanejos para a violência e às barbaridades do cangaceirismo.

   Daqui exploraram nosso suor e ainda nos chamam de atrasados e arcaicos, mas, como diz a Bíblia, “perdoai, oh Senhor, porque eles não sabem o que falam”! Apesar de todos os sofrimentos do passado tenebroso exploratório, como disse Euclides da Cunha, o sertanejo nordestino é antes de tudo um forte e continua sendo trincheira da resistência. Por onde passou deixou seu legado e exemplo de honradez, de caráter, de trabalho e de cultura.

   O Nordeste possui uma enorme diversidade de culturas populares, como as festas juninas com seus ritmos peculiares do forró, do baião, do xaxado; os Ternos de Reis; o Maracatu; o Frevo; o Bumba meu Boi e outras expressões que ainda conservam suas tradições.

  A lista de grandeza é extensa e aqui não estou assinalando as belezas naturais do seu litoral, da Chapada Diamantina, na Bahia, o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, com suas pinturas rupestres das antigas civilizações pesquisadas pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, os lençóis maranhenses e tantas outras riquezas que encantam o mundo.





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