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:: 21/out/2026 . 23:48

JUAZEIRO ESTÁ PEGANDO FOGO

A BENÇÃO MEU “VELHO CHICO”!

  Para quem sai de Vitória da Conquista com pouco mais de 30 graus e entra em Juazeiro “pegando fogo” de 40 graus e até com sensação de mais que isso, escorre pelo corpo o suor do tipo cuscuzeiro numa caatinga estorricada que só de verde o mandacaru.

 Pelas estradas cruzam os bodes catando bagaços e o agreste me faz lembrar dos nordestinos retirantes e dos cangaceiros fugindo das volantes ou combatendo contra os “macacos” como os chamava Lampião. Em Pernambuco passei por Lagoa Grande onde ele cometeu muitos crimes e saqueou o povoado, hoje cidade, cujo município é grande produtor de vinho, graças ao Rio São Francisco.

  Como sempre faço quando venho para essas bandas, onde nessas terras cortou o “rei do cangaço” e seus bandoleiros, costumo ir ao leito do nosso majestoso São Francisco, ou o “Velho Chico”, para os índios, Opará, e pedir sua benção, nele mergulhar e tomar muita água, senão o corpo desvanece.

  Quando aqui chego, a primeira coisa que me vem à cabeça é escrever algumas linhas sobre ele como forma de lhe prestar homenagens e pedir perdão pela forma como o homem o depreda e deixa suas margens desmatadas e asseroadas.

   Dele tudo se retira, como a transposição das suas águas que não chegam aos pobres catingueiros que ainda dependem dos tanques e das cisternas, e pouco se repõe. Até hoje, quem mais se beneficiam do “Velho Chico” são as empresas de fruticulturas e as vinícolas que até recebem financiamentos dos governos estadual e federal.

   Tudo isso me faz lembrar da grande estiagem, há cerca de 20 anos, que fez aparecer os bancos de areias e desaparecer as pequenas ilhas, tornando o Opará inavegável. Foi início dos anos 2000 que fez um frei de Barreiras decretar greve de fome contra a transposição das suas águas. Tempos terríveis e muitos chegaram a falar no desaparecimento do rio.

   O mais contraditório e aberrante é que ensinam nas escolas que o Opará, batizado por Rio São Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, foi “descoberto” em 4 de outubro de 1501 pelos navegadores Américo Vespúcio e André Gonçalves, só que ele é milenar e já existia e navegava cheio de farturas muitos séculos atrás.

    O São Francisco tem suas lendas e histórias, com suas carrancas, o nego d´água, a Iara ou Mãe D´Água que dorme dois ou três minutos na meia noite e depois vai pentear seus cabelos nas canoas dos barqueiros; tem as rezadeiras, os curandeiros e seus ribeirinhos que dele tiravam seu sustento do dia a dia. Hoje está escasso e até o surubim é difícil de ser encontrado.

  Em seu leito abriram grandes barragens, como a do Sobradinho, impedindo a navegação em diversas partes. Por ele atravessaram valentes, volantes e retirantes nordestinos fugindo das secas que dizimaram milhares de sertanejos. Foi testemunho de acontecimentos importantes no cenário nacional.

   Com a expansão do plantio da cana-de-açúcar no litoral do Nordeste, os gados começaram a ocupar as margens do “Velho Chico” e ele também passou a ser chamado de rio dos Currais.

  O São Francisco atravessa cinco estados, Minas Gerais (nasce na Serra da Canastra), Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe onde suas águas se encontram com o mar, percorrendo 2.863 quilômetros. É considerado o rio totalmente brasileiro.

   Por isso e muito mais, o “Velho Chico”, como assim é apelidado carinhosamente, merece a minha benção e a ele eu faço sempre as minhas preces num demorado bate-papo só nosso. Conto os meus segredos e, como velho ancestral, rogo pelas suas orientações para meu retorno de outras tantas vezes. A benção meu “Velho Chico”! Até a próxima!

 

 

O CORREDOR SUMIU

(Chico Ribeiro Neto)
No filme “A Família” (1987), de Ettore Scola, o passeio da câmera pelo corredor é sinal de que os integrantes da família estão ficando mais velhos.
Cada visão do corredor deserto é sinal de que na próxima cena estarão todos com pelo menos 10 anos a mais.
Antes enormes, largos, os corredores foram encolhendo. Saíram das casas com quintal e tudo e foram morar em apartamentos, de onde se passou a sair praticamente da sala para o quarto, quase sem passagem.
Será que a arquitetura moderna bolou isso pra gente não ver mais o tempo passar ou não ver na linha final do corredor quem está chegando?
O corredor da minha casa em Ipiaú (BA) dava até pra jogar bola e seus  azulejos amarelos, com desenhos mais escuros nas pontas, eram friozinhos para sentar numa tarde quente e ficar jogando gude. Muitas vezes a gude sumia no corredor e demorava pra achar.
Além da sala de visita, cabiam três quartos ao longo do corredor. Era vir correndo de dentro da sala de jantar para abraçar meu pai Waldemar que acabava de chegar da sua Padaria Minerva, quase sempre com uma surpresa, como um pão doce em forma de caubói ou de um jacaré, com o que a gente fazia sucesso com os amigos. “Meu pai não faz pra vender, só pra gente”.
No corredor cabia ainda muito mais coisa: revistas, pedaços de papel para fazer colagem, bolas de vários tamanhos, formigas de antenas tiradas, o chapéu do velho pendurado, uma capa de chuva e ainda duas cadeiras de lona encostadas na porta da rua, que eram pra calçar um pouco, pois quem quisesse entrar era só empurrar que já estava dentro de casa.
Faziam também parte do corredor pequenas quedas e rápidas corridas, às vezes tropeçando numa tia que saía do quarto com um penico na mão. E é do corredor de Ipiaú que vêm os gritos dela pelo penico derramado, pelo banho ainda não tomado e pelo café que tá na mesa.
Percorro o corredor lentamente, como a câmera de Ettore Scola. Vejo as tias rezando e os alvos e compridos bigodes de meu avô Chico Ribeiro que, já viúvo, coloca um pouco de talco no corpo para dormir, vestindo seu pijama velhinho mas muito bem engomado. Assim o velho morreu um dia, com o pijama e o talco, fazendo um neto começar a aprender o que é sumir da vida.
Já no fim do corredor, viro-me  para uma última olhada antes de fechar a porta. Fechar, não, apenas encostá-la, pois estarei sempre voltando àquele corredor.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 27/9/1989).





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