– Somente eu, cara pálida, e os outros que também fazem esse tipo de trambicagem malandra de surrupiar o dinheiro público na cara de pau? Sou mais um bode expiatório para fazer de conta que o legislativo é moralizador.
Deve ter passado essa indagação pela cabeça do vereador Gilvan Nunes Pereira, o “Dinho dos Campinhos”, do Partido Republicanos, mas ele não pode falar isso porque, além de ter sido beneficiado pelo corporativismo com uma pena merreca de suspensão de apenas 60 dias fora de suas atividades, não devolveu o dinheiro roubado.
Isso já é antigo e não acontece apenas na Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, mas em quase todos municípios brasileiros, nas assembleis legislativas dos estados e no Congresso Nacional. Vez ou outra a coisa estoura porque alguém das assessorias resolve botar a boca no trombone.
No caso específico de Conquista, o “Dinho” deu uma bandeira danada e deixou aquele rastro ou pegada bem explicita que nem precisava de um rastejador experiente para seguir o seu coito. Se for fazer uma investigação mais profunda, outros parlamentares também fazem o mesmo.
O mais revoltante nisso tudo é que a punição demonstra o descaso e o desprezo do legislativo para com a população quando se abre a boca para se dizer que a “Casa é do Povo”. O paradoxal e contraditório é que ninguém sabe, dentre os 23, o que já é um número absurdo de cadeiras, quem votou contra e a favor da cassação pedida pela relatora do processo Gabriela Garrido.
Ouvi comentários que foi unanimidade dos outros e, como disse Nelson Rodrigues, é uma burrice. Nem ao menos para fazer ele devolver a grana da Rachadinha, o que seria ético, honesto e correto. Não me venham com lero-lero e com aquela conversa para boi dormir. São todos coniventes e compactuam com o malfeito.
Em Conquista, a verba de gabinete passou de 40 mil reais para 50 mil, para pagamento de assessores e manutenção de outros gastos. O salário mensal de cada parlamentar é de 18.742,00 reais. O número de contratados fica por conta de cada vereador, de acordo com o limite de 50 mil referente à verba de gabinete.
Para a realidade brasileira de um salário mínimo de cerca de 1.600,00 reais (nem todos patrões pagam isso e o trabalhador é obrigado a aceitar), a verba de gabinete e a remuneração representam altos valores e o vereador ainda faz Rachadinhas, que é tomar boa parte do dinheiro do “funcionário” por ele indicado.
Uma falta de vergonha! Quem faz isso deve ser sumariamente afastado para servir de exemplo e respeitar o eleitor. Numa empresa privada, principalmente, o empregado é demitido por justa causa quando comete ato semelhante, como desfalque ou roubo.
Além do mais, há muitos anos, pelo menos desde quando aqui cheguei há 35 anos, confesso que nunca presenciei uma câmara legislativa à altura do tamanho da cidade, a terceira maior da Bahia com cerca de 400 mil habitantes. Falo em termos de conteúdo e capacidade de conhecimento e saber, com poucas exceções, para representar a cidade.
Como um assunto está ligado a outro, a corrupção no Brasil é epidêmica e secular e começou do alto da pirâmide se espalhando como erva daninha por toda essa terra da Vera Cruz ou Pau Brasil. Há anos que ela está em todas as camadas, do mais pobre ao rico, e a honestidade, a seriedade e a ética se tornaram espécies em extinção.