Em certos momentos e circunstâncias da vida, geralmente existem pessoas que, levadas pela simples aparência, pensam certas coisas de você que não correspondem com a realidade. Melhor deixar que assim seja porque você pode se dar bem e ainda não cria discussão desnecessária, nem se estressa ao tentar convencer o outro do contrário.

  Neste início de semana ocorreu um fato comigo que me fez refletir sobre esta questão. Pelo semblante em que me encontrava, de uma noite não bem dormida, fui tratado como um senil, gagá, leso, caquético e em estado deplorável como se estivesse com o pé na cova.

   Acordei por volta das oito horas da manhã e me dei conta que tinha que fazer exames de sangue, urina e fezes no Laboratório Central do Hospital Esaú Matos, o que detesto por demais e acho que ninguém gosta. Meu caso é trauma psicológico mesmo.

    Sempre falo e termino não cumprindo com a intenção de que nesta idade nunca mais irei a médico justamente por causa da carretada de exames que o profissional pede. Isso me deixa mais irritado e até agrava minha saúde. Tenho que levar essa opinião ao pé da letra.

 Bem, vamos deixar de lero-lero e nos ater ao senil, leso e caquético, como assim fui considerado pelas atendentes do laboratório. Ainda bem que minha esposa me acompanhou nessa árdua empreitada e confesso que me dei bem.

  Ainda um tanto zonzo, calado e fora do planeta terra, a atendente foi logo me perguntando se já havia completado 80 anos – pelo jeito estava para mais que isso – no que balbuciei confirmando.  Foi  o bastante para ela não mais se dirigir a mim e sim à minha mulher, para a funcionária legítima cuidadora de um velho caindo aos pedaços.

 Por um motivo ou outro que não sei bem explicar, talvez estivesse meio dopado, resolvi aceitar aquela condição e fiquei quieto em minha cadeira. Naquele instante não passava de um senil, leso e caquético sem nenhuma capacidade para resolver o trâmite burocrático dos exames de saúde.

  Olhei para todos os lados e o ambiente estava lotado. A moça pegou os papéis com a “cuidadora” e foi lá dentro, logo retornando com uma ficha de especial. Pensei comigo que ia ser logo chamado e assim aconteceu.

   A partir dali, não tive mais o direito de falar porque não passava de um incapaz aos olhos das atendentes. Nunca me senti assim, mas deixei o processo fluir e até me bateu na “telha” reagir e dizer que eu ainda tinha condições de ser o “cuidador” da minha mulher, e não como estava sendo tratado.

  A recepcionista chamou a “cuidadora” para lhe acompanhar e fazer a entrega das excrecências ou excelências da minha bosta e do meu mijo. Ainda nos achamos importantes e superiores metidos a merda.

  Permaneci sentado como uma criança comportada (não existe mais isso) só observando o andar das coisas. Melhor não reclamar, senão deixaria de ser especial para entrar na fila dos normais e aí, meu camarada, ia ficar mofando por mais tempo como os outros pobres coitados sofredores da saúde! Matutei o quanto a velhice nos faz de anormais.

  Não tardou muito e de lá saiu uma certa mulher de idade coletora de sangue e me chamou para o sacrifício. Antes de me levantar da cadeira ela pediu que a “cuidadora me acompanhasse. Era uma ordem. Resolvi continuar em silêncio diante daquela cena, apenas como observador.

   – O senhor ainda pode e está apto a assinar aqui o pedido de requisição dos exames? Ela olhou para a “cuidadora” e eu balancei a cabeça que sim. Enfiou aquela agulha maldita rasgando a minha veia. Pela sua cabeça, não era mais que um senil, leso e caquético em estado terminal.

 – Quando chegar em casa a senhora (cuidadora) dá um cafezinho para ele. Para completar, fez uma série de recomendações à “cuidadora”, seguidas de orientações quanto a data de pegar os resultados e documentos exigidos para tal.

 Nessas de senil, leso e velho caquético até que levei vantagem, mesmo sem aquela malícia malandra e antiética de levar “vantagem em tudo” dando rasteiras nos outros, mas sai cafangando e esbravejando, soltando fogo pelas ventas.

  Não imaginou aquela senhora furadora de veias e sua colega que ainda estou bem ativo, trabalho cerca de 12 horas ao dia, faço meus exercícios, tomo umas geladas e quentes em finais de semana, escrevo e leio diariamente, brigo, xingo, sou ranzinza, nojento e falo alto.

Coitada da “cuidadora”! Agora vou sempre levar ela nessas ocasiões, principalmente onde o paciente tem que ir além do seu limite de paciência para não virar bicho selvagem. Como dizia, deixem que pensem que sou mesmo um senil, leso e caquético. Ainda tem gente que acha que a velhice é uma felicidade só!