Depois de tantos anos de cangaço, mais de 50, um dos maiores flagelos do Nordeste ao lado das secas, e o surgimento de Lampião, tido como invencível pelos sertanejos, muitos começaram a criar planos mirabolantes para exterminar de vez o chamado “governador do sertão.

   O banditismo dos cangaceiros se beneficiou de vários movimentos sociais, o messianismo fanático e as revoluções, para expandir suas raízes. O cangaço atravessou a passagem da Coluna Prestes, em 1926, a Revolução de 30, com a chegada de Getúlio Vargas, a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, a Intentona Comunista de 1935, até chegar ao Estado Novo de 1937, com o regime ditatorial.

  Lampião e seus bandos tiraram proveito disso quando as tropas policiais eram requisitadas para combater essas rebeliões.  As vilas e as cidades nordestinas, então, ficaram descobertas a mercê dos cangaceiros. A ausência do Estado, além da corrupção generalizada, fez com que os sertanejos passassem a admirar e a se simpatizar com Lampião, mesmo com todas suas crueldades e barbaridades.

  O “rei do cangaço” era bandido e herói ao mesmo tempo. A partir de 1930, Lampião passou a ser considerado como um “extremista perigoso” (questão de segurança nacional) e uma ameaça ao governo federal que passou a ter um poder centralizador.

OS PALNOS DESASTROSOS

   Para o seu fim, começaram a surgir planos com recompensas pela sua cabeça, como 50 contos de réis da perfumaria Lopes (Rio de Janeiro) e o mesmo valor oferecido pelo Governo da Bahia.

  Conforme relata a escritora Élise Grunspan-Jasmin, autora de “Lampião, Senhor do Sertão”, que cita o jornalista e escritor   Ranulfo Prata, uma das ideias foi a desastrosa tentativa de desarmamento de todo sertão e esvaziar as populações do campo para vilas e cidades próximas ao litoral.

   Esse plano insensato foi elaborado pela Bahia por sugestão do capitão João Miguel, comandante da repressão do cangaço, e consistia em esvaziar a caatinga e deixar Lampião sem armas e dinheiro. Mais de 10 mil pessoas foram retiradas de suas casas na base da força violenta. Uma multidão foi desalojada a coice das armas e tangida como rebanho pelas estradas poeirentas. O matuto sofreu por tempos o suplício do ócio nas cidades. Houve um êxodo rural forçado.

  Nas sugestões para capturar Lampião, um sertanejo propôs reunir em cada estado nordestino grupos de civis armados simulando roubos e assassinatos. As maldades levariam Lampião a incorporá-los ao seu grupo e estes seriam seguidos pelas forças policiais que acabariam com os cangaceiros.

 Outro sugeriu que, em troca de uma libertação condicional, se confiasse ao ex-cangaceiro Antônio Silvino, preso na Casa de Detenção de Recife, a incumbência de capturar Lampião. Ele serviria de guia para as forças de repressão.

  Um sertanejo de nome P.A. Lívio apareceu com um plano mais sofisticado. Um aparelho de reconhecimento, como um avião, faria um levantamento fotográfico dos pontos de concentração de Lampião. Depois disso, quatro aviões munidos de granadas e de gás asfixiante bombardeariam um raio de ação em círculo numa faixa de quinhentos metros. Uma quinta aeronave bombardearia a zona central das operações provocando destruição dos bandos, pois eles ficariam aprisionados no “círculo da morte”.

  O mais ousado foi do capitão Chevalier (Expedição Chevalier), do Rio de Janeiro, que demandaria muito custo ao governo federal e não foi colocado em prática, como os outros. Seriam escolhidos 900 combatentes entre um grupo de dois mil voluntários, celibatários e prontos a sofrer privações.

A Coluna seria dividida em vinte grupos, com engenheiros para a construção das pistas de pouso e técnicos munidos de rádio, além de médicos, enfermeiros, telegrafistas e oficiais bem treinados. Chevalier blefou quando disse que já teria introduzido dois espiões no grupo dos cangaceiros.

  Pela imprensa, Lampião soube desse plano e zombou do capitão, dizendo que gostaria de enfrentá-lo com seus soldados em seu próprio terreno e revidou atacando cidades do sertão. Descobriu-se depois que Chevalier era um falsário de selos fiscais e terminou sendo preso. Getúlio Vargas disse que ele queria mesmo era liquidar o tesouro nacional.

  Num artigo, o jornalista Austregésilo de Atayde ressaltou o ridículo dos métodos policiais e propôs a criação de uma polícia federal, como a que no presidente Roosevelt conseguiu organizar para suplantar os gangsteres que infernizavam os Estados Unidos nos anos de 1920. Até o ocultismo foi chamado em socorro.

O HORROR DAS DECAPITAÇÕES

  Em 28 de julho de 1938, em Angico (Sergipe), os policiais fizeram troféus macabros dos corpos mortos dos cangaceiros através da prática da decapitação de suas cabeças.

De acordo com a autora Élise, tudo leva a crer que a decapitação, a profanação de cadáveres e a exposição pública já tinham sido praticadas desde muito tempo no Brasil no momento em que o poder público estabelecido se defrontava com movimentos messiânicos que pusessem em risco sua soberania.

  Em novembro de 1695, quando acabaram com o Quilombo dos Palmares, o corpo de Zumbi foi cortado e em seguida decapitado. Sua cabeça foi objeto de exposição pública em Recife.

   Em 1792, Tiradentes foi enforcado no Rio de Janeiro e depois esquartejado e pedaços expostos nas estradas de Minas Gerais, bem como sua cabeça em Ouro Preto.

  Em setembro de 1849, o bandido Lucas da Feira, um escravo negro, foi enforcado na Praça Campo de Gado, na vila de Feira de Santana, na Bahia, com festividades para o povo. Em 1854 seu cadáver foi desenterrado e depois decapitado para que sua cabeça pudesse ser objeto de análise frenológicas por parte de Nina Rodrigues, em Salvador, na Faculdade de Medicina da Bahia.

   Em 1893, no Rio Grande do Norte, as tropas federais puseram fim à revolução liderada por Gumercindo Saraiva que Nina Rodrigues o comparou, mais tarde, aos jagunços de Antônio Conselheiro. Saraiva foi morto em 1894 e seu cadáver foi depois desenterrado para ser exposto à beira de uma estrada.

  Outros casos semelhantes ocorreram no Brasil, como em Canudos, só que alguns autores fazem uma diferenciação entre decapitação e degolamento, pratica considerada corrente entre os soldados do Rio Grande do Sul.

  Mesmo depois de morto antes do ataque final a Canudos, os soldados, que não procediam da mesma cultura nem da mesma, região, profanaram a sepultura de Antônio Conselheiro e seu cadáver foi decapitado.