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:: 17/jul/2026 . 22:57

AS CRUELDADES DE LAMPIÃO

   Sabemos que os sertanejos, os testemunhos e a imprensa do sertão e do litoral daquela época exageravam, mas os fatos de crueldades ocorreram, com requintes de barbaridade animalesca.

 Lampião tinha até seus momentos de generosidade, mas quando se tratava de vingança contra aqueles que o denunciavam, despejava toda sua raiva monstruosa. Houve tempos em que seus bandos deixaram os cabelos crescerem e por onde passavam deixavam um odor desagradável misturado com perfumes.

   Por natureza, o “rei do cangaço” já era violento, porém aumentou a partir das perseguições de José Saturnino, da ausência da justiça e quando teve quase toda sua família exterminada pelas Forças das Volantes. Primeiro foi seu irmão Livino, em 1926, depois Ezequiel, em 1934, o Antônio, sem contar seu pai José Ferreira e sua mãe por volta 1930.

Como os sertanejos em geral, movidos pelas secas inclementes, as injustiças sociais, o poderio dos coronéis, dos chefes políticos, pelo atraso e o isolamento total do país, Lampião tinha essa alma árida, carrasca, agreste, de casca dura, pedregulhosa e espinhosa como a caatinga e o chão estorricado do Nordeste.

  Em seu livro “Lampião – Senhor do Sertão”, a autora Élise Grunspan-Jasmin descreve alguns trechos horríveis dessa crueldade de Lampião contra seus próprios conterrâneos, citando, inclusive, cordelistas, jornalistas e escritores, como o Ranulfo Prata que muito fala de seus crimes repugnantes.

  Nos combates, talvez uma tática para amedrontar seus inimigos, os cabras e o bando de Lampião gritavam, xingavam e urravam como demônios, ao ponto de soldados das tropas atirarem sem ermo e outros corriam em disparada pelas caatingas e desapareciam.

  Quando esteve na Bahia, por exemplo, entre 1928 até meado dos anos 30, Lampião cometeu muitos massacres, alguns deles ficaram marcados na história, como a matança de sete soldados em Queimadas, de uma forma cruel.

   Muitos artigos e obras escritas insistem no seu desejo de reduzir suas vítimas à animalidade, ferrando o corpo dos vencidos, deixando nele a sua marca. Num capítulo da sua obra intitulado “Crime”, o sertanejo Ranulfo enumera algumas perversidades perpetradas por Lampião na Bahia e Sergipe, em cinco anos que os ocupou.

   De acordo com om autor, a singularidade de Lampião exprime pelos suplícios e sofrimentos físicos e morais, sempre atento para inventar novos requintes de crueldade. Após os saques de casas comerciais, cortava orelhas, castrava, estuprava raparigas adolescentes, contaminando-as do mal venéreo e violava mulheres casadas à vista dos maridos.

   De certa feita traçou a canivete duas longas e obliquas incisões nas costas de uma vítima que obrigou o paciente a ir para Caldas do Cipó, onde levou meses à espera de uma cicatrização custosa de se fazer. Além dele, os sertanejos também sofreram nas mãos das volantes e dos cangaceiros que o precederam.

   Ranulfo conta o caso do velho Salinas, pequeno proprietário do Sítio Almacega, situado nos arredores de Jeremoabo, na Bahia. Ele caiu na besteira de informar às volantes onde se encontrava Lampião. Sabendo da vingança, Salinas deixou todos seus bens e se escondeu na cidade.

  Em maio de 1930, Salinas resolveu voltar para sua casa, mesmo sob advertência dos amigos e parentes. Lampião esperou o momento certo e entrou em sua casa. Com ares solenes, lembrou-lhe a perfídia do seu ato, antes de infligir-lhe o castigo.

  Depois, com sangue frio e calculista, amarrou quatro dos seus cinco filhos, braço com braço, perna com perna, abatendo-os com uma bala na cabeça, exigindo que o pai visse todo suplício. Após os filhos, Lampião cortou as orelhas de Salinas, arrancou o olho direito (o seu era defeituoso), castrou-o, quebrou seus dentes e ordenou que indicasse o caminho até a casa do seu último filho.

  Após entrar na casa, Lampião abateu seu último filho com uma bala de fuzil. O pai, em seguida, foi liquidado e Lampião abriu seu peito para ver como era o coração de um traidor. Depois de tudo, partiu, deixando suas vítimas sem sepultura.

  Para Ranulfo, o cadáver de Salinas simboliza o sofrimento vivido todos os dias pelos sertanejos. Esse cadáver revela a impotência do sertanejo, sempre vítima da violência que lhe é constantemente infligida, corpo machucado, mas também corpo excluído do corpo social, corpo esquecido de todos.

  Ele diz que sua obra não representa apenas um documento fiel das atrocidades, mas é também concebida como eco do clamor e do apelo lançados pelas populações desditosas, que vivem, escorchadas sob o couro duro de suas alparcatas.

  Clamor que deseja ser ouvido pela consciência pública brasileira e apelo dirigido aos responsáveis pelos destinos do país. Em minha opinião, até hoje, este país dividido, tem uma dívida alta para com o Nordeste.

 Para Ranulfo, somos mero porta-voz da angústia de milhares de seres humildes, dos mais desgraçados do país, pés-rapados, párias, intocáveis, açoitados por mil flagelos.

  Dizem autores, escritores, jornalistas e historiadores que Lampião, em certos momentos, era dotado de uma força destruidora sobrenatural ou mesmo diabólica. O artigo do colunista Humberto de Campos, no Diário de Pernambuco, em junho de 1926, descreve o ataque à vila de Curaçá, na Bahia.

  À frente de 60 cangaceiros, ele invadiu a vila, estuprou, roubou, depredou, matou, asfixiou e fez jorrar sangue. Quinze homens tombaram. O coração de um deles foi arrancado pela garganta e levado como troféu entre gritos e urros.

 Num artigo do Diário de Pernambuco, de 5 de agosto de 1938, o ex-cangaceiro Gato Bravo relembra os suplícios infligidos por Lampião ao velho José Vieira, habitante de Serra da Furna, próxima de Santana do Ipanema. Lampião amarrou os testículos dele numa corda, passando-a numa viga e puxando-a devagarinho.

  Outra vez, em Tapera do Padre, segundo Gato Bravo, o seu chefe colocou um homem num balanço, rodando até subir muito e deixando voltar, enquanto seu pessoal dava gargalhadas. O infeliz morreu louco, caindo no chão como uma cabra.

  Uma terminologia médica definia o drama de que padecia a região. “O sertão, e por extensão o Nordeste, é visto como uma região “doente” do cangaço”. Em decorrência da ausência do Estado, a sociedade brasileira constatava que o cangaço era um mal crônico impossível de ser erradicado.





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