:: 16/jul/2026 . 23:52
A VACA BUZINA NA PORTA
(Chico Ribeiro Neto)
Tem uma vaca que passa na porta do meu prédio todo dia de manhã cedo. Seu mugido é uma buzina e em vez dos chifres o que há é um grosso para-choque de ferro.
Outro dia a vaca atrasou. Na hora certa, todo mundo de panela na mão, ela não chegava. E olhe que ela é quase tão pontual quanto a vaca natural, aquela do curral. Tinha furado um pneu e a camionete Fiat demorou para entregar o leite de porta em porta.
Em vez do galo tem uma neurotizante sirene de uma construção que me acorda às 6:45. Se não acordar, às 7 ela toca de novo, soltando aquele barulho misto de ambulância e de fábrica. Essa segunda sirene é como quem diz: “Você ainda está aí, na cama?”
Os primeiros ruídos do dia nem sempre são bem-vindos. O barulhinho das panelas e das xícaras sendo ajeitadas é auspicioso, sinal do café à vista. Já as primeiras horas da manhã lembram o ofício, pegar o carro, engarrafar, entrar em sinaleira, sair de sinaleira já com outra buzina atrás.
Quando se tem um neném, o primeiro choro do dia é bom de ser ouvido, faz a gente recuperar uma certa paz, uma ainda confiança no mundo.
Saindo do silêncio do sono, retomamos a cidade e todos os seus barulhos, e tem hora que chega a ser assustador.
Quando trabalhava no centro da cidade, gostava, às vezes, de entrar na Igreja de São Bento para respirar aquele silêncio, conversar comigo e reingressar na massa que descia a Ladeira tropeçando em camelôs e fugindo dos automóveis para desembocar na Barroquinha, um verdadeiro fervilhar de vendedores, desocupados, ocupados, passantes, apressados e aposentados.
Se fosse fim de tarde, procurava a murada da Praça Castro Alves e, depois de esgueirar-me entre os carros, conquistava finalmente uma ampla olhada sobre o mar, aliviando-me um pouco da cidade que estava às costas.
Barulho igual a um ferry-boat voltando da ilha, domingo de tarde, é difícil de achar. Parece que as pessoas acumulam barulho na tranquilidade da ilha e já vêm soltando pelo caminho. O silêncio parece incomodá-las, parece ser-lhes insuportável. Quanto mais alto os rádios dos carros, melhor. Quem conseguir escapar dos rádios dos carros cairá junto a um sambão. E assim que o ferry-boat atraca, a monumental buzinação. Depois, em casa, salvo e são.
Nossos pobres ouvidos têm resistido a tanta coisa, são matraqueados diária e insistentemente nessa cidade grande cujo medidor de decibéis já deve ter quebrado os ponteiros.
Você já teve a infeliz ideia de pedir a um motorista de táxi pra baixar o rádio? O sujeito toma aquilo como o maior desaforo do mundo e alguns chegam até a aumentar mais ainda depois do pedido. Ele se nivela ao barulho, sua frequência é lá em cima pra conseguir operar no ensurdecedor nível de todo trânsito, nível onde qualquer tentativa de diálogo soa mal.
Enfim, em casa, a solução é colocar o headphone e ouvir Vivaldi, alimentando um pouco o silêncio que vem de dentro.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 11/1/1989)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
MENOSPREZO COM O FUNDADOR
Alguém aí sabe, por acaso, me informar onde fica a Praça João Gonçalves da Costa, um negro forro vindo lá de Chaves, da província Traz os Montes, em Portugal, o fundador da Vila Imperial da Conquista que aqui chegou no “Sertão da Ressaca” no meado do século XVIII? Tenho certeza que poucos, e os conquistenses, de um modo geral, ao longo da sua história procuraram deixá-lo num canto escondido. Por qual motivo será esse menosprezo proposital? Quanto a praça, é um pequeno espaço ali nos fundos do Posto de Saúde CAAVE, uma coisa assim insignificante. Até a placa foi colocada num lugar errado, na esquina, no final da rua Senhorinha Cairo, numa pequena travessa com a rua João Pessoa. É uma pequena placa borrada apenas com o nome João Gonçalves, um sujeito qualquer. Será que esse tipo de tratamento desprezível foi porque ele veio de Portugal a mando do El Rei com a incumbência de procurar ouro e prata e aqui combateu e massacrou os índios mongoiós e Imborés, descendentes dos Pataxós e Camacãs? Lamentavelmente, poucos conhecem a história de Vitória da Conquista, sobretudo seus filhos que nasceram nesta terra do frio que muitos a apelidaram erroneamente de “Suíça Baiana”. Dia desses vi e ouvi um vídeo sobre a história de Conquista onde mostra um João Gonçalves loiro de olhos azuis, quando ele era um negro do Terço de Henrique Dias que chegou a lutar no Quilombo dos Palmares. Chegou ao Sertão da Ressaca partindo de Minas Novas, no norte de Minas Gerais. A ocupação ocorreu no contexto da expansão das bandeiras portuguesas. Bem, a história é longa e seria bom que os conquistenses estudassem mais suas origens e valorizassem mais seus fundadores. Bem que merecia ser homenageado com uma avenida e não num canto escondido de uma pracinha com uma plaquinha numa esquina qualquer, simplesmente com o nome João Gonçalves. Conquista foi desbravada com o sangue indígena, como aconteceu em muitas outras regiões pelo Brasil a fora, e o seu conquistador era um negro nomeado pelo rei. Foi uma lenda e deixou seus feitos históricos.
A BENÇÃO, MEU “VELHO CHICO”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A benção, meu “Velho Chico”!
Criatura das águas milenares,
Barrentas e canoras,
Das lavadeiras senhoras,
Da Canastra nascente,
Que deu vida e abrigo
À fauna e à flora,
A toda essa gente,
Da aurora ao poente.
Teu nome mesmo é Opará,
Grande fluente rio-mar,
Dos xokós, tuxás-hariris,
Deus salve teus ancestrais,
Tapuias e tupis-guaranis,
Guerreiros valentes e animais,
Desses vários brasis.
A benção, meu “Velho Chico”!
De alma bondosa e pura,
Que sempre destes fartura,
Ao pobre e ao rico.
Oh, senhor, majestoso do Nordeste!
Que atravessas todo este agreste,
Espalhando o fruto e a flor,
Do teu ventre o peixe a borbotar,
Perdoai todo o mal e dor,
Que te fez por dentro sangrar.
Em tuas margens,
Pelo fuzil e pelo punhal,
Foi derramado o sangue nordestino,
Entre o sertão e o litoral.
Oh, meu “Velho Chico”!
Nestes séculos de atraso,
Das secas e do cangaço,
Fostes nosso eterno pai
Das lendas e histórias,
Imortais mitos e memórias.
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