– É, meu amigo, a sua matéria até que está boa, mas está faltando conteúdo – disse o editor ou redator (copidesque) do jornal após ter corrigido o texto do repórter. Ele quis explicar com isso que a reportagem necessitava de mais dados, informações e profundidade. Poderia ser melhor trabalhada e elaborada.

  Há alguns anos, a gente costumava ouvir uma música, ir a uma exposição de artes plásticas, ler um livro e tecer uma crítica construtiva de que sentiu a falta de conteúdo naquelas obras. Quando um filme não tinha conteúdo, era porque havia deixado um vazio, e o cineasta, ou autor, teria pecado no enredo.

   Naquela época, em tudo se procurava um conteúdo, uma mensagem de aprendizagem para a vida. Poderia ser num romance, num conto, numa prosa, num poema ou qualquer outro gênero literário, inclusive como numa pesquisa sobre história. “Aquela pessoa não tem conteúdo”.

  As pessoas tinham mais conteúdo no falar e no expressar. Quem não já ouviu uma observação de alguém de que o discurso de fulano foi cheio de floreios, metáforas, linguagens rebuscadas, mas não teve conteúdo. Quando ouço que a nossa humanidade entrou em decadência, entendo que ela perdeu o conteúdo de ser humano.

  Fui ao “pai dos burros”, o velho dicionário que quase ninguém mais usa (tudo é pelo Google), especificamente o “Michaelis 2000, Moderno Dicionário da Língua Portuguesa”, e dei uma espiada na palavra conteúdo.

   Diz que é um adjetivo do latim vulgar contenutu, contido. Aquilo que está contido ou encerrado em algum recipiente. Assunto, tema, matéria de carta, livro, etc; teor, texto. No aspecto social, o mesmo que cultura. Conteúdo térmico: O mesmo que conteúdo de calor. Existem outras definições, a depender do aspecto da abordagem que é feita.

  A esta altura, muitos devem está comentando que esteja sendo antiquado, mas, na minha modesta visão, existe o “conteúdo” e o conteúdo. Aquela embalagem, ou aquela mala tem um “conteúdo” falso. Ouve-se muito essa expressão por aí. O conteúdo daquela medicação não é verdadeiro.

 Com os tempos modernos, em plena era da tecnologia da internet e agora com a IA (Inteligência Artificial), muitas coisas mudaram de sentido. Nas redes sociais, por exemplo, qualquer porcaria que se poste é chamada de conteúdo. Se você fizer uma careta é “conteúdo” com milhões de visualizações e seguidores.

  Dias desses estava vendo uma reportagem na televisão sobre uma cabra ou carneiro, chamada de Chanel, que uma senhora cria em sua casa, que é um tremendo sucesso nas postagens que faz. O tempo todo o repórter repetiu a palavra “conteúdo” de internet, referindo-se a outros vídeos, sem conteúdo.

   No fundo não deixa de ser um “conteúdo”, mas vejo o significado da palavra com um outro sentido. Em minha vida, aquela cabra domesticada deixou algum conteúdo de aprendizagem para mim? Assim são outros besteiróis que acesso por aí.

  Alguém pode até rebater que depende do ponto de vista. Isto me faz recordar de uma canção do nosso grande compositor Raul Seixas, onde em algum verso diz que “o ponto de vista é o ponto da questão”.

  Sabe de uma coisa! Acho que estou sendo um tremendo chato ficar esmiuçando esse negócio de “conteúdo”, sem conteúdo. No no mundo de hoje das artes, perdemos muito do conteúdo. A grande maioria das letras musicais são desprovidas de conteúdos.

   No entanto, se formos analisar por outro lado, todo lixo tem “conteúdo”, seja lá o que for, e são até aproveitáveis, inclusive para os famintos de ruas que não têm o que comer e encontram um resto de alimento numa lixeira.