Gosto muito dos provérbios antigos ou ditados populares, se bem que tem alguns que não concordo, como o de que “a voz do povo é a voz de Deus”. Essa não dá mesmo para engolir, principalmente se for levado em conta o lado político das eleições onde a população escolhe errado seus candidatos, na maioria atraída pelas esmolas. Onde está aí a voz de Deus?
Os nossos ancestrais tinham a sabedoria dessas expressões que serviam de aconselhamento, orientações e precauções, como a de que “boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Esta serve para os dias de hoje diante de tantas violências nas grandes cidades.
Muitos ditados têm suas origens na cultura popular religiosa e se eternizaram, como a de que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Entendo que esta tem o sentido duplo e pode ser aplicada em diversas circunstâncias da vida.
O provérbio é uma metáfora para alertar que vantagens exageradas, ou ofertas generosas, geralmente escondem segundas intenções. No âmbito religioso, a expressão baseia-se na ideia de que ninguém é extremamente bondoso de forma totalmente desinteressada.
O termo esmola evoca caridade. Santo remete ao receio de que nem mesmo as entidades sagradas cedem a graças tão fáceis sem que houvesse algum motivo por detrás. Algo oferecido sem custos aparentes costuma ter um custo oculto real.
O dizer popular é utilizado como mecanismo de defesa contra fraudes, golpes financeiros, propostas de lucros irreais ou bajulações excessivas. Fique longe do bajulador quando você está “por cima da carne seca” porque o indivíduo é falso.
O santo desconfia quando a esmola é demais porque o doador pode vir a pedir muitos favores, o possível e o impossível, ou então, a caridade fora do normal pode ser falsa e enganosa. Dizem também que “não existe almoço de graça”, e nesta eu acredito.
Nos tempos atuais, esta da esmola demais é muito utilizada pelos golpistas de plantão, e muita gente cai nela de patinho, na ambição de também tirar proveito, levar vantagem em tudo. Termina quebrando a cara. Depois de se tornar vítima do malandro, “não adianta chorar pelo leite derramado”.
Antigamente, os golpes eram analógicos, do tipo da esmola do bilhete premiado, da corrente de “ouro” falsificada bem barata e outros objetos maquiados. Os ciganos, por exemplo, pintavam os dentes dos cavalos, passavam uma escova especial, de forma que o animal ficava com uma aparência de novo e conservado.
E os vendedores de carros velhos? Ah, nestes eu me esborracheia diversas vezes! O safado – o ser humano tem a natureza de esfolar o outro para ganhar vantagens – colocava massa para tapar as ferrugens das latarias e realizava um armengue no motor.
Com aquela lábia de empurrar o automóvel por um preço mais em conta, abaixo do mercado, e dizendo que estava vendendo por aperto financeiro, eu caia na esmola. Dava uma volta com o dono e tudo indicava ser bom negócio.
Somente depois de alguns dias, o veículo começava a se desmanchar. Era aí que me dava conta de que fui um trouxa, vítima do golpista. Não tinha mais jeito. Era prejuízo na certa e arrependimento tardio.
– Quando for comprar um carro usado de muitos anos, a primeira coisa a fazer é levar ao um mecânico e a um chapista da sua confiança (coisa mais difícil de se encontrar), para fazer avaliação – dizia o dono da oficina.
Todas estas esmolas demais, visando ludibriar o outro, são aplicadas atualmente via internet, ou seja, no esquema virtual das redes sociais onde nem se ver ou se conhece o golpista que está do outro lado do balcão lhe oferecendo, aparentemente, uma graciosa vantagem.
– Você foi premiado com um carro, mas precisa passar um pix de mil reais para resolver umas pendências aqui, de ordem burocrática, coisas de umas taxas.
Tem ainda aquela onde o golpista se passa por advogado e avisa ao cliente que o processo dele foi deferido pelo juiz. Depois de anos de espera e todo encalacrado de dívidas, o falsário pega a pessoa de espírito desprevenido, sem desconfiar da esmola.
Muitos estelionatários virtuais vendem imóveis, lotes de terrenos e outros tantos bens que nem existem, e isto por preços atrativos. Por estas e outras, meu amigo, carregue sempre em seu alforje, ou em sua mente, de que quando a esmola é demais, o santo desconfia.