O DIA EM QUE O CANDOMBLÉ NÃO ENTROU NO BAHIANO
(Chico Ribeiro Neto)
“Antônio Maria foi, de longe, o maior cronista da noite. Talvez por ser o único a compreendê-la em toda a sua dimensão, a se enfronhar para valer naquele novo estilo de vida, tão intenso e diferente. Afinal, todos os infortúnios se acumulam e se liquidam nos balcões de bar e nas pistas das boates. A noite pede o ombro amigo, o conselho”.
Esse é um trecho da apresentação do livro “Vento Vadio – As crônicas de Antônio Maria” (lançado em 2021 pela editora Todavia), feita por Guilherme Tauil, responsável pela pesquisa e organização da coletânea. O livro traz 186 crônicas do pernambucano Antônio Maria em 491 páginas.
Antônio Maria foi também um grande compositor: “Manhã de Carnaval” (com Luis Bonfá), “Se eu morresse amanhã de manhã” e “Menino Grande”. Um dos seus maiores sucessos foi “Ninguém me ama”, que, segundo Guilherme Tauil, “virou o hino da fossa, solicitado em todas as boates, executado em todas as rádios.”
Antônio Maria veio para Salvador, no início de 1945, como diretor da Rádio Sociedade da Bahia, dos Diários Associados, “emissora maior e prestigiosa”, segundo Tauil.
“De início, morou numa pensão no largo Dois de Julho, próximo à sede da rádio, na rua Carlos Gomes – por onde muitas vezes foi visto andando de roupão. Reformulou toda a programação e elaborou concursos de música popular para cantores e compositores. Nomes como os dos sambistas Riachão e Batatinha, este batizado pelo próprio Maria, despontaram ali”, diz Tauil. Em 1947, ainda por aqui, passou a publicar no Diário de Notícias uma coluna sobre futebol, “O comentário de Antônio Maria”. Em abril de 1948, Antônio Maria é transferido para o Rio, para arrumar a direção artística de duas emissoras: a rádio Tupi e a Tamoio.
Guilherme Tauil selecionou cinco crônicas de Antônio Maria sobre a Bahia. Numa delas, “Um botão de rosa para Maria de São Pedro” (O Globo, 04/06/1958), ele fala de duas cozinheiras baianas, duas Marias. A primeira, “simplesmente Maria, que parava ali na varanda do Tabaris, ao lado do antigo Cine Guarani, com vista debruçada para a Barroqinha. Nosso ponto de encontro, quando deixávamos o estúdio da Rádio Sociedade e a redação do Diário de Notícias. Era 1945 e nossa alma estava repleta de sonhos – sonhos que, ao menos eu, não sonharia hoje, tão velho que estou, ao peso do desencanto. Sonhávamos o povo livre, a verdade e as virtudes dos líderes. Quando morreria o último tirano fascista?”
“Era o tabuleiro de Maria – Maria simplesmente. Gorda, de ancas sedentárias e seios maternais. Dava um tamborete, depois um prato a cada um. Deitava uma concha de camarão, outra de arroz e um ovo cozido no molho oleoso de coco e dendê. Não me lembro de comida tão gostosa em toda a minha gorda existência”.
A outra é Maria de São Pedro, no Mercado Modelo, que Antônio Maria homenageou assim, após a morte dela: “Maria fez, com o seu dendê, o que faz Caymmi em sua canção, Pancetti em sua tinta, Jorge Amado em seu romance, Marta Rocha em seus olhos azuis”.
Na crônica “Bahia, candomblés e pais de santo” (Manchete, 18/04/1953), Antônio Maria fala da sra. Berle, embaixatriz dos Estados Unidos no Brasil, que chegou a Salvador e desejava conhecer um terreiro de Candomblé. Como chovia muito nesse dia e o acesso aos principais terreiros estava difícil, ela “recolhera-se ao hotel e pedira, se possível fosse, que organizassem uma macumba completa nos salões do Bahiano de Tênis ou da Associação Atlética”.
“Esse capricho da sra. Berle feriu os brios de todos os pais de santo da Bahia, que se negaram a deixar seus terreiros e transformar sua religião em show para americano achar graça”, diz Antônio Maria e prossegue: “Também a sociedade, as famílias ‘de bem’ da Graça e da Barra, protestaram contra a possiblidade de trazer mandinga, cantoria e suor
de negro para os salões, onde os seus longos vestidos alisavam o assoalho, ao som de valsas e de blues. A visitante foi embora sem ver candomblé”.
Antônio Maria é, sem dúvida, um dos melhores cronistas do Brasil. Luis Fernando Verissimo disse sobre Maria: “Ele fazia a crônica lírica e literária dos outros, mas fazia humor superior. Como, por exemplo, aquele bilhete que deixou para o amigo em seu apartamento: “Se você me encontrar dormindo, deixe. Morto, acorde-me”. Ninguém acordou Antônio Maria na madrugada de 15 de outubro de 1964, quando, aos 43 anos, teve um infarto fulminante após trocar um cheque no restaurante Le Rond Point, em Copacabana.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
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