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O PRECONCEITO CONTRA OS “FORASTEIROS”
Não sei porque “cargas d´água” sempre confundi forasteiro com faroeste dos filmes bang-bang norte-americanos. Quando entrava um cavaleiro ou cauboy desconhecido numa cidadezinha daquelas de cenário bucólico, todos saiam nas janelas e nas portas para olhar o sujeito, e cada um fazia suas conjecturas sobre quem era, donde vinha, o que queria, se seria de paz ou mais um justiceiro pistoleiro.
Numa coisa existe relação. Quando chega alguém de outro lugar para trabalhar, colaborar, progredir, participar das atividades e começa a expressar suas opiniões e críticas visando melhorias, alguém da terra, com sua raiz preconceituosa, logo parte de lá chamando a pessoa de “forasteiro”, sem direito, e tenta excluí-lo do convívio da comunidade, muitas vezes até com ameaças de expulsão.
Interessante notar que muitos nativos nascidos no município não dão tanto valor à sua terra legítima quanto a grande maioria dos chamados “forasteiros”. Tenho observado que filhos adotivos de Conquista conhecem mais da sua história, de seus costumes, origens e hábitos do que certos conquistenses que discriminam os ditos “forasteiros. Infelizmente, isso também acontece em outras cidades.
Ao tratar dessa questão “forasteiro”, o nosso mestre professor Durval Menezes nos deu uma lição sobre o termo e lembrou de um deslize cometido pelo ex-prefeito e ex-deputado Edvaldo Flores nos anos 80, se não me engano. Como candidato ao executivo ele usou, de forma infeliz, uma frase que quase lhe tirou sua vitória.
Num comício chegou a dizer que não precisava dos votos dos “forasteiros” para ganhar as eleições, numa época em que já existiam muitos nordestinos e de outros estados brasileiros na cidade. O líder Gerson Salles, então, pediu desculpas aos “forasteiros” pelas palavras pronunciadas por Edvaldo.
Eu mesmo confesso que fui vítima desse preconceito de ser “forasteiro” quando de Salvador, como jornalista, vim para Vitória da Conquista assumir a chefia da Sucursal do jornal A Tarde. Ora, dentro da nossa profissão, um dos papeis principais é criticar e denunciar as coisas erradas dos prefeitos e das lideranças dos variados segmentos da sociedade.
Por este comportando, sempre atentando para a ética, seriedade e honestidade, fui por muitas vezes xingado e chamado de “forasteiro”, que deveria ser expulso por estar, na visão dessas pessoas, manchando a imagem da cidade. Tentaram até fazer um abaixo-assinado para me tirar daqui, sem contar as ameaças. Sempre enfrentei tudo isso de cabeça erguida, cônscio do que estava fazendo.
Enfrentei o preconceito, e a ação equivocada dessa gente me fortaleceu mais ainda a prosseguir em minha caminhada e em meu trabalho. As reações fizeram eu gostar mais ainda de Vitória da Conquista e a prestar a ela meus serviços no sentido de somar e não desagregar.
Não vou aqui expor os meus feitos porque estes devem ser julgados pelos outros, se foram de grande valia ou não para o desenvolvimento e o progresso social, político, cultural e econômico da cidade. Cabe à sociedade fazer essa avaliação, sabendo que nunca vai haver unanimidade, o que é normal, porque não tem como agradar a todos.
Só sei que me considero um conquistense (tive a honra de receber o título de cidadão e outros prêmios), mas nunca vou deixar de expor meus pontos de vista contra ou a favor quando for necessário. Em minha vida, passei por outros lugares e sempre procurei deixar minha modesta contribuição.
Como disse o nosso professor Durval, a base da economia de Conquista foi e é formada por “forasteiros”, ou migrantes, como da comunidade de São Miguel das Matas, retratada em sua obra “A República dos Miguelenses”, e de tantos outros que aqui chegaram. Quem vem morar aqui quer mais é trabalhar e produzir, gerando mais empregos, qualidade de vida e bem-estar social.
Não somente na área do comércio, como na indústria e na construção civil, grande parte desse bolo, que cria milhares de empregos, está nas mãos de empresários de fora, inclusive do sul do país. No segmento cultural, artístico e intelectual também ocorre o mesmo e temos grandes vultos que engrandeceram e engrandecem Conquista, como nosso poeta e escritor Camilo de Jesus Lima que era de Caetité.
O que seria de São Paulo, por exemplo, se não fossem as mãos calosas e fortes dos nordestinos, embora não sejam bem tratados como deveriam? É claro que existem certos tipos de “forasteiros” que são indesejáveis, mas estes não merecem ser reconhecidos, nem tampouco citados.
NA COMEMORAÇÃO DE SEUS 15 ANOS, SARAU A ESTRADA BUSCA SEU REGISTRO
Numa reunião realizada ontem à noite (dia 20/01/2025), no Espaço Cultural A Estrada, pela comissão organizadora, demos o primeiro passo para o registro definitivo do nosso “Sarau A Estrada” que agora está entrando nos seus 15 anos de existência a serem completados no próximo mês de julho.
Participaram das discussões preliminares a presidente Cleu Flor, Dal Farias, Alex Baducha, Eduardo Moraes, Karine Gris, Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves. Na ocasião, discutimos o esboço do Estatuto da Associação Artística e Cultural Sarau Estradeiros, ou Associação Cultural Estradeiros do Sarau, elaborado pelo nosso companheiro e membro Eduardo Moraes.
Entre outras coisas, ficou definido uma redação final com um preâmbulo resumido a história do sarau e como ele foi fundado há 15 anos, mantendo as normas estatutárias exigidas para seu registro em cartório, como denominação, sede, finalidades, exercício social, competências dos associados e associadas, da diretoria (mandato de dois anos), dos conselhos de administração e fiscal, das assembleias, patrimônio e disposições gerais.
Além da questão do registro, foram discutidos e apresentadas sugestões para celebramos esses 15 anos do sarau, o mais longevo de Vitória da Conquista e talvez da Bahia, como confecção de camisas com a logomarca da entidade, um possível show musical e artístico literário no Centro de Cultura, bem como a realização de um documentário mostrando toda trajetória do sarau nesse período de tempo.
Foi uma reunião proveitosa e, em breve, teremos o selo definitivo do registro oficial, com todas suas regras e leis de funcionamento, direitos e deveres dos associados, ações, planos e projetos, tornando o nosso sarau numa entidade de utilidade pública, não somente visando o benefício de seus associados como de toda comunidade, preservando sua essência do fomento cultural.
SUA HISTÓRIA
Tudo começou numa noite frienta de julho de 2010 numa roda de conversas e bate-papos entre os amigos Jeremias Macário, Manno di Souza e José Carlos D´Almeida quando pintou a ideia de reunirmos um grupo somente para ouvir vinis e tomar vinho.
Assim surgiu o grupo “Vinho Vinil” com o propósito de escutarmos somente músicas de vinis e tomarmos vinho, bem como discutirmos temas culturais e declamarmos poesias autorais. Dessa turma de fundadores, outros amigos foram se incorporando e o formato foi se modificando e se ajustando para até chegarmos ao “Sarau A Estrada”.
Em sua estrutura decidimos, democraticamente, colocar um tema para debatermos, tanto que não se abordasse questões de política partidária. O evento sempre foi realizado, em sua grande maioria, no “Espaço Cultural A Estrada”, de dois em dois meses num sábado à noite.
Temos aqueles frequentadores mais assíduos e antigos do tipo professor Itamar Aguiar, mas há uma constante renovação de pessoas. Nesse período, já passaram pelo sarau mais de 500 pessoas, entre jovens, idosos, professores, artistas, intelectuais e interessados pela cultura. O local já foi palco até de lançamento de filme, com a presença de artistas de outros estados.
Existem mais coisas para contar, mas o que fica de eterno são as trocas de ideias, de conhecimento e aprendizagem. Muitos comentam que o sarau já é de fato de utilidade pública e até foi agraciado com o troféu Glauber Rocha, concedido pelo Conselho Municipal de Cultura. Também foi realizada uma apresentação em público no Teatro Carlos Jheovah.
Para que não houvesse interrupção de suas atividades, durante a pandemia foram produzidos vídeos de textos poéticos divulgados nas redes sociais com produção do sarau, além de encontros virtuais. Outro fato importante foi a criação de um CD com músicas e declamações de poemas autorais.
O Sarau é um evento organizado para discutir cultura, temas sociais, econômicos, literários, educacionais, políticos e históricos. Funciona como um tripé, tendo como carro-chefe um tema escolhido, cantorias de viola e declamação de poemas, causos e piadas.
Durantes estes 15 anos foram inúmeros os assuntos abordados, tais como Educação, Cinema, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, Machado de Assis, os fatos revolucionários dos movimentos de 1968, na França e no mundo, Escravidão, Glauber Rocha, história e formação de Vitória da Conquista, tropeiros, o jornalismo impresso e a mídia virtual, entre tantos outros.
NUNCA QUEIRA SER O QUE NÃO É
O estelionatário, o 171, trapaceiro e vigarista que usa da sua lábia para enganar as pessoas é um criminoso contumaz. Existem aqueles que praticam falsidades ideológicas se passando e exercendo as funções de um profissional que não é, fatos que acontecem, por exemplo, nas áreas da medicina, odontologia e advocacia. O ato em si é um crime com penalidades previstas em lei.
Tem pessoas, no entanto, que agem sem nenhuma maldade, muitas vezes por querer ser o que não é, por puro desejo e admiração. São pessoas geralmente que não tiveram condições e oportunidades de realizar seu sonho, caso do nosso contínuo Damião da redação do jornal “A Tarde”, que terminou virando um folclore. Uns quando bebem ficam ricos e contam mil e umas vantagens mentirosas. São bons de imaginação. Tem gente esnobe que diz ser culta e intelectual.
De estatura baixa, de pouco estudo, Damião era uma figura simples e cômica por suas trapalhadas, trocando as bolas quando se dava uma tarefa para ele fazer. Mesmo assim, era o xodó da redação e dávamos muitas risadas com suas “artes”, mas não fazia e nem desejava mal a ninguém.
– Alô, é da redação do “A Tarde”? Aqui quem fala é o presidente da associação de ambientalistas e quero fazer uma denúncia grave de agressão ao meio-ambiente numa área de preservação.
– Pois não, sou o jornalista doutor Damião, diretor redacional, pode falar. Ele incorporava com segurança o profissional e fazia tão bem o papel ao ponto de não haver desconfiança de quem estava do outro lado.
O cara relatava a ocorrência e marcava com ele uma entrevista presencial (naquele tempo não existia internet). Agradecia a atenção e desligava o fone. O correto era que o contínuo passasse a ligação para o jornalista de plantão, o editor ou o chefe de reportagem.
– Bom dia, ou boa tarde, gostaria de falar pessoalmente com o doutor jornalista Damião sobre uma denúncia que pretendo fazer – se apresentava bem sério o cidadão ao entrar na redação do jornal.
Todo mundo caia na gargalhada, e o mais gaiato gritava lá dos fundos: Dr. Damião é aquele ali, o nosso jornalista das denúncias.
Com as matérias datilografadas nas mãos que ia levar à linotipia para serem impressas, ele saia correndo em disparada e sumia por um determinado tempo, totalmente envergonhado.
– Não, o senhor deve ter se confundido, Damião é o nosso boy e ajudante no processo de elaboração do nosso trabalho jornalístico. Eu sou o jornalista e vou lhe atender – explicava o repórter.
O moço ficava pasmo pela firmeza como foi atendido no telefone e demorava se convencer da realidade. Depois achava até graça de ter sido tão bem enganado e ter acreditado em sua postura.
Todo descabreado, após um certo tempo, Damião retornava e levava aquele “sabão” do chefe que o repreendia para ele não fazer mais aquilo. Muitos passaram a chamá-lo de jornalista. “Jornalista, leva esse material para o diagramador”.
Que nada! Demorava um pouco e olha ele lá outra vez aprontando a presepada e se passando por jornalista. Às vezes ele fazia de conta anotar as informações dos denunciantes e prometia publicar a matéria no outro dia.
Dias depois aparecia o denunciante cobrando a divulgação. Aí começava tudo de novo. Tinha colega que levava o caso para Dr, Jorge Calmon, o diretor-redator, e ele até achava engraçado, mas não demitia Damião porque ele era assim mesmo, um sonhador. Era até divertido e quebrava o clima pesado da redação.
Certa vez aconteceu uma com dona Regina Simões, a maior acionista familiar da empresa, envolvendo Damião, que claro, ela não o conhecia como o contínuo folclore e personagem memorável.
Ela estava em seu gabinete e procurou o periódico do dia em sua mesa para ver alguma coisa a respeito do mercado da Bolsa de Valores. Coisa do seu interesse capital.
Dona Regina, então, saiu no corredor e a primeira pessoa com quem topou foi com Damião com um jornal debaixo do braço. Os dois não se conheciam.
– Meu filho, me empresa aí este jornal para eu ver uma matéria, para tirar umas dúvidas, depois lhe devolvo.
– O jornal é meu e não dou a ninguém – respondeu Damião, de maneira ríspida, dando às costas à dona do jornal e foi embora descendo as escadas.
– Que rapaz desaforado – pensou consigo mesma dona Regina e foi prontamente dar queixa a Dr, Jorge Calmon. Com sua elegância aristocrata de um inglês, ele deu aquela risada marota e explicou quem era Damião. Pediu para ela esquecer aquele episódio de indelicadeza do empregado.
Em 1991 vim para Vitória da Conquista chefiar a Sucursal e nunca mais encontrei com Damião, com quem tinha bom relacionamento, falando sua própria língua.
Certa feita entrei num avião de Lisboa para Salvador e olha quem estava lá! O próprio Damião de carne e osso. Estava vindo de uma excursão religiosa de Jerusalém, em Israel. Foi divertido relembrar aquelas presepadas do nosso contínuo já aposentado.
Esse negócio de querer ser o que não é e se passar por outros não para por aí em nosso mundo de tantas histórias. Conheci o jornalista provisionado Luiz Luzi, um negro alto de cabelo crespo, de etnia angolana ou guineense, se não me engano.
Um grupo de jornalistas estava no aeroporto de Salvador esperando um embaixador africano para entrevistá-lo. Quando a aeronave aterrissou, quem primeiro desceu a escadaria foi Luiz Luzi.
Pela aparência quase idêntica e sua pose de terno e paletó, os repórteres se confundiram e foram logo abordar o falso embaixador. Luiz Luzi não contou conversa e deu uma entrevista na cara de pau. Foi aquela confusão quando apareceu o verdadeiro embaixador.
Sei de um caso de um colega, que não vou citar o nome dele, que deu autógrafos num restaurante cheio de gente, se passando pelo poeta, compositor e cantor Alceu Valença, lá do nosso Recife. Coisa de louco, meu amigo! Se quiser eu conto mais.
AS ENCHENTES E A REPETIÇÃO DE CENAS ONDE O POVO DERRAMA SUAS LÁGRIMAS
As pontes provisórias feitas de barro e paus são levadas pelas enchentes das chuvas, os morros se derretem e moradores são soterrados, as casas são invadidas pelas águas e lamas, o pessoal da defesa civil aparece para condenar habitações e barracos, os assistentes sociais surgem com planilhas nas mãos para cadastrar as vítimas, os desabrigados ocupam escolas interrompendo aulas, os prefeitos decretam calamidade pública e, por fim, a mídia entra para fazer sua média e pedir doações.
Estas cenas, como filmes velhos arranhados, são repetidas praticamente todos os anos, e o povo derrama suas lágrimas pelas perdas de seus entes queridos e bens materiais. Os governantes apenas dão umas cestas básicas e pagam alguns aluguéis temporários de moradia. Quando bate a estiagem, todos retornam aos mesmos lugares para reconstruir suas vidas e esquecem que podem viver o mesmo drama quando a próxima enchente vier.
Este roteiro de repetição é uma prova irracional e cruel de quanto os nossos governos municipal, estadual e federal são sádicos e cínicos, até corruptos, porque quase nada fazem em termos de saneamento e obras de contenção para que as cheias de riachos e rios não provoquem as mesmas tragédias e desastres, evitando, inclusive, gastos maiores. Os desabrigados sempre são levados para as escolas, cujas aulas são interrompidas em prejuízo dos alunos. Sempre prevalecem o emocional e a irracionalidade.
Um exemplo mais próximo de nós, destas cenas repetidas, aconteceu nesta semana em Itambé quando uma pesada chuva de menos de uma hora desabou sobre a cidade. Os rios Verruga e Pardo transbordaram e inundaram as mesmas ruas e bairros onde há uns dois anos, se não me engano, foram alvos das mesmas enchentes. Os próprios moradores testemunharam seus sofrimentos contínuos.
Apenas citei Itambé aqui bem perto de Vitória da Conquista como exemplo, mas as cenas trágicas que estamos acompanhando nos noticiários são repetições que ocorrem há anos em toda Bahia e em todo Brasil, como no Rio Grande do Sul, que recebeu milhões ou bilhões de reais em doações dos brasileiros e o quadro permaneceu o mesmo. Esses governos não têm o mínimo de vergonha na cara!
A impressão que se tem, e isso é um fato, é que todos gestores públicos são incompetentes, ou adotam de forma premeditada esse procedimento de repetição das cenas de calamidade porque gastando mais, existem mais chances de desvios de recursos. Os decretos de calamidade pública abrem mais espaço para os atos de corrupção. É uma malvadeza com o ser humano que vota nesses mesmos algozes.
Outra explicação seria a intenção de aproveitar mais tempo de exposição na mídia colocando seus prepostos em campo para dizer que estão “resolvendo” os problemas da população. Assim, nessas ocasiões, eles aparecem nas portas dos pobres atingidos dando entrevistas com falsas promessas de obras, e que estão ali para se solidarizar com a miséria.
O mais lógico não seria em definitivo investir mais verbas de uma só vez, no sentido de realizar obras estruturantes de contenção de encostas, abertura de canais para escoar as águas ou construir habitações populares relocando moradores das áreas de risco? A política é a de remediar, de tapar os buracos com borras de café, ao invés de gastar mais e solucionar a situação. Parece que eles se sentem bem com as catástrofes humanas!
MACHADO, UM ADULTO TRAVESSO
(Chico Ribeiro Neto)
Você já foi abordado à saída de um restaurante por um garçom que lhe pediu para abrir a pasta? E, inteiramente surpreso, descobrir que havia dois pares de talheres dentro dela? Um vexame certamente inesquecível.
Essa é uma das travessuras do jornalista Raimundo Machado, que do alto de sua barba ruiva e dos muitos quilos – reduzidos agora quase à metade graças a um violento regime – se embola de rir ao ver sua situação de pasmo diante do garçom. E ele ainda arremata para o garçom: “O senhor desculpe, é que esse rapaz é viciado em fazer isso. É até uma boa pessoa, mas não se sabe que diabo de força estranha o leva a fazer isso”.
Ele aproveita qualquer vacilo seu no restaurante, principalmente uma ida ao sanitário. É o melhor momento, e, se a pasta for grande, ele coloca, além dos talheres, saleiro e paliteiro, talvez até o cardápio. Quando você se prepara pra sair, ele diz baixinho pro garçom: “Aquele cara ali é meu amigo, mas colocou uns talheres na pasta e eu não posso admitir uma coisa dessa”.
Parece que Machado faz esse tipo de brincadeira pra se vingar do jornalista Otacílio Fonseca que, certa vez, na churrascaria “O-Tchê”, disse-lhe que colecionava cardápios e já que ele estava de paletó por que não colocar debaixo da roupa um daqueles da churrascaria, feito em legítimo couro cru? “Você põe o cardápio debaixo do paletó e me espera do outro lado da rua, enquanto pago a conta”, disse Otacílio. Lá está Machado, todo fagueiro, paletó abotoado, já do outro lado da rua, quando vê um garçom acenando:
– É comigo?
– É, sim senhor, e pode ir logo tirando o cardápio daí do paletó. (Otacílio tinha dado o serviço).
Já que falei no regime de Machado, ele e o filho Márcio, que também estava bem gordinho, entraram juntos na rigorosa dieta. Acostumados a uma dobradinha ou um prato fundo cheio de miraguaia no bar de Grande, os dois passaram a enfrentar diariamente, e só uma vez, uma folha de agrião no prato. “Coma, filho”, dizia Machado. “Não, pai, vá você primeiro”.
Resolveu fazer “cooper” e foi no Iguatemi comprar logo uma roupa de malha e um tênis alemão que Eliezer Varjão lhe recomendou, daqueles que têm até cronômetro adaptado ao tornozelo. Andou com rapidez durante quase uma hora, sentiu-se outro e aí deu uma paradinha pra respirar no Largo de Amaralina; comeu um abará e tomou duas cervejas.
Depois de dois dias seguidos fazendo a cobertura da visita de Collor e Maluf a Salvador, em campanha presidencial, sentiu-se estafado e chegou até a procurar um curso de yoga, mas aquele negócio de colocar o pé direito no joelho esquerdo quase acaba entortando tudo. Só pagou o dinheiro da matrícula e até o quimono novo, comprado em “O Gordinho Elegante”, ficou lá na academia.
Um adulto travesso, Machado é quase impossível de se ver mal humorado. Os contínuos da Redação de A Tarde pensam duas vezes antes de darem qualquer resposta a ele. Sabem que na pergunta está sempre embutida uma brincadeira e ninguém quer cair no esparro.
O paletó e a gravata do competente repórter político não dão para esconder o gozador e bom contador de piadas, principalmente em mesa de bar, arrodeado agora de curtas doses de erva-doce, já que a cerveja encontra-se banida provisoriamente. O detalhe: ele pode varar a noite, mas nunca tira o paletó nem a gravata. Ficam ali arrumadinhos, como se ainda estivessem no aeroporto esperando Maluf.
Uma semelhança com o radialista França Teixeira, principalmente por causa da barba ruiva, já lhe rendeu algumas cervejas; uma vez estava num bar com dois amigos e lá do balcão um ilustre desconhecido gritou: “Ô França, pode deixar que já tá tudo pago”.
Com Machado ao lado, num bar, é bom ficar sempre atento. Senão, ele pode dar seu telefone à mulher mais feia do recinto (acompanhado de um meloso recado) ou fazê-lo sair com talheres na pasta ou um paliteiro no bolso do paletó.
(Crônica publicada no jornal A Tarde, edição de 6/9/1989)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
EXAMES DE FEZES E URINA
– Você vai fazer exame de fezes? Quem não já ouviu essa gozação quando alguém está bem arrumada, vestida, pintada ou de terno e gravata? Não sei bem a origem ou o motivo da piada e do sacarmos, mas fazer exames de fezes e urina é um horror, principalmente quando não se tinha aqueles coletores mais práticos nas farmácias. Mesmo assim, continua uma chatice, um saco!
Para dizer a verdade, eu mesmo detesto quando vou a um clínico ou gastroenterologista e o médico pede esses tipos de testes. Sempre solicita. É constrangedor! O de sangue, nem tanto. Criei um trauma e faço tudo para não ir a estes especialistas. Aliás, já observou como os médicos hoje lhe atendem? Eles passam um olhar em você e vão logo sacando uma receita e um formulário de exames. Próximo!
Outro exame que eu quero distância é um tal de colonoscopia, um tormento que deixa suas entranhas exauridas. Tem também a endoscopia. Dizem que a medicina hoje está bem mais evoluída, mas cheia de mercenários e profissionais incompetentes. Coisas do nosso ensino! Todo jovem quer ser doutor, não por vocação. As faculdades viraram supermercados, mas isso é outra história. O assunto aqui é sobre merda e mijo.
Você conta seu problema intestinal ou estomacal e eles pedem logo esses exames. Muitas vezes, nem olha para sua cara. Antigamente, os doutores lhe examinavam todo, colocavam um aparelho em seu abdômen, lhe virava de um lado para o outro e ia certeiro no motivo do seu incômodo. Era batata! Muitas vezes era verme ou lombriga mesmo.
Quando era menino roceiro e não tinha acesso a nenhum sistema de saúde, meu pai obrigava que eu tomasse o intragável óleo de rícino, ou uma emulsão nojenta vendida até por mascate e mercearias. Quem já passou por isso sabe muito bem o que é, mas olha eu esquecendo dos exames de fezes e urina!
O de fezes é o mais complicado para recolher o material, ou o cocô. Há tempos atrás você botava um monte de merda numa vasilha qualquer e enrolava todo num papel grosso ou de jornal. Só de imaginar tirar aquilo no outro dia pela manhã me dava ressecamento ou diarreia. Ai, então, não saia nada.
Quanto a urina, o paciente, que não tem nada de paciente, mijava numa garrafa pet de refrigerante ou num frasco grande mesmo. Tinha gente da cidade e da roça que passava a noite toda fazendo xixi para encher o recipiente. Embrulhava tudo num pacote e chegava logo cedo no centro médico ou no laboratório, cada um meio descabreado, envergonhado e cismado, olhando um para o outro, para ninguém ver sua bosta e sua urina.
-Oh, cumpadi, como foi hoje sua merda? – Ah, cumpadi, só saiu um tiquim. – A minha saiu mole – dizia o companheiro ao lado ao ouvir a prosa. – Pois a minha ficou bem dura e boa. Conversa esquisita mesmo. Ficava calado só assuntando o papo.
As mulheres tinham outro particular mais complicado devido suas próprias circunstâncias diferentes na hora do recolhimento. – É cumadi, foi difícil, mas trouxe minhas coisas. Não sei se a mulher aí da clínica vai aceitar. Ninguém se atreve a mostrar o seu material. Seria até uma ofensa.
Na hora da entrega era cada um com aquele toletão e uma garrafa cheia de urina. O pior era quando depois de tanto sacrifício, a atendente dizia que o material não servia, ou não precisava de tanto. Passava aquele “sabão”. Tinha uns que mesmo tampados fediam de longe.
Atualmente já são usados coletores bem menores e apropriados, como um tubinho, em forma de seringa, para a urina. Os laboratórios estão bem mais modernizados e quase ninguém ver mais o cocô e o mijo do outro, mas que esses exames são chatos de fazer, isso sim. Não suporto. O de sangue até que gosto porque tenho aquela veia boa, bem visível, que até recebo elogios.
Essa semana fui obrigado a fazer um desses. Ainda bem que foi de urina, menos mal. Cheguei lá, entreguei ao moço do laboratório e cai fora. Antes olhei pelos lados para ver se alguém estava espiando meu xixi. Com o celular que tira foto de tudo a gente tem que ficar bem atento porque tem até paparazzi de merda e urina.
A PARANOIA DA PRESSA
Todo mundo hoje anda com pressa. Nesta semana estava comprando frutas numa quitanda ou minimercado e entrou uma mulher gritando para um funcionário de que estava com pressa. Só havia um atendente no caixa e dois clientes, incluindo eu, com pouca coisa para registrar.
A colega falou com o outro empregado que estava lá nos fundos, para largar tudo que estava fazendo e vir atender a senhora porque ela estava com pressa. Logo pensei comigo que estamos vivendo numa paranoia da pressa, mesmo com todo avanço tecnológico que veio, segundo os especialistas no assunto, para facilitar a vida das pessoas.
Essa pressa não é contraditória, tendo em vista que com a tecnologia você resolve as coisas com mais rapidez? Nesse caso, não deveria sobrar mais tempo? Só entendo que essa dita correria de que tanto falam e serve de desculpa para não se dar a devida atenção ao outro já é algo automático, maquinal e inconsciente que o ser humano botou na cabeça. Não seria o mal do século?
Outro motivo para essa paranoia da pressa só pode estar no aumento pernicioso da competição do mercado e na ganância para se ganhar mais dinheiro, visando manter cada vez mais alto seu padrão de consumo. O indivíduo fura uma fila e ainda tem a cara de pau de justificar que está com pressa.
– Porra, bicho, estou com uma pressa danada. Depois a gente se fala melhor. E lá vai o cara ou a cara que some na multidão e chega em casa estafado (a) com um nó ou grilo na cabeça. A mania agora é ouvir um áudio de celular no modo acelerado do ponto dois. Não se tem mais paciência.
Outra ilusão ou paranoia é dizer que o tempo passa mais rápido. Ouvi isso hoje da minha dentista e fiquei calado para não gastar meu tempo explicando que o tempo é o mesmo, que uma hora continua com 60 minutos, uma semana sete dias e o ano 365, que nós é que mudamos de comportamento de humano para desumano.
A paranoia da pressa deixou também as pessoas mais grosseiras, violentas e mal-educadas. Após tirar seus produtos do carrinho no estabelecimento e colocar no balcão, a senhora que estava em minha frente no caixa empurrou o carregador em minha direção que por pouco não bateu em mim. Ela também deveria estar com a paranoia da pressa.
Há cerca de pouco mais de 25 anos quando só havia telefone fixo, orelhões nas ruas à base de fichas ou cartões, com filas de espera, nada de internet, notebooks, tabletes e celulares móveis, as pessoas tinham mais paciência – até batiam um papo na rua quando encontravam com um amigo ou amiga – e pouco se queixavam da pressa.
Lembro que até o final dos anos 90 fazer jornalismo requeria um tremendo esforço desde ir até a fonte ou onde estava o fato até a elaboração da matéria numa velha máquina de datilografia ou telex.
A foto era analógica num rolo de 36 poses revelados numa câmara escura. Tudo era mais demorado, as redações eram barulhentas e, mesmo assim, não se tinha essa paranoia da pressa. A cuca era mais fresca. Entre uma coisa e outra se proseava e ainda sobrava tempo para gozações, fazer piadas e “guerrear” com pequenos rolos de papel.
OS RICOS COMEÇAM A PAGAR O PREÇO DA DESTRUIÇÃO DA NATUREZA TERRESTRE
Os primeiros a sofrerem as consequências do aquecimento global, que já bateu em nossas portas, são os pobres, os mais vulneráveis e expostos às enchentes, às altas temperaturas, às tempestades e temporais, aos ciclones e tufões com fortes e violentos ventos, às secas e terremotos, como o mais recente no Nepal.
Agora está chegando a vez dos ricos e milionários, famosos e celebridades, caso específico do grande incêndio que está devastando Los Ângeles, nos Estados Unidos, onde a fúria do fogo, com suas altas labaredas, destruiu mansões de milhões de dólares, sem falar em joias preciosas, troféus, medalhas, pias de ouro, móveis luxuosos e outros utensílios que ficaram nas cinzas e escombros.
É bom lembrar que é justamente essa gente que há anos e séculos vem destruindo o planeta terra, com suas ganâncias, avarezas, egoísmos e altos índices de consumismo. São os milionários e bilionários, inclusive os países mais desenvolvidos (Estados Unidos, China e Índia pelos seus bilhões de habitantes e parte da economia europeia) que mais poluem o meio ambiente, com seus lixos e gases tóxicos na atmosfera.
Mesmo de forma inconsciente ou consciente, por acharem que são imortais, eles não imaginavam que também seriam punidos e castigados pelas agressões contra a natureza. Agora acharam de rezar e chorar em torno de seus próprios túmulos.
No Brasil, por exemplo, as enchentes de junho e julho, no Rio Grande do Sul, não desalojaram e mataram somente pobres. Todos entraram na tragédia anunciada. Aliás, todas são anunciadas e previstas, basta observar a elevação das temperaturas nos últimos anos.
Por falar nisso, gostaria de saber por onde andam as verbas das doações que foram enviadas para socorrer as vítimas daquele estado sulista? Acho que o gato comeu porque fizeram até pontes provisórias que as águas levaram novamente, sem contar as bombas d´água que ficaram entupidas. Que eu saiba, nunca disseram quanto foi arrecadado. Indiretamente, a corrupção também está entre as causas do aquecimento global.
O que mais me espanta é que a humanidade ainda não se deu conta de que estamos vivendo em pleno aquecimento global onde a terra já entrou em ebulição com os elementos água e fogo entre os maiores demolidores e devoradores. O juízo final do cenário bíblico é isso aí que estamos vendo, mas nos recusamos aceitar.
A água que tenta apagar o fogo também faz seus estragos e deixa seu rastro de morte e destruição. Entre os dois, não se sabe qual o mais aterrorizante para os animais, incluindo os seres humanos. Qual o que causa mais aflição, agonia e medo? O fogo só poupa a água.
Os dois devem trocar farpas no quesito quem é o pior, mas o certo é que o fogo não enfrenta a água. O fogo deve dizer que possui lindas labaredas de belas imagens, mas que fiquem longe delas. A seu favor tem o calor terrível e insuportável. A água conta com a força de suas enxurradas e deslizamentos de terra.
Os ciclones e os tufões também têm seus trunfos por saírem arrastando tudo pela frente, sem dor, piedade e compaixão. E os terremotos que fazem tremer e rachar a terra, derrubando prédios e casas? São outros grandes “monstros” da natureza, como as erupções vulcânicas, decorrentes do aquecimento global em curso. Existem ainda as guerras genocidas e fraticidas por ideologias e disputas de fronteiras.
Todos são temíveis, uns menos e outros mais, como a elevação no nível do mar, só que este fenômeno oferece mais chances de sobrevivência. As secas inclementes provocam sofrimentos mais lentos e são mais carrascas dos pobres sertanejos. Elas tornam o chão árido, com a ausência de água e alimento.
Todos são “vilões” criados ao longo de séculos pelo próprio homem irracional que continua a esburacar o solo para dele extrair combustíveis fósseis e erguer altos edifícios de mais de 500 metros de altura. Até o Brasil quer ser o maioral. As cidades brigam para ter mais habitantes, como se esse quesito fosse orgulho de um povo.
São os altos níveis de consumismo dos mais abonados que jogam mais lixo na terra, rios e mares. Pior que os pobres tentam imitá-los e caem nas armadilhas. É a autodestruição e o autosuicídio desta humanidade bestial que se acha deus. Enquanto isso, o tempo infinito gira e segue em frente, sem parar, anunciando o finito humano.
Não existe mais retorno, meus amigos! Não se trata de ser pessimista e negativista. Nossa poesia, esperança e crença estão no leito de morte. A vida na terra está agonizando, e tudo isso pela violência dos brutos que não querem crer que são mortais. A ilusão nos leva à cegueira, não da visão, mas do espírito.
O VIVER É PERIGOSO
Dizem que todo nascer, natural ou artificial, ou vir à luz, como se fala no popular, é uma dádiva divina do supremo arquiteto do universo, não importa se é reencarnação ou qual seja a religião. Falam ser um privilégio. No entanto, esse viver é perigoso e, acima de tudo, uma arte superior, principalmente nos tempos atuais de uma humanidade conturbada, desumana e decadente.
Tem aquela história de que tal pessoa, fulano ou fulana, escolheu viver em perigo quando se entra no mundo da bandidagem, da contravenção, da marginalidade, do tráfico de drogas, do assalto, do roubo, dos confrontos com a polícia, mas o viver fora desse mundo também é perigoso. Temos no planeta terra cerca de oito bilhões de viveres humanos perigosos.
Até o viver em paz é perigoso e conflituoso. Não é apenas a guerra que nos deixa em agonia e aflição. O amor também é perigoso, não apenas o chamado bandido. O sorriso, o olhar, o aperto de mão também podem ser perigosos. A natureza é perigosa quando se invade seu espaço.
Não estou me referindo aqui apenas ao animal ser humano, mas sobre todas as outras coisas, incluindo a nossa fauna e a nossa flora, que vivem ameaçadas pelos desmatamentos e queimadas, sem contar o aquecimento global, consequência da própria ação destruidora humana. O viver dos bichos é também perigoso.
A vida pode até ser bela e maravilhosa, cheia de altos e baixos, angústias e prazeres, emoções e sentimentos, risos e lágrimas, amores e dissabores, encontros e desencontros, mas, antes de mais nada, o esse viver em si é perigoso, especialmente nos grandes centros urbanos porque no rural ainda oferece uma sensação de calmaria, mesmo com suas típicas dificuldades e sofrimentos.
Viver sempre foi perigoso desde o homem da caverna, do neandertal ao sapiens do sapiens. Desde a fase do crescer, a criança tem que começar a aprender a arte da sobrevivência. Talvez seja a arte das artes, a primeira e a mais difícil para se obter as outras.
Viver é perigoso e conflituoso, e cada dia você tem que ser um vencedor das frustrações, das ansiedades, dos estresses, das decepções, dos erros, dos problemas, das coisas não realizadas, dos fracassos e encarar tudo isso se quiser extrair alguma vitória, uma aqui e outra acolá, com perdas e ganhos.
O convívio um com o outro já um modo do viver perigoso conflituoso, mas ainda é a lida na rua, nas cidades grandes, nas empresas, nos escritórios, nas indústrias, nas escolas e no seu trabalho diário o mais ardiloso. Você tem que estar sempre vigilante para os golpes virtuais e presenciais e ficar atento ao transitar nesse mundaréu de carros e de multidões.
Viver é perigoso, quer queira quer não, consciente ou inconsciente, e cada um tem que aprender a driblar do seu jeito, ou dar o passe certo e receber a bola lá na frente. “Os pernas de paus” da vida não conseguem ir muito longe e podem perecer antes do tempo.
Viver é perigoso, dividido em etapas pelo tempo, o nosso rei eterno, até a velhice rumo a um fim natural que é a morte. Todos preferem que ela seja súbita e inesperada, como dizem os próprios filósofos, mas este querer nos é negado. Só os felizardos conseguem.
Diante de toda essa confusão, sempre fica aquela indagação sem explicação convincente: Qual o sentido da vida? Vale a pena o existir? Será que a resposta seja o viver perigoso e conflituoso porque é esse próprio viver perigoso o alimento vital para a alma?
AS 78 ROTAÇÕES DA MEMÓRIA
(Chico Ribeiro Neto)
A memória gira em 78 rotações e me traz muitas canções, saídas daquele imenso móvel claro chamado radiola, onde se levantava uma tampa e um prato preto rodando me transportava para outro mundo.
Quando alguém botava uma cadeira junto da radiola, eu, com uns 8 pra 9 anos, percebia que aquele ia sonhar. Estrategicamente colocada no canto da sala, ela era um autêntico refúgio, renovando a alma através da música.
Lembro-me de um tio que tinha acabado de terminar o noivado e que botava o prato preto de Maysa Matarazzo, o cotovelo sobre o móvel da radiola e a cabeça inclinada pra baixo. Entre pensativo e apaixonado, meu tio ficava lá, sem se mexer, todo o lado A e o lado B.
Os primeiros discos chegados lá em casa, ainda em 78 rotações, foram de chorinho, xote e baião. Primeiro, foram dois, depois, mais três e assim, de mês em mês, pingava sempre mais um disquinho.
A radiola – me esqueci de dizer – tinha quatro pés finos, com ponteira de metal, que lhe davam uma elegância na sala. Em cima daquelas pernas, parecia uma ave musical, sempre limpa com óleo de peroba.
Hoje, lembro-me de uma história que Fred Souza Castro conta com um jeito engraçadíssimo: o sujeito (um petroleiro) morava no IAPI e convidou uma turma para a inauguração da radiola. Teve champanhe, fita inaugural e discurso. No fim da inauguração, o petroleiro, uns cinco uísques depois, falou pra mulher: “E para o mês é o quê, nêga?” E ela, em cima da bucha: “Uma televisão”.
Os primeiros LPs foram recebidos com festa. Como é que cabia tanta música naquele prato só um pouco maior do que o de 78? E aí apareceu uma brincadeira interessante, mas só quando minha mãe não estava perto: colocar um LP em 78 rotações e morrer de rir com o som de 33 rotações totalmente distorcido.
“Feito para Dançar”, “Uma Noite no Arpége”, com a orquestra de Waldir Calmon – Antonio Matos me disse, outro dia, que comprou uma regravação – eram LPs que animavam muito. Foi com eles e com minhas primas de Jequié que ensaiei os primeiros passos, o coração batendo e, de vez em quando, pisando no dedão de uma.
Você já foi em festa de radiola? Era interessante, no Clube Comercial, na Avenida Sete. Ficava aquele mundão de disco, um em cima do outro, e a expectativa era o que vai tocar agora, enquanto aquela moça não olha e a timidez quase apavora.
Em festas lá na rua, pintava sempre aquela pequena radiola Philips portátil, uma em que a própria tampa era a caixa de som. O som era terrível, pior ainda quando a pilha estava fraca, mas o que valia era a novidade. Nossos olhos namoravam também aquela caixinha pequena, de onde vinha a música e que, na hora de ir embora, era só botar embaixo do braço. Era fácil ligar e desligar: o braço pra lá e esperar fazer “traque”. Hora de ir, precisava contar os discos, sempre ficavam alguns emprestados, outro dia ainda danço de novo “Michele” com ela, “ma belle”.
Uma vez, um disco 78 quebrou lá em casa, e minha mãe juntou os pedaços pra jogar no lixo quando a empregada interveio: “Não jogue fora, não, dona Cleonice, que eu quero aprender a letra.” Caso apurado, ela pensava que a letra vinha escrita no disco. Era só colar os cacos e ler.
O compacto simples vinha primeiro, trazendo o grande sucesso da cantora. Depois vinha o LP, trazendo o sucesso e mais – vejam como toca! – umas 11 músicas. Entre uma e outra, uma enorme faixa, que dava para ouvir o chiado da agulha. Era botar um LP e fechar os olhos, navegar naquelas ondas até receber o tapinha nos ombros: “Já fez o dever?”
(Crônica publicada no jornal A Tarde, edição de 19/04/1989)










