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ELIZÉRIO DA PRAIA DO UNHÃO
(Chico Ribeiro Neto)
Encontro um velho amigo da turma dos Aflitos, que lembra logo dos “babas” no largo, da Praia do Unhão e de muitos que se reuniam à noite na esquina da rua Tuiuti com a rua Gabriel Soares, antes da TV chegar a Salvador.
“Cadê Bandeira, Delmar, Paulo Satanás, Habib, Vilela, Banha, Manteiga e Linhaça, Atum, Tristeza, Mondrongo, Pé de Valsa, Bico de Anum, Leonam e Gaguinho?”
Ele me falou de muito mais gente, e o pior é que eu não lembrava o nome dele. Por último, uma pergunta que me fez reviver muita coisa:
“E Eliziário? Você lembra de Eliziário?”
O velho Eliziário morava numa cabanazinha no meio da encosta da Praia do Unhão. Tinha somente a roupa do corpo, comia peixe cru e nadava muito todo dia. Quando eu ia “dar um fora” (era nadar até mais longe, lá de onde se avistava o Elevador Lacerda), muitas vezes via Eliziário boiando, com sua barba branca, olhando de longe para os banhistas, que certamente deveriam pertencer a uma outra tribo. Eliziário, com certeza, deve ter sido o primeiro hippie da Bahia.
Quando começava o “baba” na praia, Eliziário ficava de cócoras, no meio da encosta e na porta do barraco, espiando atento. Não torcia pra ninguém, apreciava aquele jogo de pernas e a bola correndo. Às vezes até devolvia a bola quando caía perto dele. Falava pouco ou quase nada.
Uma vez, com alguns amigos, tentei chegar perto da cabana de Eliziário. Ele estava na porta, olhando mais uma vez para o mar do Unhão, que ia bater em Mar Grande, mas quando viu que a gente se aproximava, entrou rapidamente na choupana, tão rápido como o bicho do búzio. Ele não jogava pedra em ninguém. Pelo contrário: alguns meninos abusados é que jogavam pedra nele. Se o aborrecessem muito, caía n’água e nadava pra bem longe, até que o esquecessem. Saía da água com a velha calça comprida amarrada de cordão. Esfalfado, comia uma pinaúna crua ou um peixinho garrião que pegava de mão no canto da loca.
Às vezes, a gente estava nadando ou boiando e de repente irrompia aquela cabeça de velho com cara de menino. Eliziário mergulhava muito e aparecia onde ninguém esperava. Não sei se ele morreu ou deu um mergulho mais profundo. Ou até, quem sabe, continua a sorrir pras estrelas, com seu jeito de quem nunca ligou pra esse mundo.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 24/3/1993)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
A INVASÃO DE PORTO DE GALINHAS
Carlos González – jornalista
Depois de quatro viagens este ano aos Estados Unidos, uma delas na companhia de sua madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) acionou uma “bomba”, ao anunciar um pedido de licença do mandato – pelo regimento da Câmara ele poderá se afastar, no máximo, por quatro meses – permanecendo, “por tempo indeterminado”, entre os ianques. Como declarou, vai usar esse período para trabalhar, ao lado da extrema direita norte-americana, sob a orientação do presidente Donald Trump, pela queda de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o inimigo nº 1 dos golpistas brasileiros. A “operação ´punitiva” deverá se estender aos outros poderes, concluindo o que começou em 8 de janeiro de 2023;
Numa linguagem fantasiosa, carregada de mentiras, uma doença crônica do bolsonarismo, Eduardo gravou um vídeo, infantil e incoerente, revelando que existe um plano, arquitetado por Moraes, para matar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, ou colocá-lo em prisão perpétua. “Acredito que nunca mais verei meu pai”, exagerou, sendo desmentido pela Procuradoria Geral da República (PGR), mostrando que o ex-capitão circula livremente pelo país. O esvaziado comício de domingo (dia 16), em Copacabana, atesta a verdade dos fatos.
Num país onde o povo deixou de sorrir, salvo em Salvador, onde se pula carnaval o ano todo, usarei também da fantasia para contar como se dará a intervenção dos Estados Unidos no Brasil. Anteontem (dia 17), aqui mesmo neste espaço, meu colega e amigo, o jornalista e escritor Jeremias Macário, usou sua veia humorística para recordar a fuga de D. João VI e da Corte portuguesa para o Brasil, assim que foi anunciado que o imperador francês Napoleão Bonaparte, montado em seu cavalo branco, já se encontrava a caminho de Lisboa.
“Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil”, filme de 1995, dirigido pela atriz e cineasta Carla Camurati, desvenda jocosamente o embarque às pressas do devorador de coxinhas de galinha, o rei D. João VI (interpretado pelo ator Marco Nanini), e a burguesia lusa, superlotando as embarcações. No momento em que as âncoras eram içadas chegaram mais caronas, os vereadores lisboetas, que aqui no Brasil proliferaram como os piolhos que vieram na expedição de 52 dias, obrigando a realeza a raspar as cabeças. Sem saber o que estava acontecendo, a plebe ficou em terra, travando, dias depois, a Guerra das Laranjas contra o forte exército francês.
Voltando aos dias atuais, criativos membros do governo de Lula imaginam que Eduardo vai assessorar Trump num plano de invadir o Brasil. Mais uma vez a Central Intelligence Agency (CIA) executaria como estratégia o fracassado desembarque na Baía dos Porcos, em Cuba, ocorrido em abril de 1961. Autorizada pelo presidente Dwight Eisenhower e executada pelo seu sucessor John Kennedy , La Batalla de Girón tinha como finalidade retomar o governo de Cuba, devolvendo aos milionários anticastristas as mansões na belíssima Praia de Varadero. Quase 300 mil exilados cubanos participaram dos treinamentos dados pela CIA, na certeza de que teriam o apoio da aviação dos EUA. Mas, na hora “H”, os caças não apareceram. Sem cobertura aérea, o exército de exilados foi dizimado pelas tropas de Fidel Castro.
Temperando as histórias ficcionistas dos petistas, imaginemos que passe em suas cabeças um enorme grupamento de brasileiros, exilados em Miami e outras cidades norte-americanas, desembarcando na praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco, próxima ao Cabo de Santa Maria de la Consolatión, atual Cabo de Santo Agostinha, descoberto pelo navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, três meses antes de Pedro Álvares Cabral aportar no sul da Bahia. O desfecho da operação bélica fica ao critério de cada leitor.
Vale ressaltar que há possibilidade de uma marcha de religiosos fundamentalistas, empunhando suas bíblias, se dirigir ao Dique do Tororó, para destruir com bombas, as imagens dos orixás cultuados pelos seguidores das religiões originárias dos povos africanos, e admirados pelos turistas que vêm a Salvador. Em 1986, a revista “Veja” denunciou, após ouvir o então capitão Bolsonaro, um plano para romper a adutora que fornece água ao Rio de Janeiro. Seus autores estavam inconformados com o fim da ditadura militar.
A BRUXA ESTÁ SOLTA NO AR
Em toda a minha vida, que eu me lembre, nunca vi tantos acidentes no ar e em terra de helicópteros e aviões de pequeno e grande porte. A impressão é que a bruxa está solta no ar, ou seria mais algum fenômeno das mudanças climáticas do aquecimento global? Ainda ontem o avião do presidente teve que arremessar.
Se já tinha, agora tenho mais “medo de avião”, segurando sua mão, como escreveu o poeta cancioneiro nordestino Belchior. Não sou especialista no assunto, mas algo está acontecendo de anormal.
Entendo que a melhor explicação vem da redução de custos das empresas de aviação no que pese à manutenção de suas aeronaves e diminuição no contingente de seus pilotos, forçando o excesso de trabalho daqueles que estão na atividade. Bate o estresse por carga demasiada de serviço.
Outra questão para tantos acidentes – dizem que o avião é o meio de transporte mais seguro do mundo – é o confuso controle do espaço aéreo, também excesso de trabalho dos técnicos e, no caso específico do Brasil, a má gestão da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) que relaxa no quesito da inspeção mais rígida sobre as empresas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, recentemente um helicóptero do exército se chocou com um avião comercial. Em outros países também vem ocorrendo acidentes graves com centenas de mortes. Entrar num avião hoje já é motivo de pânico. Eu mesmo, confesso que se for obrigado a fazer uma viagem, vou entrar com as pernas bambas, calafrios na barriga e arritmias no coração.
Então, o problema não está somente no Brasil, um país onde a estrutura e infraestrutura dos portos, aeroportos e transportes terrestres deixam muito a desejar porque aqui temos a cultura do se fazer vistas grossas para os erros, sem contar aquele tal jeitinho brasileiro do suborno.
Não nego que sempre tive medo de avião por causa das alturas, mas já rodei quase todo Brasil pelo ar e atravessei o Atlântico por duas vezes. Na primeira foi em 1982 para Alemanha. Meu maior sufoco – parecia que o coração ia pular fora – foi de Munique para Berlim nos tempos da Guerra Fria.
Como a aeronave era obrigada a voar baixo para não ser abatida pelas forças dos Estados Unidos, França e Inglaterra, o troço balançava e se jogava de um lado para o outro mais que montanha russa. O silêncio era total e bateu o medo de morrer em todos passageiros. A maioria pegava na mão do outro. Olhava para os Alpes e pensava que iria ficar enterrado ali naquela geleira.
Quando menino, meus primeiros meios de transporte eram os pés (longas caminhas da roça para Piritiba), jumento, a carroça, o trem e o carro-de-boi. Eram os mais seguros de todos, se bem que nos tempos atuais ser pedestre é um risco nas grandes cidades. O trem, vez por outra, descarrilhava.
Inventaram os carros e depois o avião, o mais “assombroso” por causa das alturas em temperaturas congelantes e da alta velocidade. O japonês criou o trem bala deslizando ou levitando em trilhos modernos e elétricos, controlado por painéis sofisticados de última geração, talvez o mais seguro.
A população cresceu (são mais de sete bilhões de almas) e junto com ela a demanda. Era lógico que os acidentes iam aumentar, inclusive os terrestres que ainda mais matam pela imprudência e falha humana.
Temos mais aviões cruzando os céus e agora estão construindo uns tipos de drones voadores chamados de taxis aéreos ou aplicativos de Uber. Aliado aos fatores já mencionados acima, pode ser também um motivo para tantos acidentes fatais. A tecnologia avançada hoje mata muito mais do que antes quando ela não existia. Até celulares explodem em nossas mãos.
A HISTÓRIA COMO ELA É
Meu alô para o grande cronista Nelson Rodrigues, com “A Vida Como Ela É! ” Vou contar um pouco da nossa história do Brasil como ela é, parodiando o escritor, que até pode ser adotada nas escolas públicas e privadas.
Tudo começou com Pedro Alves Cabral que, na verdade, tinha o nome de Pedro Álvares Gouveia se tivesse pego uma parte do sobrenome da sua mãe. Nasceu em Belmonte (Portugal) por volta de 1467/68 e morreu em Santarém, em 1520.
Era um grande navegador, mas estava lá desempregado. Passava maior parte do seu tempo pescando e jogando conversa fora pelos botequins da vida. Contam até que era um tremendo cachacista inveterado.
Em seu esplendor vivia o rei D. Manuel I em seu palácio desfrutando do bom e do melhor, mas estava acossado pelos espanhóis que já haviam conquistado as Américas e suas terras só cresciam. Na época o rei venturoso perseguia, implacavelmente, os judeus e os muçulmanos.
Foi aí, então, que ele resolveu se reunir com seus oficiais e mandar chamar o Cabral que era um cabra corajoso. Apontou para o mapa e prometeu constituir uma armada. Quero que você desembarque neste ponto – marcou com seu dedo.
Vou alardear por aí que você está indo para a Índia para driblar os espanhóis. Soube que um tal de Vicente Yanez Pinzon esteve por lá, mas não tomou posse daquele lote cheio de riquezas – falou com tom de raiva. Não houve vazamento na operação secreta.
Cabral olhou e exigiu homens valentes, de preferência malfeitores, degredados, gente ruim mesmo. O rei alertou que ele ia ter problemas na longa viagem, com brigas e até assassinatos. Sem problemas, mando quebrar todos insubordinados na porrada e no cacete – respondeu o navegador. D. Manuel, que reinou de 1495 até 1521, no lugar de D. João III, ainda deu de quebra uns judeus para ele.
Assim ele fez e partiu do Rio Tejo, em oito de março de 1500, chegando ao Pindorama – Terras das Palmeiras pelos índios, em 22 de abril e avistou um monte do qual deu o nome de Pascal por ser período da páscoa. Sem essa de ter se perdido pelas correntes e ter sido empurrado pela calmaria do mar. Não foi por acaso.
De início, sem a noção do seu tamanho continental, sua comitiva deu o nome de Ilha de Vera Cruz, em homenagem às lascas da cruz onde Cristo foi crucificado. Outra lorota.
No entanto, antes de Brasil, aqui foi chamado de Terra Nova e Terra dos Papagaios. Até hoje somos papagaios na habilidade de imitar as culturas e costumes de outros países. Primeiro foi a França e depois os Estados Unidos.
Com Cabral vieram 13 embarcações (número do azar) ou caravelas. Com ele tinha um escrivão por nome de Pero Vaz Caminha que contou um bando de mentiras para agradar o rei. Enterraram dois degredados na praia e Caminha escreveu que a terra era tão fértil que aqui plantando, tudo dá.
Para enganar os nativos, o comandante, já prevenido, deu um monte de presentinhos fajutos e sapecou o ferro nas índias transmitindo suas doenças venéreas e um bocado de outros vírus. Por aqui ficou 13 dias, levando cargas de pau brasil. Daqui ele seguiu sua jornada até a Índia.
Essa foi a primeira etapa da invasão exploratória quando esta terra começou a ser infestada de transgressores, trambiqueiros, trapaceiros e corruptos. A intenção era só roubar tudo que tinha aqui para dar uma boa vida de farras e bacanais às cortes portuguesas, até que um dia o reino entrou em falência.
Bem, vieram outras expedições ao longo de mais de 300 anos e as terras foram divididas em sesmarias e capitanias hereditárias para os amigos do rei fazerem o que bem queriam.
Logo no início trouxeram para aqui cerca de seis milhões de escravos africanos, dos quais, milhares foram mortos e massacrados cruelmente. Até hoje o Brasil carrega essa mancha vergonhosa em sua história.
A Igreja Católica, através dos jesuítas, também criou olho grande e mandou seus missionários para catequizar mais fieis para sua instituição, com o argumento, e em nome de Deus, de que os índios eram pagãos e iam todos para o inferno quando morressem.
Para tomar oficialmente posse da terra, o D. João III, se não me engano, enviou seu primeiro governador chamado de Tomé de Souza, por volta de 1549. Mais uma vez, os navios vieram lotados de ladrões e assim nasceu a corrupção, inaugurado pelo primeiro procurador geral.
O tempo passou. Aconteceram insurreições, rebeliões, revoltas, movimentos populares, muitos pela independência e outros não. A maioria tinha o cunho de revolta mesmo pela exploração das nossas riquezas e pela opressão, principalmente praticada contra os mais pobres.
Com a corrupção nasceu a desigualdade social que persiste até hoje. No final do caminho até o grito de independência, em 1822, passou por aqui um gorducho barrigudo que ocupava a maior parte do seu tempo comendo coxas e asas de frango.
Se lambuzava todo. Sua mãe Maria era uma louca e sua mulher Leopoldina uma depravada. Seu filho D. Pedro, um tarado por mulheres. Comia tudo que vinha pela frente e se misturava aos ciganos nas festas.
Seu nome era D. João VI, que chegou ao Rio de Janeiro em 1808, com mais de 10 mil picaretas que tomaram as casas dos brasileiros. Ele veio de Portugal a ponta pés, fugido de Napoleão. Por pouco não foi pego com as calças na mão.
Foi aí, meu amigo, que a putaria aumentou mais ainda. As repartições públicas eram cheias de ladrões que passavam a mão grande nos cidadãos. Era ladroagem para tudo que era lado. O D. João nem está aí!
A malandragem corria solta e assim foi passando de pai para filho até hoje. São 525 anos e o Brasil continua um país de terceiro mundo. Tem muito mais história como ela é.
FARMÁCIAS E POSTOS DE COMBUSTÍVEIS
Uma coisa estranha vem acontecendo no comércio de Vitória da Conquista nos últimos dois anos para cá, ao ponto de muita gente comentar e fazer suas especulações, como os membros do grupo “Estradeiros da Cultura”. Como eu, cada um faz a sua interrogação sobre esse fenômeno anormal na economia local. Seria lavagem de dinheiro? É o que muitos perguntam e ficam sem uma resposta.
Estamos falando do surgimento, do grande boom de instalações de farmácias e postos de combustíveis na cidade. O mais esquisito é que muitos desses estabelecimentos estão praticamente colados um ao outro. No centro e nas grandes avenidas, em cada esquina se encontra uma unidade farmacêutica e de combustível.
Quanto ao investimento em farmácias nos últimos anos mais recentes, um amigo chegou a me dizer que a impressão é que Conquista é a cidade de mais doente da Bahia. Só para se ter um exemplo, na Avenida Juracy Magalhães, num determinado local, existem três farmácias vizinhas, cada uma de frente para outra, de marcas diferentes.
Está certo que é uma saída para Itambé e estão mais próximas do Hospital Regional, mas não deixa de ser um exagero. Só nesta avenida são cinco ou seis e mais duas farmácias na Filipinas que fica nas proximidades da Juracy Magalhães.
Não dá para entender de tantas farmácias juntas num mesmo local porque no centro existem dezenas delas e a grande maioria das pessoas de fora adquire seus medicamentos ali mesmo. O cliente não vai se deslocar para outros pontos mais distantes.
A grande construção de postos de combustíveis é outro ramo que tem chamado a atenção dos conquistenses e visitantes. Cada semana aparece um em cada esquina. É uma coisa de louco! Está mais para galinha de ovos de ouro.
A respeito desse seguimento da economia, todos estão carecas de saber que existe uma máfia no cartel de preços. As autoridades incompetentes municipal, estadual e federal não conseguem quebrar sua espinha dorsal. A própria Câmara de Vereadores abriu uma comissão investigativa e terminou dando em nada. Sempre quem paga o pato é o consumidor.
O custo da gasolina, por exemplo, em Conquista, é o maior da Bahia e não tem explicação porque os distribuidores pegam o produto em Jequié a uma distância de apenas 150 quilômetros. O rente é bem mais baixo.
Digo isso porque sempre estou indo a Juazeiro, distante 800 quilômetros, e lá o preço é igual ao daqui, sendo que o combustível vem de Mataripe, distante mais de 500 quilômetros. Portanto, existe um paradoxo matemático nessa cobrança tabelada pelos empresários locais.
Não adianta sair por aí fazendo uma pesquisa porque a diferença de um ou dois centavos de um posto para o outro não compensa. Por que a gasolina nas imediações da Lagoa das Flores, na saída para o Rio de Janeiro e até mesmo em Anagé é mais barata do que dentro de Conquista? O caminhoneiro não abastece na Bahia e muito menos na região de Conquista.
Está claro que existe um cartel, mas a Justiça faz vistas grossas. Em Juazeiro também ocorre o mesmo e afirmo isso porque um dono amigo meu de um posto, distante 60 quilômetros daquela cidade, me confessou que foi pressionado e até ameaçado a aumentar a sua tabela de combustíveis.
A respeito do surgimento de tantos postos em Conquista, tudo nos leva a crer que seja o setor econômico mais rentável. Para o empresário que investe nessa atividade, o combustível é o tipo de negócio mais seguro e lucrativo. No caso das farmácias, paira uma dúvida no que se refere à questão de alta rentabilidade.
DIA MUNICIPAL DA CULTURA
Poucos têm conhecimento, inclusive as instituições e a mídia em geral, que todo 14 de março do ano é o Dia Municipal da Cultura de Vitoria da Conquista, instituído pela lei número 1.367/2006, e assinada pelo então prefeito José Raimundo Fontes. Como está a nossa cultura, nada a comemorar.
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, com base na lei, concede medalha de Mérito Glauber Rocha a homenageados indicados pelo Conselho Municipal de Cultura, em sessão solene marcada pela Mesa Diretora. Na ocasião, a data é comemorada pelos parlamentares, artistas e pela plenária. Nem isso está acontecendo na data.
Nas homenagens ao Dia Municipal da Cultura, é bom que se faça uma reflexão sobre o que é cultura, principalmente nesses tempos tão difíceis no âmbito municipal onde a nossa cultura não tem o lugar de destaque que merece pelo poder executivo. Estamos destruindo o que ainda resta. Outra indagação a ser feita é sobre como vai nossa cultura em Vitória da Conquista e o que se pode fazer para melhorar?
Nesta data, temos apenas uma certeza de que o setor está abandonado e somente um grupo de abnegados tem se mantido na linha de frente para ressuscitar a nossa cultura que praticamente foi sepultada. O que se tem feito ainda deixa muito a desejar, especialmente em relação a Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com quase 400 mil habitantes, que já foi celeiro de grandes artistas e pensadores. Existem grandes talentos, mas as nossas expressões artísticas não têm recebido o apoio merecido dos poderes públicos.
Os recursos têm sido escassos, e os governantes, infelizmente, colocam cultura apenas como um jarro de decoração em suas mesas. Talvez entendam que não rende voto e alocam poucas verbas para o setor. Os artistas em geral vivem a mendigar para realizar seus projetos.
Temos muita luta pela frente para que Conquista volte à sua efervescência cultural dos anos 50, 60 e 70. Gostaria de lembra aqui que o Conselho Municipal de Cultura anterior (2021/23) empreendeu uma grande luta no sentido de criar o Plano Municipal de Cultura e instituir a Fundação Cultural. Esse Plano iria ditar as diretrizes políticas para resgatar a nossa cultura. Mais uma vez, o projeto foi emperrado pelo poder executivo que não deu o suporte necessário para sua concretização.
Neste dia não temos muito a comemorar, só a lamentar, tendo em vista que há anos três equipamentos culturais – o Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha – continuam fechados e sem data para serem reabertos. Com isso, os artistas conquistenses, abrangendo todas as linguagens, estão sem espaço para realizar seus ensaios e apresentações de seus trabalhos, prejudicando, sobretudo, o teatro, a literatura, a dança e a música.
DIA DA POESIA
O dia 14 de março é comemorativo ao nascimento do cineasta Glauber Rocha e lembra também o nascimento de poeta Castro Alves, há 177 anos. Por isso, o 14 de março é também o Dia da Poesia, uma linguagem que é fonte de vida, mas desprezada, especialmente pelos nossos jovens em geral.
Como todos sabem, Castro Alves dedicou suas poesias às questões sociais e foi um grande defensor da libertação dos escravos. Um abolicionista que abriu portas para outros intelectuais lutarem pelo fim da escravidão no Brasil.
OS TRÊS MAIORES CANCROS DO BRASIL
As elites financistas (banqueiros), os empresários do agronegócio e o Congresso Nacional são os três maiores cancros e sanguessugas do Brasil. Estas categorias juntas são as maiores culpadas pelo profundo índice de desigualdade humana e dominam todas as decisões do país, além de controlar nos bastidores os presidentes da República.
Estas classes egoístas agem como se fossem antigos coronéis e impedem que haja uma distribuição de renda entre os brasileiros porque elas só pensam em si mesmas, em cada vez mais se enriquecer e encher seus bolsos de dinheiro. Poucos ligam para o povo que é tratado como marionete ou joguete em suas mãos.
Infelizmente, estes cancros a que me refiro, simbolizam o atraso do Brasil desde os tempos coloniais. São eles, na verdade, os três maiores poderes que colocam e tiram governos quando bem entendem. Em nosso sistema presidencialista falso, o presidente apenas faz de conta que governa, e a população é usada como bucha de canhão.
Os financistas banqueiros batem o recorde na exploração monetária, com juros estratosféricos nos empréstimos pessoais, nos cartões de crédito, nos cheques especiais, para as pequenas empresas e outras tantas linhas. Tem um ditado que diz que banqueiro não tem coração, tem cofre.
Além desse lado maléfico, nos últimos anos essa turma massacrou os sindicatos e fechou diversas agências pelo país a fora, para reduzir custos, principalmente os bancos oficiais. Seus lucros trimestrais e anuais são exorbitantes para um país tão pobre e faminto.
Por falar em agências, por exemplo, aqui em Vitória da Conquista, uma cidade de cerca de 400 mil habitantes, só existem duas unidades do Banco do Brasil, uma no centro e outra na Avenida Olívia Flores. Os bancos em geral, tanto privados como públicos, demitiram milhares de empregados e sufocaram os clientes nas enormes filas como se fossem gado em currais, com uma péssima prestação de serviços.
Os banqueiros sempre navegaram em mar de calmaria e voaram em céu de brigadeiro. Eles tiram dos pobres para emprestar dinheiro subsidiado para os ricos, os quais desviam recursos para outras finalidades e depois não pagam suas dívidas ou são postergadas para 10 e 20 anos. Muitos deles, com seus advogados caros, são até anistiados.
Quando alguma instituição dessa entra em falência, como já ocorreram vários casos, aparece o governo federal para socorrê-la, sob o argumento de que pode quebrar todo mercado financeiro. A quem pertence o dinheiro do Tesouro Nacional? É claro que é do contribuinte, especialmente do trabalhador que mais paga imposto neste país, com suor e lágrimas.
Outro cancro que não quer ver o pobre melhorar de vida é o grande agronegócio do campo, sobretudo o de grãos e o da pecuária bovina. Além de muitos desmatarem nossas florestas, estes empresários só produzem visando o mercado externo, para ganhar em dólar. A colheita de grãos vai ser a maior da história, com mais de 300 milhões de toneladas, mas os preços de suas commodities e seus derivados estão nas alturas. Não é um paradoxo?
É uma tremenda mentira, uma fake news, quando eles abrem a boca e afirmam que são responsáveis por colocar a comida na mesa dos brasileiros. Quem nos alimenta, na realidade, é a agricultura familiar que recebe pouca ajuda financeira e assistência técnica do governo federal.
Os fatos não mentem. Basta citarmos o encarecimento da carne e do café para o consumidor. Os cafeicultores e pecuaristas ditam seus preços de acordo com a cotação do mercado externo. Com o mesmo preço, comparado com o exterior, eles mandam o produto de qualidade para outros países e vendem o ordinário para nós.
Aqui mesmo em Vitória da Conquista temos um caso absurdo e aberrante. A Cooperativa Mista Agropecuária-Coopmac, composta de produtores que sempre choram de barriga cheia, só realiza a exposição se entrar grana dos governos municipal, estadual e federal. Para fazer a média, abre os portões ao público, e esta mídia burguesa ainda propala que a entrada é grátis. Outra deslavada mentira. São milhões que esse pessoal ganha em leilões e negócios.
Foi só o governo decretar isenção de impostos para determinados alimentos que eles entraram em cena para protestar, com a cobertura da grande imprensa, que é outro cancro. Disseram que o governo tem que robustecer mais o setor para eles produzirem mais, ou seja, querem mais verbas subsidiadas.
O Congresso Nacional, um dos mais caros do mundo, apenas atrás dos Estados Unidos, com sua grande maioria de conservadores e gente que trata a coisa pública como privada, rouba, corrompe e desvia recursos, é composto em suas bancadas justamente pelo agronegócio, banqueiros e evangélicos. Não existe uma bancada do povo. Alardeiam cinicamente que nos representa. É outra grande mentira do faz de conta. Deputados e senadores legislam de costas para a população. Tem emendas parlamentares ocultas para seus amigos ocultos.
Não passamos de plebeus escravizados metidos a bestas, achando que o poder está sob o nosso domínio. Nem estou aqui falando de assembleias estaduais e câmaras municipais. São eles que provocam as intrigas mais sórdidas para que uns odeiem os outros e sejam intolerantes entre si.
O pior de tudo é que entramos nessa como inocentes úteis, peças dessa engrenagem, para o fortalecimento, cada vez maior, de seus grupos. Não passamos de sacos de pancadas num corredor polonês. Sabemos muito bem que é este arcaico e carcomido Congresso Nacional quem governa o Brasil, ditando suas regras e suas normas.
Podia falar aqui do poder judiciário, mas estou me situando nesses três maiores cancros que impedem o Brasil de fazer parte do rol dos desenvolvidos. Adianta alguma coisa sermos a oitava ou sétima economia do mundo e carregarmos nas costas a pecha de uma das nações mais desigual do planeta?
Um país não se mede apenas pelo seu PIB (Produto Interno Bruto), mas pela sua aproximação igualitária. Haja espaço para escrevermos e descrevermos sobre estes três cancros ou furúnculos dos quais padecem nossos doentes pacientes. Daria um livro, desde sua formação histórica até os dias atuais.
A ANISTIA E OS ANISTIADOS
Esses do fundo musical emotivo sentimentalista, “oh, meu amado”, das mãos acorrentadas, usando a imagem do Cristo Redentor, com bandeiras verde-amarelo antipatriotas esfumaçadas, pedindo anistia para aqueles que tentaram um golpe de Estado em oito de janeiro de 2023, são os mesmos que apoiam a anistia geral e irrestrita de 1979, imposta pelos generais do regime da ditadura de 1964, que beneficiou os torturadores que mataram e desapareceram com corpos de presos políticos.
Nesta plateia atual temos gerações diferentes, inclusive jovens manipulados por falta de educação e cultura. Essas pessoas acreditam em seus chefes que negam que houve tortura e uma ditadura no Brasil naquela época. São os mesmo que foram para as ruas com cartazes e faixas defendendo uma intervenção militar no país, ou seja, uma nova ditadura para amordaçar a liberdade de expressão.
Será que essa turma é uma reencarnação do passado de trevas? Lá atrás foram a Igreja Católica, a classe média burguesa e os generais que criaram um golpe contra um governo constitucionalmente eleito pelo voto popular, com o argumento de que os comunistas iriam tomar o poder nos tempos de uma “Guerra Fria” entre Estados Unidos e a Rússia.
Atualmente temos um outro cenário um pouco diferente encabeçado por extremistas fascistas, mas também com o envolvimento de alguns generais que mancharam suas fardas, muitas delas de pijama. A derrapada na casca de banana aconteceu porque eles não encontraram respaldo total das forças armadas.
Numa coisa existe uma certa semelhança: Esse bando de hoje, como o da década de 1960, continua chamando o outro lado de comunistas subversivos de esquerda. O atual se apega no princípio de que a eleição foi fraudada. Todos cometeram um atentado e um assassinato contra a democracia.
O grito de anistia de hoje vai para aqueles que tramaram um golpe e não deu resultado. Os anistiados de ontem foram para os torturadores. Esses beneficiários deixaram muitas feridas abertas no país. Como não houve cicatrização, abriu-se espaços para que um grupo agressivo criasse uma baderna e desordem visando a intervenção dos militares para um novo golpe contra a democracia.
Lamentavelmente, tivemos 10 anos de governos de esquerda que quase nada fizeram para punir os torturadores, como ocorreu em governos dos nossos países vizinhos da América do Sul, a exemplo do Uruguai, Argentina e Chile.
Essa bravata de anistia, com imagens apelativas para comover os brasileiros, é justamente porque a anistia de 1979 deixou feridas abertas. Centenas de familiares ainda choram a perda de seus entes queridos, muitos dos quais tiveram seus corpos esquartejados, prensados em usinas de açúcar e outros jogados em rios e no mar.
O que o Estado tem que fazer para reparar essas dores é não anistiar os presos que invadiram os três poderes em oito de janeiro de 2023, com intuito claro de dar um golpe no governo eleito pelo povo. A outra atitude é revogar a anistia de 1979 e prender os vivos que cometeram bárbaras torturas durante a ditadura civil-militar de 1964.
Não é possível que o país repita a mesma história do passado. Caso isso aconteça, a democracia, ainda frágil e relativa que temos, sempre será ameaçada porque a impunidade vai abrir caminhos para novos golpistas.
O Supremo Tribunal Federal tem uma grande parcela de culpa nesse processo porque carimbou a anistia do passado. Não deixa de ser verdade quando se diz que o brasileiro não tem memória porque sempre está se passando uma borracha em nossa história de sangue, ou negando ela, por ignorância do nosso povo e pelas ideias extremistas, odiosas e intolerantes.
“VOZES QUE ECOAM NA JOIA DO SERTÃO BAIANO”
Organização Chirles Oliveira e Ybeane Moreira – Editora Versejar
Trata-se de uma antologia de textos poéticos escritos por várias mãos conquistenses ou filhos adotivos que estão aí na trincheira da resistência da nossa cultura, tão vilipendiada nos últimos anos por esta administração pública que vem menosprezando nossa arte e nossos artistas. É maios um trabalho da iniciativa de pessoas abnegadas, sem nenhum apoio do poder executivo. Portanto, merece toda nossa consideração. Repudiamos, por exemplo, o fechamento há anos dos nossos equipamentos culturais, como Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha.
Dentre tantos poetas participantes desta antologia, destacamos aqui um dos poemas de Linauro Neto, intitulado “Conquistas”:
Conquista dividida
Entre
Minas e Bahia
Caatinga e mata
Café e catadores
Biscoitos e fome
Friozinho e hipotermia
Lado e outro da Rio-Bahia
Dentro e fora do anel viário
Um bairro rico e muitos pobres
Condomínios fechados e guetos
Bandeiras e Povos Tradicionais
AS CADERNETAS DE MERCADINHOS
Nem a revolução tecnológica, a internet, o celular, os cartões de crédito, o pix e até a inteligência artificial conseguiram apagar certos hábitos antigos das pessoas, como, por exemplo, as cadernetas dos mercadinhos, armazéns e pequenos negócios familiares.
Dia desses estava observando a caixa de um mercadinho do meu bairro anotando numa caderneta as compras feitas por uma senhora onde ela também tem a sua e assina a outra que fica no estabelecimento para ser conferida no início de cada mês, ou na data combinada por ambas as partes.
Numa época onde o dinheiro em espécie está desaparecendo e quase não existe mais o cheque, esta é uma das tradições, talvez milenar, que nunca se acaba. É uma forma de fiado e confiança no cliente onde dono e consumidor são beneficiados na transação comercial.
Quando aquela mulher estava conferindo as compras na caderneta, veio-me a recordação dos tempos de menino quando meu pai mandava eu e minha irmã comprar sal, açúcar, café, feijão, arroz e outros ingredientes numa vendinha próxima da nossa casa.
Ele nos entregava as mercadorias e anotava tudo no lápis naquela velha e surrada caderneta. A honestidade falava mais alto. Não havia risco do bodegueiro ou quitandeiro fazer alguma alteração no sentido de ganhar mais dinheiro.
No final do mês, ou num dia acertado, meu velho passava lá e quitava sua dívida. Muitas vezes não pagava tudo e deixava um restante para depois. Isso, no entanto, não incidia em juros ou virava uma bola de neve como ocorre com o cartão de crédito parcelado.
Havia um laço de confiabilidade que não podia ser quebrado. Ninguém passava a rasteira no outro. Estou citando o caso da caderneta, mas existem outros costumes que ainda resistem, mesmo com o avanço da tecnologia. São coisas que nunca se acabam.
O mesmo acontece quando se trata de cultura popular, como o forró, os ternos de reis, o maracatu, o bumba meu boi. Nos pequenos interiores, principalmente na roça e em comunidades pequenas ainda persiste aquele “oi de casa”, ou a batida de palmas, quando um vizinho e até um desconhecido precisa falar com os donos da casa.
Quanto ao caso das cadernetas, fiquei a pensar que aquela senhora do mercadinho deve ter conta em banco, ou talvez um cartão de crédito (Pix tenho minhas dúvidas), mas utiliza também dessa modalidade e consegue conciliar suas finanças.
Por sua vez, o pequeno empresário sai ganhando porque é mais um cliente que se soma a outros que compram com dinheiro, cartão e pix. Não indaguei, mas percebi que ele não embute nenhuma taxa no produto pelo prazo que ele deu para receber o pagamento através da caderneta.
Como em muitas outras profissões, como as de relojoeiro, sapateiro, ferreiro, alfaiate, amolador de facas e tesouras, as cadernetas de mercadinhos ainda existem. Também sobrevivem o câmbio (trocas) nas feiras de rolos, a permuta de serviços e mercadorias que são negociadas entre os sertanejos do campo.










