:: ‘Notícias’
NO BONDE DA VIDA
(Chico Ribeiro Neto)
Tô em Salvador, final da década de 50. Pego nas Mercês o bonde da Companhia Circular Carris da Bahia para a Praça da Sé.
No Terminal da Sé, depois de despongar do bonde, compro um amendoim torrado na hora que vem naquele funil de papel que sempre esconde no fundo 2 ou 3 caroços.
Caminho com meu Vulcabrás novinho e vou para o Cine Excelsior “pegar uma tela”. Sabe quem sentou do meu lado depois do filme começado? A Mulher de Roxo, figura tradicional da Rua Chile. Estava vestida de noiva, segurava um buquê e ria muito durante todo o filme.
Saio do Excelsior (que soube vai ser reformado pela Prefeitura de Salvador), pego a Rua Carlos Gomes e como um pastel chinês no Good Day. Queijo ou carne? Só tinha duas opções.
Atravesso a rua e quase sou atropelado por uma camionete Studebaker. Xingo o motorista e ele me xinga. Quem mandou ficar olhando pra morena de calça fio Helanca que acabou de passar?
No Relógio de São Pedro compro na mão de um velho um monóculo que mostrava alguma cena picante de um filme impróprio até 18 anos. Mais adiante, vizinho à Igreja de São Pedro, um cara vendia revistas pornô, com desenhos de Zéfiro, que ficavam escondidas dentro de inocentes revistas “Manchete”. A senha era essa: “Tem catecismo?”
Passo na farmácia e compro um Colubiazol, um sal de frutas Eno, um Enteroviofórmio, uma Cibalena e um sabonete Eucalol, aquele que vem a estampa.
Na porta da Lobrás (Lojas Brasileiras) tem uma máquina de fazer sorvete. Tem sorvete de todas as cores, mas acho tudo de um gosto só.
Vixe! Ainda não fiz o dever de casa! Dona Cleonice vai pegar no meu pé assim que eu chegar. O Vulcabrás apressa o passo.
Faço o dever correndo, pois preciso ir encontrar com a turma na esquina das ruas Tuiuti e Gabriel Soares. As meninas passam pra lá e pra cá e adoro os cabelos e o andar de Tânia.
Antes de dormir, depois de rezar uma Salve Rainha, um Pai Nosso e uma Ave Maria, subo no muro pra ver uma balzaquiana, de califon e anágua, se preparando para o Soirée Dançante do Clube Fantoches da Euterpe.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
MEDIDA PROTETIVA, DINHEIRO E FELICIDADE
A impressão que temos é que o ser humano gosta de ser enganado, principalmente o brasileiro que tem um baixo nível de percepção intelectual e questionamento. Existe um monte de coisas em nosso Brasil onde as autoridades e os poderes constituídos passam o tempo todo nos iludindo, passando imagens como verdadeiras, quando são falsas e mentirosas.
Uma das maiores ilusões que o cidadão ou a cidadã aceita é a tal medida protetiva, criada pelo judiciário para “proteger” a mulher agredida e ameaçada de morte pelo marido ou namorado. O cara usa de violência contra a esposa e aí o delegado ou delegada impõe a ele a tal medida protetiva, isto é, ele não pode se aproximar da vítima.
O mais engraçado e ilusório é que as pessoas da sociedade e a própria mulher acreditam nessa estorinha da carochinha. Ora, se o indivíduo foi “punido” com a tal medida protetiva, gostaria de saber e indagar se algum agente público (soldado ou policial) vai acompanhar o cara 24 horas para evitar que ele cometa o crime?
A resposta é bem clara que não, pois não existe um contingente suficiente nas corporações militares para realizar esse trabalho de seguir o agressor o tempo todo. Então, meu amigo e amiga, essa medida é falsa e só funciona na teoria. Na prática ela sempre tem resultado em morte e assassinato.
Ainda recentemente a mídia anunciou que uma mulher foi morta pelo marido ou namorado que estava sob medida protetiva. O mais grave era que o elemento ainda carregava uma tornozeleira. Ele tirou o equipamento e, tranquilamente, foi lá e deu cabo da mulher. Como este, são dezenas e centenas de casos que acontecem nessa situação. Portanto, é uma medida enganosa. Acredite se quiser.
O mesmo ocorre nessas tais prisões domiciliares, sobretudo para os bandidos chamados de colarinho branco, os corruptos no popular. O juiz expede o alvará de soltura da cadeia para o sistema domiciliar com tornozeleira e estabelece diversas condições, como não sair de casa, não usar celular, não conversar com cúmplices, não receber visitar e outras exigências que não são cumpridas.
Como a tal medida protetiva, perguntaria se alguém do judiciário ou da polícia vai vigiar o sujeito para que ele não cometa delitos? Não me venham com essa que o cabra está sendo observado virtualmente. É mais uma mentira, uma fake news. A gente prefere ser enganado e acreditar.
Outro faz de conta é “vamos investigar e apurar os fatos” quando existe abuso de puder ou de autoridade por parte da polícia, negligência médica, crime de mando, erros judiciais ou acidentes dolosos. A imprensa noticia o fato e, como sempre, o episódio criminoso cai no esquecimento. A sociedade não cobra e outros absurdos ocorrem com a mesma intensidade, com a conversa fiada de que haverá punição “doa em quem doer”. Prevalece sempre a impunidade.
Outro papo furado é a pessoa, para consolar o outro que está em situação difícil e endividado financeiramente, dizer que dinheiro não traz felicidade. Pode até ser que em certas circunstâncias, como no caso de doença grave e terminal de um amigo ou parente, essa frase seja assertiva.
No entanto, no geral, o dinheiro traz sim felicidade para realizar seus desejos e sonhos, mesmo porque vivemos num sistema capitalista onde o danado cobiçado é o deus maior. Quando a pessoa está sem nenhuma grana e num beco sem saída, ela fica desesperada; entra em depressão; fica irritada, mal-humorada e até violenta. Em muitas ocasiões, a falta do money provoca até separação entre casais; desagrega famílias; e resulta em infelicidade.
Nos acostumamos a aceitar determinadas coisas sem questionar se estão corretas ou não, se são enganação ou não, porque somos comodistas e individualistas por natureza. Em algumas questões, por baixa capacidade cognitiva e intelectual e outras porque distanciamos muito do coletivo e escolhemos não darmos ao trabalho do refletir e pensar o que é certo e errado, bem como diferenciar o normal do anormal.
CÂMARA DE VEREADORES QUER NOVA SEDE
Quando os vereadores se reúnem com a prefeita com intuito de construir uma nova sede para a Câmara Municipal, isso me faz lembrar dos equipamentos culturais que estão fechados há anos por falta de reforma, mesmo diante de tantos pedidos dos artistas, com documentos e abaixo-assinados.
O argumento dos parlamentares, que já contaram com o apoio do poder executivo através da concessão de um terreno, é de que o prédio na rua Coronel Gugé com o antigo anexo da rua Zeferino Correia, erguido em 1910, não comporta mais o contingente de 23 vereadores (há 30 anos eram 11) e que a plenária tem espaço limitado para receber os participantes das sessões.
Nosso povo tem pouca memória quando eles mesmo disseram que o aumento no número de edis não iria implicar em custos para os contribuintes. Trata-se de uma grande falácia para enganar a nossa gente que está sempre sendo manipulada e é, infelizmente, comprada na hora da votação.
O aumento de vereadores não tem como não gerar mais custos no orçamento municipal, com mais gabinetes, salários para o vereador e seus auxiliares, verbas de indenização e outros benefícios concedidos pelos cofres públicos, boa parte vinda do Fundo de Participação dos Municípios.
Outra enganação é que a plenária ou o auditório já está limitado para receber os conquistenses que frequentam as sessões. Ora, aquele auditório Carmem Lúcia só lota poucas vezes em sessões especiais em homenagem a uma determinada categoria ou em eventos mais solenes. Na maioria das reuniões ali está sempre vazio.
Portanto, considero mais um absurdo a prefeitura despender mais recursos para construir outra sede luxuosa quando não atende as reivindicações do setor cultural que vem lutando pela abertura do Teatro Carlo Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha, na rua Dois de Julho, cujos espaços estão sendo destruídos pela ação do tempo. É por essas e outras que venho afirmando que a prefeita Sheila Lemos sepultou nossa cultura.
Pelos últimos números, existem no Brasil 60.311 vereadores. Até 2013 eram 51.748. O país gasta anualmente cerca de 24 bilhões de reais com os mais de 60 mil vereadores, dinheiro que poderia muito bem ser empregado nas áreas da educação e da saúde.
Até o período do regime militar, no início da década de 60, o vereador não era remunerado e as câmaras funcionavam bem melhor em termos de prestação de serviços à população.
Em Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com cerca de 400 mil habitantes, só são realizadas duas sessões por semana, com pautas de poucos projetos e mais de indicações e moções de aplausos.
Além das câmaras de vereadores e assembleias legislativas, temos um Congresso Nacional (531 deputados e 81 senadores) mais caro do mundo, conservador e que legisla visando seus próprios interesses, num país com o mais profundo índice de desigualdade humana. Podemos dizer que é o maior cancro do Brasil.
A COLUNA PRESTES NO SARAU
Foi mais uma noite memorável cheia de programação cultural, tendo como tema principal “A Coluna Prestes e seus Desdobramento Políticos” na palestra do nosso companheiro Eduardo Morais. Estamos falando de mais uma edição do Sarau A Estrada, realizado no último sábado (dia 12/04/25), no Espaço Cultura do mesmo nome, com a participação de mais de 30 pessoas entre jovens, artistas, intelectuais, professores e interessados pela cultura.
Os trabalhos foram abertos pelo membro da comissão Dal Farias e logo depois o jornalista Jeremias Macário e sua esposa Vandilza Gonçalves fizeram o anúncio da mudança para outra casa, mas todos garantiram que o Sarau, que está completando 15 anos de existência, vai continuar com suas atividades artísticas.
Jeremias aproveitou a ocasião para prestar uma homenagem ao ativista cultural Massimo Ricardo de Benedictis, com um minuto de silêncio pelo seu falecimento na semana passada. Ricardo deixou seu legado na cultura de Vitória da Conquista, com seus projetos e promoção de eventos importantes.
Mais alguns informes da presidente da comissão, Cleu Flor sobre a prestação de contas da arrecadação do fundo, o processo do andamento do registro do Sarau em cartório e Eduardo fez um relato histórico e político da Coluna Prestes, que teve seu início com o movimento tenentista de São Paulo, em 1918.
A partir da cidade de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, a Coluna, dirigida por Luis Carlos Prestes, cortou todo Nordeste brasileiro percorrendo mais de 25 mil quilômetros e terminou por volta de 1927/28 no Sul do Mato Grosso quando seus membros se dispersaram e adentraram na Bolívia, por causa das perseguições do governo federal de Venceslau Brás.
O movimento, que buscava mudanças na política, reformas nas áreas social e educacional, principalmente, como bem pontuou Eduardo, foi inspirado nas ideias socialistas da Revolução Russa de 1917. Ele fez um relato sobre a passagem da Coluna pelo Nordeste que lutou no combate ao coronelismo da época e às injustiças sociais contra o sertanejo do interior urbano e do campo.
Como em outras revoltas e rebeliões pelo Brasil em defesa da liberdade e da democracia, a Coluna representou um marco na história, segundo o palestrante. Para depreciar suas ações, os coronéis disseminavam que seus membros eram revoltosos, matavam crianças, idosos e estupravam mulheres. Diante desses boatos, as pessoas temiam quando eles chegavam nas cidades.
Logo no início da sua marcha, Eduardo destacou também a realização da Semana da Arte Moderna, em 1922, em São Paulo, movimento liderado por Mário Andrade, Oswaldo de Andrade, Tarcyla do Amaral, Anita Malfatti, dentre outros, chamado de antropofágico por valorizar as artes nacionais e em prol da democracia.
Na Bahia, a Coluna passou por Condeúba, Mucugê e outras cidades. Muitos foram mortos pelas tropas do governo e quando chegaram em Mato Grosso restavam poucos. Carlos Prestes foi para a Bolívia e de lá para a União Soviética como exilado.
A nossa companheira Viviane Gama fez uma homenagem às mulheres falando de seus enfrentamentos pela igualdade entre os homens. Reviveu os tempos passados onde as mulheres tinham um lugar inferiorizado como simples donas de casa, mas que ainda existe muitas coisas para serem conquistadas na sociedade moderna.
Após os debates, o músico, poeta e compositor Manno Di Souza abriu as cantorias, juntamente com Alisson Menezes, nosso visitante, Dorinho Chaves e Alex Baducha. Como não poderia deixar de acontecer no Sarau, abriu-se uma rodada de declamação de poemas autorais onde muitos tiveram a oportunidade de expressar suas obras.
Foi mais uma noite de confraternização, de comes e bebes, num clima de harmonia, troca de ideias e conhecimento, como tem sido o Sarau a Estrada nesses seus quinze anos de existência, um período ainda novo, mas que já se transformou num ambiente familiar e de respeito às diferenças ideológicas de cada um.
Houve várias postagens no grupo com referência ao Sarau, como a de Cleide que enalteceu a luz radiante da Lua Cheia e a alegria ímpar dos benfeitores da cultura. Vida longa ao Sarau. Humberto disse que o evento ocorreu como sempre, num clima de completa paz e harmonia.
Para Humberto, o tema escolhido ainda é pouco comentado no cotidiano, mas bastante atual em razão do momento vivido pela nossa nação, o qual foi comentado pelo companheiro Eduardo e demais colaboradores. As expressões artísticas e culturais foram momentos de destaque. Outro fato foi a presença de novos seguidores, num clima de afetos. Os componentes da comissão estão de parabéns.
Dal Farias comentou sobre a trajetória do Sarau, repleto de conhecimentos vividos durante esses 15 anos, ainda adolescente. Foram anos de grandiosos acontecimentos e emoções arraigadas. Numa troca de energias, Jeremias e Vandilza surpreendeu a todos com a notícia de ares de mudança para um novo ambiente, um momento comovente, mas compreensível. Novos momentos virão, com um tempo novo. Agradeceu a todos pelas participações, num lugar de aconchego e admirável pelas suas instalações, o acervo, os adereços artesanais e a coleção de chapéus.
ALGUNS VERSOS
(Chico Ribeiro Neto)
Hoje eu tô pra versos.
POEMA DA CARNE
Ela tem uma angústia
que é natural
e resolveu fazer
medicina natural
Ela tem um corpo
que não se joga
e resolveu tomar
aula de yoga
Ela não tinha uma certa paz
que lhe fazia um certo mal
e resolveu trocar a carne
pelo arroz integral
Quando se aborrecia
parava e dizia: “Eu penso”,
mas começou a sentir falta
do cheiro de incenso
Entre a mesa e a dança
ela descobriu num abraço
que entre o arroz e o passo
está faltando um pedaço
XXXX
O menino que já me ensinou muita coisa
continua do meu lado.
Tem olhos bem abertos e mãos sujas de terra.
Seu calção é leve e dança cores debaixo do sol.
Traz na boca um sorriso leve
e seus pés preparam um grande pulo
para dentro do coração do mundo.
XXXX
ARMARINHO
no fundo do poço
parecia chave
mas era um osso
XX
ninguém duvida
olhos verdes
alumiam a vida
XX
dá prazer
fazer gol
dentro de você
XX
creia, rapaz,
zerei sua dívida
pra você comprar mais
XX
para melhorar
um mergulho
no mar
XX
para piorar
o carro acaba
de quebrar
XX
creia, senhor,
dá samba
riso e dor
XX
algo quente no ombro
bala perdida?
cocô de pombo
XX
coisa boa é
tênis velho
conhece o pé
XX
cheio de moedinha
meu porquinho fugiu
com a porca da vizinha
XX
falta sempre uma coisa
pagar o boleto
consertar o dente
visitar um parente
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A PECHINCHA E OS GENÉRICOS
Duas coisas que me deixam encabulado são esses negócios de pechincha e remédios genéricos. A origem da palavra pechincha é obscura e incerta, mas avalio que tenha surgido a partir das trocas de mercadorias desde as primeiras civilizações nas feiras livres entre as aldeias.
Por falar em feiras livres (compre três pimentões e leve quatro), acredito que sejam os lugares apropriados, no âmbito econômico, destinados à classe mais pobre, onde se praticam mais a pechincha, além das prestações de serviços. É aquela história: O preço é este, mas tem conversa.
No comércio em geral, um dos setores onde não existe a pechincha e o de supermercado. A empresa faz o seu tabelamento etiquetado e o cliente não tem essa de pechinchar quando passa no caixa, mesmo quando existem as tais promoções enganosas.
Sabemos que a pechincha é uma maneira mais fácil de negociar um produto entre um vendedor e comprador ou consumidor, de forma que ambas as partes saiam ganhando e satisfeitas. Só não entendo que o cara pede um preço determinado, mas vai logo avisando que tem pechincha.
Ora, se tem a pechincha, é claro que o comprador vai querer porque ninguém é besta nos tempos atuais de abrir mão de adquirir aquele bem por um custo mais baixo! Nesse caso, o vendedor anuncia seu preço, mesmo sabendo que, de antemão, vai receber menos.
Não é um paradoxo? Existe gente que não pechincha, mesmo não sendo endinheirada. Conheci uma amiga que foi completamente lesada em Salvador. Uma baiana, em frente ao Elevador Lacerda, lhe pediu 60 reais numa fitinha do Senhor do Bonfim, e ela prontamente deu, sem ao menos questionar. Nem pechinchou.
Nesse negócio da pechincha, uma cultura enraizada entre os brasileiros, principalmente nas feiras, só posso entender que é uma técnica de venda para atrair o comprador. Muitas vezes, o camelô ou ambulante de bugigangas de ruas pede um valor e termina aceitando a compra pela metade ou menos da metade do estabelecido.
A pechincha também é chamada de “dar uma chorada”, mas tem negociante que é duro na queda. No entanto, quando a pessoa está com a “corda no pescoço”, “na forca”, endividada ou arruinada financeiramente, como se fala no popular, ela se sujeita a vender seu objeto, bem móvel ou imóvel a um preço “baratinho”, com imenso prejuízo.
Os astutos, aproveitadores e oportunistas caem dentro, sem dor e compaixão, e deixa o outro numa situação financeira ainda pior do que estava antes. É a lei do mais forte, aí não é mais pechincha, é uma exploração impiedosa de quem tem o capital na mão.
E a questão dos medicamentos genéricos onde os preços chegam a ser mais baixos até numa percentagem de 80 a 90%? Se o farmacêutico garante que o remédio contém a mesma fórmula do chamado original, por que, então, não colocar todos genéricos?
O termo genérico, por já ser pejorativo, gera certa desconfiança da população. Será que tem o mesmo efeito? No mercado, essa coisa de remédio genérico ainda não foi totalmente esclarecida. Por que uns são genéricos e outros não?
Certamente porque alguns laboratórios nacionais não têm a permissão, nem a patente do fabricante estrangeiro para fazer o genérico. Por que em algumas farmácias você consegue o genérico e em outras não? É um esquema que não dá para entender. Você confia totalmente no genérico?
O SOM DA MADRUGADA
Se você dorme mais tarde, lendo, escrevendo ou fazendo algum trabalho intelectual, já parou para observar o som do silêncio da madrugada, mesmo que seja numa cidade grande agitada? Se nunca fez, experimente e vai descobrir muitas coisas interessantes. A madrugada é um laboratório de experiências.
Lá fora você pode até ouvir o farfalhar das árvores no balanço do vento, o latido do cachorro mais distante na rua ou a voz de um vizinho, o trânsito menos barulhento dos carros, um chiado vindo de longe, a pisada de algum solitário e, o mais poético, são os pingos da chuva calma, sem raios e trovões, nem tempestades!
Ao som da madrugada se escuta até o zunido de uma bala saindo do cano de uma arma. Nesse caso, o tema vira assassinato na madrugada. É um bom enredo literário de romance policial que dá até filme. O pior são as discussões agressivas entre homem e mulher que, às vezes, terminam em morte. Os dramas familiares! Os indivíduos da madrugada são testemunhas das violências.
É na madrugada, depois da meia noite, que se ouve batidas estranhas de fantasmas e “almas penadas” em casas mal-assombradas. Qualquer estalo é motivo de pânico ou medo de ser um ladrão ou coisa de outro mundo. Você fica mais atento a tudo que se move ao seu redor.
– Vejo outras coisas mais interessantes e picantes – disse um amigo meu que também vive da insônia e o chamam de corujão da meia noite. Conheci muitos que não conseguem dormir e já se habituaram com isso. Pode ser esquisito, mas é um requisito peculiar e privilegiado.
Ele me reportou, com seu tom jocoso e sarcástico, sobre a vida de um casal que mora um pouco abaixo do seu apartamento e tem noites certas de fazer sexo com aquele escândalo erótico. Naqueles tempos bicudos, só maiores de 18 anos podiam saber disso.
– Bicho, a mulher morena baixinha é uma histérico e, na hora do vamos ver, grita alto, geme e pede sempre mais e mais. É uma gulosa! Não para, não para – repete a mulher em tom exagerado como se estivesse sozinha num acampamento desértico.
– Aquilo me deixa doido! – Já sei, não precisa falar. Tem palavras que não são convenientes citar aqui, senão moralistas vão me levar para a inquisição. Você que está acompanhando esse papo deve estar imaginando os termos de amor, amor, amor, vai mais!
– É uma loucura, cara, também escuto esse tipo de coisa e me lembro de um casal com esse estilo tarado de transar quando morava em Salvador num prédio de apartamento. Batia o silêncio da madrugada e aí o pau comia. Outros são bem mais discretos na cama.
– Certos animais também têm esse comportamento selvagem dos humanos. Quem já não ouviu uma transa de gatos no telhado! Um negócio de louco! A Gata solta miados e sons estridentes. Eu que diga aqui em minha casa. É tanto barulho que me atrevo a interferir, mesmo sabendo que não tenho esse direito de empatar o amor ou a f… de ninguém.
Posso até ser processado e preso pelos defensores dos direitos animais por importunação e constrangimento ao amor (os humanos não ficam fora), mas é demais e não consigo suportar os chiados que me atrapalham esse tipo de som da madrugada.
Se os sons do silêncio da madrugada urbana chamam a atenção e lhe dão mais inspiração para escrever, filosofar consigo mesmo, refletir e poetar, agora pense como não é no campo, principalmente em noite de lua cheia que prateia o terreiro do seu chão. Lembrei dos uivos dos lobos, coiotes e até do lobisomem.
Lá você curte mais o vento bater na comieira da casa, o casco do cavalo, do burro ou da mula na estrada com seu cavaleiro, no galope cadenciado, o ranger dos galhos das grandes árvores na mata, e o sertanejo percebe de longe quando alguém se aproxima da sua casa.
Posso dizer que é um som mais poético porque já vivi por muito tempo na zona rural, inclusive naqueles tempos que não havia energia elétrica e nem televisão, quando muito um rádio cheio de ruídos. Meu pai sentia até quando um animal se aproximava do nosso rancho. São coisas do homem do campo.
TEMPOS DIFÍCEIS PARA OS JORNALISTAS NA COMEMORAÇÃO DESSE SETE DE ABRIL
Para comemorar a data, de 7 a 11 de abril, o Sindicato dos Jornalistas-Sinjorba e a Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj estão realizando a Semana do Jornalista, com uma vasta programação de reivindicações, como o diploma obrigatório e a criação do piso salarial nacional. Uma comitiva está em Brasília para uma série de encontros com os três poderes. A mobilização é denominada de “Ocupa Brasília”.
Lembro quando comecei a dar os primeiros passos na profissão como revisor, no início de 1973, ano da minha graduação como bacharel em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Eram tempos difíceis em pleno cerco da ditadura civil-militar, anos de chumbo contra a liberdade de expressão quando os homens da farda faziam o papel de cão de guarda para censurar os veículos de comunicação, especialmente o jornal impresso onde atuava.
Apesar de toda mordaça, os jornalistas eram mais combativos e participativos e tudo faziam para driblar a opressão dos generais. Os sindicatos, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e as associações brasileiras de jornalismo (ABIs) eram mais fortes e unidas. Naquela época, nem se falava de “fake news”, que passaram a brotar com a chegada da internet e, consequentemente, das redes sociais, o chamado jornalismo virtual onde grande parte da atividade foi banalizada, e a maioria perdeu a responsabilidade maior de informar.
Nada contra a evolução tecnológica onde a notícia é mais veloz que uma bala e pode ser mortal se for infundada. Passados mais de 50 anos, onde cada um se acha jornalista (não precisa ser diplomado), o neoliberalismo de mercado estreitou os espaços da profissão, e poucos que optaram pela área e passaram a frequentar as escolas seguem a carreira. Caiu o nível de formação e aumentou o noticiário de matérias infundadas, mal apuradas pela falta de uma maior investigação.
Quando aqui cheguei, em 1991 fui o primeiro jornalista formado da cidade e logo passei a assumir a diretoria regional do Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), chegando a vice-presidente. Atualmente, como graduado sou o decano e, durante essa longa caminhada, já enfrentei muitos desafios. Continuo escrevendo porque é o alimento da minha alma e, se tivesse que recomeçar, seria novamente jornalista.
DIA DO JORNALISTA
Toda essa abertura, em forma de “nariz de cera”, é para lembrar do 7 de abril, Dia do Jornalista (quinta-feira), infelizmente pouco comemorado. Mesmo no período duro do regime militar, existia mais união e celebração com aqueles memoráveis encontros, dos quais muito ajudei a realizar. É dia de reflexão e luta por mais espaço e reconhecimento do diploma, bem como contra a violência contra os profissionais, da qual fui uma vítima.
Vamos dar uma pequena pausa nesse comentário para focar propriamente no Dia do Jornalista, pouco lembrado pela própria classe (casa de ferreiro, espeto de pau). O dia foi criado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e foi estabelecido por alguns motivos, como numa reunião de coletiva de imprensa. Uns dos motivos é que no dia 7 de abril de 1908, foi criada a própria ABI. Idealizada pelo jornalista Gustavo Lacerda, a associação situa-se no Rio de Janeiro, e é um centro de ação que tem como objetivo assegurar os direitos à classe.
Também no dia 16 de fevereiro foi comemorado o “Dia do Repórter”, que está ligado a um episódio da nossa história do Brasil. A data foi designada em homenagem ao jornalista e médico Giovanni Battista Líbero Badaró, morto no dia 22 de novembro de 1830. Ele participou de diversas lutas a favor da Independência do Brasil. Era proprietário do jornal “Observador Constitucional” e um dos principais motivadores da liberdade de imprensa, hoje tão vilipendiada, bem como a nossa Carta Magna.
Libero Badaró teve uma morte misteriosa, mas, segundo a história, inimigos políticos atentaram contra a sua vida. O falecimento dele causou descontentamento à população e culminou na abdicação do trono de Dom Pedro I, justamente no 7 de abril de 1831.
Só para reportar a história, a primeira faculdade de Jornalismo foi criada em 1912, na Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos. A faculdade foi fundada por meio da doação de dinheiro do jornalista Joseph Pulitzer, que ajudou a tornar a imprensa conhecida como o quarto poder e que dá nome ao principal prêmio concedido a jornalistas premiados.
No Brasil, a primeira escola de jornalismo foi criada em 1947. Atualmente, a instituição chama-se Faculdade Gásper Liberó e localiza-se no prédio da antiga Gazeta, na Avenida Paulista.
TEORIA E PRÁTICA
Quando adentrei na redação era um dos poucos graduados pela Faculdade de Jornalismo da Ufba. Existiam os antigos jornalistas provisionados no Ministério do Trabalho. Na década de 70, o diploma passou a ser exigido e isso criou uma animosidade entre os chamados velhos e novos. Dizia-se que jornalismo era uma vocação, uma forma de dom que se aprendia no dia a dia da notícia, o que não deixava de ser uma verdade, mas a formação teórica com a prática fortalece mais a profissão e dar mais credibilidade.
A briga gerou uma disputa de ações na justiça para derrubar a obrigatoriedade do diploma, isso, se não me engano, entre as décadas de 80 e 90. A ação caiu nas mãos do Supremo Tribuna Federal, em 2009. Recordo que um dos ministros, contrário ao diploma, fez uma leviana comparação entre a culinária e o jornalismo, dizendo que a pessoa para cozinhar não precisava ter diploma. Aquilo foi de uma insanidade sem tamanho.
As faculdades continuaram emitindo os atestados profissionais, como a própria Facom, da Ufba, a Uesb que começou seu curso em 1998 (fui um dos incentivadores e ajudei na sua estruturação) e tantas outras particulares. Mesmo com a não obrigatoriedade do diploma, vejo que as empresas dão mais preferência aos formados, valorizando a formação escolar e o conhecimento.
Para marcar a data, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os sindicatos dos jornalistas do Brasil e profissionais da área costumam fazer reflexões importantes sobre a carreira, o mercado de trabalho, os salários e o futuro da profissão.
O curso de Jornalismo é ministrado nas principais universidades do país durante quatro anos ou oito períodos. Os estudantes têm aulas teóricas, como teoria da comunicação, história da imprensa, ética e legislação, história da arte, práticas, como telejornalismo, jornalismo impresso e webjornalismo.
O jornalista é o profissional que informa fatos à sociedade, um contador e fazedor de histórias, com responsabilidade perante a opinião pública. Ele pode atuar em meios de comunicação, como rádio, TV, jornal, revista e internet. Também é comum que jornalistas trabalhem como assessores de comunicação e imprensa e, mais recentemente, em mídias digitais, tais como redes sociais e blogs.
TEMPOS DIFICEIS E O ESTRESSE
De acordo com pesquisa entre cerca de sete mil profissionais no Brasil, 66,2% dos jornalistas se sentem estressados. Dos entrevistados, 34,1% foram diagnosticados clinicamente com lesões por esforços repetitivos; 40,6% sofreram assédio moral no trabalho; 11,1% assédio sexual. A categoria é formada por maioria de mulheres (58%), inclusive negras. Esses dados carecem de atualização.
É esse, mais ou menos, o perfil do jornalista brasileiro. Da amostragem, 44,2% disseram que seus esforços no trabalho não são reconhecidos. Os dados ainda confirmam que houve uma redução do volume de vínculos empregatícios pela CLT, bem como, 24% prestam serviços de freelancers, MEI, pessoa jurídica ou sem contrato. De toda classe, 42,2% trabalham mais que oito horas por dia. O estudo da Fenaj (Rede de Estudos sobre Trabalho e Identidade dos Jornalistas), de agosto a outubro de 2021, conseguiu coletar mais de sete mil respostas, sendo 6.594 válidas.
UM GRANDE ATIVISTA CULTURAL
Sempre tenho repetido aqui por várias vezes que Vitória da Conquista tem sido uma cidade ingrata quando se trata de reconhecer personalidades que contribuíram com a cidade, prestando seus serviços, especialmente na área da cultura. A impressão é que Conquista esquece facilmente das pessoas que ajudaram a construir sua história.
Mais um grande ativista cultural nos deixou neste domingo para segunda-feira sem o devido reconhecimento desta sociedade e até mesmo dos fazedores de arte e cultura. Trata-se de Massimo Ricardo de Benedictis, nascido em Poções, em 1939, com passagem por Salvador, Rio de Janeiro e se fixando aqui em Conquista.
Estive em seu velório, no Salão do Pax Nacional e em seu enterro no cemitério Parque da Cidade no final da tarde de ontem (dia 07/04/2025). Senti a ausência de representação da Câmara Municipal de Vereadores e do próprio poder executivo, como da Secretaria de Cultura, bem como de membros de entidades culturais. Nem falo de empresários porque já é uma categoria que está se lixando para a cultura.
Quando cheguei em 1991 para chefiar a Sucursal do Jornal A Tarde aqui encontrei o Ricardo Benedictis, como eu o chamava, militando na imprensa escrita e atuando em projetos culturais através da realização de eventos, se não me engano como coordenador de Cultura no governo de Pedral.
Lembro muito bem de Ricardo como diretor do Centro de Cultura e também como presidente da Academia Conquistense de Letras da qual ainda sou membro (ausente nos últimos anos) pela sua indicação, defendendo a obra de Graciliano Ramos.
Um dos seus maiores legados para a posteridade foi a criação do Festival de Inverno da Bahia, realizado por vários anos no Centro de Cultura. Além da música, que era o carro-chefe e que revelou muitos artistas locais, da Bahia e até de outros estados, o chamado FIB abrangia diversas linguagens, como teatro, literatura (participei de coletâneas), dança e artes plásticas.
Ao lado dos amigos Nápolis, Mozart Tanajura, Carlos Jheovha, Ezequias, dentre outros, Ricardo movimentava a cidade promovendo a nossa cultura e divulgando o nome de Conquista lá fora. O jornalismo também era também sua paixão quando lançou diversos periódicos, com suas matérias, comentários e artigos.
Por onde passou, Benedictis fez muito mais pela nossa cultura como um resistente, muitas vezes sem o apoio do poder público, sobretudo em Vitória da Conquista onde, talvez, tenha ficado por mais tempo. Portanto, por tudo que fez em prol do setor merecia e merece uma consideração à altura do seu feito.
Por sermos polêmicos por natureza, tínhamos nossas divergências de ideias e políticas, mas estávamos sempre discutindo as questões culturais de Vitória da Conquista. Como jornalista, fui também um crítico do seu trabalho em certas ocasiões, mas nunca fomos inimigos.
Em certos pontos a gente concordava que era a falta de maior presença do poder público, inclusive no sentido de ajudar os artistas a realizar seus trabalhos. Outro ponto era a necessidade de uma união de todos ativistas culturais visando fortalecer cada vez mais a nossa cultura. Achávamos que um dos males era o individualismo e a maneira torta de cada um se sentir o dono da cultura.
Por várias vezes realizamos aqui em nosso Espaço Cultural A Estrada, onde é palco do nosso sarau de quinze anos, tardes sabáticas memoráveis de cantorias e bate-papos acalorados com seu filho Ricardinho, Luciano e outros amigos. Como todos sabem, Ricardo era músico, compositor, poeta, jornalista e um grande ativista cultural que vai ficar em nossa lembrança.
BODE E VACA CURTIAM ADOIDADO
(Chico Ribeiro Neto)
Zé da Baixa gosta de contar uns casos difíceis de acreditar, mas fáceis de fazer rir. Quando toma umas duas, então, Zé se solta, e tome-lhe história. Conta todas com aquele jeito sério do bom culhudeiro, pois mentiroso é palavra pequena pra ele.
De bode, então, ele é cheio de casos. Outro dia, na Barraca de Isidro, falava-se de roubo de animais quando Zé tomou a palavra pra contar como é que se rouba bode na terra dele: “Você joga um algodão com éter, e o bicho vem doido. Cheira, fica tonto, e aí você pega ele com a maior facilidade e coloca dentro da camionete”.
“Vai ver”, comentou um dos frequentadores de Seu Isidro, “que ele gostava mesmo era do cheirinho da loló, muito usado no Carnaval”. Zé completou na hora – pois mentiroso sempre está acrescentando – dizendo que o bode cheirava loló mesmo, pois fora criado no quintalzinho de uma prostituta na Ladeira da Montanha e que, no Carnaval, não tinha quem segurasse o bicho. Teve um dia que seguiu o trio elétrico de Dodô e Osmar da Praça Castro Alves até o Campo Grande e voltou descansando num afoxé. No Campo Grande teve até confusão, pois queriam pegar ele pra churrasquinho.
Se o bode do interior cheirava éter, viciado que era dos tempos da capital, o que acontecia com os outros bichos? Mais animado ainda – pois mentiroso, quando a plateia aumenta, o tamanho da culhuda também cresce -, Zé da Baixa passou a falar da vaca de Zé Paulino, viciada em maconha. Trocava qualquer capim colonião por umas folhas da erva maldita.
A vaca, que se chamava “Fumacinha”, chegou até a ser usada pela Polícia Federal numa das batidas em Juazeiro e no sertão de Pernambuco. “Era só soltar a bicha que ela ia certinha na plantação de maconha. Todo mundo preso, a plantação queimada, mas antes se tirava uns molhezinhos para acalmar “Fumacinha”, que já tinha dois bezerros começando a enjoar do colonião, esse capim que não tá com nada”.
Ele dizia, também, que a tal vaca chegou a passar uns tempos em Arembepe, na década de 70, e não podia ver barraca de hippie armada que encostava, já fuçando pela janelinha algum cheiro conhecido. Foi dessa época o colar de pedras peruanas que segura seu sininho até hoje. Também o coraçãozinho de prata, que usa na pata direita.
Segundo Zé da Baixa, tem vaqueiro que costuma notar, de noite, um foguinho aceso no curral. Quando vai ver, é “Fumacinha” acendendo um incenso e mugindo umas canções dos Hare Krishna. Outro vaqueiro mais velho atesta que ela chorou de fazer dó no dia em que John Lennon foi assassinado e que só não foi, agora, pro show de Paul McCartney, no Rio, porque o único caminhão disponível já tinha sido fretado pelo bode da loló, que levou amigos e cabritas.
Zé confessa que não sabe o que levou “Fumacinha” a isso. Se foi a falta de pasto ou a desilusão amorosa com o touro “Carambola”, aquele que passou a se chamar “Caramba” depois de um salto mal dado por cima da cerca de arame farpado, onde ficaram as bolas.
Outros acham que foi um macaco que andou pela cidade tempos atrás, que tinha um embornal de onde saía o diabo. Dizem que esse macaco mora hoje na Colômbia.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 12/5/1990)
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