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AINDA NOS TEMPOS DA “MARIA FUMAÇA”
LINHA SUCATEADA NO TRECHO ENTRE SENHOR DO BONFIM A JUAZEIRO
Em sequência à crônica-artigo, misturada com causos e informações sobre o tema “Nos Tempos da Maria Fumaça”, publicada em nosso blog www.aestrada.com.br (dia 11/06/2025), quero aqui reproduzir algumas palavras do nosso professor e memorialista Durval Menezes. Antes de mais nada, agradeço seus elogios e também por ter acrescentado subsídios valiosos a respeito do assunto.
O professor nos brindou com estas palavras de que a famosa “Maria Fumaça” tem passado e história. Quantos romances e poesias foram inspirados na história da “Maria Fumaça”. Muitas cidades tiveram sua marca registrada na “Maria Fumaça” enquanto outras não conseguiram essa oportunidade de ter sua “Maria Fumaça” cortando sua área geografia. Outras não tiveram “Maria Fumaça”, mas tiveram história, como é o caso de Vitória da Conquista.
Durval afirmou que Conquista não chegou a usufruir das famosas locomotivas, ou os trens de ferro como eram chamados. No entanto, teve sua “Maria Fumaça” numa espécie de trem fantasma. De acordo com ele, a história se repete em épocas diferentes. “A maneira de governar o povo, ou iludir, permanece ainda é a mesma. Mudam apenas as personagens, mas a malandragem política continua a mesma, prometer e não realizar”.
VAGÃO ABANDONADO COMO FERRO VELHO DE UMA ANTIGA “MARIA FUMAÇA”
Durval lembra que nessa história, Conquista foi agraciada com uma ferrovia saindo de Nazaré das Farinhas passando por Jequié a nossa cidade. A tal ferrovia, relata o professor, começou em Nazaré por iniciativa de empreendedores da região para desbravar nossas terras. A estrada chegou até Jequié, em 1927, com muita festa e teve sua continuidade, inclusive foram construídas várias obras de arte, como os pontilhões. Alguns quilômetros foram concluídos.
Ocorreu, porém, que o Governo de Getúlio Vargas, na década de 30, suspendeu todas as obras em construção, e Conquista ficou fora do sistema ferroviário. Os empresários, conforme revela o professor, queriam que a locomotiva chegasse aqui porque era importante para o município, só que isso não se concretizou.
Durval conta ainda que em 1898 foi constituído um decreto-lei concedendo o direito de construir a estrada Ilhéus- Conquista. Informa que a obra foi iniciada por outras regiões partindo de Ilhéus. Essa construção estava sob a responsabilidade do engenheiro Miguel Argolo. Chegou a ser executado 70 quilômetros de linha. Até hoje ainda estão lá os marcos.
Nesse trem fantasma foi projetada a estação sob a responsabilidade de um arquiteto belga. A área foi locada para ser erguida uma estação no início da avenida Siqueira Campos. “Ao construir uma ferrovia, a cidade seria privilegiada com a uma bela estação que chegou a ser projetada”.
VELHO PONTILHÃO EM IAÇU, NA BAHIA
Conforme informações do professor Durval, dezenas de pessoas foram contratadas para a obra, especialmente filhos de coronéis, cacauicultores e políticos, só que a ferrovia pouco avançou.
Acontece que os convocados para o trabalho, denuncia o professor, tiveram o privilégio de receber seus salários até suas aposentadorias. “Todos mamaram nas tetas dessa ferrovia. Os apadrinhados, que nunca prestaram seus serviços, ganharam até se aposentar. Esse é o Brasil do passado que ainda hoje vivemos, no mesmo aspecto de corrupção”.
Para finalizar seu comentário sobre a “Maria Fumaça, Durval nos informa que, em cima desse projeto, o artista Alan Kardec tem um projeto de adquirir uma máquina e dois vagões que serão expostos em frente do Museu de Kard. “E um sonho bonito do nosso artista, visando que Conquista tenha sua “Maria Fumaça”, pelo menos como peça de museu”.
NOS TEMPOS DA “MARIA FUMAÇA”
Achava bonito ver aquele trem “Maria Fumaça” parado na estação para o embarque e o desembarque dos passageiros com suas missangas e depois o maquinista da lenha dava dois ou três apitos dando sinal que era o momento da partida. As pessoas se apressavam e cada um ocupava seu lugar. Ás vezes lotava e esvaziava em outro ponto.
A molecada pongava no último vagão até um acerto ponto quando começava a acelerar, e o trem ia serpenteando como cobra entre as curvas das serras, cruzando os pontilhões, deslizando nas planícies, subindo e descendo ladeiras no som do “potoc-potoc, potoc-potoc”, ou no ritmo do “café com pão, bolacha não”.
Quando menino era o meio de transporte que mais me fascinava e até hoje guardo marcantes lembranças das viagens de Piritiba para Senhor do Bonfim, de lá para Salvador, para Rui Barbosa, Itaberaba e Iaçu.
Passava pelas cidades de Miguel Calmon, Jacobina, Caem, Pindobaçu, Saúde, Antônio Gonçalves e alguns distritos. As estações tinham arquiteturas semelhantes. Recordo das aventuras dos namoros adolescentes, dos casos e causos de passageiros e do balançar pra lá e pra cá, isto há mais de 60 anos.
Como era gostoso viajar à noite e apreciar da janela o luar a pratear o sertão, e nas estações das cidades e povoados ver aquela gente gritando para vender doces, mingaus, pamonhas, canjica, milho assado e cozido, bolos de aipim e frutas. Era aquela algazarra e todo mundo ganhava um dinheirinho.
Nos vagões de cargas iam as bruacas dos feirantes, ferros velhos, mercadorias diversas, cereais e até móveis de mudanças. Vendedores e ambulantes pegavam as feiras em diversas cidades e iam mascateado por aquele mundão entre Senhor do Bomfim a Iaçu, cerca de uns 700 a 800 quilômetros. Aquela gente praticamente morava no trem, indo e voltando para realizar seus negócios.
Lembro do Tio Quincas, um mão de vaca sovina daqueles que fazia questão de um centavo de tostão, casado com a irmã da minha mãe. Ele saia de Bonfim para Piritiba para comercializar arreios, cangalhas, reios, chapéus, celas, chocalhos, tacas, brides de cavalos e outras bugigangas.
Era gago e num saquinho de pano levava as farofas de frango, rapadura e carne seca que a tia “Ditinha” fazia. Quando acontecia viajar com ele, era tão casquinha que nem pagava um doce para mim, mal me dava um punhado de farinha. Vez ou outra se entocava na cabine do sanitário para contar o dinheiro da feira enrolado num saquinho. Nem dormia direito com medo de alguém lhe roubar.
Não podia muito vacilar porque aparecia uns ladrões e vigaristas durante a viagem para afanar os pobres passageiros, a maioria de candangos e até retirantes das secas que iam para as terras das Minas Gerais na divisa de Urandi com Espinosa. E lá ia o trem “Groteiro” no seu tic-tac ou toc-toc marrento, soltando sua inconfundível fumaça, daí o nome de “Maria Fumaça” porque era movido a lenha.
– Essa cachorra não para de latir! Deve estar com fome ou alguém bateu nela! Gritou de lá da estação da cidade de Caem um senhor em tom zangado porque uma mulher debochava do lugar e ficava rosnando “caem, caem, caem”, imitando o latido de cachorro. Aliás, muita gente fazia isso em tom de gozação quando passava em Caem. Até eu me arriscava a latir. Era só zoeira!
Com aquele fogo todo de moço novo transpirando sexo, gostava das paqueras e vez ou outra agarrava umas namoradinhas. Tascava aqueles beijos calientes. Nunca me esqueci de uma morena linda de nome Laura procedente de Cachoeira.
Depois de uma troca de olhares apaixonantes fomos para o final de um dos vagões. Nos travamos nos beijos e no mexe-mexe, mas na hora de bem-bom, o trem descarrilhou. Com medo de morrer, me desvencilhei da menina e cometi o desatino de pular fora dos trilhos. Por sorte, não me arrebentei todo numa ribanceira.
Ficamos nos correspondendo com cartas de amor e depois de anos nos encontramos em Salvador, mas, como estudante pobre “lascado”, não possuía condições financeiras para continuar o namoro. Nem tinha grana para dar uma saída, tomarmos umas geladas e fazermos uns chamegos. Tempos difíceis!
Certa feita, como estava sem grana, entrei no trem sem comprar a passagem. Ficava de olho no guarda sisudo com aquele quepe picotando os bilhetes. Ocorre que ele me pegou no flagra e aí o bicho pegou feio. O cara me levou para o vagão dele e queria me deixar na próxima estação antes de chegar em Piritiba, sem minha malinha de couro.
– Quebra um galho aí, seu guarda! Sou pobre estudante e estou sem dinheiro nenhum, nem para comprar um engano para o estômago.
– Não sou nenhum macaco, seu moleque, para sair por aí quebrando galho – respondeu o guarda. Comecei a chorar. Ele era um durão, mas compadeceu da minha situação, mesmo me deixando de castigo em sua cabine até chegar em Piritiba. Passou o tempo todo me dando aquele sabão e que nunca mais fizesse aquela molequeira.
Bem antes de viajar, quando fazia o primário em Piritiba, praticamente não perdia uma chegada de trem na estação. Sempre estava atrasado e, enquanto esperava, ficava encantado só em olhar aquele ferroviário de farda no toc-toc do telégrafo.
Ficava invocado com aqueles sinais no dedo da mão. Quando o “bicho” apitava era só alegria. Ia mais para pegar as malas dos passageiros, ganhar uns trocados para comprar gudes e gibis. Assim virei carregador de malas.
É, meus amigos, mas, infelizmente, tudo acabou quando as companhias e o governo federal resolveram parar com os trens de passageiros. Todo patrimônio se transformou em destroços de ferros velhos. O tempo se encarregou de destruir as estações. Só restaram as saudades.
O sucateamento começou no Governo de Getúlio Vargas, no início dos anos 50, e prosseguiu com Juscelino Kubitscheck quando decidiram dar prioridade às rodovias e atender as demandas das montadoras de automóveis. É o Brasil com seus projetos tortos jogando nosso dinheiro no ralo.
Aqui na Bahia muitas linhas foram desativadas, como de Alcobaça a Nanuque, em Minas Gerais, de Salvador a Contendas do Sincorá, passando por Cachoeira e São Felix, de Salvador para Senhor do Bomfim e de lá para Urandi, sem falar a Nazaré-Jequié, construída em 1927.
O nome trem tem sua origem do francês “trainer”, de puxar ou arrastar; do latim trahere, train, conjunto de vagões, carruagens puxadas por vagões ou por animais. Em Portugal é câmbio.
O primeiro trem surgiu na Inglaterra, em 1804, como locomotiva e, nos Estados Unidos, em 1827, onde essas máquinas desbravaram o Oeste e chegaram a ser recebidas a bala pelos fazendeiros que reagiam ao progresso e não aceitavam cortar suas terras. Os filmes de faroeste contam muito dessa história.
No Brasil a primeira linha de 14, 5 quilômetros foi construída em 30 de abril de 1854 entre Porto de Mauá e Fragoso, no Rio de Janeiro, por iniciativa do empresário Irineu Evangelista de Souza, conhecido como Barão de Mauá. Historiadores também falam da ferrovia Mauá – Petrópolis ao Porto de Estrela, em 1952, na Baia de Guanabara, com o nome de Baroneza, autorizada por D. Pedro II.
O CONGRESSO NÃO TEM MORAL DE COBRAR REDUÇÃO DE GASTOS DO EXECUTIVO
É até hilário para não dizer demagógico. O Congresso Nacional, um dos mais caros do mundo, com emendas parlamentares e verbas de indenização astronômicas, rejeita o aumento do IOF – Imposto sobre Operações Financeiras dos ricos e cobra que o executivo reduza seus gastos. É o mesmo que tratar o brasileiro como um idiota e burro.
Qual a moral que tem o legislativo de cobrar do governo federal que reduza suas despesas? Até concordo que o executivo tem um elevado gasto com os programas sociais, principalmente com o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continua (o BPC) que somam quase 300 bilhões de reais por ano e neles existem fraudes e terminam beneficiando gente esperta que não vive em estado de pobreza.
Muitos desses bilhões poderiam ser carreados para reforçar a educação básica, de nível médio e superior que em médio prazo tiraria milhões da miséria. A educação é a única saída para que essas pessoas possam sair dessa dependência vergonhosa sem fim e viver dignamente com o suor do seu rosto, isto é, com o seu trabalho.
A educação de qualidade para todos é a melhor forma de distribuição de renda e redução das desigualdades sociais que atinge o Brasil de maneira cruel e impiedosa. Está comprovado que esses benefícios, como o Bolsa Família, por exemplo, que já duram mais de 30 anos, não fazem a pessoa sair da pobreza para galgar outra classe social na sociedade.
Fazer três refeições não quer dizer que a pessoa deixa de ser pobre. O que faz ela sair dessa condição miserável é o conhecimento e o saber através da educação. Com uma boa formação, o jovem terá mais condições de conquistar o mercado de trabalho, subir de classe social e não precisar de esmola do governo
Não sou contra a dar de comer para quem tem fome, mas esses programas têm que ter prazos de validade e alternativas de saída para que o brasileiro dependente se torne independente e os governos municipal, estadual e federal diminuam esses gastos criadores de enormes déficits fiscais, alimentadores da inflação, o maior imposto para o pobre.
Está tudo errado na política brasileira, mas não é o legislativo, a maioria constituída de seus membros malfeitores, que tem moral para exigir redução de gastos do executivo. Eles são os maiores gastadores, incluindo o Congresso, as assembleias e as câmaras de vereadores, sem falar que legislam de costas para o povo.
Esses parlamentares, com poucas exceções, são os sanguessugas da nação e compõem a oligarquia capitalista, a nata da elite, que historicamente sempre fizeram de tudo para impedir a distribuição de renda no país.
Eles falam dos gastos sociais que são elevados, mas também não querem maiores investimentos na educação. É com um povo ignorante que esse bando de safados (nem todos) se elege. Sempre tenho dito que o Congresso é o cancro do Brasil e é um poder de defesa dos ricos.
UM PROJETO FUNDAMENTALISTA
Com tantos problemas para se resolver no município, principalmente no âmbito social, da educação e da saúde (posto que não têm médicos e medicamentos), esses 23 vereadores estão agora querendo voltar aos tempos da catequese indígena dos jesuítas da era colonial. Será que eles não sabem que, pelo menos na teoria, o Estado é laico?
Confesso que fiquei surpreso e um tanto incrédulo ao ler que a Câmara de Vereadores votou o Projeto de Lei 56/2024, que autoriza o uso da Bíblia como material de apoio e complemento didático nas escolas da rede municipal de ensino. A proposta foi do parlamentar Edvaldo Ferreira Júnior (PSDB), que contou com 17 votos favoráveis e apenas um contrário.
Pelo menos esse um teve o bom senso de respeito à liberdade religiosa e que cada um tem o direito de escolha, inclusive de não ter nenhuma. Em pleno século XXI ainda tem gente que acha que a pessoa deve ser convertida a uma religião, usando crianças e jovens para fazer lavagem cerebral.
De antemão, considero o projeto um absurdo e uma invasão escolar na religião e na crença dos outros, sem levar em consideração que temos outras questões importantes para se resolver em Vitória da Conquista. Além do mais, trata-se de um projeto que vai de encontro à Constituição de 1988.
De imediato, a associação dos professores da Universidade Estadual do Sudoeste-Uesb e o sindicato municipal dos professores reagiram dizendo que o Estado é laico. Contestaram afirmando que não se pode introduzir um material religioso num espaço laico, pois isso pode marginalizar alunos de outras crenças.
De acordo com as entidades, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) determina que o ensino religioso nas escolas públicas deve ser não confessional e facultativo. O projeto é um retrocesso e lembra os tempos de catequese onde os jesuítas que aqui chegaram depois de Cabral faziam a doutrinação dos indígenas, considerados por eles como pagãos. O papel da escola pública não é doutrinar, mas formar cidadãos com senso crítico para fazer suas opções políticas e religiosas, se for o caso.
Esse é um projeto fundamentalista religioso evangélico que cria mais ódio e intolerância entre as pessoas. Invade a liberdade de crença. É um projeto que já nasce morto, como tantos outros. Foi para isso que eles aprovaram o aumento de cadeiras sob o argumento de oferecer mais serviços à população? É um projeto que nos envergonha.
Ao invés de perder tempo com uma discussão descabida, os vereadores deveriam se preocupar com o nível de ensino que ainda é deficitário, com os problemas do transporte escolar e com muitas escolas nas zonas urbana e rural que funcionam sem estrutura adequada. Sem essa de Bíblia nas escolas! Queremos uma bancada do povo e não da Bíblia.
Os vereadores deveriam se preocupar com a situação de abandono da nossa cultura, cujos equipamentos culturais, como o Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha estão fechados há anos. Uma cidade como Conquista, a terceira maior da Bahia, não tem um Plano Municipal de Cultura, e os indicados pela Mesa Diretora para compor o Conselho Municipal não frequentam o colegiado. Eles ficaram em silêncio quando a prefreita elitizou o nosso tradicional São João, transformando-o num evento carnavalesco de estilos axé, arrocha e sertanejo.
SEM RETORNO E SEM CAPACIDADE
Não sou cientista e nem um expert em mudanças climáticas ou aquecimento global, mas basta olhar o passado de séculos de estragos praticados pelo ser humano contra o meio ambiente e o avanço continuado de destruição, para se concluir que não existe mais retorno e capacidade para se reverter os fenômenos imprevisíveis de tragédias e catástrofes provocados pela natureza.
Tenho ouvido e lido comentários de que estamos quase entrando no ciclo de não mais retorno e de não mais capacidade para reverter a situação e tornar o planeta em condições de qualidades habitáveis, reduzindo ou detendo o aumento da temperatura que nos últimos anos tem batido recordes com calor que ultrapassa os 50 graus em várias partes da terra.
Não me venham com essa de pessimista ou profeta macabro da morte. Em minha modesta visão, estamos em pleno aquecimento global e não existe mais capacidade de recuperação aos níveis toleráveis e aceitáveis de uma vida harmônica entre natureza e a humanidade.
Pelo rombo que já foi feito contra a natureza durante esses milhares de séculos, desde o homem neandertal até os tempos atuais, seria necessário um esforço conjunto e hercúleo de todas as nações para diminuir drasticamente com a emissão de gases tóxicos no ar, com o volume monstruoso de lixo e outros tipos de sujeiras que são jogados em nosso planeta.
É verdade que existem ações de grupos, entidades e instituições aqui e acolá de preservação e renovação das nossas florestas, retirada de lixo do mar e do solo, projetos de reciclagem e tantas outras iniciativas, na tentativa de deter os desastres e renovar o meio ambiente, mas ainda é muito pouco diante do alto índice de agressões do passado e do presente.
Por exemplo, no momento em que se está retirando uma tonelada de lixo do mar, outras milhões de toneladas estão sendo despejadas nas águas e na terra, mesmo porque o consumo só faz aumentar. A ordem das economias mundiais de qualquer país é consumir e consumir cada vez mais visando elevar o seu PIB – o tal Produto Interno Bruto.
Nesse cenário de horror em que vivemos, de juízo final ou apocalipse (usem a expressão que quiserem), é só usar a lógica da matemática para se concluir que a conta nunca bate, sempre existe uma dívida no vermelho, que só aumenta.
É com esse raciocínio histórico do passado e do presente que sempre digo que não é preciso ser cientista para enxergar que não existe mais retorno e que o homem não tem mais capacidade de reverter a situação, a não ser que o planeta parasse por pelo menos um ano, e isso é utópico.
O nosso cancioneiro profeta, poeta, músico, cantor e compositor baiano Raul Seixas falou do dia em que a terra parou. Poderia ser no ano em que a terra parou. Quem sabe não houvesse aí a tão desejada reversão do aquecimento global e todos seriam felizes para sempre, principalmente as novas gerações! Para estas, estamos deixando um legado de inferno.
“RAID DAS MOÇAS” QUASE TERMINA EM CONFUSÃO
(Chico Ribeiro Neto)
“Raid das Moças” tem esse nome porque é uma rifa com 100 nomes de mulheres, onde você escolhe um nome ou mais para concorrer ao prêmio. Lá no meio da cartela de papelão, protegido por um papel prateado e grampos, está o nome da mulher correspondente ao prêmio: Alba, Olga ou Zoraide? Quem será a dona do prêmio?
Antigamente, ou hoje também, rifava-se tudo. Tem uma feira no interior de Sergipe onde se se rifa porcos e bezerros, “e vai correr daqui a pouco, vamos lá, vamos lá”
Dizem que no Raid das Moças dava pra ver, antes de fechar a rifa, o nome da mulher do prêmio. Era só botar a rifa contra uma lâmpada bem forte. Contam também que se colocava o Raid das Moças num vapor, no fogão, e o selo que ocultava o nome se desprendia inteirinho. Depois, era só colar de novo.
Hoje, nem sei se ainda existe o Raid das Moças, mas tem uma rifa com 100 números (de 00 a 99), no mesmo formato, só que não tem o número do prêmio escondido no meio da cartela. “Corre” pela Loteria Federal às quartas e sábados e pelo jogo do bicho nos outros dias. Você assina 5 reais numa dezena pra ganhar 300 e o dono da rifa fatura 500, se completar a rifa. Muitas vezes, o cara não consegue fechar as 100 assinaturas e ninguém escolheu o número premiado. A grana arrecadada vai toda pro rifeiro.
O que mais tem hoje no Brasil é jogo. Para se ter uma ideia, somente no mundo das Bets, 72 empresas estão autorizadas, somando 156 marcas. E muitas Bets oferecem bônus de até 1 mil reais pro sujeito começar a jogar. Como diz um amigo: “É igual a dar a primeira pedra de crack ao sujeito que ficará logo viciado”.
- trabalhava na Redação do jornal A Tarde e era exímio gozador. Uma noite ele me disse: “Olha, o repórter S. fez uma cirurgia de hemorroidas. Vamos fazer um Raid das Moças rifando o objeto submetido à cirurgia?” Compramos o Raid das Moças e no ítem relativo ao prêmio colocamos: “um c… zero km”. “Homem tem umas brincadeiras sem graça”, mas essa quase termina em confusão.
O repórter S., dono do objeto ido a sorteio, soube da rifa e me interpelou num canto: “Olha aqui, soube que vocês estão fazendo o negócio de uma rifa aí comigo. Negócio seguinte: sou um homem casado, tenho dois filhos e não aceito esse tipo de brincadeira”. Fim de papo e fim de brincadeira.
A rifa, cuja assinatura tinha um valor simbólico (ninguém pagava nada, era só a gozação) estava quase completa, mas agora precisava ser destruída. Na hora de rasgá-la R. vira-se para mim: “Vamos, pelo menos, ver quem foi que ganhou?” “Você tá maluco!”, respondi e comecei logo a rasgar o Raid das Moças, joguei tudo na cesta de lixo, antes que alguém descobrisse o ganhador do “anel de couro” e fosse exigir o prêmio; e a minha cabeça também estava em jogo.
Um amigo do dono do prêmio chegou a comentar: “Vocês rifam o fiofó do cara e não querem que ele se aborreça! Aonde?!!!”
(Veja crônicas anteriores em leiamais.ba.gov.br)
O MATUTO E O VALENTE
– Eles vivem a brigar igual a cachorro e gato, mas não se desgrudam um do outro – comentavam os moleques da rua que temiam os parceiros, um matuto e o outro visto como valente por nome de Jairo.
– Brigam entre eles, ficam sem se falar por certo tempo, mas ninguém se atreve a enfrentar os dois. Um toma as dores do outro na hora do “pega pra capar”. Eu estou fora – dizia o colega de conversa em tom de medo.
Por volta do final da década de 50, com uns 11 ou 12 anos, sai da roça a mando do meu pai para morar em Piritiba e fazer o primário. Antes disso, passei pelas mãos de várias professoras leigas – memorável recordação da professora Nina – para aprender o bê-á-bá, mas continuava um analfabeto. Fazia uns garranchos nos papéis e lia alguma coisa com dificuldade.
Era um tímido matuto roceiro magricela que foi residir na cidadezinha recém emancipada na casa do casal Nemézio e Maricas. Além de seus dois filhos, eles criavam um rapazola negro pouco mais velho do que eu, que trabalhava como escravo. Só tinha direito à comida e a uns trocados.
Seu nome era Jairo e me aliei a esta família sendo o sexto integrante numa residência um tanto apertada. Meu objetivo era estudar e, para tanto, meu pai pagava as despesas e ainda ajudava com quilos de farinha e feijão produzidos em sua roça.
Eu era um estranho do ninho e, como matuto desajeitado e desengonçado, de roupas roceiras (calça curta) comecei a ser vítima de apelidos e deboches (bullying) na escola e nas ruas entre os outros meninos da cidade.
Não só sofria bullying (na época ninguém sabia o que era isso) como apanhava como saco de pancada. Jairo era um negro magro que tinha um soco de direita, ou de esquerda, não me lembro bem, que derrubava um armário. Ninguém se engraçava com ele porque só recebia pancada.
O matuto padecia dia e noite nas mãos daqueles moleques e ninguém o temia. Era só chamar para a briga e ele saia com o rabo por debaixo das pernas como cão sarnento, Jairo não, este era o valente respeitado, pau para toda obra.
De tanto apanhar e ser ridicularizado, um dia o matuto deu um estalo maluco na cuca, ou uma sacada, e colocou na cabeça que tinha que lutar no braço com o Jairo, o mais valente. Sabia que ia tomar porrada, mas já estava calejado mesmo! Não importava a surra. Era por uma boa causa.
Numa roda de moleques, nos jogos de gude e pinhão – a intenção era que que muitos fossem testemunhas da peleja – sem motivos, o matuto começou a provocar Jairo com palavrões, inclusive de ladrão e outros termos politicamente incorreto, para os tempos atuais.
Como morava comigo na mesma casa, a princípio Jairo evitou enfrentar o matuto. A molecada não acreditava no que estava vendo. Ninguém ousava brigar com ele porque sabia que seu punho era certeiro.
Como Jairo se fez de covarde, o matuto caiu dentro e logo recebeu uma lapada que o deixou no chão. O matuto levantou, sacudiu a poeira e deu nova investida. Até que deu uns tapas aqui e acolá, mas o matuto apanhou feio. Caia e levantava.
Para não bater mais e sangrar de morte o matuto, Jairo saiu e deixou a turma. Apanhou, mas foi o dia “D” da libertação dos bullying contra o maturo.
Em pouco tempo a notícia correu nas ruas de que o matuto tinha lutado contra Jairo. A partir dali ele passou a ser o segundo mais valente da cidade. Impôs respeito e até dava ordens para os outros.
Acabaram-se as sacanagens contra ele. Se um grupo adversário de uma rua resolvesse provocar o matuto, era só Jairo encostar que todo mundo debandava. Se o matuto entrasse num entrevero, Jairo tomava as dores, e vice-versa.
Vez ou outra os dois brigavam e ficavam dias sem se falarem. O mais curioso era que ambos dormiam no mesmo quarto, e um não dirigia a palavra ao outro. Passamos a ser “inimigos”, mas amigos porque um defendia o outro nas confusões.
Em jumentos com garotes, éramos agueiros (vendedores de água), lenhadores e fazíamos outros serviços para Nemézio. Naquela época não tinha energia elétrica em Piritiba, água encanada e a maioria dos fogões era a lenha. Todo lucro ficava para o dono dos jegues.
Foi assim que o matuto encontrou uma saída para se livrar das humilhações dos atrevidos e riquinhos metidos a bestas da cidade. Quando o matuto terminou o primário foi ser sacristão de padre em Mundo Novo e depois estudar no seminário de Amargosa.
Jairo, o grande amigo valente, já era um rapaz criado, mas não dava para continuar sendo escravo daquele casal que tanto lhe explorou e não lhe deu estudos e bens.
Pobre e sem quase nada, resolveu pegar um pau-de-arara para São Paulo. Tempos depois soube que se meteu em bandidagem na capital paulista e foi assassinado, não se sabe se pela polícia, por algum comparsa traidor ou em alguma briga, pois o Jairo sempre foi “pavio curto”.
NORDESTINOS “PAULISTAS”
– Oh, minha tia Zeferina, que animal é aquele no pasto que fica o tempo todo urrando? E aquela fruta pretinha no quintal? E essa ave toda pitadinha?
– Deixa de ser metido a besta moleque! Depois que foi para São Paulo fica aí dando uma de “paulista” e esquece que é um nordestino. Você sabe que é um jumento, teu irmão, que lhe transportou na cacunda quando menino com carga d´água, feijão e mandioca. A fruta é jabuticaba e a ave é um saquê, galinha africana, Severino!
Pois é, esse caso eu ouvi há longos anos do seu Gorgônio sobre certos jovens que se juntavam aos retirantes pau-de-arara e iam para São Paulo no início para os meados do século XX fugidos da seca para não morrerem de fome.
Numa simples analogia, São Paulo era como se fosse a terra prometida e o povo nordestino os judeus escravos que fugiram dos faraós pelo deserto, guiados por Moisés. Nessas retiradas sempre existia um líder para conduzir os famélicos à procura de trabalho e dias melhores.
Contavam os mais velhos que, depois de determinado tempo dando duro por aquelas terras estranhas, muitos retornavam para visitar seu torrão natal e seus parentes com sotaque paulista, com pinta de rico e se fazia de desconhecido das coisas, dos hábitos, das frutas e até dos animais nordestinos.
– Quase sempre os moços abestalhados vinham de lá com um rádio movido à pilha no ombro, com o som na maior altura, com pose de “paulista”. Era a maior novidade da época – me disse certa feita seu Tertuliano.
– Voltavam com aquela lábia de cantadas bregas aprendidas na capital, para conquistar as moças da roça. Muitas se encantavam e ficam mal faladas quando apanhavam barriga. O pai brabo fazia o cabra se casar na ponta do punhal. Outros caiam no mundo depois do assucedido e nunca mais apareciam.
– Quando pintava por aqui esse tipo “paulista” idiota, a família ficava de sobreaviso e não deixava a filha encostar perto do sujeito, nem dançar com ele num forró – resmungou o velho Tertuliano, que também foi um retirante e gostava de contar casos e causos do sertão nordestino e das épocas de seguidão de rachar o chão, boi berrar de sede na cacimba e criança morrer nos braços das mães, muitas delas viúvas de seus maridos vivos que ficavam por lá e até arranjavam outra companheira.
Os nordestinos arribavam de pau-de-arara deixando tudo para trás, como nos versos de “Triste Partida”, do poeta maior Patativa do Assaré, cantada por Luiz Gonzaga. Quando a chuva molhava a terra e as aves voavam o verde da caatinga, os retirantes faziam o caminho de volta para refazer a plantação.
Os tempos foram passando, e o interessante é que a viagem de retorno, mesmo aqueles que só vinham de férias, visitar parentes ou curtir as festas juninas, era feita de ônibus e não mais de pau-de-arara.
Por falar nisso, alguém aqui já pegou algum ônibus em trânsito vindo do Sul com destino às cidades nordestinas do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba ou outro estado da região?
Certa feita peguei um de Vitória da Conquista a Juazeiro e foi uma loucura! Tive que suportar a noite toda um cara com um rádio na maior altura (agora é tudo no celular ligado numa caixa, sei lá), Dentro do veículo sujo você tropeça ou se bate em tudo quanto é bugiganga, missangas, caixas, sem falar em crianças chorando.
– Seu motorista, manda aquele cara baixar ou desligar o som! Cadê o ar condicionado? Aqui está um calor do inferno! Essa criança não para de chorar – gritam os passageiros! E o cheiro forte da sujeira?
Uma vez um amigo me contou que passou por essa experiência para nunca mais repetir. Atualmente tem gente que traz até drogas nas malas e em caixas falsas de presentes, sem contar que cada um traz sua farofa.
– Ah, nessa viagem me deparei com alguns desses nordestinos ainda com sotaque paulistano, como se renegasse o Nordeste. Deve ser daqueles que não come mais o cuscuz, só hambúrguer e sanduiche. Quanto ao jegue, é até perdoável porque fizeram a malvadeza de matar nosso animal símbolo nordestino.
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM VITÓRIA DA CONQUISTA É A PIOR POSSÍVEL
Sabemos que é em toda Bahia e, no Brasil também, mas estou me referindo, especificamente, a Vitória da Conquista onde a prestação de serviços é a pior possível. É de matar o cliente de raiva e provocar um estresse que pode até levar uma pessoa a um hospital.
Na maioria das vezes, é cruel o que o vendedor do serviço faz com o cliente logo após a contratação. Você vai a uma loja e adquiri o produto, uma cama, janelas, portas, mesas, peças de cozinha ou outra coisa qualquer. Na hora de vender, o cara lhe trata bem ao ponto de mentir sobre a qualidade do material e seus usos.
O inferno começa no processo de entrega (isto você já pagou a metade ou o total do preço), o funcionário ou gerente da loja lhe promete levar o pedido no outro dia em tal hora pela manhã. Apertos de mãos e o comprador sai confiante e satisfeito, mas depois é só decepção.
O consumidor fica no aguardo ou coloca alguém para receber a compra. O entregador não aparece. Você entra em contato e alguém lhe avisa que não foi possível, só no final da tarde. Acontece a mesma coisa, e nada. O funcionário (a) diz que houve um contratempo e agora só no outro dia.
O que se percebe é que não existe gestão organizada, e a ordem do dono do estabelecimento é vender o quanto puder, com a promessa de entregar logo a mercadoria. Ocorre que “embola o meio de campo”, os passes saem errados e os empregados ficam a bater cabeça. Eles terminam levando toda a culpa.
Quando se reclama, aí aparecem as desculpas fajutas e fecham a cara. Depois da venda, a impressão que se tem é que eles estão fazendo um favor para o idiota do consumidor. Coisa é quando se contrata alguém para fazer o orçamento de um serviço em sua casa.
O procedimento do prestador também não difere. Ele marca um horário e não aparece, ou vem horas depois, até no outro dia, sem lhe dar a mínima satisfação. Essa situação não é apenas das pequenas empresas, com menor estrutura, mas também entre médias e grandes.
Quanto as pequenas, essa péssima prestação de serviços ao cliente é um dos fatores que as levam a ter morte prematura porque não se organizam e aceitam pedidos além da capacidade de atendimento, na ânsia e na ganância de lucrar de uma só vez, aí dão com os “burros n´água”. Por essas atitudes, terminam quebrando a cara, ou seja, fecham as portas logo cedo e ficam a lamentar.
Terror mesmo é quando se contrata um pedreiro ou “empreiteiro” de obra! Ai, meu amigo, haja nervos de aço para aturar a enrolação, as faltas, as sujeiras, a demora em concluir o serviço, as desculpas mentirosas, a falta de consideração e respeito. O indivíduo lhe deixa nervoso ao ponto de lhe provocar um infarto. O mais irritante é que ele acha que está com razão.
Sobre essa péssima prestação de serviços em Conquista, fico aqui a pensar com meus botões a respeito dos ciclos de palestras oferecidas pelo Sebrae! Trabalhei mais de um ano no Sebrae fazendo assessoria de comunicação e cansei de ouvir os papos desses convidados para ensinar o empresariado como ganhar mais dinheiro.
A maioria das conversas é de autoajuda, como o empreendedor ser otimista, não desistir diante das dificuldades, como fazer dinheiro, ter sucesso no negócio e outros blábláblás. Se o patrão só pensa em ganhar dinheiro e explorar a mão-de-obra, dificilmente o empregado trabalha satisfeito.
É preciso ter mais senso humanista. Ouve-se pouca coisa sobre como tratar bem e ser humano com o empregado. Gente não é somente feita de lucro e capital. Com tantas orientações e treinamentos, por que a prestação de serviços é tão ruim? Poucos procuram o Sebrae?
OS COMPADRES (MADRES) DO SÃO JOÃO
Poucos se lembram ou sabem – nem me refiro aqui a essa nova geração – como era o São João na roça onde a principal personagem era a fogueira. Sem ela não existia a festa. As comidas típicas extraídas do milho e da mandioca, o foguetório e o forró eram peças complementares, mas importantes para fechar o ritual da cultura popular.
Além dos forrozeiros para o conhecido arrasta-pé no chão batido, que fazia subir aquela poeira das sandálias e alparcatas, a fogueira era a alegria que fazia compadres verdadeiros para o resto da vida, mais do que aqueles que batizavam os filhos de outros amigos na igreja.
– Olá amigo Zezinho, vamos ser compadres de São João? – Indagava todo contente o João de Diná, que consentia com muito prazer e satisfação. E aí Mariazinha, vamos ser comadres? Vamos sim, amiga Joana de Calixto.
Formados os pares, parceiros ou parceiras, lá pela madrugada, quando a fogueira era só brasas, começava-se o ritual, se não me engano, de juntos pularem três vezes com uns dizeres numa espécie de oração em homenagem a João Batista.
Pronto, os compadres e as comadres se saudavam e selavam o compromisso até a morte. Era um juramento forte e sagrado entre amigos e amigas. Essas cenas de amizades sempre ficaram em minha cabeça, desde quando era moleque e adorava a celebração junina.
A criançada também fazia essa “brincadeira” no outro dia quando a fogueira era só cinzas. Nessa era das novas tecnologias, da internet, das redes sociais e dos ritmos bregas estrangeirados, onde o nosso São João foi descaracterizado, nem sei mais se existe essa tradição cultural na roça.
Lembro quando o dia se tornava noite na data de São João e meu pai recebia os convidados com aquele foguetório e abraços. Os homens e as mulheres chegavam logo cedo montados em seus animais, jumentos, cavalos, burros, éguas e mulas. Era aquela saudação festeira. Os que moravam mais próximo vinham a pés entre as trilhas e estradas de chão.
Todos traziam a canjica, a pamonha, o milho assado e cozido, o beiju, o aipim e outras comidas típicas juninas. Ah, não podia faltar também a cachaça (a pinga), o quentão e o licor. Não tinha a cerveja, mesmo porque não existia a energia e a geladeira. Era tudo na base do fifó e do lampião, ou lamparina, isso para quem possuía.
Para animar a festança, sempre aparecia um sanfoneiro, um tocador de zabumba e de triângulo. Além dos casados, compareciam os solteiros e as moças namoradeiras, mas tudo era feito na base do respeito, nada de dança agarradinha de rostos colados. Isso não impedia de surgir um namoro.
– Olha compadre, sua filha está de olho em meu filho, ou vice-versa. Cuidado com sua cabrita porque meu bode está solto. Os pais ficavam de butuca para os apaixonados não caírem no mato e irem às vias de fato.
Se acontecesse isso, a donzela ficava mal falada, e o rapaz era obrigado a se casar, no mais tardar no outro São João. A vigilância dos pais ainda era maior quando surgia na festa aquele tipo baiano que se debandou para São Paulo e vinha só passar o São João em sua terra natal.
O moço chegava com aquele molejo e sotaque paulista estrangeirado, com um papo de paquerador que aprendeu na capital, todo se achando de rico, se fazendo de não conhecer as coisas nordestinas. – Aquele ali é metido a besta só porque foi para São Paulo – cochichava alguém para o outro.
Às vezes, o cabra se fazia de besta e achava as comidas até estranhas. Algumas roceiras caiam na lábia do safado. Ai, meu amigo, o “paulista” estava ferrado na peixeira do pai brabo. Fora isso, tudo era só festa, cantorias, comidas, bebidas e prosas boas até o dia clarear. Como era bom o São João na roça entre os compadres e as comadres!













