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TEM CABIDE NO MOTEL?
(Chico Ribeiro Neto)
Todo mundo tem uma história engraçada de motel que viveu ou ouviu contar.
Antes dos motéis surgirem em Salvador, frequentava-se muito os hotéis da Travessa Bom Gosto da Calçada (nome sugestivo) que antes recebiam os passageiros dos trens da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro. Recebiam, agora, os passageiros do amor.
Fui a um desses hotéis um dia, à tarde. Antes de chegar no quarto, passamos por uma mulher batendo vitamina no liquidificador, menino fazendo dever e uma senhora passando roupa. O quarto era lá no fundo do corredor.
Conheço um casal que, quando foi a um motel pela primeira vez, ela levou uma sacola. “O que é isso?, perguntou o namorado quando entraram no quarto, e ela respondeu:
“Você acha que eu vou deitar em lençol de motel, que eu vou botar minha cabeça em travesseiro de motel e que eu vou me enxugar com toalha de motel?” Ela levou não só lençol, fronhas, toalhas e sabonete, mas também dois travesseiros.
Uma vez, a revista “Playboy” fez uma matéria com garçons de motel. Havia histórias hilárias, como essa: sexta-feira à noite era uma grande fila de espera de carros na parte interna do motel e os garçons atendiam nos veículos os casais que estavam á espera do amor. Mais de uma hora depois o garçom foi avisar ao primeiro da fila que o apartamento 9 estava disponível, e o motorista respondeu: “Agora não precisa mais. Obrigado.” Fez a volta e foi embora.
E tem a de Roberto Carlos. Um colega jornalista arranjou uma namorada e foram pro motel. Ainda estavam nas preliminares quando o som na cabeceira do quarto tocou “Detalhes”, com Roberto Carlos. Ela não aguentou: “Eu não posso, buá-buá, ouvir essa música, buá-buá, porque lembro logo, buá, do meu noivo. A gente acabou o noivado tem menos de um mês, buá-buá, não consigo mais fazer amor, buá, quero ir embora, buáááá. Dito e feito, nada pra ninguém.
Aconselhei ele que, sempre que fosse a um motel, perguntasse na portaria: “Aí toca Roberto Carlos? Se tocar, eu não entro”.
Havia um velho repórter em Salvador que perguntou a um fotógrafo boêmio se ele conhecia algum hotel de encontro no centro da cidade. Ele deu o endereço do hotelzinho de um amigo e recomendou: “Peça o quarto 7, que é o único que tem janela”.
Uma semana depois o fotógrafo encontra o dono do hotel na rua e pergunta:
“Mandei um amigo lá outro dia, você viu?”
“Porra, que velho chato da porra!”
“Por que? O que foi que aconteceu?”
“O velho vem transar e fez o maior escarcéu porque não tinha cabide no guarda-roupa. Ligou pra portaria e só sossegou quando levaram um cabide.”
Dias depois, encontro o velho repórter e pergunto pela história:
“Foi isso mesmo?”
“Foi, sim senhor. Eu ia pendurar minha calça aonde?”
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
AGORA É INTERVENÇÃO ESTRANGEIRA
Antes eles desfilavam nas ruas, praças e avenidas com cartazes e camisas amarelas da seleção de futebol pedindo uma intervenção militar, só que as forças armadas não embarcaram nessa barca furada. Agora, os extremistas “patriotas”, como se auto determinam, querem uma intervenção estrangeira, no caso dos Estados Unidos, do Trump autoritário.
Durmam com um barulho desse, coisa de indivíduos vítimas de lavagem cerebral. Tudo para livrar a pele do mentor e sua turma que tramaram um golpe de Estado onde estava no script do filme de terror o assassinato do presidente da República, do vice e do ministro do Supremo Tribunal Federal.
Que “patriotas” são esses que instigam os republicanos norte-americanos e seu presidente destrambelhado a intervir em decisões judiciais internas de outro país, ferindo com suas adagas afiadas a soberania nacional? Que causa esses fanáticos estão defendendo?
Para completar, ainda vilipendiam as mesas diretoras da Câmara e do Senado, impedindo o andamento de seus projetos de lei e prejudicando milhões de brasileiros, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até dois salários mínimos. Deu a louca na cabeça desses caras!
Esses traidores da pátria estão, mais uma vez, se metendo em outra atrapalhada perigosa, como se fossem salteadores da democracia. Além da intervenção estrangeira, eles ainda estão exigindo que o Congresso Nacional aprove a lei de anistia geral e irrestrita para os golpistas de oito de janeiro de 2023, bem como o impeachment do ministro Alexandre de Morais.
Como forma de punição e em defesa do ex-presidente capitão Bozó, um nazifascista, xenófobo, homofóbico, misógino e racista por natureza, o Trump aplica um tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros de exportação e ainda manda um recado para que parem com o processo contra o cabeça do golpe.
Os atos extrapolaram todos os limites e não se trata mais de liberdade democrática porque é a nação que está sendo sangrada como um porco. Portanto, têm que ser tratados como traidores. Na história da humanidade, o traidor sempre foi julgado e sentenciado à cadeia e, em muitos casos, mortos, sem piedade.
Nessa novela macabra onde só tem personagens criminosos, os brasileiros a tudo assistem em silêncio em seus confortáveis camarotes. Na plateia ainda existem os inocentes úteis que aplaudem a alcateia de lobos ferozes e carniceiros.
Fico também estarrecido com essa esquerda desbotada e pálida que não se mobiliza contra essas vespas venenosas, salvo algumas falas aqui e acolá condenando essa casa de horrores e maldades. No mesmo ritmo segue a mídia burguesa que historicamente foi sempre tendenciosa e passa um mel de coruja nos fatos tão agressivos.
Enquanto isso, o povo segue sua rotina de festas, feriadões, em suas cachaças de finais de semana e cuidando apenas de suas individualidades pecuniárias como se nada estivesse acontecendo de gravidade. Está ocorrendo uma barbárie e ninguém quer se envolver nela.
Infelizmente, desde os tempos coloniais regidos pela coroa portuguesa, esse território tão rico foi quintal de outras potências. Antes era da Inglaterra, depois passou a copiar a cultura francesa e, há muito tempo a dos Estados Unidos. Em nosso DNA carregamos o sadismo da humilhação. Na escola primária, aprendi a lição de que aqui se chamava Estados Unidos do Brasil.
NUMA FEIRA LITERÁRIA
Tudo pode acontecer de inusitado numa feira literária, principalmente quando é realizada em cidades do interior. É só observar e escutar os detalhes. Uma coisa é certa, o escritor, escritora, poeta ou poetisa, gasta mais saliva para explicar detalhes sobre sua obra do que vende.
Tem uns que narram toda história do seu romance, conto, da sua prosa ou causo e até declama sua poesia. Cada um tem sua maneira de vender o seu “peixe”, ou sua obra depois de algum tempo queimando os neurônios. De artista o cara passa a ser vendedor de livros, só que da sua autoria.
– O senhor, ou senhora, fez tudo isso? Como é feito? E tem as curiosidades das crianças sobre sua vida e como é escrever e colocar tudo naquele papel. É muita conversa para pouca vendagem, mas uma feira dessa natureza não é somente isso. É também encontro, um instrumento de projeção do seu nome, troca de ideias, projetos e, sobretudo, conhecimento, saber e aprendizagem.
Existem aqueles que vão só visitar, passam, olham e vão embora. Nas cidades pequenas e médias, muitos aparecem das periferias e até das zonas rurais sem o mínimo conhecimento do que é uma feira literária. Ficam encantados quando vê tantos livros nas estantes e bancas. Tem aqueles que expõem seus trabalhos no chão, sentados num tamborete. É uma competição saudável.
Tem aquele personagem chato que não tem nada para fazer e fica em seu pé dando uma de sabichão intelectual, de sabe tudo, dizendo o que deve ou não ser feito, mesmo de forma desconexa. Por vezes surge um bêbado para abrir a boca e falar besteiras, de que tudo aquilo ali não vale de nada.
O destaque é a criançada que chega com aquela algazarra e deixa o expositor atordoado. Por falar em crianças, os livros mais vendidos são os infantis. Passou mais a onda dos gêneros de autoajudas. Tem escritor até pretendendo mudar de estilo para enveredar no infantil que é mais comercial.
Nesses tempos modernos da tecnologia do celular e da febre das redes socais, dos cursos técnicos para atender a demanda do mercado, fico aqui a imaginar se esse público vai dar continuidade à leitura mais tarde quando jovens e adultos. Tenho minhas dúvidas, mas se vingar um por cento de 100, a feira já alcançou seus objetivos e deixou sua mensagem marcada.
Numa feira literária aparece todo tipo de visitante, do intelectual, do leitor assíduo ao que nunca viu um livro. Tem aqueles que acham que é fácil escrever, juntar as palavras para que elas se encaixem certas e virem artes.
Tem o que compra a obra do autor somente por afinidade e amizade, para agradar. Esse tipo, com certeza, não lê o livro e termina jogando no lixo ou, no máximo, passa para alguém.
Na recente Feira de Itapetinga, a II FLITA, observei um fato inédito. Uma senhora comprou o livro de poesia do amigo conterrâneo, pagou e, simplesmente, não quis levar a obra, mesmo autografado.
Ele insistiu que levasse e ela dizia que vendesse para outro. A compra foi como um tipo de ajuda financeira. Foi tão hilário que o autor foi atrás dela até colocar o livro em sua mão.
Esse fato me fez lembrar de outro, ainda mais absurdo que ocorreu aqui em Vitória da Conquista. Um grande poeta conhecido lançou seu trabalho em sua empresa onde trabalhava.
No evento, apoiado pelos colegas, chegou um “amigo”, apertou sua mão, deu tapinhas nas costas e pediu que autografasse um exemplar. Tirou foto e saiu pelo corredor da firma. Na primeira lixeira que encontrou jogou o livro como se fosse qualquer resto de comida ou coisa imprestável.
No outro dia, passou o faxineiro fazendo a limpeza geral e, para sua surpresa, lá estava a obra que ele guardou com todo carinho para ler depois. A burrice do indivíduo foi tão grande que o falso e suposto “leitor” não se deu conta que o livro poderia ser encontrado na lixeira.
Pelo menos levasse para casa, deixasse lá, jogasse fora em outro lugar ou ofertasse para alguém com lucidez pela literatura. Claro que o autor, quando soube do menosprezo, se sentiu arrasado, humilhado, decepcionado e frustrado diante de tanta estupidez do indivíduo farsante.
Existe de tudo que você imaginar numa feira literária. Tem aquele que passa, faz várias perguntas, folheia e ler alguns trechos e se mostra aparentemente interessado.
O escritor fica animado com aquela boa expectativa e até pega na caneta para dar o autógrafo, mas ele lhe derruba quando diz que vai dar uma volta, passa depois ou no outro dia. Esquece que já era.
Tem gente que aparece com um quilo de alimento ou outro objeto para fazer o escambo. Ainda existe aquele que pergunta se é de graça, se é doação.
Difícil é pintar um ladrão de livro, como antigamente, quando se tinha o hábito constante da leitura. Esse personagem desapareceu há muito tempo do nosso cenário. É coisa das décadas de 50, 60 e início dos anos 70. Com a ditadura tudo mudou.
A FLITA DE ITAPETINGA FOI MAIS UM MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA CULTURAL
As crianças e os jovens estudantes foram os maiores destaques da II FLITA, a Feira Literária de Itapetinga, além, é claro, dos escritores e editoras que se fizeram presentes ao evento, registrando assim mais um movimento de resistência cultural num país onde este setor vem sendo aos poucos abandonado pelo poder público.
A II FLITA, realizada na Praça Dairy Valley, mais conhecida como “Praça do Boi”, entre os dias 30 de julho a 2 de agosto, contou com uma vasta programação de lançamentos de livros, rodas de conversas com escritores, entrevistas, shows musicais, palestras e contação de causos através da Flitinha, num palco reservado para a criançada.
Muitas editoras, como a Nzamba, Literattum, Cogito, dentre outras, apresentaram variadas obras de gêneros diferentes ao gosto dos leitores, inclusive com temas de terror e suspense, No entanto, os livros infantis foram os mais procurados pelas crianças, incentivadas, em sua grande maioria, pelas mães. O objetivo é que essas crianças continuem cultivando a leitura quando se tornarem jovens e adultos.
Na ocasião, a cultural popular, como os cordéis de Antônio Andrade, os ternos de reis, oficinas e outras atividades ligadas ao Nordeste tiveram seus espaços. Vários bate-papos com escritores de Salvador, Vitória da Conquista, de Sergipe, de Itabuna, Ilhéus e cidades do médio sudoeste foram realizados na Academia de Letras de Itapetinga, na Loja Maçônica e no palco principal.
Além da sua função de venda e estimulo aos escritores, principalmente os novos, uma feira literária visa também o intercâmbio de ideias, projetos e conhecimento. Esses objetivos, com certeza, foram alcançados, num clima de amizade, ética e respeito a cada um.
Outro destaque foi a realização de uma roda de conversa com os estudantes sobre os povos originários. De Conquista se fizeram presentes os escritores e poetas Antônio Andrade, Jeremias Macário, Ybione, Luís Altério e a professora Lídia, representando a Editora Nzamba.
Sob a direção de Roberta (Beta), a programação da curadoria transcorreu com sucesso durante os dias da Feira Literária, se bem que algumas atividades precisam ser corrigidas na próxima edição, garantida para o próximo ano, com uma estrutura maior e melhor organizada.
A II FLITA foi aberta no dia 30 e teve o apoio da Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Educação, do Governo do Estado e outras entidades locais. A programação começou pela manhã do dia 30 de julho quando ocorreu o desfile da FLITA pelas ruas da cidade, com o tema “Ler o Mundo com Criticidade para Cidadania, Liberdade e Democracia”.
O desfile foi composto do terno de reis de Dona Totinha (Itarantim), Sociedade Civil de Itapetinga, projeto estruturante, Fanfarra de Itambé e Junina Balancê. As estantes dos escritores ficaram no pavilhão de Dona Silvana, em homenagem a uma mulher simples do povo que deixou um vasto conhecimento de suas tradições populares, inclusive na área musical.
Mesmo diante de todas dificuldades, a Feira Literária de Itapetinga deixou sua marca como mais um movimento de resistência cultural. O evento também abriu espaço para os artesões da região, com mostra de seus produtos, as artes plásticas e a escultura.
Todas as artes foram contempladas, inclusive o cinema com a apresentação do filme “Torto Arado”. No palco principal, além dos festivais de música entre os jovens estudantes, a dança e outras expressões culturais tiveram o seu lugar durante a II FLITA.
AS FEIRAS LITERÁRIAS E AS TECNOLÓGICAS
Venho observando que as feiras literárias estão murchando de forma lenta, enquanto as tecnológicas avançam a todo vapor. Não sou contra a tecnologia que é uma realidade mundial, mas não devemos esquecer do conhecimento geral no campo das ciências humanas.
De conformidade com a demanda do mercado, os nossos jovens estão sendo induzidos a ingressar em cursos técnicos para ganhar dinheiro e atender a área empresarial. Não é que isso esteja errado, mas não se pode criar uma massa de inocentes úteis que podem ser facilmente manipulados.
Perguntaria se essa nossa juventude de hoje estaria recebendo embasamento curricular suficiente para o saber da história, da geografia, da literatura, da filosofia, do português e de outras disciplinas correlatas relacionadas ao conhecimento geral?
Quando vejo essas feiras tecnológicas de robóticas, de construção de drones e outros máquinas sofisticadas, fico a imaginar em minha cabeça se esses nossos jovens têm algum conhecimento de história; sabem falar e escrever bem o nosso português; e possuem capacidade de debater numa roda de amigos outros assuntos fora da sua área específica?
As escolas, pelo menos do ensino médio, estão preocupadas no reforço escolar desses jovens tecnológicos para com o conhecimento geral, de maneira que eles lá na frente não sejam apenas simples apertadores de parafusos ou fazedores de chips? Não sejam vazios no setor de humanas? Será que nos tempos modernos não estamos apenas criando uma geração de robores?
Por falar nisso, veio-me à mente aquele filme mudo de Charles Chaplin onde o cineasta-ator passa o dia apertando parafusos numa fábrica e depois se sente uma pessoa inútil na sociedade. Em meu entender, a arte de Chaplin continua atual.
Em minha opinião, esses jovens de hoje da área tecnológica (nem todos) não leem outra coisa que não seja do seu ramo. Quase nada conhecem de literatura e escrevem o português todo errado como se vê nas redes sociais, estas verdadeiras assassinas da nossa língua materna. Numa mensagem-texto, seja pequena ou extensa, você encontra um monte de erros, como escrever próximo com “c”. O pior é que a maior parte dessa gente tem nível universitário.
Quanto as feiras literárias, onde se viaja pelo mundo das ideias, das criações e imaginações, estas estão ficando cada vez mais escassas porque não se encontram patrocinadores públicos e privados dispostos a investir na cultura como nas tecnológicas.
Nem tudo, porém está perdido. Ainda existem grupos de resistência que enfrentam dificuldades e organizam essas feiras com muita dedicação e abnegação, como a FLITA de Itapetinga, de 31 de julho a 2 de agosto, da qual estarei presente dando minha contribuição.
Precisamos reforçar a nossa cultura dentro da tecnologia para que no futuro não tenhamos um bando de alienados robores, cheios de parafusos por dentro, como já temos, mas sem nenhum senso crítico e consciência política, que nem sabe definir o que é ser cidadão e preservar sua memória.
O HOMEM DE UMA CERVEJA SÓ
(Chico Ribeiro Neto)
Fiquei indeciso sobre o título, que também poderia ser: “o homem de uma só cerveja” ou “o homem só, de uma cerveja.”
Mas, foi esse o caso que aconteceu. Antes da modernização da Ceasa do Rio Vermelho, que virou quase um shopping, eu ia muito aos bares de lá. Foi num sábado que o notei. Ele chegou com a feira dele e pediu uma cerveja. Tomava devagarzinho, pouco falava, e depois ia embora. O dono do bar me contou que ele fazia isso todo sábado, há anos, e era sempre uma só cerveja.
Eu tinha um amigo que me dizia: “Nunca me chame pra tomar só uma cerveja, isso não existe!” Quem gosta de cerveja sabe disso. Parece com aquela propaganda de um salgadinho: “Impossível comer um só!”
O que pensará o homem de uma só cerveja? Será que dá tempo de lembrar daquela ingrata? Dá pra sonhar um pouco pensando no São João do interior? Criar coragem pra ligar pra Rosa? Dá pra saber o passado do garçom? Escrever um poema ou uma crônica?
Tomei o primeiro copo de cerveja aos 14 anos, num bar em Itapuã. Na verdade, um tio colocou meio copo e quando provei achei uma coisa amarga, horrível, e tive que completar com guaraná Fratelli Vita.
Uma vez cheguei do jornal 1 hora da manhã e só tinha uma cerveja na geladeira. Botei a preciosa no congelador e fui tomar banho. Na volta, esquentei a janta e abri a cerveja. Que decepção: estava choca. É por isso que digo: tenha sempre duas cervejas na geladeira; uma poderá estar choca.
Pra terminar, transcrevo duas estrofes do cordel “Poesia e Cachaça”, de Carlinhos Cordel (recantodasletras.com.br):
“Contra falta de carinho
Cachaça, cerveja e vinho!
Você bebendo as três
Vai encontrar seu caminho”.
“Se brigar com a mulher
Beba pinga na colher
Mande a mulher ir embora
E vá morar no cabaré”.
Garçom, traga outra, por favor, bem gelada.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
AS IMAGENS ESQUELÉTICAS PALESTINAS
No início eram os tanques, as metralhadoras, os fuzis e as bombas destruindo por completo toda Faixa de Gaza, sob o pretexto de revidar, vingar e acabar de vez com os Hamas pelos assassinatos cometidos contra os judeus naquele outubro de 2023. A ordem era de deixar uma terra arrasada, como se passa um trator por cima de um casebre ocupado por famílias.
O cenário era de escombros e já nos aterrorizava pelo sangue derramado, inclusive dentro de hospitais. Os palestinos fugiam desesperados de um lugar para o outro como animais selvagens encurralados. Filhos perdidos e famílias separadas pelo fogo impiedoso de Israel, com a ajuda dos Estados Unidos. Uma covardia escancarada chamada de guerra onde só um lado mata e o outro foge.
Hoje entram as imagens esqueléticas chocantes e repugnantes, transmitidas pela televisão ou outros meios de comunicação, ao ponto de determinadas pessoas fecharem os olhos, baixarem a cabeça ou virarem seus rostos para não as ver, de tão cruel e desumana em pleno século XXI onde a humanidade se acha civilizada porque domina a tecnologia.
Como ver uma fome tão monstruosa como um verme corroendo corpos humanos enquanto se enche a barriga durante um almoço ou jantar? Mesmo que a pessoa seja bruta ou seca por dentro, não tenha sentimentos, as imagens batem como facadas mortíferas em sua mente.
Em outras ocasiões de desastres com corpos despedaçados, carbonizados ou estirados no asfalto, vítimas da violência urbana, o jornalismo atual, principalmente em suas páginas policiais (agora com outra denominação), procura por ética evitar o sensacionalismo e vetar suas publicações.
No entanto, as cenas de crianças e jovens só com a pele e o osso, de gente se matando por comida com pratos e panelas, tentando segurá-los em suas frágeis mãos, são necessárias para conscientização das nações mundiais visando que se dê um basta a essa matança pela fome.
Depois de anos, essas imagens de terror se repetem como nos campos de concentração da II Guerra Mundial, nos massacres étnicos da Bósnia de 1992, nas guerras tribais do Senegal, da Etiópia e outros países africanos. Tudo vem a comprovar que a espécie humana não se evoluiu em termos de compaixão.
Até quando vamos ter que conviver com essas imagens hediondas e criminosas? O pior é que elas estão se tornando comuns, e o mundo a tudo assisti praticamente em silêncio, a não ser uns blábláblás rosnados por alguns líderes de apenas lamentar e condenar as ações de carnificina.
Do alto da sua janela, cheio de pompas, o papa pede que se abra espaço para o grito de socorro. É mais um fato que vai manchar as páginas da nossa história, como tantos outros nas guerras milenares. Do meu lado, sinto-me envergonhado de pertencer a esta raça humana! A morte pela fome se tornou uma banalização.
Abraão veio de Ur, lá da Mesopotâmia, entre os rios Tigres e Eufrates, onde hoje é o Iraque, e rasgando suas sandálias com sua tribo, foi parar em Canaã. Com a escrava Agar se deitou e teve o filho Ismael, um tipo de bastardo, depois renegado pelo pai por pressão da sua esposa Sara.
Passado certo tempo, Abraão teve Isaac que se casou com a bela Rebeca e esta gerou os gêmeos Esaú e Jacó. Este último, parente lá do Ismael, criou as doze tribos de Israel, hoje os judeus. O filho abandonado andou pelos desertos da Palestina e seus descendentes passaram a ser conhecidos como os ismaelitas, formando assim o povo árabe.
Há mais de três mil anos estes dois povos primos-irmãos vivem a lutar por territórios, com acusações mútuas de pertencimento. Mais sagazes e favorecidos pelo holocausto de Hitler, os judeus, com suas campanhas terroristas, terminaram por ganhar da Inglaterra e dos Estados Unidos o direito a um Estado, em 1948.
Desde então, os palestinos ou ismaelitas, como amaldiçoados pelo Deus de Abraão, são diariamente encurralados por Israel, cujo primeiro ministro Benjamim Netanyahu, o facínora “Bibi”, quer exterminá-los através de suas bombas e, por fim, pela fome para não mais desperdiçar seus bélicos armamentos.
SARAU COMEMORA SEUS 15 ANOS
Com um show musical encantador, pulsante e declamação de seus poemas autorais que atraíram a atenção de todos presentes, o músico, cantor e compositor Jânio Arapiranga, ao lado da viola do seu parceiro Baducha, abriu, com sua maestria, a festa de celebração dos 15 anos do Sarau A Estrada, no novo Espaço Cultural do mesmo nome.
Podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que foi uma noite cultural de comemoração memorável, com a participação de mais de 30 pessoas, entre elas muitos visitantes que aqui estiveram pela primeira vez, como do jornalista Fábio Sena, assessor da Câmara de Vereadores, sua esposa, Dernival e amigos.
Na ocasião, foi também inaugurado o novo Espaço Cultural A Estrada, agora localizado no Bairro Sobradinho, com maior estrutura e melhor atendimento aos frequentadores desse Sarau, o mais longevo de Vitória da Conquista, que conseguiu, mesmo diante de tantas dificuldades e obstáculos, sobreviver aos seus 15 anos de debates de temas os mais variados, troca de conhecimento e saber, contação de causos, cantorias e declamação de poemas autorais.
Apesar de ser ainda um debutante adolescente, foi uma longa estrada de vida e cultura, numa interação de conhecimento entre artistas, professores, jovens estudantes, intelectuais e outras pessoas interessadas de Conquista, numa mistura de ideologias políticas, mas cada um respeitando suas posições e pensamentos.
Podemos dizer que o Sarau, que começou lá no inverno de 2010, com o nome original de “Vinho Vinil” entre os amigos Jeremias Macário, Manno Di Souza e José Carlos D´Almeida, se transformou numa escola de aprendizagens, de encontros fraternais e numa instituição do saber que já tem seu próprio legado na história de Vitória da Conquista.
Por este Sarau, de muitas lutas e conquistas, como do troféu Glauber Rocha, indicação do Conselho Municipal de Cultura e com entrega solene pela Câmara Municipal de Vereadores, já passaram mais de 500 pessoas que aqui beberam da fonte do saber e também contribuíram com suas ideias.
É um grupo que há anos vem caminhando juntos e que chegou a fazer sua apresentação em público no Teatro Carlos Jheovah, hoje fechado por falta de interesse do poder executivo pela nossa cultura.
Durante este tempo, o Sarau produziu vários projetos culturais, como um CD de músicas e poemas autorais, DVDs e vídeos de textos poéticos durante a pandemia da Covid-19, realizados por Jeremias Macário, Vandilza Gonçalves e José Carlos D´Almeida.
Durante as celebrações de seus 15 anos, no último sábado (dia 26/07/2025), no novo Espaço Cultural, vários estradeiros da cultura deram seus depoimentos emocionantes e profundos sobre esta entidade histórica da nossa cidade, como Manno, Dal Farias, Eduardo Moraes, Viviane, Vandilza, Macário, Baducha e tantos outros. Houve ainda declamação de poemas e os cantores, músicos e compositores Baducha e Manno nos brindaram com suas canções da música popular brasileira. No repertório, não poderia deixar de citar o nosso pai do rock, Raul Seixas.
A festa varou a madrugada e foi bem acompanhada de bebidas, tira-gostos e outros pratos saborosos de comida porque ninguém é de ferro. Para fechar as homenagens, os presentes, como do maior frequentador professor Itamar Aguiar (todos se sintam representados) partiram o bolo dos 15 do Sarau, no novo espaço que já se tornou no maior templo sagrado da cultura.
Devido a sua importância, o Sarau hoje conta uma diretoria composta de Cleu Flor, Dal Farias, Baducha e Eduardo Moraes, todos atualmente empenhados e concluir o registro oficial dessa entidade cultural para que possamos fazer parcerias e intercâmbios com outros órgãos. Outro objetivo é realizar um documentário sobre esses 15 anos, um material que ficará marcado para a posteridade.
Quanto a mudança do novo espaço e sua arrumação, nossa gratidão e agradecimentos ao apoio de Humberto e Rose, Dal Farias, Cleu, Viviane, Daniel, Manno, Cleide e Nete. Foram esses que chegaram juntos.
UMA HOMENAGEM AO ESCRITOR
Em decorrência de tantos afazeres, deixei de registrar aqui a data do Dia do Escritor que aconteceu na semana passada. Nem tanto prestigiado como deveria nos tempos atuais, no meu entender, o escritor é um artista das palavras, ou como aquele mestre de pedreiro que coloca tijolo por tijolo para construir uma casa, um prédio ou uma ponte que liga uma margem a outra.
Pode ser comparado também a um pintor que trabalha com a tinta e seus pinceis, enquanto o escritor, na moda antiga usava a pena, a caneta ou a máquina datilográfica. Com o avanço da tecnologia, ele hoje usa o computador. Não importa o instrumento e sim a mente e a inspiração para criar seu texto, seu gênero e até viajar no seu realismo-fantástico. É também um mágico que encanta e nos faz sonhar.
Escritores brasileiros e regionais
Tenho observado que os nossos escritores, intelectuais e professores em geral costumam citar pensamentos e obras de autores estrangeiros e pouco sobre os nossos brasileiros, principalmente os nordestinos, muitos dos quais chamados de regionais, sem falar dos locais, no caso específico dos nossos conquistenses.
Não sei se posso considerar esse tipo de comportamento como esnobismo de conhecimento, ou incluir naquela máxima de Nelson Rodrigues, de que temos o “complexo de vira-lata”, isto é, de inferioridade, por não valorizar o que é nosso, a prata da casa. É um tal de norte-americano, inglês, russo, francês, português, espanhol, polonês, argentino, uruguaio, colombiano e tantos outros.
Até parece mais chique citar um “gringo” do que um brasileiro, um regional ou local. Nosso país é rico em grandes escritores, como Jorge Amado, Câmara Cascudo, José de Alencar, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Aloísio Azevedo, Fernando Sabino, Paulo Coelho, Rubem Braga, João Ubaldo Ribeiro, Euclides Neto, Raul Pompéia, Guimarães Rosa, Afrânio Peixoto, Gilberto Freire, Luiz Gama, Oswaldo de Andrade, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, sem contar os grandes poetas que temos.
Vamos ser mais simples e abrir mais discussões literárias em torno dos nossos escritores que falam da nossa cultura com seus personagens que se identificam com a gente, embora os estrangeiros tenham grande importância e não devemos deixar eles de lado porque o saber tem que ser universal.
Mesmo entre nós brasileiros, temos a mania de desprezar o talento da terra e prestigiar o de fora, muitas vezes até de nível duvidoso. Vemos isso nas feiras literárias regionais onde os organizadores procuram sempre convidar os considerados “famosos” de outra região ou estado, em detrimento daqueles onde o evento está se realizando.
Na avaliação dos programadores, a feira só tem audiência e visibilidade maior se chamar um nome que esteja mais badalado na mídia e na propaganda das editoras, mesmo que não tenha lá esse conteúdo todo. Esse tipo de coisa não ocorre somente na literatura, mas também em festas culturais que abrangem outras linguagens artísticas, como a música, as artes plásticas e visuais.
Entendo que antes de tudo, uma feira literária, seja aonde for, só alcança seus objetivos de criação quando coloca em primeiro lugar os escritores locais que já sofrem com a falta de apoio dos poderes públicos. Muitos são independentes ou publicam suas obras através de pequenas editoras e lutam para vender suas obras e se tornarem conhecidos do leitor.
Claro que o intercâmbio e a troca de ideias não devem deixar de existir, mas vamos priorizar o escritor local e assim despertar e estimular o surgimento de novos talentos. Aqui mesmo em Vitória da Conquista temos grandes escritores e poetas que não vou citar nomes para não cometer certas injustiças.
Agora mesmo vamos ter a Feira Literária de Conquista, a Fliconquista, que já é um grande passo e elogiável iniciativa para prestigiar e valorizar esta linguagem artística, por tantos anos esquecida do nosso público.
No entanto, deixo aqui minha sugestão de que passada esta feira, seja realizado um encontro de escritores conquistenses, um foro de discussões, para dizermos quem somos, como atuamos e, principalmente, falarmos das nossas dificuldades em escrever e lançar um livro.
Precisamos montar estratégias de cooperação, deixando de lado as vaidades das fogueiras, para nos tornarmos mais conhecidos incluindo todas as faixas etárias, desde o mais jovem estudante ao mais idoso. Precisamos fazer chegar nossas obras até às mãos de novos leitores, a começar pelas escolas, bibliotecas e associações.
OS ORGANISMOS INTERNACIONAIS PERDERAM SEU PODER DE LIDERANÇA
Após a II Guerra Mundial, que ceifou milhões de vidas humanas e deixou vários continentes arrasados, principalmente a Europa, foram criados três grandes organismos internacionais que ao longo dos anos perderam seus objetivos principais e seu poder de liderança, sem contar que os países signatários não mais cumprem suas ordens.
Isso ocorreu em razão de mudanças geopolíticas com o grande desequilíbrio entre nações ricas e pobres. Seus estatutos estão defasados e as grandes potências simplesmente não aceitam uma correlação de forças, nem a entrada de outras nações como membros permanentes. As decisões perderam seu valor, ou foram banalizadas.
Três delas, como a ONU (Organização das Nações Unidas), a Corte Internacional de Justiça ou Corte de Haia e a OMC (Organização Mundial do Comércio) perderam seus propósitos. Seus interlocutores só falam, lamentam, condenam e tudo termina em pizza ou samba, como se diz no Brasil.
Através da Carta das Nações Unidas, em 26 de junho de 1945, foi criada a ONU, em 24 de outubro de 1945, justamente no final da II Guerra, com objetivo de manter a paz, a segurança internacional, fomentar a amizade entre as nações, bem como defender a cooperação.
O que temos hoje é um mundo em guerra ditada por facínoras arbitrários que não são detidos pela ONUN, caso específico do primeiro ministro de Israel que está determinado a exterminar os palestinos através de um claro genocídio humano, com bombas e por meio da fome. O outro é o Putin, da Rússia, que invadiu a Ucrânia com fins de anexar ao seu território.
As sanções econômicas e políticas não têm demonstrado seus efeitos de parar com as matanças de civis. Os Estados Unidos, por exemplo, com seu poder de veto, são os maiores aliados dos judeus que praticam um holocausto palestino. Os maiores líderes internacionais apenas ficam no blábláblá, à base do lamento.
Pela Carta das Nações Unidas, também foi criada, em junho de 1945, a Corte Internacional de Justiça, ou como é chamada, a Corte de Haia, que fica no Países Baixos. Suas ações tiveram início em abril de 1946. É o principal órgão da ONU com a função de resolver disputas entre os Estados. O Palácio da Paz, em Haia, conta com 15 juízes.
Muitos criminosos de guerra permanecem impunes cometendo suas atrocidades. Ainda nesta semana, a Corte de Haia fez um pronunciamento óbvio e ululante de que as mudanças climáticas, no caso o aquecimento global, estão ameaçando o planeta e sentenciou que os ´países cumpram com seu dever de preservar o meio ambiente.
O que vemos é cada um medindo forças para produzir cada vez mais, aumentar seus PIBs e jogar mais gases tóxicos na atmosfera. Assinam documentos em cúpulas climáticas garantindo reduzir a elevação da temperatura e fazem o contrário com a emissão de mais poluição na terra.
Outro organismo internacional que perdeu seu poder e sua liderança foi a OMC (Organização Mundial do Comércio), criada em 1995, que substituiu o antigo Acordo Geral de Tarifas e Comércio – GATT, instituído em 1947.
Entre seus objetivos estão o de promover o livre comércio (impera o protecionismo), estabelecer regras, solucionar controvérsias entre países membros e monitorar as políticas comerciais.
O exemplo mais escandaloso de desobediência à OMC partiu do maluco do Trump, dos Estados Unidos, com seus tarifaços comerciais contra outros países. Como a OMC é pouco ouvida, os atingidos pelo seu protecionismo descabido estão procurando entrar em acordos bilaterais.
O Brasil está sendo o mais afetado, não por questões técnicas e econômicas, mas exclusivamente política, com intuito de intervir em decisões do Supremo Tribunal Federal com relação ao julgamento do ex-presidente da República por tentativa de um golpe na democracia.

























