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“AMÁLGAMA”, UMA EXPOSIÇÃO DE ROMEU FERREIRA E ALBERTO BRANDÃO
Vale a pena dar um pulo no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima e fazer uma reflexão sobre “AMÁLGAMA”, uma exposição de dois renomados artistas Romeu Ferreira e Alberto Brandão que, cada um com seus estilos diferentes, unem rostos e corpos de gentes negras e indígenas nordestinas, que juntas formaram essa mestiçagem mameluca originária também de portugueses, judeus e árabes.
Romeu, um artista inconfundível a partir de suas expressões fortes de linhas e riscados predominantemente preto e branco, como se sua arte penetrasse nas entranhas profundas do físico e do mental das pessoas, com seus alaridos externos e internos. Brandão entra no mesmo sentido filosófico-político e social dessas raças humanas, porém com suas imagens coloridas.
“AMÁLGAMA”, palavra que vem do árabe e significa mistura ou ajuntamento de pessoas ou coisas diferentes. É como misturar o mercúrio com outro metal. A princípio parece uma confusão de alquimistas que terminam encontrando uma fórmula única para dar significados diferentes a uma mesma coisa, a um mesmo sentido.
É uma viagem ao mundo artístico sobre seres humanos específicos, vistos pelas lentes ou pinceis de cada um dos artistas. Cada um, dentro da sua visão, vê a mesma coisa, mas com pinturas diferentes que agradam o expectador, principalmente o apreciador da arte e da cultura.
É uma linguagem onde cada um viaja no seu imaginário e faz a sua livre interpretação. A pintura nos leva a essa dimensão metafísica. Romeu Ferreira e Alberto Brandão nos transporta para esse mundo nordestino, retratando o negro, o indígena e o “branco” mameluco.
OS 45 ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS
Com a apresentação do núcleo da orquestra Neojibá de Vitória da Conquista, a Academia Conquistense de Letras-ACL comemorou seus 45 anos de existência, período em que discutiu e contribuiu para o engrandecimento da cultura da cidade.
Na ocasião, o confrade Benjamim Nunes, que nos deixou esta semana e partiu para outra dimensão, foi homenageado com um minuto de silêncio e pela presidenta Elvarlinda Rocha Jardim que em sua fala fez menção ao legado que Nunes nos deixou para a cultura conquistense, sempre recebendo as pessoas com seu largo sorriso.
Os trabalhos pela comemoração dos 45 anos do colegiado foram realizados ontem (dia 03/09/2025), por volta das 19 horas, na sede da Academia, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, e contou com as presenças de vários acadêmicos e convidados. Muitos estradeiros do “Sarau A Estrada”, que está completando 15 anos, se uniram às homenagens de parabéns pelo seu aniversário.
Foi uma noite descontraída e fraternal no estilo de um sarau onde muitos se expressaram com declamações de poemas e cantorias de violas, como do acadêmico, cantor, poeta e compositor Dorinho Chaves em parceria com Manno Di Souza.
A presidente da ACL, em seu discurso, fez um breve histórico da entidade de letras, desde quando ela foi fundada em três de setembro de 1980 por um grupo de pessoas iluminadas e interessadas por propagar a arte e a cultura em Conquista.
Na oportunidade, ela citou os nomes de todos os fundadores, destacando Carlos Nápoles, Ricardo Benedictis, Evandro Gomes Brito, dentre tantos outros. Foi uma comemoração singela, mas significativa e profunda que tocou a alma de todos que compareceram ao ato.
DUAS FACES DA MESMA MOEDA
É bom que fique bem claro que não estou aqui me colocando em posição contrária ao julgamento dos réus que tramaram um Golpe de Estado contra a democracia no final do Governo do ex-capitão Jair Bolsonaro, o “Bozó”, culminando com o atentado aos três poderes em oito de janeiro de 2023.
No entanto, quando falo de duas faces da mesma moeda, isso me faz lembrar do julgamento parecido do Supremo Tribunal Federal –STF sobre a questão da anistia geral e irrestrita decretada em 1979 onde incluía os torturadores da ditadura civil-militar de 1964.
Os ministros do colegiado decidiram não punir os criminosos que torturaram, mataram e desaparecerem com centenas de corpos de presos político que se opunham ao regime. O tratamento deveria ser o mesmo, mas os mentores nem foram a júri.
Como há mais de 50 anos, as provas agora são bem claras e o plano só não deu certo porque não teve a adesão dos comandantes do Exército e da Aeronáutica, bem como de outros oficiais que rechaçaram a ideia maldita. Eles se recusaram a entrar nessa barca furada dos trapalhões.
Se houvesse a adesão total das forças armadas, quem iria governar o país com mão de ferro seria uma junta militar e não o Bolsonaro, como muitos seguidores, que foram às ruas pedir intervenção militar, imaginavam. Como diz o ditado popular, iam “cair do cavalo”. Eles apenas estavam sendo usados como bucha de canhão, ou como inocentes úteis.
O esquema era tão “doido e maluco” que visava matar o presidente eleito da República, seu vice e o ministro do STF, Alexandre de Moraes. No meio uns generais de pijama como maiores incitadores para derrubar a democracia e implantar um regime de opressão.
Em toda trama ditatorial existem fatos parecidos e objetivos similares, só que a ditadura de 1964 já vinha sendo urdida e esquematizada desde o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. As cabeças eram mais pensantes e houve várias tentativas pelo caminho, incluindo a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e a posse do vice João Goulart.
Naquela época da Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia, o maior inimigo era o comunismo que dividia parte dos países com o capitalismo. Havia até uma adesão do governo norte-americano que não queria ver outra Cuba na América Latina. A situação geopolítica era diferente.
Em 1964, no início do movimento, também não houve adesão de todos generais, mas o vacilo de Jango fez o jogo mudar, e a Igreja Católica, junto com a classe média conservadora, empurrou mais ainda nosso país para o abismo.
Dessa vez, os extremistas de direita e os evangélicos tentaram também colocar o comunismo como inimigo, mas não emplacou, sem contar a reação contrária das comunidades internacionais, inclusive do Governo dos Estados Unidos, não do atual.
Quanto ao este julgamento, pelas evidências de documentos, das ações e falas em reuniões e praças públicas, das declarações do delator Mauro Cid, dos acampamentos diante dos quartéis, dentre outras tramas, existem provas contundentes que poderão criminalizar e até punir os réus com cadeia, mas não por muito tempo.
O julgamento em si já é uma resposta e serve como exemplo para que outros não tentem mais na frente armar um Golpe de Estado contra a democracia. Pelo menos já é um fato inédito na história do Brasil ter no banco dos réus um ex-presidente que tentou dar um golpe num governo eleito pelo povo.
CONVERSA DO FIM DO MUNDO
Tem aquele cara que é polêmico por compulsão e em tudo tem que contestar, até dizer que pedra não é pedra, é pau ou outra coisa qualquer, como da escolinha do professor Chico Anísio. “Há controvérsias, professor”! Lembra?
O tipo polêmico pega um termo ou uma expressão mal colocada do companheiro e leva a conversa para o fim do mundo. Discute a semântica da palavra, a questão antropológica, o significado, a etimologia, o sentido filosófico, o sinônimo, antônimo, o politicamente correto e incorreto e os escambais.
– Mas, moço, não foi isso que quis dizer, talvez não tenha me expressado bem, ou houve um ruído na comunicação. Quis falar…
Antes de terminar, o polêmico já entra com outro argumento e somente ele acha que está com a razão, faz rodeios, tergiversa e já emenda outra versão do fato, muitas vezes uma coisa que não tem nada a ver com a outra.
Tenha paciência ou saco para aturar! Por mais que você procure ser claro em seu pensamento, o polêmico não desiste nunca. Não tente chegar a um denominador comum que é perda de tempo.
– Olha bicho, você está certo! Fim de papo e tchau, meu camarada! Fui… Aí, mata o cara, e ele fica espumando de raiva com o gosto de que queria esticar mais a conversa. Talvez eu tenha um pouco disso porque já me chamaram de polêmico inveterado. Deveria existir o Grupo dos Anônimos Polêmicos- o GAP.
E o chato, meu amigo! Este ainda é pior porque ninguém consegue suportar. Quer vê-lo de longe. Em quase todos lugares de trabalho e em grupos de amizades, sempre tem um, do tipo que quando você o ver numa calçada, rua, avenida ou praça, procurar desviar para outro lado e se esconder.
O chato é o chato, como diz o cantor e compositor Oswaldo Montenegro. Na redação do jornal “A Tarde”, em Salvador, tinha um colega que era insuportável. Quando ele apontava, um olhava para o outro e lá vinha aquela piada e apelido de “prosa ruim”.
– E aí, colega, o que fez ontem, tomou umas, comeu o quê, deu uma, saiu com a mulher e os meninos, como está a patroa? Ah, caramba, você não sabe o que aconteceu comigo e tome conversa chata cheia de detalhes, nos “mínimos detalhes” do programa humorístico da véia de “A Praça é Nossa”.
Aqui na Sucursal do jornal, convivi com um funcionário que soltava toda sua chatice quando bebia umas e outras. Era um porre de lascar e de deixar qualquer um fora do prumo ou do rumo. Haja saco e mais saco! O pior é que tinha a mania de falar pegando nos outros, no gruda-gruda, no agarra-agarra.
Por falar nisso, tem aquela pessoa que, mesmo sóbria, só sabe falar com você agarrando nos braços, nas pernas e outros lugares inconvenientes. Conversa com o rosto em cima de você, como se fosse beijar na boca. É um tormento!
Por educação ou gentileza, as pessoas não o chamam a atenção e ele continua sendo o chato de galocha, o mais chato dos chatos, o campeão da chatice.
– Porra, Catatau, você só sabe conversar pegando e com a cara em cima da gente! Se toca! Vi uma vez um amigo perder a paciência e dizer a verdade. O chato não gostou nada disso e revidou com xingamentos. Quis até partir para briga, mas vá brigar com um chato!
Tem o que fala baixo, o que conversa alto e não dá espaço para o outro – o meu caso por natureza, com aquela voz rouca de Paulo Diniz. Tem o educado e o gentil, com ar de aristocrata inglês de primeira classe.
Entre todas essas personagens ilustres e folclóricas que poderiam ser tombadas ou se tornarem patrimônio público material e imaterial da humanidade pelos municípios, estados, União ou até mesmo pela Unesco, a que tenho mais medo é a do gentil de fala mansa.
É, meu caro amigo, este último não é de muita confiança e fique atento de olhos abertos ou arregalados. É o tipo traiçoeiro, calculista, figadal e vingativo que pode lhe dar o bote na primeira oportunidade. Sou mais aquele ou aquela que é direto e lhe diz a verdade na tampa, mesmo que desagrade.
Também tem aquele dos chistes, do assim não pode, assim não deve, tá, tá, tá, viu, né, né, né, pois é e por aí vai repetindo essas expressões por mil vezes numa conversa do fim do mundo, e nem percebe.
Ia me esquecendo do fofoqueiro e da fofoqueira que têm um bom coração e não lhe fazem mal, mas não perdem uma para espalhar os boatos. Em comadre, tá sabendo da maior? Conta amiga que minha boca é um túmulo! Deus está vendo!
Não se preocupem porque cada um tem um pouco de cada, uns menos e outros mais, só não somos todos iguais perante as leis. A vida é assim e vamos levando numa boa. O que não dá é ser sacana, desonesto, escroto, corrupto e mal-intencionado.
A NOSSA CULTURA ESTÁ NA UTI E PEDE SOCORRO PARA SER REANIMADA
O grupo “Estradeiros da Cultura”, do Sarau A Estrada, abriu uma discussão muito pertinente sobre a situação lamentável em que vive hoje a cultura em Vitória da Conquista, talvez nunca vista em sua história.
Dentro desse debate, cada membro se expressou livremente e apresentou suas sugestões para contribuir com o “Movimenta Cultura Conquista”. É bom que fique claro que se trata de uma manifestação suprapartidária, porque a única política que nos norteia e une é a luta por uma política cultural no município.
O “Movimenta Cultura Conquista” soltou uma nota pública no último dia 25 de agosto, onde faz um apelo ao poder executivo para que a classe artística e a sociedade civil sejam respeitadas em suas principais reivindicações, quais sejam abertura dos equipamentos Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha há anos fechados.
A princípio, o Sarau A Estrada está elaborando uma carta onde pontua diversas reivindicações, como criação de um Plano Municipal de Cultura, Aumento do Orçamento Municipal para a Cultura na LDO para 2026, Reforma do Teatro Carlos Jehovah, Construção de um Centro de Convenções, Investimentos em Todas as Formas de Expressão Artística, Novo Espaço para o Conservatório de Música, Ampliação de Vagas, Contratação de Instrutores e Novos Módulos nos Bairros, Política de Salvaguarda do Patrimônio Cultural e Retomada do Natal da Cidade com Foco na Produção Local,
A gestão atual se mentem em silêncio. “É sabido que há muita dificuldade de escuta aos coletivos organizados por parte do grupo que governa a cidade” – informa a nota confirmando que foi entregue um documento com quatro mil assinaturas no início do ano sobre várias questões que constituem entrave para a revitalização da nossa cultura.
Cita ainda que o Gabinete Civil recebeu o Movimenta, em 25 de março, acompanhado do secretário de Cultura, Eugênio Avelino (Xangai) e do coordenador Alexandre Magno “e nada de relevante foi apresentado”. Destaca que o grupo esperou por uma nova reunião marcada para o dia dois de maio, o que não aconteceu.
O documento assinala precarização dos trabalhadores da cultura, fechamento dos equipamentos, deterioração do patrimônio público e retorno de verbas da cultura para a União no valor de quase meio milhão de reais referentes aos editais das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. Aponta também a descaracterização do nosso São João mediante privatização da festa, com gastos em torno de quatro milhões de reais.
“O evento deixou de acontecer no Espaço Glauber Rocha (Bairro Brasil) para ser realizado num local privado do Parque de Exposições. Dessa forma, torna-se urgente ampliar a mobilização e a luta por parte do setor cultural e da sociedade”. Todos são cumplices por esse atraso cultural, especialmente os poderes executivo e legislativo – completa o documento.
O Movimenta fala da necessidade de efetivação de políticas públicas para a cultura, mas deixou de reivindicar a criação do Conselho Municipal de Cultura, de suma importância para, através de leis, estabelecer diretrizes para a cultura que está sendo tratada como sobra de orçamento.
Bem, foi com base nesse documento que membros do Sarau A Estrada fez suas devidas colocações no intuito de contribuir para a melhoria da nossa cultura. Como os canais foram fechados, a única saída seria uma mobilização pacífica de protesto em frente da prefeitura abrangendo representantes de todas linguagens artísticas – conforme sugestões apresentadas.
O Sarau, fazedor de cultura, se integra e apoia o Movimenta em suas reivindicações e endossa a nota pública visando revitalizar o setor. A criação do Plano Municipal é uma antiga demanda da categoria.
De acordo com manifestações de membros do Sarau, os espaços fechados vêm prejudicando os artistas que ficam sem locais para realizar seus ensaios e apresentações de seus espetáculos.
“Na maioria das vezes não se tem uma política voltada para a formação e a educação da juventude no que se refere a uma visão transformadora e científica crítica. O sistema não favorece a proliferação de uma massa consciente crítica” – ressaltou um membro do Sarau.
Em minha opinião, o Sarau deve e tem a obrigação de tomar uma posição sobre tudo isso que está ocorrendo com relação ao desprezo com a nossa cultura. Afinal de contas, somos também um movimento cultural. O músico e compositor Manno Di Souza chama a atenção de que não houve respostas às reivindicações feitas.
”A situação em Vitória da Conquista é realmente preocupante e reflete uma questão mais ampla sobre o papel da cultura na sociedade. Quando o diálogo é silenciado e os espaços culturais são abandonados, a própria cidade perde sua alma. A cultura em sua essência, é a voz de um povo, o espelho de sua identidade e o motor de sua evolução”. – Ubuntu, A…
Para o músico Manno, Conquista tem um grande número de habitantes oriundos do sudeste e centro-oeste que não têm conhecimento da cultura do município, sobretudo da cultura nordestina. A professora Maria José afirma não entender como a pasta da cultura está nas mãos de uma artista renomado e o setor municipal está travado.
Em minha visão, precisamos de mais apoio das mídias em geral e mobilização de todos aqueles que fazem cultura em nossa cidade, saindo do individualismo e partindo para o coletivo. A professora Dayse, antes das eleições, fez um movimento com abaixo-assinado, mas não se sabe no que resultou. Um grupo chegou a angariar assinaturas nas feiras. Todo trabalho terminou em silêncio.
A classe artística também tem sua parcela de culpa nesse caos. “Por mais que se tente unificar os movimentos culturais, esbarra-se no individualismo, vaidades e estrelismos de alguns colegas que dirige, ou dirigiu alguns desses movimentos. A unificação pontual mudaria tudo “ – enfatiza Manno.
Dal Farias e a atriz Edna dizem estar de acordo que haja uma manifestação de todos, inclusive do legislativo. O blog Avoador publicou uma matéria onde ressalta que o coletivo de artistas denuncia o descaso da prefeitura com o setor cultural. O grupo alega que não consegue diálogo.
Muitos apontam que a nossa cultura está sendo privatizada, como aconteceu no São João. O poeta, escritor e memorialista Carlos Maia também brada sobre esse descaso, principalmente quanto ao fechamento dos equipamentos culturais.
“Temos que fazer uma convocação geral para uma manifestação de protestos” – sugerem alguns artistas, acrescentando que está comprovado que documento não funciona porque termina sendo engavetado. O artista e cantor Dorinho Chaves concorda nestes pontos.
Para Eduardo Morais, tem que haver um levante nesta cidade, de forma organizada como instrumento de alertar a comunidade e a imprensa sobre o descaso dos poderes públicos em relação às práticas culturais. A maioria concorda com essa posição. Denunciar, mobilizar e reivindicar atenção à nossa causa que é também da população conquistense” – diz a professora Viviane Gama. A atriz Edna sugere se fazer o teatro do absurdo.
TOCOU, LEMBROU
(Chico Ribeiro Neto)
Com 12 anos eu queria namorar com uma menina lá da rua, mas ela queria um estudante de Medicina que não a queria, e passava perto de mim, em Salvador, cantando:
“Quem eu quero não me quer
Quem me quer é muito pequeno”.
Era uma versão adaptada da música “Quem em quero não me quer”, de 1961, de Raul Sampaio e Ivo Santos.
Eu gostava muito de cantar no banheiro do casarão 33 da rua Gabriel Soares ( Ladeira dos Aflitos), que ficava no primeiro andar e tinha uma janela que se abria para o mar, e acho que minha voz chegava até “quem eu quero não me quer”, quase minha vizinha.
Nessa época cantei muito “Pensando em Ti”, de David Nasser e Herivelto Martins, grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves, gravada em 1957:
“(…) Nos cigarros que eu fumo
Te vejo nas espirais
Nos livros que eu tento ler
Em cada frase tu estás (…)”
Aos 11 anos cantei muito, no banheiro que tinha janela, “Quero Beijar-te as Mãos”, de Lourival Faissal, gravada pelo baiano Anisio Silva em 1957.
Em 1960 Anisio Silva gravou “Alguém me Disse”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, e fez tanto sucesso que recebeu o primeiro Disco de Ouro do Brasil.
“Alguém me disse que tu andas novamente
De novo amor, nova paixão, toda contente (…)”.
Meu pai Waldemar tinha o disco “O Ébrio”, com Vicente Celestino, em 45 rotações. Aos 12 anos eu decorei todo o monólogo que antecede a música e fazia sucesso nas rodas da família. “Nasci artista,fui cantor”, assim começava o monólogo.
Teve a fase das matinês dançantes no Clube Comercial, na Avenida Sete de Setembro, e no Clube Sergipano, na Boca do Rio.
Aí eu já tinha uns 15/16 anos e colava o rosto nas garotas ao som do Trio Irakitan, com “Bejame Mucho”, “Perfídia” e “Solamente una Vez”. A gente dançava também ao som das orquestras de Ray Conniff e de Waldir Calmon.
E aí chega o Carnaval. Pulei nos bailes infantis do Clube Fantoches da Euterpe, na rua Democrata, perto do Largo 2 de Julho, do Clube Espanhol (na Vitória), e no Iate Clube, onde a turma entrava de “penetra” pelo mar, nadando nu com a roupa na cabeça.
“Quem sabe, sabe
Conhece bem
Como é gostoso
Gostar de alguém (…)”
“Ei, você aí,
Me dá um dinheiro aí
Me dá um dinheiro aí (…)”
“Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é Carnaval (…)”
Um dos maiores sucessos do Carnaval baiano foi “Chuva, Suor e Cerveja”, de Caetano Veloso:
“Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça (…)”
Toca Raul!
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
FIBROMIALOGIA, CAFÉ E O SETOR IMOBILIÁRIO NA TRIBUNA LIVRE DA CÂMARA
Há meses, por motivos pessoais, não frequentava as sessões da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista. A feira de conversas paralelas continua a mesma na plenária e também entre os parlamentares, atrapalhando o aproveitamento dos trabalhos.
Quem vai à Tribuna Livre pouco é ouvido diante do barulho. A leitura da ata poderia ser eliminada porque ninguém consegue escutar praticamente nada. O que se percebe é uma falta total de educação e disciplina. Será que as pessoas vão ali para fazer negócios ou trocar fofocas? Será uma tradição cultural nova que eu desconheça?
Ainda está se discutindo a transferência federal da área do aeroporto velho para o município. Certa vez comentei que naquele local deveria ser construído o Centro Administrativo Municipal para desafogar o centro da cidade. Bem, é só a opinião de um cidadão.
Antes de abrir as discussões da pauta do dia (27/08/2025), várias pessoas falaram na Tribuna Livre, com destaque para críticas à administração da prefeita Sheila Lemos. Como representante do Sindicato Municipal dos Professores, Allysson Mustafá falou da volta às escolas, dizendo que muitas funcionam precariamente.
No entanto, ele focou na questão salarial entre os professores públicos e os de colégios particulares, existindo uma grande defasagem para estes últimos. Citou, por exemplo, que um professor público ganha cerca de 28 reais por hora/aula, enquanto que o de ensino pago chega a 12 reais.
De acordo com Mustafá, o de ensino privado é contratado por horas/aulas. “É uma situação precarizada na educação e existe uma desvalorização explícita que precisa ser corrigida”.
A cafeicultora e pintora Valéria Vidigal também usou da palavra para anunciar a Semana do Café em sua fazenda, no município de Barra do Choça, de 12 a 14 de setembro. Disse que esse encontro, realizado há 16 anos, é o maior do Norte e Nordeste. Dentro do evento será realizada a Feira Literária do Café e lembrou os 300 anos da lavoura no Brasil.
O café, segundo Valéria, é a segunda maior bebida consumida no mundo e, aproveitou a ocasião, para informar que o encontro contará com os melhores palestrantes do Brasil. Entre outras atividades, ocorrerá cursos de culinária. Enquanto falava, Valéria chegou a dar uma parada para pedir silêncio por parte da plateia.
Maria Aparecida usou a Tribuna Livre para tratar da questão da fibromialgia, uma doença que provoca muitas dores e outros incômodos nas pessoas. Ela cobrou da administração municipal que disponibilize médicos multidisciplinares, fisioterapeutas e vale transporte integral para os portadores dessa doença.
Aparecida fez críticas veladas ao abandono da saúde no município e disse que os médicos chegam a fazer deboches quando uma pessoa chega no consultório e fala que tem problemas de fibromialogia. “Não temos um espaço para realizarmos nossas reuniões e a Prefeitura não tem nos dado a devida atenção que merecemos. Em Conquista a saúde é um descaso”.
Quem também criticou a administração municipal foi o corretor Antônio, ao apontar que, devido à cobrança de impostos ilegais, fora da realidade do mercado, está ocorrendo uma queda na comercialização de imóveis em Conquista.
“A Prefeitura está fazendo avaliações arbitrárias. Dentro da Secretaria da Fazenda existem pessoas desclassificadas para o trabalho”. Como exemplo, Antônio citou que num imóvel no valor de 300 mil reais a prefeitura faz cobranças em cima de 600 mil. “Isto é anticonstitucional. A administração está agindo na ilegalidade no setor imobiliário e a categoria está indignada com o que está ocorrendo”.
Depois os pronunciamentos de representantes da sociedade, os trabalhos prosseguiram com as falas dos vereadores, como de Bibia que destacou as cinco tribunas livres. Manifestou-se em favor da CPI que irá investigar os descontos que as entidades, órgãos e sindicatos fizeram na folha dos aposentados, chamando-os de ladrões.
Edivaldo Ferreira se referiu à última sessão sobre a denúncia feita pela sua colega Viviane Sampaio sobre o uso de violência contra crianças e adolescentes em casas de acolhimento. Assinalou que a prefeitura vem investigando os fatos e todas ações seguem as diretrizes do estatuto das crianças.
O parlamentar Hermínio Oliveira falou sobre o encontro nacional do café organizado por Valéria Vidigal. Lembrou que o polo cafeeiro em Vitória da Conquista começou na década de 1970 e que a cultura impulsionou o desenvolvimento do município.
O CANGAÇO E O “CORONEL” SÓ MUDARAM DE VESTES
Quando você penetra nos estudos sobre o cangaço no Nordeste vem em sua mente uma visão do faroeste bandoleiro no oeste dos Estados Unidos, ou a guerra entre bandidos milicianos e traficantes nos morros do Rio de Janeiro e outras capitais. Numa análise mais aprofundada, o cangaço e o “coronel” só mudaram de vestes no Brasil dos tempos atuais, com armas mais sofisticadas.
Vejamos o que fala o estudioso no assunto, Luiz Bernardo Pericás em sua obra “Os Cangaceiros – ensaio de interpretação histórica”. “Em realidade, até mesmo a relação das volantes com os fazendeiros era, grande medida, parecida com a dos cangaceiros, guardadas, é claro, as proporções”.
Os poderosos de hoje, políticos, chefes do poder, grandes empresários, os corruptos dos cofres públicos e outras classes abastadas são os “coronéis” de ontem, com vestimentas diferentes. Eles saqueiam povoados, distritos e cidades. Quase sempre estão engravatados e exercem influências no eleitorado sem instrução e até no policiamento.
Pericás destaca que crimes com requintes de crueldade eram largamente praticados pelos “macacos”, como assim chamavam os cangaceiros. Até hoje a polícia mete medo nos cidadãos, tratando-os como bandidos nas abordagens contra negros e os mais pobres.
Muitos aceitam suborno e matam inocentes trabalhadores. Tem gente que tem mais pavor da polícia do que do bandido. No cangaço, o povo estava mais do lado dos cangaceiros, considerando-os como heróis justiceiros, se bem que de forma distorcida.
O autor diz mais ainda que, naquela época (meados dos séculos XIX até as primeiras décadas do XX), pequenos donos de terra eram expulsos de suas propriedades e tinham suas fazendas desapropriadas à força por “coronéis” poderosos, que se apoiavam nas armas oficiais da polícia que, muitas vezes, se tornavam amigos e compadres dos caudilhos rurais”.
Até hoje temos os grileiros de terras, principalmente no Norte e Nordeste, resultando em matanças de líderes que defendem os mais fracos. Nunca se fez uma reforma agrária na história do Brasil e a briga por terras é constante, com a impunidade dos criminosos, que recebem até a cobertura da Justiça que vende sentenças.
O escritor vai além, “de que a influência política dos “coronéis” ajudava na promoção de tenentes e capitães, dentro da corporação e no acobertamento de suas atividades ilícitas. Havia aí, de modo claro, uma relação de promiscuidade entre o poder público e o privado. Uma troca de favores”.
Essa promiscuidade continua a existir, sobretudo entre os políticos e chefetes, como o termo de “toma lá, dá cá”. Ainda existe o Quem Indica, comumente apelidado pela sigla QI.Quem quiser pode utilizar a palavra “pistolão”, que vem de pistola.
Naqueles tempos, quem não quisesse participar desse “arranjo” estaria fadado ao fracasso – assinala Luiz Pericás, que cita o caso do tenente-coronel Alberto Lopes, responsável pelas volantes baianas, em 1930. Dentre as imposições para assumir o cargo, exigiu que os chefes políticos locais não interferissem nas operações militares organizadas e lideradas por ele, de nenhum modo.
Essa exigência foi fatal para o tenente. Perdeu a vida numa encruzilhada pelas mãos de um chefe regional, justamente por não querer a ingerência dos “coronéis” em suas decisões. “Era comum, portanto, que um sargento, cabo ou oficial, comandando uma diligência de caça a cangaceiros (bandidos), desistisse da missão, por causa de inúmeros entraves antepostos pelos “coronéis” e chefes políticos regionais.
“Em períodos próximos das eleições, por exemplo, esses homens poderosos podiam espalhar boatos e fazer intrigas contra determinados oficiais das volantes que, porventura, estivessem criando “problemas”. Difamações eram frequentemente difundidas com intuito de retirar de suas áreas de influência, certos comandantes considerados inconvenientes. Quando o oficial era transferido, a relação entre “coronéis” e bandidos poderia continuar sem empecilhos”.
Boatos hoje montados por políticos poderosos levam o nome bonito inglês de “fake news”, ou falsas notícias para se ganhar um pleito e derrubar o adversário oposto. No mundo do crime e do tráfico, ainda perpetua a relação promíscua entre políticos inescrupulosos e bandidos, naquele tempo, cangaceiros do cangaço.
O soldo das tropas volantes daquela época era, em geral, mais baixo do que ganhava a média dos cangaceiros bandidos. Traficante hoje pode até ter vida curta, mas ganha bem mais que um soldado e até um oficial, quando ele é sério e honesto.
A corrupção e a desonestidade estavam presentes nas corporações. Uma das formas do soldado ou oficial completar seu salário era roubar os pertences dos cangaceiros após os combates. Não são todos, mas muitos policiais usam dessa prática em abordagens e apreensões ilícitas.
O “CANGAÇO E SUAS ORIGENS” ABRIU OS TRABALHOS DO SARAU A ESTRADA
Em nova casa e com a participação de cerca de 40 pessoas entre artistas, professores, jovens estudantes, novos convidados e interessados pela cultura, o tema “Cangaço e suas Origens” abriu os trabalhos do Sarau A Estrada. Foi mais uma noite memorável onde todos se sentiram à vontade para expressar seus pensamentos e ideias.
O evento foi realizado no Espaço Cultural do mesmo nome, na Avenida Sérgio Vieira de Melo, no último sábado (dia 23/08/2025), num clima de muita confraternização e troca de conhecimento que sempre norteou o sarau nesses 15 anos de existência.
Sob a organização da comissão formada por Cleu Flor, Alex Baducha, Dal Farias e Eduardo Moraes, o cantor, compositor, músico e poeta Dorinho Chaves abriu as cantorias com melodias relacionadas ao assunto, intercaladas com a declamação de poemas, em sua grande maioria autorais, e contação de causos.
Foi uma noite de violada também com Manno Di Souza, Baducha, Vamberto e outros artistas que soltaram suas vozes no ritmo da música popular brasileira, sobretudo nordestinas. Foi uma noite reservada para o nosso Nordeste, rico em tradições e mistérios.
Num ambiente de descontração e amizade, a cultura foi o ponto central das discussões na troca de ideias durante o sarau que varou madrugada a dentro, depois de um certo tempo parado devido a mudança do seu espaço.
Apesar de ainda adolescente, o sarau colaborativo, onde os participantes contribuem com petiscos e bebidas, sem contar com um fundo criado para sua manutenção, tem vida longa e percorreu obstáculos para sobreviver.
Durante esse período (começou como Vinho Vinil), o sarau já produziu uma série de trabalhos, como CDs, DVDs, vídeos de textos poéticos, apresentação em público no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o troféu Glauber Rocha, indicação do Conselho Municipal de Cultura, com entrega solene pela Câmara de Vereadores.
Em sua nova etapa, agora está sendo registrado oficialmente em cartório como entidade de direito, com condições de criar parcerias com outros órgãos públicos e privados visando ampliar seus horizontes.
Não se trata de uma festa cultural fechada, tanto que o sarau está com o propósito de abrir suas portas para estudantes de escolas para engajá-los no universo da cultura como atores de debates diversos. O mais longevo de Vitória da Conquista, ao longo desses anos, o Sarau a Estrada vem fazendo cultura e marcando sua presença na sociedade.
Como carro-chefe, sempre abrimos os trabalhos com o tema nas áreas da cultura, da educação, social e também da política, tanto que não seja de cunho partidário. Já discutimos sobre literatura, história da música brasileira, os movimentos de 1968, Graciliano Ramos, Castro Alves, Escravidão, cinema, império romano, a civilização dos sumérios, a península ibérica, forró, escritores nordestinos e tantos outros.
“O CANGAÇO E SUAS ORIGENS”
Dessa vez, colocamos na mesa a discussão sobre “O Cangaço e suas Origens”, assunto este desenvolvido pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno que nasceu no Nordeste miserável a partir de meados do século XIX, como “Os Cangaceiros”, do acadêmico Luiz Bernardo Pericás, “O Cangaceiro, o Homem, o Mito”, de Sérgio Augusto de Souza Dantas, “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello, “Lampião, Senhor do Sertão”, de Élise Grunspan-Jasmin, “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, de Estácio de Lima, dentre tantos outros.
Na introdução, Macário deu uma visão geral sobre o Nordeste do meado do século XIX, quando nasceu o movimento do cangaço, e primeiras décadas do século XX, destacando os aspectos sociais, econômicos e político da época.
Era uma região pobre e bem mais miserável onde era dominada pelos coronéis, senhores de engenhos, fazendeiros e políticos poderosos. Era uma terra de ninguém onde a justiça e a lei eram as armas. Quem tinha mais posses e dinheiro mandava.
Em resumo, o cangaço nasceu daquele sistema cruel onde o homem pobre era escravo do seu patrão, espoliado como se fosse uma mercadoria qualquer. Por vingança de assassinato de um familiar, revolta das condições de miséria, falta de justiça aos menos favorecidos, brigas por terras, a opção era o cangaço, que vem de canga de carros-de- bois, utensílios velhos e apetrechos.
Com o tempo, o cangaço tornou-se uma espécie de empreendimento para seus líderes, como Antônio Silvino (1897-1914), Sinhô Pereira, Antônio Brilhante, Lampião, Corisco, José Bahiano e tantos outros, que se aliavam aos coronéis amigos, políticos, comerciantes ricos e poderosos para praticar a vindita contra opositores e realizar seus saques em povoados e cidades do Nordeste.
Heróis, bandidos ou justiceiros? Estavam mais para bandidos marginais, mas não gostavam de assim serem chamados. Na falta da justiça, faziam justiça ao seu modo, protegendo uns e matando outros. No entanto, mesmo diante de tantas perversidades, o povo miserável e ignorante tinha fascínio pelos cangaceiros que percorriam vários estados nordestinos e eram perseguidos pelas milícias ou volantes, ainda mais violentos com a população.
Quando se fala em cangaço, as pessoas logo lembram de Lampião, o mais estudado e pesquisado pelos escritores – disse Jeremias, ao acrescentar que ele foi muito mistificado e divulgado pela imprensa, como se tivesse sido o único governador do sertão.
Existiram outros que marcaram época, como o próprio Antônio Silvino, antecessor de Lampião, talvez mais cruel que, ferido de morte pelas volantes, se entregou em 1914 e ficou preso por mais de 20 anos na Casa de Detenção de Recife. Morreu num casebre de Campina Grande em desgraça.
Antônio Silvino serviu de inspiração a Lampião que brincava de cangaceiro quando ainda era menino e se tornou o símbolo maior do cangaço, que teve seu auge na primeira década dos anos 1900 e terminou em 1940, após a morte de Virgulino Ferreira da Silva, em 1938, na Gruta do Angico, em Sergipe.
Os cangaceiros detestavam os soldados, chamados por eles de “macacos”, mas em seus grupos mantinham regimes parecidos. Descreve o estudioso Luiz Bernardo Pericás, em sua obra “Os Cangaceiros”, que o “homem” constituiu vários locais de “recrutamento”, entre os quais a fazenda Paus Pretos, do “coronel” Petrolino, para receber com segurança os foragidos e perseguidos da polícia. A fazenda Três Barras foi transformada em “escola de guerra” e campo de treinamento militar.
Era comum, segundo Pericás, o uso dos nomes de guerra por diferentes cangaceiros. Para confundir a polícia e homenagear os marginais tombados em combate havia dois cangaceiros com o nome Esperança; três Sabiás; quatro Beija-Flor; dois Pitombeiras; três Asa Branca; dois Cocadas; Três Pai Velho; dois Moita Braba; três Marceca; quatro Ponto Fino, e assim por diante.
No período lampiônico, os cangaceiros desenvolveram um sistema de alarme parecido com o utilizado por Lucas de Feira, o “demônio negro”, na primeira metade do século XIX, na Bahia. Na época, Lucas montava uma rede feita de cipó com um chocalho na ponta, próxima do seu esconderijo. Servia como aviso de aproximação de inimigos.
Lampião, que aperfeiçoou o cangaço, começou a dividir seu bando em “subgrupos”, em “pelotões” semiindependentes, que agiam por conta própria, mas que se uniam ao núcleo principal quando eram requisitados. Chegou a possuir de seis a dez falanges de criminosos.
Para esconder as marcas de pegadas, os cangaceiros sempre andavam em filas indianas, com Lampião sempre à frente. Em períodos de chuva, andavam sobre pedras, dentro de riachos ou pulavam de um lado para o outro nos caminhos de terra seca. Em alguns momentos, eles usavam alpercatas “reviradas”, com o calcanhar em posição contrária. Eram verdadeiros curupiras. Essa tática havia sido utilizada por João de Souza Calango, no final do século XIX.
Suas indumentárias se assemelhavam aos dos vaqueiros, com trajes mais elaborados, que mantinham sua funcionalidade militar, mas se destacavam pela quantidade de ornamentos, como medalhas e moedas. O chapéu de couro já era usado em épocas anteriores. Duas cartucheiras se cruzavam no peito dos salteadores, levando cerca de 129 balas de fuzil. Carregavam um revólver ou pistola, punhais e dois a quatro bornais. O peso completo das roupas, do dinheiro roubado e dos equipamentos em geral chegavam a cerca de 30 quilos. As armas eram modernas, fabricadas nos Estados Unidos, na Alemanha e na Bélgica.
De acordo com Pericás, um dos motivos para a longevidade da “boa” recordação dos cangaceiros seria sua contraposição às volantes dos governos que praticavam roubos, espancamentos e assassinatos como os cangaceiros. Como transgrediam as leis, ficavam com uma aparência negativa perante às comunidades sertanejas. A população via nos cangaceiros o oposto das volantes, aqueles que lutavam pela ordem.
Dos amigos de infância de Virgulino, os meninos que brincavam de guerrilha, alguns o seguiram e outros se tornaram adversários. Uns viraram “bandidos” e outros “macacos”. O mais ferrenho inimigo de Lampião foi José Saturnino, companheiro de meninice, no Vale do Pajeú, membro da família Nogueira que, com outras famílias, como os Feraz, se incompatibilizaram com os Ferreiras. Diz um jornalista que se Virgulino fosse chefe de uma volante, os Ferraz, apelidado de Flor (Manuel Flor) formariam um bando de cangaceiros. O clã dos Flor foi um dos mais aguerridos “caçadores” de cangaceiros. José Flor, compadre de Lampião, fazia parte da Força Volante. No sertão haviam dois “partidos, o do cangaço e o da polícia.
Como foi dito acima, o tema é vasto e carece de mais estudos e pesquisas porque existem muitos mitos e lendas que precisam ser esclarecidos no campo da verdade. Alguns escrevem sob o manto dos boatos do povo, sem se aprofundar nas pesquisas investigativas.
É preciso que se entenda que o Nordeste não é somente fome, miséria e cangaço. A região é rica com suas diversidades culturais únicas no Brasil, inclusive com escritores, poetas e artistas de renome nacional e internacional, sem contar sua força na economia, na indústria e no comércio.
Tudo isso e muito mais foi o nosso sarau do último sábado, dia 23 de agosto de 2025, onde muitos ensinaram e também aprenderam na troca do saber. Debates, cantorias, declamação de poemas, acompanhados de comidas, umas geladas e vinho, nos levaram por uma viagem ao mundo mágico da cultura.
NAS DIVERSIDADES DAS ESTRADAS
A Bahia é um estado nordestino que cabe dentro da França e é maior do que muitos outros países, com suas diversidades culturais, de clima e solo, na maior parte semiárido, mas temos outros biomas como o cerrado, a Mata Atlântica, a ciliar, de cipó e dentro dela a bela Chapada Diamantina.
Sair de Vitória da Conquista, beirando Minas Gerais, cortando estradas até Juazeiro, pouco mais de 800 quilômetros, no norte da Bahia, divisa com Pernambuco, é conhecer essas diversidades e gente diferente.
Atravessar a Chapada, a partir de Ituaçu, com sua Gruta da Mangabeira, passando por Barra da Estiva, Mucugê, do Cemitério Bizantino, Andaraí e Rui Barbosa é entrar em terras estrangeiras e o mesmo que fazer uma desintoxicação mental.
Depois você passa por Baixa Grande, Mairí, Várzea da Roça, São José do Jacuípe, Capim Grosso, Senhor do Bonfim e em Juazeiro você toma a benção ao “Velho Chico, ou rio Opará, rio-mar em tupi-guarani. Nele se faz o descarrego de banho em suas águas, como diz o meu amigo professor Itamar Aguiar.
O mais cruel nessas estradas para quem vai de carro próprio é aturar as centenas de quebra-molas. Em alguns deles passei no pulo do gato. Cada povoado tem dois ou três lhe esperando e muitos sem a sinalização. É só construir uma casa às margens da estrada e lá vem o quebra-mola. Se fosse contar daria para mais de 300.
O nosso sertão está seco com aquela paisagem cinzenta onde só se ver os engaços e bagaços das árvores, com exceção do verde do mandacaru, o nosso símbolo de resistência que representa a coragem do homem nordestino.
Em alguns locais só choveu no último dezembro e a água está escassa. O mais encantador dessa paisagem árida de chão estorricado é que, quando batem as chuvas, de repente, em questão dias, tudo fica florido, dando vida à fauna e à flora, com sua exuberância e fartura que não se tem em outro lugar.
No retorno você vem cortando outras estradas e cidades, como Antônio Gonçalves, Pindobaçu, Saúde, Caem, Jacobina, Miguel Calmon, Piritiba e Mundo Nova, conversando e assuntando o comportamento das pessoas.
É uma viagem para reaver parentes e velhos amigos, mas também para contar e ouvir causos e estórias daquele povo simples, bem diferente da capital ou dos grandes centros urbanos, metidos a bestas e “civilizados”.
Onde se chega é bem recebido, se come e se dá boas gargalhadas que espantam os problemas do dia a dia. Vi um veículo tipo lata velha rebocando uma caminhonete nova, um motoqueiro puxando um cavalo pelo cabresto e um velho fazendo malabarismos.
Em Piritiba, onde me deu régua e compasso, conheci um poeta de 99 anos e declamamos alguns versos que falam do sertão. O município elegeu a primeira prefeita da sua história, desde a sua emancipação.
Nas prefeituras, ainda persiste o velho assistencialismo. Numa delas, um bocado de gente na porta, cada um com seu pedido, um mais esquisito que outro, para o prefeito ou a prefeita.
Conversa vai e conversa vem, uma senhora estava com um bilhete em sua mão onde pedia uma cama porque a sua havia quebrado. O pessoal que estava na fila fez aquela gozação e ela também caiu na risada.
É isso aí, cortando estradas você observa muitas coisas interessantes e também fica mais próximo da pobreza, do eleitor que sempre está sendo enganado pelas promessas de dias melhores que nunca chegam.




































