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:: ‘Notícias’

TODA TRAMA GOLPISTA DITATORIAL É MARCADA COM BANHO DE SANGUE

Na história da humanidade, todo golpe, seja de direita ou de esquerda, é marcado com banho de sangue, no início ou durante o processo do regime implantado. A tentativa brasileira, agora denunciada pela Polícia Federal, começaria por eliminar os três principais representantes dos poderes executivo, o presidente e o vice, e um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Esse procedimento tirânico e sanguinário é muito parecido com os golpes que costumeiramente acontecem em certos governos africanos. É também semelhante aos russos na Revolução de 1917 com a família do czar Nicolau II e depois com o próprio Lenin. Existe uma tese de que Lenin tenha sido envenenado a mando do próprio Stalin.

Na América do Sul ocorreu em 1973 quando o general Pinochet ordenou a execução do presidente Salvador Alende em seu Palácio através de um bombardeio, com apoio dos Estados Unidos. Houve também casos desse tipo na América Central e na Ásia. Na antiguidade e entre os séculos XIV, XV até o XVIII e XIX, chefes tribais exterminavam primeiro seus adversários no comando.

No Brasil, essa trama golpista, inclusive prevendo possíveis envenenamentos, com mortes antecipadas de membros mais importantes da instituição do poder, eleitos democraticamente pelo voto popular, pelo que eu saiba, é a primeira vez que entra no cardápio de assassinatos. Então, trata-se de um grupo tirânico aos moldes antigos de crueldade.

Os golpes no Brasil, como da República sobre o Império, em 1889, a tentativa de uma ditadura, em 1954, com o suicídio de Getúlio Vargas, e a mais recente de 1964, não estavam em seus scripts a matança de representantes do poder, como João Goulart, Waldir Pires, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e outros, mas a destituição, prisão e exilamento.

Claro que a partir dali e durante os mais de vintes anos da ditadura civil-militar-burguesa de 64 houve um banho de sangue, com torturas, mortes e desaparecimentos de presos políticos, inclusive Jango, Juscelino Kubistchek e Carlos Lacerda foram eliminados no final do regime para que eles não se candidatassem ao poder.

No caso do ex-presidente capitão, expulso da sua corporação por indisciplina e outras irregularidades, e do seu grupo extremista de tenentes-coronéis e generais, foi uma trama diabólica atípica, diferente dos outros métodos, justamente porque eles não contavam com o apoio geral de comandantes da ativa e tropos das forças armadas do exército, da marinha e da aeronáutica.

Se o bárbaro fato fosse consumado, a maior parte dos brasileiros e do mundo ficariam estarrecidos e chocados. Tenho minhas dúvidas se o “Bozó” não seria também sacrificado, e assumiria, por pouco tempo, uma junta militar de generais e coronéis de pijama. Poderia até acontecer um golpe sobre o golpe.

Com o consentimento e aval do chefão, os caras são uns malucos instigados por extremistas que bem antes foram às ruas pedir uma intervenção militar no Brasil e depois acamparam na frente dos quartéis urrando contra as eleições e a democracia com seus “punhais verde-amarelos”.

Depois do resultado do pleito, em outubro de 2022, o capitão derrotado sumiu de cena. Lembro que alguém me perguntou sobre seu sumiço e respondi que estava conspirando um golpe. Alertei que vinha bomba por aí. A trama já vinha sendo arquitetada antes com as fakes news de fraude nas eleições, mas eles ficaram novembro e início de dezembro armando literalmente o banho de sangue.

Deram com os “burros n´água” e, talvez, seus planos tenham sido atrapalhados pelas próprias manifestações na posse de Lula e Geraldo Alkmin, no dia 12 de dezembro de 2022. Depois teve o oito de janeiro com a invasão do Congresso Nacional, do Supremo e do Palácio do Planalto.

Quanto ao ministro Alexandre de Moraes, este já vinha sendo jurado de morte. Não passam de uns trapalhões perdedores fanáticos do “punhal verde amarelo”, coisa de cangaceiros contra a democracia, a exemplo do primeiro homem bomba tupiniquim do Brasil que nem conseguiu acerta a estátua da Justiça com suas bombas e fogos juninos.

 

 

O PRIMEIRO HOMEM BOMBA TUPINIQUIM

Na história da humanidade não sei qual foi o primeiro homem bomba, mas foi coisa do sapiens há 30 mil anos. Pode ter iniciado a partir dos chineses, os inventores da pólvora. De qualquer forma, é uma ação de fanatismo suicida, bem como uma forma “corajosa” de protesto, como do vietnamita nos anos 60 contra a invasão norte-americana.

Os primeiros suicidas que explodiam o próprio corpo apareceram entre os séculos XIV e XVI. Mais recente, na Segunda Guerra Mundial, tivemos os soldados kamikazes japoneses bem treinados que explodiam seus aviões cheios de bombas em terra para destruir seus inimigos, sem promessa de ganhar um lugar no reino dos céus com várias donzelas. O prêmio era se eternizar como heróis pelo imperador.

Existe também o japona que se suicida com sua espada quando se sente envergonhado ao cometer uma ofensa social ou um ato de corrupção. Ele se sente destruído por dentro pelo que fez de errado e prefere tirar a própria vida. Imaginou se os brasileiros topassem fazer isso? A maioria se suicidaria. Não sobraria quase ninguém em Brasília.

No entanto, foram os fanáticos islâmicos do grupo Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, que botaram para quebrar, com direito a um harém nos céus. Depois vieram os islâmicos radicais que tentaram criar um califado entre o Iraque e a Síria.

Todos os escolhidos passam por uma lavagem cerebral, são instruídos em escolas e bem treinados para a missão. Tem que ser cabra macho, ou cabra da peste! O assunto aqui é sério, gente, mas vamos tornar mais leve deixando a questão política de lado.

Bem, vamos parar de ôba-ôba e falar do primeiro homem bomba brasileiro tupiniquim, um extremista trapalhão que não conseguiu nem acertar a estátua da Justiça em frente ao Superior Tribunal Federal. Não me importa aqui sua ideologia ou propósito político, mas o cara era uma besta fera mesmo com seus fogos de artifício que nem sabia manejá-los.

Na fuga, o catarinense Francisco Wanderley Luiz, dizem que ele era um chaveiro, depois de várias tentativas, tropeçou e as bombas explodiram em seu corpo. Primeiro foi para Ceilândia, depois alugou um trailer em Brasília e lá foi ele com seus fogos de São João antes do tempo. Um péssimo fogueteiro fazedor de chaves.

Acho que nem tinha intenção de se suicidar. Se ele queria mesmo fazer essa loucura, primeiro tinha que passar por um campo de treinamento no Iêmen, no Afeganistão ou no Paquistão, mas não falou com os caras antes e nem tinha grana para receber uma consultoria profissional! Coisa de doido amador!

Francisco não passava de um marinheiro de primeira viagem que enjoou no mar. Trágico e cômico, não passa de uma história cheia de trapalhadas. Já reparou que o Brasil gosta de imitar as outras civilizações desde os tempos coloniais!  Pois é, copia atrasado e também acaba com a imitação tempos depois. Veja o caso dos celulares nas escolas.

Um “terrorista” falso, como a nossa Black Friday (“sexta-feira negra”), um invento comercial dos ianques no século XIX, ligado ao Dia de Ação de Graças. No Brasil começou a aparecer nas lojas em 2010 e virou um mês de enganação ao consumidor. Como tudo aqui se leva na gozação e na piada, passaram a chamar de Black Fraude.

O “Chico” se deu mal em sua intentona revoltosa e levou uma lapada de fogos. Sei que não devemos debochar da miséria dos outros, mas o moço era um tonto perturbado da cabeça. Bem que o Zorro avisou que não ia dar certo e os islâmicos radicais fanáticos devem ter rido das cenas. O super-homem e o Batman não gostaram do que viram, nem o Homem Aranha.

Foi um “auê” de soldados no Planalto, correndo pra lá e pra cá. Nunca tinham visto aquilo de homem bomba no Brasil! Se a moda pega, na próxima vão chamar um instrutor islâmico, mas antes vai ter que decorar o alcorão para ter a recompensa de um pedaço no reino celestial com belas mulheres, de preferência brasileiras.

 

 

 

REPÓRTER DE HOJE NÃO SABE MAIS COMO DESCOBRIR UMA BOA HISTÓRIA

Falei aqui semana passada sobre a crise em que vive o nosso jornalismo, não somente aqui em Vitória da Conquista onde os blogs substituíram os jornais impressos a partir dos anos 2000 e não houve evolução de conteúdo e qualidade em suas matérias publicadas, com raras exceções.

Por falar em matérias e reportagens nos veículos de comunicação, tenho observado que os repórteres de um modo geral parecem que desaprenderam extrair de um evento, fato ou acontecimento uma boa história para entregar ao seu leitor, ouvinte ou telespectador. O que vemos é aquele “feijão com arroz” de sempre, ou seja, o factual.

Vou colocar aqui como exemplo mais recente, as coberturas da Feira Literária de Conquista, a Fliconquista que se encerrou neste último domingo. As entrevistas foram sempre direcionadas à curadora do evento, com aquela mesmice da programação, e quase nada de importante como fato interessante dentro da feira.

Estive conversando com alguns escritores, livreiros e expositores e descobri uma boa história digna de registro. Trata-se do José da Boa Morte que veio lá de Salvador de “buzú”, mesmo sem ser convidado, vender seus livros “ARTPOESIA”, uns de sua autoria e outros comentados que ele reproduz de poetas e escritores famosos.

José da Boa Morte, cuja família vem lá de Santo Amaro, mas é soteropolitano, é um personagem interessante que poderia já ter recebido um troféu de “rei das feiras literárias” da Bahia e do Brasil. É uma pessoa simples, mas de muita sabedoria, esforçado e organizado com seus projetos de divulgação da nossa literatura brasileira.

Quando começa o ano ele já coloca em sua agenda o calendário de todas as feiras em que vai participar, principalmente na Bahia e no Nordeste. No maior sacrifício, ele faz suas andanças literárias de ônibus e, na maioria das vezes, paga seus custos e se vira para cobrir suas despesas. Seus itinerários são todos preestabelecidos.

Para a Fliconquista, por exemplo, ele desembarcou aqui no dia 13/11 com suas malas e, antes de vir à feira, deu uma rodada na cidade vendendo seus livros para, pelo menos, pagar seu hotel e o transporte. Depois conseguiu com a coordenação uma mesinha no foyer do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima para expor seus trabalhos. Como se não bastasse, ele ainda foi à Flibelô, de Belo Campo, de sábado para domingo.

Este personagem vendedor de livros tem uma boa narrativa de vida cultural para contar a um repórter descobridor de boas histórias. Além do mais, ele deveria compor uma roda de conversa literária ou uma mesa de debates para passar suas experiências. É uma pessoa que se dedica de corpo e alma a participar das feiras literárias e vive disso, coisa rara neste setor.

Pois é gente, José da Boa Morte, na Fliconquista, é apenas um exemplo citado que merecia ter sido entrevistado por um repórter contador de boas histórias e notícias. O público gosta muito disso, de ler e ouvir coisas inusitadas extraídas de um evento ou fatos noticiosos. Numa reportagem, o bom repórter tem que investigar algo novo que chame a atenção das pessoas.

Na Fliconquista tinha também um escritor de Salvador que se dedica a escrever sobre o gênero de terror. Sua história também daria uma boa reportagem. Peguei o caso da Feira Literária de Conquista para mostrar que o repórter de hoje, quando sai para realizar uma cobertura jornalística, raramente traz uma boa história para sua redação. Não é apenas fazer o factual e copiar o boletim de ocorrência.

 

FLICONQUISTA ESQUECE A “VELHA GUARDA”

Estava lendo num blog da cidade de Vitória da Conquista uma observação bastante pertinente quanto a realização da Fliconquista, pela segunda vez, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, com o apoio financeiro, em sua maior parte, de emendas parlamentares.

Ouço comentários de que a feira é uma “panelinha” de cartas marcadas de um grupo onde poucos têm sido convidados a ocupar seus merecidos espaços. Bem, a crítica do blog chama a atenção, depois de ouvir pessoas que não citaram seus nomes, que o evento esqueceu a “velha guarda”, isto é, aqueles escritores da velha geração que têm uma base cultural sólida de conhecimento e várias obras publicadas.

Lançamento da coletânia Vozes que ecoam na jóia do Sertão Baiano, organizada pela escritora Chirles Oliveira, da editora Noi Soul

Destaca ainda o site que não é somente prestigiar os novos talentos (tem muita gente lançando livros a esmo, mais por vaidades), no que concordo plenamente, isto porque nunca devemos deixar de dar lugar àqueles que tem serviços prestados à nossa cultura ao longo dos anos, para contar suas histórias com suas lições de experiência. Para o porte de Conquista, a feira é miúda.

Não me considero nenhum ícone da literatura, nem superior aos outros, mas sei o quanto tenho lutado em defesa da nossa cultura nos últimos 33 anos em que aqui me estabeleci como chefe da Sucursal a Tarde, em 1991, primeiro abrindo espaço para nossos artistas divulgarem seus trabalhos no periódico.

Não vou me alongar sobre minhas outras atividades como ativista cultural, como um dos fundadores do “Sarau A Estrada”, premiado com o troféu Glauber Rocha e com 14 anos de existência. Tenho ainda cinco livros publicados que fazem referências a Conquista, especialmente o “Conquista Cassada” que fala da ditadura civil-militar-burguesa e da cassação do ex-prefeito José Pedral.

Quero dizer com isso que, como também pertencente a esta “velha guarda”, não fui convidado a participar da Fliconquista e não vi nenhum link e edital de inscrição. Não importam minhas posições políticas (dizem que sou polêmico), mas me sinto também um excluído, como tantos outros com serviços prestados a esta cidade na área cultural.

Não é meu estilo sair por aí rogando um lugar ao sol, não por questão de orgulho, mas por amor próprio, valorização e respeito a mim mesmo. Não se trata de vaidades, mas de consideração. Aqui em Conquista, como ocorre também em outros lugares, a pessoa só é reconhecida no que já fez e ainda faz depois de morta. Homenagem depois da morte é hipocrisia e falsidade.

Desculpem o meu desabafo, mas essa Fliconquista precisa abrir mais suas portas e seu leque para todos fazedores de cultura, sem distinções ideológicas de qualquer espécie, não somente para os novos talentos e personalidades de fora. Nunca pode deixar de excluir a chamada “velha guarda” que já tem seu legado registrado na cidade. Isso se chama ingratidão.

PEQUENOS VERSOS TAMBÉM CHAMADOS KAIKAIS

(Chico Ribeiro Neto)

É trágico

ver a cara de Trump

pelo olho mágico

xxx

velho não cansa

enverga

pra catar esperança

xxx

vê se acalma

a chuva molhou

embrulho e alma

xxx

palhaço tímido

subia no picadeiro madrugada

fazia graças

e ouvia a própria risada

xxx

ninguém compra jornal

a Ilustríssima

limpa cocô do au-au

xxx

revelação

saíram vermes

da televisão

xxx

ratoeira só pega um rato, rapaz,

os outros não caem mais

xxx

tanto calor

poste da rua

murchou

xxx

olho de peixe

é um halo

tão bonito quanto

o olho do cavalo

xxx

a boa ideia no banho

escorreu pelo ralo

xxx

joga lança

que a formiga dança

xxx

caso gozado

telefone de lata

deu ocupado

xxx

emoção

rádio tocou agora

minha canção

xxx

O cineasta Federico Fellini contou que uma vez uma criança perguntou a um maestro: “Quando a música acaba de tocar, ela vai pra onde?”

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

 

O LEITOR QUER DO ESCRITOR UMA COISA NOVA QUE O PRENDA E O FAÇA REFLETIR

Como na poesia, onde o poeta busca mostrar o invisível aos olhos dos outros, assim é o escritor que tem que oferecer ao leitor algo novo, criativo e imaginativo que o prenda e o faça refletir. Ele não quer o óbvio ululante, ou aquele texto maçante de um enredo fraco e insosso. Escrever por escrever?

Pode ser um romance, uma crônica, um conto, um artigo, um comentário sobre determinado assunto ou até mesmo uma matéria jornalística, o escritor tem que se virar para cativar a alma do leitor. Não é fácil, e é por isso que escrever é uma grande arte para poucos porque é um jogo de palavras.

É uma arte tão difícil e complicada que você não tem como agradar a todos, daí as críticas contra e a favor. Soa como uma música onde cada um tem seu próprio gosto, seu próprio estilo. O escritor pode ser comparado também a um chefe de cozinha que tem que se esmerar na comida para bem atender o paladar do cliente.

Antes de sentar em frente do meu computador, coisa que eu faço quase que cotidianamente, fiquei a pensar com meus botões: O que vou escrever hoje, mesmo diante de tantos acontecimentos, fatos e notícias que recebemos no dia a dia de nossas vidas? Não faltam assuntos, mas resolvi falar dessa relação complexa entre escritor e leitor, amigável e conflituosa.

Bem, é um tema espinhoso, mas como sempre fui dado a desafios, me atrevi de súbito a tratar dessa questão, sabendo que não devo ir muito longe para não tropeçar num buraco qualquer e quebrar a cara, mesmo porque, já estou idoso para isso. Posso parar num hospital, todo enfaixado, ou, quem sabe, pior que isso.

Acho que meu recado sobre escrever já foi dado no início. Sinceramente, sinto-me mais jornalista que escritor, cada um com suas linguagens e técnicas diferentes, embora alguém possa avaliar que o primeiro facilita muito ser o segundo.

Se mapearmos o mundo literário, vamos descobrir que grandes escritores de obras memoráveis foram jornalistas, mas isso não é necessariamente uma regra padrão. Eu mesmo me considero uma exceção. Escrevo o básico-médio. Estou longe deles. Existem também grandes escritores que não foram jornalistas.

Quando escrevo algo, faço uma prece ao leitor para que me “policie”, pois, vez ou outra, estou fugindo do assunto proposto, no caso nosso específico sobre essa coisa do escrever e prender a atenção do leitor. Apesar do brusco desinteresse pela leitura nos últimos anos, tenho ouvido cochichos por aí que ela está retornando com força, bem como o lançamento de novos livros e, consequentemente, novos autores.

Claro que esse novo fenômeno cultural é bem-vindo, mas precisamos analisar com cuidado quem está atuando bem o seu papel nessa peça artística, porque tem surgido muita gente por aí apenas por pura vaidade, para adocicar o seu ego, como se fosse mais um robe em sua vida profissional.

Escrever não pode ser apenas um robe, ou o desejo fantasioso e romântico de se apresentar para a plateia como escritor, querer ser celebridade. Essa “febre”, por assim dizer, está associada, em grande parte, ao surgimento das feiras literárias em capitais e muitas cidades do interior.

Tem gente que se apressa em realizar uma obra visando apenas lançá-la na próxima feira. Será que este autor tem compromisso com o leitor? Tem qualidade e conteúdo? Está ele no caminho certo, ou faz somente por fazer? Muitas vezes ele está enganando o leitor que, logo nas primeiras páginas, se sente decepcionado e nem termina a leitura.

Só para finalizar, existe escritor e o escritor, poeta e o poeta, como ocorre nas outras linguagens artísticas, como na música e no teatro, só para exemplificar. Uma história ou estória tem que ser bem contada e narrada, de modo que o leitor ou o ouvinte siga os passos do criador até o final. Tem gente que não sabe contar uma piada, mas se atreve e não arranca gargalhadas.

A CRISE DO NOSSO JORNALISMO

A realidade é que vivemos num mundo das crises, como a da política, sem mais líderes estadistas e humanistas, da humanidade em decadência, das mudanças climáticas com o aquecimento global, das ideias e do conhecimento, da meritocracia, do amor ao outro, da solidariedade, da confiança, da paz e tantas outras, inclusive do nosso jornalismo.

É dessa última crise que pretendo falar porque, com o avanço da tecnologia da internet e das redes sociais, se acomodou e deixou de ser questionador e investigativo em sua essência. As matérias que recebemos são requentadas e repetitivas, salvo raras exceções. É um jornalismo cada vez mais elitista, que diz só amém ao seu patrão.

Uma das principais funções do repórter é perguntar, mas se tornou numa espécie de âncora e atreve a emitir suas próprias opiniões, como se estivesse fazendo um jornalismo opinativo, coisa para colunistas setoriais. Acho que o repórter foi hipnotizado pela mosca azul da vaidade. “Ele só quer é bajulação”, como dizia nosso profeta Raul Seixas.

Vejo hoje entrevistas, seja em qualquer meio de comunicação, onde o jornalista se confunde com o entrevistado e acaba falando mais do que a fonte, como se fosse ele o especialista do assunto. No final, ainda faz suas recomendações e o que ele acha ser o certo e o errado. Isso termina confundindo a cabeça das pessoas e até desvirtua os fatos, com desvios de conduta e função.

Os blogs, em sua grande maioria, colam notícias dos outros, as rádios divulgam BOs (boletins de ocorrências), sem se aprofundar nos acontecimentos e os jornais impressos definharam e dão notícias atrasadas, publicadas pela internet, quando deveriam se aprofundar para trazer textos comentados para o leitor. A televisão virou um veículo chato e monótono que não se modernizou e avançou no conteúdo. As novelas são um saco, com os mesmos enredos.

No geral, o nosso jornalismo de hoje está mais preocupado em acompanhar as inovações tecnológicas do seu visual e do modelo da interatividade. Esqueceu do outro lado de elaborar matérias mais consistentes e convincentes. Ele foi arrebatado pela parcialidade escancarada, principalmente por parte da grande mídia que mantém seu monopólio comprometido com o capital.

Percebemos pouca criatividade e imaginação das pautas que saem das redações, bem como, a falta de um bom chefe de reportagem e de um editor para orientar melhor o repórter que sai de uma faculdade, em sua maioria deficitária na formação do aluno. Aliás, a deficiência no aprendizado já vem desde o início da sua educação.

Dentro do jornalismo, em particular, temos também a crise do diploma, inclusive não reconhecido profissionalmente e não obrigatório para atuar como profissional. A luta pelo diploma é de suma importância, mas isso não garante qualidade e mudança de comportamento. A impressão que temos é que a escola, mesmo com suas falhas, ensina uma coisa e a empresa manda fazer outra.

Pouco vemos atualmente matérias especiais de peso como as que existiam no passado mais recente, isto é, bem trabalhadas e investigativas, de forma a prender o interesse do público alvo. Sentimos falta de um produto de boa qualidade e estamos cheios do factual evasivo e vazio, com uma cara de propaganda indutora do consumismo, principalmente quando se trata do setor comercial.

Estamos carentes de um jornalismo mais informativo, mais cultural que faça o leitor, o ouvinte ou o expectador refletir sobre os fatos. Na realidade, essa crise do nosso jornalismo está associada à decadência do conhecer e do saber educacional da grande maioria da nossa gente. Mesmo assim, cabe ao nosso jornalismo também o papel de educar o povo e não nivelar seu trabalho por baixo.

O certo é que o nosso jornalismo caiu muito no seu conceito de qualificação de outrora. Mesmo com o baixo nível na educação, o jornalismo não pode abandonar a sua missão de ser um grande formador de opinião, defensor da liberdade de expressão e da justiça social na hora de expor os fatos como eles são, sem subterfúgios.

O que observamos hoje é um jornalismo mais dependente, menos crítico e contestador, sempre se posicionando ao lado do poder, como se fosse uma bancada da situação dos governantes em geral. Diante do exposto, os nossos jovens preferem ficar grudados no celular vendo memes, figuras e lendo fofocas e fake news. Por falar nisso, nossa mídia está construindo mais mentiras que verdades.

É claro que não existe um jornalismo totalmente independente e imparcial. Isso é uma utopia, mas que não seja tão chapa branca assim. Diria que o nosso jornalismo de hoje é uma vergonha, levando em consideração o seu posto de ser um dos principais personagens do poder entre os poderes constituídos. No entanto, o leigo no assunto, em decorrência do seu baixo saber cultural e senso crítico, ainda elogia esse jornalismo meia cara.

 

 

O “BANQUETE DA MORTE”

Um amigo meu perguntou quantos índios participaram do chamado “banquete da morte”, tramado pelo explorador e fundador da Vila Imperial da Conquista, João Gonçalves da Costa, que depois de uns entreveros com os nativos lá pelos idos de 1790 resolveu dar uma farra de muita comida e bebida para acalmar os ânimos.

A princípio os índios desconfiaram da generosidade incomum do João, mas após longas conversações e encontros, os mongoiós, que eram seus aliados mais próximos, convenceram as outras tribos a aceitarem o convite. Essa intermediação não foi fácil e demandou um bom tempo. Suas aldeias não ficavam perto daqui para contatos de imediato.

Uns falam em lenda e outros em verdade, mas vou contar como aconteceu toda história porque estava aqui na época e, como jornalista correspondente do jornal A Tarde, fiz a cobertura dessa tragédia, tendo ao lado meu colega companheiro fotógrafo José Silva, o famoso “Zé” dos estilingues certeiros e bom no manejo das lentes.

Meu amigo, foi por volta de 1803/06, não me lembro agora a data certa, numa noite fatídica de sábado naquelas imediações da hoje Praça Tancredo Neves, antiga Borboletas. Tudo ainda era floresta naqueles arredores que, com o passar dos anos, o homem, sem piedade, desmatou e depredou.

As brigas entre João Gonçalves, mongoiós, imborés-pataxós estavam acirradas, coisa feia como se diz no popular. Era morte para todo os lados. Depois de um acordo, muitos índios começaram a atrair os soldados do conquistador para dentro das matas e lá davam cabo dos cabras.

Com seus planos diabólicos e maquiavélicos, João Gonçalves decidiu oferecer um tremendo banquete para selar nova paz. A notícia se espalhou por todos os cantos e eu soube do fato tomando uns gorós brabos com uns índios mais chegados, na oca do “Kai Duro”, localizada no pé da serra. Era um tipo boteco. A cachaça, com tira-gosto de caças, era de derrubar até os mais chegados a uma birita quente, do tipo tequila mexicana.

Sei que já estão querendo saber quantos índios foram ao banquete, mas tenham calma que digo mais na frente. Como repórter, não bicava com o João. Fatalmente seríamos barrados pelos seus guardas, cerca de 70. Foi aí que eu e o “Zé” tivemos a ideia de trajarmos como índio, com todos apetrechos e pinturas. A festa era de arromba, ou de tiros e porretes!

O “Kaiapó”, que nos preparou, alertou que o esquema ia dar problema e confusão, mas jornalista tem que ser destemido e se disfarçar nas horas certas para ir em busca da informação. Bem, o boato se alastrou e muitos nativos (imborés-pataxós) alertaram que a festa não passava de uma emboscada do temido João, mas na hora de comer e beber na base do 0800, a turma cai dentro.

Quando o sol despediu do dia com seu poente rajado cor de sangue e a noite entrou com seu breu, os índios, pouco a pouco, foram se achegando com suas lanças, flechas e tacapes. O João, que não era nada besta, recebeu a todos gentilmente e pediu para ninguém entrar armado. Afinal de contas, aquela noite era para celebrar a paz. No entanto, ele mandou seus homens esconder suas espingardas no mato, ali por perto.

Pois é gente, eu e o “Zé” ficamos de longe só espiando o movimento e esperando a hora exata de entrar na cabana do comandante sanguinário. Por precaução, escolhemos a aproximação de um grupo maior para nos misturarmos no bolo e, foi assim, que conseguimos nosso feito.

Cara chato e sacana que fica com arrodeios e não revela logo a quantidade de índios – deve estar imaginando o leitor. Isso é um dado principal para abertura da matéria, e aí ele fica fazendo o tal “nariz de cera”. Vi um soldado cochichar no ouvido do explorador e avisar que estavam entrando penetras. Aquilo me deu arrepios.

–  Conheço vocês de algum lugar, não me são estranhos. Qual tribo pertencem? Quis saber o João, todo sisudo e com jeito de matador- vingador. Só em olhar para o portuga já dava um frio na barriga.

Como já era noite, despistamos. – O senhor deve estar se enganando, somos da tribo “Kaiçara”, daquelas bandas de José Gonçalves e Caetanos. Ele fez de conta que acreditou e virou as costas. Por falar nisso, pela minha contagem, naquelas alturas já haviam adentrado no recinto cerca de 110 índios, mais ou menos. A noite prometia! Já tinha muita gente chumbada e cambaleando.

Depois do ritual da dança e de fumar o cachimbo da paz, todos se sentaram para o grande banquete na folha da bananeira. Comidas e bebidas exóticas em fartura! Lá pela meia noite, todo mundo já estava cheio do pau. Como estávamos de trabalho, eu e o Zé evitamos beber e ficamos atentos a qualquer imprevisto.

Moço, não lhe conto! Lá pelas tantas, quando a bebedeira já havia invadido o cérebro dos convidados, os guardas do João entraram pipocando. Foi aí que a gente, como muita sorte, escapuliu pelos fundos. Ganhamos a floresta e fomos parar na sucursal onde hoje é a rua Dois de Julho.

O “Zé”, com sua estratégia matreira, tirou a maior parte das fotos. – Vamos cair fora dessa zorra “Zè”, antes que o fogo sobre para nós! Foi um massacre dos diabos, mas ainda se salvaram uns 20 índios na correria desatada, justamente aqueles que não eram muito dados a beber. Assim se deu o tão propalado “banquete da morte”, banhado de muito sangue e tirania.

No outro dia, mandamos a matéria escrita à mão e as fotos no lombo dos burros dos tropeiros que cortavam esse sertão, passando pelo povoado de Jequié até o litoral de Itaparica e de lá seguiram de barco até o periódico. A reportagem saiu quase um mês depois, mas, mesmo assim, era coisa quente e furo jornalístico de primeira.

O João ficou tiririca da vida, espumando de raiva e sabia que tinha sido a gente, mas não podia fazer muita coisa, pois o seu rei de Portugal (olá, meu caro portuga Luís Altério!) lhe deu uma tremenda comida de rabo. Ficamos jurados de morte e, pouco tempo depois, A Tarde nos transferiu para Ilhéus.

Tempos depois nos acertamos e até fizemos diversas entrevistas com o João, já velho e cansado de guerra, lá em sua fazenda em Manoel Vitorino. Sobre esse lendário do além-mar, que fundou o arraial, hoje com quase 400 mil habitantes, falamos no próximo papo, isto se vocês quiserem.

 

O ATORMENTADO CORAÇÃO DE PEDRA

Mesmo diante das dificuldades e intempéries da vida, sempre nos encorajam para termos esperança e fé, mas, a realidade é que elas estão se esvaindo e definhando para milhares e milhões de pessoas, massacradas por esse bruto sistema. Sei que muita gente prefere a outra linguagem do otimismo, porém não devemos nos iludir.

Habitamos um mundo hoje tão desumano e cruel que o ser se tornou um atormentado coração de pedra. Isso me faz lembrar de um indivíduo que levou um balaço nesse órgão vital do nosso organismo e sobreviveu. Depois desse acontecido, passaram a chamá-lo de “coração de pedra”, mesmo sendo uma pessoa bondosa e crente.

No sentido figurado, temos aquele coração de pedra do ser insensível ao sofrimento do seu “semelhante”, do tipo do personagem humorístico de Chico Anísio no papel do deputado que num certo momento do diálogo abre a boca e diz: “Quero mais é que o pobre se exploda”. Não precisa necessariamente ser pobre de dinheiro.

O corrupto, o egoísta que só pensa em si, o golpista, o falso amigo, o mau caráter, o antiético, o imoral, aquele que já trata a coisa anormal como normal, o incomum como comum, o ilegal como legal, todos eles têm corações de pedras, mas não vivem atormentados e até dormem o sono dos anjos, sem mais remorsos na consciência. Aliás, nem possuem mais isso.

Do outro lado, existe o atormentado coração de pedra. Diria que é aquele resistente e forte que, mesmo desaprovando e contestando as injustiças sociais, continua travando essa luta contra todas as adversidades. É como um sobrevivente em alto mar depois do seu barco ter sido afundado pelas ondas agitadas ou arrebentado nos rochedos.

Este elemento até gostaria que seu espírito tivesse desprendido do seu corpo porque não suporta mais assistir tantas imbecilidades, futilidades e idiotices. Seu esclarecimento e visão das coisas erradas o atormenta e o faz cada vez mais sofrer, mas seu coração é de pedra.

O descrente de que a humanidade vai melhorar, de que ainda se possa deter o aquecimento global depois do rombo que fizeram no planeta, de que as fronteiras dos países ricos serão abertas pelos poderosos, de forma que passem os desvalidos e refugiados famintos, de que a justiça e a igualdade virão para todos, é um atormentado coração de pedra.

Esse termo coração de pedra não é usual, assim repreendeu um amigo meu que não concorda com esse meu pensamento, de acordo com ele, pessimista. “Esse negócio de atormentado coração de pedra é coisa da sua cabeça de queixoso lamentador” – respondeu-me em tom ríspido.

Ele ainda acredita no amor ao próximo, no mar de rosas, que o ser humano vai se regenerar, de que a vida ainda é bela e que precisamos sempre confiar nos outros porque bons tempos virão de respeito mútuo onde haverá um humanismo pleno na face da terra.

No final da conversa, não muito amistosa, me chamou de atormentado coração de pedra, não daquele moço que literalmente foi vítima de uma bala no peito e não morreu. Morte é outro assunto um tanto pesado e mórbido que a grande maioria evita comentar.

Encerramos por aqui esse papo cruento que tivemos numa mesa de bar e passamos para as amenidades corriqueiras do dia a dia, como futebol e fofocas sobre a vida dos outros. Nada como uma gelada para se esquecer das desgraças, da violência e dos tormentos humanos, como a depressão.

Afinal de contas, estamos próximos do Natal e vêm aí as campanhas dos presentes e das doações das cestas básicas. As lojas já estão se enfeitando para o “Natal sem Fome”. As praças começam a ser iluminadas e as residências a montarem suas árvores. Todos serão felizes para sempre e nada de coração de pedra. Feliz Natal antecipado.

 

 

O MATUTO E A TECNOLOGIA

Tudo hoje é movido pela tecnologia que está destruindo o próprio homem, embora ela tenha suas vantagens de facilitar a vida, conforme se extrai das opiniões praticamente unânimes. Disso quase todos sabem, mas agora imagine um matuto que sai do seu sertão agreste e se mete em visitar a capital.

Foi o que aconteceu com seu Carmerindo que juntou um dinheiro da venda de seus produtos da roça e botou na cabeça que ia conhecer a cidade grande, aquela que ele via passar na televisão e ouvia falar naquele rádio modelo antigo que seu pai lhe deixara como herança.

A mulher chamou ele de maluco, mas o cabra tinhoso arrumou a mala com algumas peças de roupa e uma boa grana para se hospedar num bom hotel. Seu compadre, que até tinha vontade de também fazer aquela aventura, o incentivou e foi logo dizendo que com dinheiro tudo ia dar certo. Carmerindo é mesmo um sonhador.

A viagem foi longa passando de cidade em cidade até desembarcar na capital. Seu Carmerindo, com seu chapéu de couro típico nordestino ficou assustado com aquele formigueiro de gente pra lá e pra cá. Uma correria dos infernos – imaginou.

O motorista malandro ao ver aquela figura esquisita se aproximou com seu papo envolvente e se prontificou a lhe arrumar um carro para lhe levar ao hotel, cujo nome trazia escrito no papel em seu bolso. Tinha alguma coisa ligada com citytur, coisa de gente chique.

Os carros cortavam velozes entre avenidas, viadutos e arranha-céus de concreto. Seu Carmerindo ficou deslumbrado enquanto o cara rodava com ele dando voltas fora do itinerário para lhe cobrar um preço bem mais caro até chegar ao ponto marcado.

Agradeceu a “gentileza” com um aperto de mão, pagou em dinheiro vivo e se dirigiu àquela porta de vidro que como mágica se abriu sozinha antes dele encostar a mão. O matuto ficou espantado e até se sentiu importante. Lembrou da conversa que teve com o compadre sobre ter o dinheiro, de que tudo podia.

Ao entrar, com aquele traje de tabaréu do campo, ficou ali parado sem saber para onde ir, mas Carmerindo era destemido. Vendo aquele estranho, o “fardado” empregado pediu que ele se retirasse do recinto.

– Moço, só quero um quarto parta ficar e tenho dinheiro para pagar. Vim conhecer a capital e ver o mar pela primeira vez.

– Passe por aquela porta giratória e fale com um dos nossos atendentes atrás da mesa.

Ele pensou que esse negócio de giratória não cai bem em sua terra e ficou cismado, mas, como já estava ali tinha que seguir em frente. Meio troncho e se batendo, saiu do outro lado e viu aquela gente atrás de umas máquinas, como se fossem robôs.

–  Boa tarde, venho lá do meu sertão onde o sol brilha todo dia e o orvalho cai na madrugada. Com os primeiros raios sempre dizemos Deus seja louvado.

O recepcionista, que nunca tinha presenciado aquela cena inusitada, deu uma boa tarde imperceptível de gente fria e de pouca sensibilidade humana. Esse pessoal pouco rir e força uma falsa educação.

– Moço, quero um quarto para pernoitar e esticar as pernas depois de uma longa viagem calorenta. Quanto pago?

O preço lhe deixou meio zonzo, mas não dava mais para recuar. O recepcionista fez sua ficha, como nome, profissão, endereço e outros protocolos costumeiros. Depois, deu-lhe um cartão magnético com as instruções para pegar o elevador e abrir a porta do apartamento. Antes, porém, lhe perguntou a forma de pagamento, se no cartão, pix ou através de aplicativo.

Pelo andamento da carruagem, não vai tardar o desaparecimento do dinheiro em espécie, não mais caixas eletrônicos e nem essa coisa de banco onde as pessoas naquelas enormes filas vão resolver seus “pepinos”. Tudo vai ser via internet. Profissão de bancário vai se acabar com essa tal de inteligência artificial.

–É no dinheiro mesmo, e abriu um pacote que trazia em sua mala de couro cru. Nem sei que troços são esses que o senhor está falando.

Seu Carmerindo deu aquele pulo para trás e pediu uma chave, daquelas que você coloca na fechadura e abre rapidinho.

– Não usamos mais isso, meu cidadão. É uma questão de segurança. Tudo hoje é comandado pela tecnologia.

Coisa do diabo dessa tecnologia moderna que se vê nas propagandas – lembrou daquelas imagens. Como foi orientado, no elevador ele introduziu o cartão naquela fresta, mas nada do elevador obedecer a ordem de comando. Acende uma luz verde, mas nada.

O matuto sai de lá virado no mói de centro ou do cão e suado começa a esbravejar. Nesses hotéis de hoje não existem mais aqueles carregadores de mala que lhe levava até o andar, abria a porta, entrava e ainda ensinava como ligar a televisão e o ar condicionado. É a máquina substituindo a mão-de-obra.

Furioso, joga o maldito cartão na mesa e sai arretado pela mesma porta giratória. De tão puto da vida pegou o primeiro taxi na porta do hotel e naquele trânsito maluco se picou para a rodoviária, sem nem olhar para trás. No entanto, para não perder a viagem, pediu ao condutor para ver o mar, como era o seu desejo.

Pensou consigo mesmo que aquilo ali era coisa de doido e nunca mais iria pisar os pés numa capitá. Bom mesmo de viver feliz é na nossa terrinha onde se ouve o canto dos pássaros ao amanhecer, o berro da vaca e a chuva molhar o chão para a semente germinar.

 

 

 

 





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