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:: ‘Notícias’

UM BANDO DE FALASTRÕES

Desde o final de janeiro (dois meses se passaram) que o país já tinha uma vítima do coronavírus, o Covid-19 (Coronavid), e os governantes liberaram a realização do carnaval em todo território brasileiro no final de fevereiro, facilitando a entrada de milhares de estrangeiros. Os falastrões e demagogos só pensaram em gastar muita grana, fazer política e encher os bolsos dos mais ricos, como donos de hotéis, de agências de viagens, de blocos, de camarotes e de trios elétricos.

Os pobres caíram dentro da folia, e outros, coitados, aproveitaram para ganhar uns trocados com suas barraquinhas de bebidas e comidas. Caso o governo proibisse a festa (seria o mais sensato), creio que uma multidão iria às ruas protestar, e cairiam de pau levantando a bandeira de manter o carnaval.

O pico do vírus começou a subir a partir de março e, há quase um mês, os falastrões prometem socorrer os desvalidos informais, ambulantes, trabalhadores temporários, desempregados e outros invisíveis para a economia. Por que não citar aqui também os profissionais do sexo e outras atividades esquecida e em extinção, como sapateiros, alfaiates e relojoeiros?

A mídia esqueceu

Para começar, a grande mídia burguesa esqueceu dessas categorias desamparadas dos morros, dos barracos e das favelas e mirou suas metralhadoras falantes apenas na questão dos cuidados de combate ao coronavírus através do álcool gel e do isolamento social, como se a saúde estivesse desassociada da economia.

Passaram todo tempo mandando que as pessoas ficassem em suas casas, mas não foram lá ver como essas pessoas necessitadas estavam se virando para se alimentar, sem dinheiro e até sem condições de comprar álcool e sabão para lavar as mãos. A situação é tão crítica que em muitos bairros periféricos falta até agua para beber.

Somente agora essa mídia está abrindo um pouco de espaço para essa gente em estado de miséria, mas o assunto em foco, no momento, é sobre o uso de máscaras, e que cada um faça a sua. Esqueceram até do álcool gel, e tome falação com médicos e infectologistas, enquanto milhões estão passando fome e ainda mais expostos se forem contaminados.

Tive que ir à rua ontem (dia 3/04), em Vitória da Conquista, para resolver um problema de grana para continuar sobrevivendo e vi muitos camelôs tentando vender frutas e outras coisas para ganhar um dinheirinho, mas sem quase nada conseguir. Ora, “carapálidas”, como mandar que fiquem em casa quando falta comida para suas famílias, inclusive crianças?

Cadastros do Sebrae e outros

Na área federal, a burocracia vem falando mais alto na lentidão da sanção da medida econômica, em sua publicação e agora como fazer essa distribuição do dinheiro para os necessitados. A ajuda já está chegando tarde demais, mesmo para aqueles que têm o Bolsa Família e são cadastrados no tal CadÚnico. Imagina para aqueles que não estão incluídos nestes sistemas!

O anúncio é que vão criar um aplicativo na próxima semana para essa gente invisível se cadastrar e poder receber os 600 reais. Com certeza, essas pessoas vão penar para se inscrever através da internet, e milhares ficarão de fora do plano. Por que não utilizar o cadastro de outras instituições, como do Banco Central, do Sebrae (microempreendedores do MEI), instituições financeiras, INSS e até mesmo dos sindicatos e associações de bairros e da zona rural?

O ministro Paulo Guedes critica aqueles que estão denunciando a lentidão e a burocracia, dizendo que não é hora de se fazer política. Concordo neste ponto, de que o momento é de união de todos, mas não podemos negar que o governo federal (sem comando) está emperrando a agilização na liberação desses recursos. Mais uma vez, senhor ministro, a fome não espera e ninguém pode ter saúde sem dinheiro!

 

UMA OBRA TERMINAL E O CORONA

Logo agora em plena pandemia, a Prefeitura de Vitória da Conquista inicia uma obra de reforma do Terminal da Laura de Freitas, numa área terminal porque dentro de mais cinco ou dez anos já estará toda fumaçada, poluída e saturada diante da demanda de passageiros, em decorrência do crescimento populacional da cidade.

Não sou engenheiro, nem arquiteto e urbanista. Sou um simples jornalista-cidadão, mas sempre questionei que Conquista já está a necessitar de um outro terminal de ônibus coletivos, noutro espaço maior, visando um atendimento para um futuro daqui a uns 20 ou mais anos. O atual Terminal passaria a ser um calçadão urbanizado, com quiosques, e as vias laterais seriam utilizadas como transbordos de passageiros.

Embora não conte com o pensamento dos comerciantes, e até de centenas de pessoas, esta é a minha opinião. Na maquete tudo é bonitinho, e muita gente se encanta e se impressiona pelo visual, mas os moradores usuários dos transportes vão continuar espremidos, e a fuligem dos carros logo vai tomar contar, sem considerar a poluição visual, sonora e o aperto de muita gente.

POR QUE NÃO PRORROGAR?

Sei que essa minha posição não conta, nem vai ser levada em consideração, mas, por que o executivo municipal não prorrogou o início do projeto, tendo em vista a atual situação de pandemia do coronavírus, o Covid-19, ou Coronavid, como venho chamando? Quando se decreta o fechamento de lojas, o isolamento social e se pede para se evitar aglomerações, o prefeito não deveria dar o exemplo, não abrindo mais frentes de trabalho na construção?

No primeiro dia de desmonte do velho terminal, criou-se um tremendo transtorno para quem ainda saiu às ruas e precisou do transporte coletivo. Imagine uma obra com vários operários durante este período, quando os especialistas em saúde estão prevendo que a situação pode piorar mais ainda!

A impressão que passa é que o prefeito está mais preocupado em tocar seu projeto, do que acudir os mais necessitados (informais, ambulantes, desempregados, trabalhadores comissionados e intermitentes), que foram obrigados a parar suas atividades, e estão a precisar de ações sociais e financeiras, principalmente de ajuda para se alimentarem.

GOVERNO ESTÁ EMPERRANDO

Considero uma insensatez jogar dinheiro do contribuinte agora numa obra desse porte quando a saúde pública se encontra em frangalhos e pode entrar num colapso com esse vírus se espalhando. Sabemos que os hospitais e os postos de saúde que atuam na área do município funcionam em estado precário para atender os doentes em tempos normais. O momento seria de focar na questão de montar leitos, adquirir mais equipamentos e ampliar a estrutura para socorrer as possíveis vítimas do coronavírus.

Como uma coisa leva a outra, o governo federal do capitão-presidente, do qual o prefeito é coligado, está emperrando o quanto pode a liberação dos recursos para as pessoas que estão na linha da pobreza, milhões até já passando fome por causa do isolamento e fechamento comercial das cidades.

Há três semanas que venho falando que as medidas na área da saúde tinham que vir alinhadas e acompanhadas das econômicas, porque não é só mandar as pessoas ficarem em suas casas. Não existe isso de primeiro a saúde e depois o dinheiro. Os dois são prioritários porque ninguém pode ter saúde sem grana para comprar comida, remédios e produtos básicos à sua subsistência.

Esse apoio financeiro, imprescindível para a população vulnerável, vem sendo burocratizada, numa lentidão que parece ser proposital até a pandemia se acabar depois de matar milhares e milhares de brasileiros. Estamos diante de um governo da morte que vai de encontro a todas as recomendações médicas e científicas.

 

 

 

JANGO E EU – A VIDA NO EXÍLIO E A REFORMA AGRÁRIA (II)

“JANGO E EU” – A VIDA NO EXÍLIO E A REFORMA AGRÁRIA (II)

Em janeiro de 1965, a família alugou uma casa que se chamava “El Ventisco”, em Playa Brava. Entre 1966/67 foram morar na casa “La Rinconada”, mais distante, mas também na Playa Brava. Se dividiam entre o apartamento Leyenda Patria, em Montevidéu, a fazenda “El Rincón”, em Tacuarembó, e a casa de veraneio em Punta del Este. Tempos depois, Jango comprou uma fazenda em Maldonado, “El Milagro”, e três aviões financiados. Tacuarembó era refúgio de brasileiros que atravessavam a fronteira seca fugindo da ditadura (chegada de exilados clandestinos).

O engraçado em tudo isso foi que a ditadura soube da aquisição dos aviões e ficou preocupada que Jango fosse invadir o Brasil com três teco-tecos. Solicitou ao governo uruguaio que proibisse, alegando risco à segurança aérea do Brasil. O Uruguai havia entrado num processo inflacionário.

O suposto filho

João Vicente, o autor do livro, nos conta a história do suposto filho que Jango teve na juventude, o Noé Monteiro da Silveira que, na verdade, era do seu avô Vicente Goulart com a empregada da fazenda. Ele queria ir visitar o “pai”, mas Jango barrou. Ele explicou para o filho que o Noé era seu irmão, mas que teve uma filha.

Foi a primeira investigação de paternidade no Brasil feita apenas com testemunhas. O juiz disse que não era possível reconhecer a paternidade por mera semelhança. O processo foi parar na terceira turma de desembargadores do Rio Grande do Sul. Noé ganhou a causa. “Uma farsa que virou realidade ”-ressaltou Vicente. Em 1983 foi feito um acordo, e o desembargador recebeu 400 hectares da fazenda “São José” como honorários. João Vicente era deputado estadual pelo Rio Grande do Sul (PDT) e seus bens foram bloqueados. O interventor das propriedades foi o Cirne Lima.

João Vicente ameaçou ir à Tribuna e denunciar os subornos da Justiça. O presidente do Tribunal de Justiça, Bonorino Butelli deu um ultimato ao seu partido, o PDT: ou ele se desculpava, ou denunciava o desembargador. Foi aí que entrou na jogada o seu tio Brizola, governador do Rio de Janeiro. Ele e seu advogado foram ao Rio e Brizola contornou a situação através da política. Com a exumação dos restos mortais do pai, João Vicente conseguiu o DNA dele e fez o seu também, mas o Noé se negou.

Os tempos em que viveu no Uruguai

No capítulo “As Esquinas das Cidades”, o autor da obra descreve os tempos em que viveu no Uruguai e lembra dos velhos amigos, como do Queruza, o Itar Nery Gutierrez, que tentou roubar a fazenda “El Milagro”, em Maldonado, e terminou trabalhando para seu pai. Recorda quando seu pai teve um infarto em 1968. Raul Riff, seu ex-ministro do Trabalho, esteve ao lada da cama no apartamento Leyenda Patria. “Era com Riff que meu pai dividia os maiores desafios”. Quando Jango enfartou, o professor Zerbini e o médico Macruz foram a Montevidéu examinar o seu caso e montaram no Uruguai a máquina de coronariografia, no Hospital Americano. Em Lyon, Jango começou a se tratar com o professor Fremont, no Hospital de Cardiologia, uma vez por ano. No ano anterior (1967) havia recebido o Lacerda em Montevidéu, que se desculpou pela sua atuação política.

Na época, Brizola deu declarações ferozes afirmando que Jango havia traído o trabalhismo, e que ele estava enterrando sua trajetória. Segundo ele, o negócio do tio era a luta armada, e montou “Caparaó”, no Espírito Santo, lá do exílio. Depois da Frente Ampla, a ditadura baixou o AI-5. Mesmo assim, o ex-presidente se articulava com Perón no exílio, com o senador Salvador Allende, no Chile e alguns militares no Brasil. Em 1967, Vicente cita que, em uma entrevista a uma revista da antiga Iugoslávia, ele deixou clara sua paixão pelo Brasil e admiração ao seu líder Getúlio Vargas. Foi quando comprou a fazenda “El Milagro”, em Maldonado.

Foi por volta de 1968/69 Jango começou a ir ao Paraguai e visitar Assunção. Ele e o filho foram para o Hotel Paraguay, mas o Toto e Ito Barchinni, ligados a Stroessner, por ordem superior, os levaram para a casa do Ito onde ocorreu um encontro com o presidente Stroessner. Os dois recordaram as conversas que tiveram naquela época na fazenda “As Três Marias”, de propriedade de Jango, no Pantanal.

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UMA NAÇÃO SEM COMANDO

A sensação que temos é que nosso país vive à deriva. O capitão-presidente diz uma coisa, e o seu ministro da Saúde diz outra. A população, então, fica atordoada e sem rumo. No Quartel General do Palácio do Planalto, a impressão é que ele não passa de uma marionete, e isso ficou bem claro na coletiva à imprensa, onde o ministro Luiz Henrique Mandetta estava cercado de generais, lembrando os tempos da ditadura, com censura nas perguntas dos repórteres.

A indagação dirigida ao ministro da Saúde, se ele permaneceria no Governo, diante desse conflito, foi respondida pelo general, que garantiu a sua continuidade no cargo. Na história do Brasil, nunca vi esse desencontro público entre um subordinado e o seu chefe maior. Do outro lado, uma cúpula do governo quer fazer funcionar seu tosco fascismo, cerceando as informações, deixando-as mais ainda confusas, onde muitas já não são confiáveis, inclusive sobre o número de mortes.

A pobreza é quem mais padece

Enquanto perdura esse estica-estica pra lá e pra cá do povo, o socorro econômico aos mais vulneráveis, os informais, autônomos, desempregados e trabalhadores temporários anda a passos de cágado, envolto em toda aquela sombra tenebrosa da burocracia política brasileira tupiniquim. Esse isolamento social, sem o alimento de cada dia, pode gerar um caos, e levar a invasões a supermercados e mercados. Se o coronavírus, que não escolhe faixa etária, nem classe, avança, a fome não pode esperar por mais tempo.

Em meio a este mar de mordomias do Congresso Nacional, das assembleias legislativas dos estados e das câmaras de vereadores, sem falar dos poderes judiciário e executivo, abarrotados de muita gente ganhando os supersalários, a pobreza padece em seus mocambos e barracos nas periferias e favelas, principalmente nas grandes cidades do país.

Eles não abrem mãos de seus privilégios, nem para reduzir suas polpudas remunerações nesses tempos de “guerra” contra o coronavírus, o Covid-19, ao qual dei o nome de Coronavid, e ainda emperram para mais longe a agilização das medidas de aporte financeiro, que já deveriam há muito tempo terem sido colocadas em prática. Esses bandos de bandidos deram as costas para a pobreza. São os demagogos da morte.

Em nosso Estado da Bahia e em Vitória da Conquista, particularmente, a estrutura da saúde é deficitária e, tanto um lado como o outro, não passam de falastrões, que vão fazer isso e aquilo, mas tudo não passa de projetos que não saem das intenções e, a única coisa que sabem é mandar o povo ficar em casa e lavar as mãos com sabão e álcool gel. O resto que se lasque, se vão ter comida em casa, ou não.

Nos hospitais faltam quase tudo e, como sempre nesses momentos de catástrofes e tragédias humanas, aparecem os gananciosos usurários que aumentam os preços de máscaras, álcool gel e outros produtos médicos em mais de mil por cento. São piores que criminosos bandidos, os quais  deveriam ser sentenciados a prisão perpétua.

 

 

 

Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

CONQUISTA E O CORONAVÍRUS

Carlos Albán González – jornalista

O quê leva um cidadão, que ama e deseja o melhor para o lugar onde nasceu, vir a público para declarar que apóia a continuidade de um gestor sem competência administrativa à frente da sua prefeitura? As respostas podem ser as mais variáveis, que vão desde a desinformação até o objetivo de conseguir um emprego público ou um cargo de confiança. Em Vitória da Conquista, como em milhares de municípios brasileiros, ocorreu em 2016 um movimento de punição à cúpula do Partido dos Trabalhadores, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenada por corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes. Aqueles que alimentavam o ódio ao PT deram o seu voto, por falta de opção, ao eleito Herzem Gusmão Pereira, que tem mostrado desinteresse com o cargo que ocupa.

A saúde, assim como a educação, deve ser, obrigatoriamente, uma das prioridades de todo administrador  público. Essa precedência está longe de se ver na maioria de nossas cidades. Além de não ter estrutura (faltam médicos na zona rural, leitos nos hospitais e medicamentos nas unidades da Farmácia da Família; os postos de saúde são insuficientes para atender a população mais carente). Chamada de capital do sudoeste baiano, Vitória da Conquista recebe diariamente milhares de pessoas da região e do norte de Minas Gerais, que vêm em busca de atendimento médico, ausente nos seus municípios. A demanda sofreu uma queda depois que o Estado construiu as Policlínicas de Jequié, de Guanambi e a nossa.

No momento em que o mundo se mobiliza contra o avanço do novo coronavírus, o prefeito Herzem Gusmão, que deve estar de quarentena, por força dos seus 71 anos, entregou ao seu secretário Alexsandro Nascimento Costa a tarefa de traçar um plano de batalha contra o novo vírus. O titular da Saúde, que assumiu recentemente o cargo, numa das dezenas de mudanças que vêm sendo feitas no primeiro escalão, tem revelado que não estava preparado para duelar com o Covid 19, por não contar sua secretaria com arsenal adequado.

A moeda ainda não caiu. O poder público municipal ainda não tomou consciência de que as medidas paliativas adotadas são insuficientes para enfrentar a turbulência que está por vir, com muito mais ímpeto depois que o presidente Jair Bolsonaro e o governador Rui Costa sugeriram a reabertura do comércio. Nossas autoridades deveriam tomar como exemplo a Itália, cujo governo se preocupou mais com a economia e com as brigas políticas. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala admitiu que errou ao promover a campanha “Milão não para”. A Espanha também está pagando por ter retardado em impor o isolamento social.

Conquista dispõe de poucos leitos em UTI de hospitais públicos, o mesmo se pode dizer de respiradores, necessários aos pacientes que estão em estado grave; o município não firmou acordos com a rede hospitalar privada; não foi montado um hospital de campanha; a Vigilância Epidemiológica falhou nos terminais rodoviário e aéreo, onde esta semana desembarcaram, sem serem abordadas, duas pessoas infectadas, procedentes de São Paulo. Até o momento em que escrevo estas linhas Conquista não havia registrado nem uma vítima do covid 19, mas 47 pessoas com sintomas da doença não fizeram os testes por falta de kits. As denúncias são feitas na mídia local.

Com a aproximação da abertura da campanha de vacinação contra o vírus da influenza havia uma preocupação da população, principalmente dos idosos, com uma provável aglomeração nos acanhados postos de saúde, o que iria de encontro às recomendações dos infectologistas, diante da pandemia do novo coronavírus. Felizmente, o bom senso prevaleceu: postos foram instalados em escolas e creches, além de três outros no sistema driver thru, onde os idosos foram imunizados dentro dos seus carros. Os aplausos aos agentes da Saúde municipal nos dois primeiros dias foram substituídos por protestos diante da notícia de que não há mais doses de vacina.

Prefeito, o senhor tem assistido seu colega ACM Neto, presidente do seu partido (MDB) e um dos seus ídolos na política, dar as mãos ao adversário, o governador Rui Costa (PT), para que a população de Salvador sinta que um trabalho está sendo feito para barrar o avanço do coronavírus. Mas o senhor prefere alimentar a birra com o PT – está na memória de todos a sua rejeição à Policlinica – , deixando de procurar o governo do estado, nesse momento em que todos devem se unir em defesa da saúde do povo. Logo o senhor, que cita a todo instante o nome de Deus, em desobediência ao segundo Mandamento – “Não tomar seu santo nome em vão”.

Prefeito, o senhor está sendo pressionado por meia dúzia de bolsonaristas e por sua correligionária política Ana Sheila Lemos Andrade, presidente do CDL, para reabrir totalmente o comércio. Não ceda às pressões. O vírus não faz distinções. Agride príncipes e prefeitos (Isabel Díaz Ayuso, sua colega de Madrid, está infectada). Portanto, deixe a letargia de lado e vá atrás do dinheiro. O Ministério da Saúde liberou esta semana R$ 73 milhões para reforçar o combate da Bahia ao coronavírus. Os deputados petistas Waldenor Pereira (federal) e Zé Raimundo (estadual) destinaram quase R$ 4 milhões das suas emendas partidárias para o Hospital Geral. No mais, vamos conversar com Deus, mas em casa, sem necessidade de ir aos templos religiosos, para evitar aglomerações.

 

O CAOS SEM O APORTE ECONÔMICO

Talvez eu seja o único jornalista e cidadão que há duas semanas vem alertando que as medidas de isolamento de ficar em casa para combater a pandemia tinham que vir acompanhadas de um imediato aporte econômico do Estado. Somente agora, com atraso, a grande mídia burguesa vem tocando no assunto, ainda de forma tímida subindo os morros.

O mandar ficar em casa é uma recomendação dos organismos de saúde, mas não pensaram nos milhões de brasileiros que vivem de uma renda mínima da informalidade, de comissões, do trabalho intermitente, autônomos, dos desempregados que fazem bicos e outras atividades para sobreviver e comprar o pão de cada dia, numa expressão mais simples e direta.

AS FAMÍLIAS POBRES

Não estou com isso sendo contrário ao isolamento, contanto que os governantes acionassem seus caixas para sustentar as famílias pobres que vivem nas favelas e em seus barracos vivendo na linha de pobreza, muitos das quais em plena miséria, sem dinheiro para o álcool gel e até sem água nas torneiras.

Somente agora, o governo federal está apresentando um conjunto de medidas para amparar esses milhões de brasileiros, mas, como tudo no Brasil é burocrático e demorado, não se sabe a forma, quando e como esse socorro   vai ser concretizado. Sem um urgente aporte econômico, o Brasil pode virar um território de caos social onde a fome pode falar mais alto que o vírus, e aí vamos ter mais vítimas.

Nesse bate boca político, científico e de economistas dando palpites, até agora só vemos falatórios demagógicos dos governantes, sem apresentar uma saída para atender o menos favorecidos. Nesse sistema capitalista selvagem e predador, numa catástrofe ou tragédia, os pobres são os mais atingidos. É lamentável dizer isso, mas só os fortes sobrevivem nessa selva de hipocrisias.

Nessa avalanche de informações, colocaram os idosos como se fossem únicos grupos de risco, quando, na verdade, todas as pessoas com doenças crônicas (diabetes, pressão alta, câncer, problemas coronários e outras), sejam jovens ou velhos, não estão imunes e podem perecer. Houve uma discriminação generalizada porque a maioria dos idosos entre 70 a 80 anos têm problemas de saúde e tomam remédios contínuos.

Essa mídia burguesa, que passou todo o tempo de costas para a pobreza, só faltou sugerir a criação de campos de concentração para os idosos. Nessa história existe muita hipocrisia e falsos heróis, criados por essa mídia. É verdade que os caminhoneiros estão nas estradas transportando alimentos e produtos para o abastecimento do mercado, mas não me venham com essa de que estão ali só com essa missão sublime de salvar vidas.

Eles são uma categoria que ainda têm a permissão de trabalhar, e estão também ganhando seu dinheiro para sustentar suas famílias e pagar as prestações de seus carros. Não existe essa de sacrifício pleno, sem benefício. E como ficam aqueles que nem estão podendo produzir alguma coisa para sobreviver?

Por último, a grande emissora Globo, que vem comandando os noticiários, com suas tendências de sempre, mostra um senhor esportista amador, como exemplo de ficar em casa, correndo tranquilamente em seu apartamento de classe média alta, confortavelmente bem tratado e alimentado, quando milhões vivem em barracos apertados, em becos estreitos e sujos, sem o mínimo de saneamento básico. Não se falou quanto esse senhor ganha por mês como aposentado e qual sua renda.

Eu também faço aqui meus exercícios diários em meu quintal apertado e ainda sou um privilegiado porque tenho um benefício merreca, mas muito longe daqueles que estão sofrendo, passando fome, privações e outras necessidades. No lugar deles, tenho que agradecer a minha situação, que não é boa financeiramente, mas vai dando para tocar a vida, sem a agonia e a miséria batendo todos os dias em minha porta.

JANGO E EU – MEMÓRIAS DE UM EXÍLIO SEM VOLTA

Melancolia, saudades da pátria, dos tempos da infância quando pouca coisa se entende dos acontecimentos, lembranças vividas num diário-romance, com passagens políticas desde o golpe de abril de 1964 até a morte misteriosa de seu pai, em dezembro de 1976, em “Jango e Eu – Memórias de um Exílio sem Volta”, escrito por João Vicente Goulart, numa linguagem simples, solta e descontraída, bem longe das amarras acadêmicas.

É um livro que eu diria bem prazeroso para se ler que se passa no Uruguai, na Argentina, Paraguai e tem uns fiapos interessantes na França, na Espanha e na Inglaterra. São narrativas espontâneas, algumas soltas, que, em pedaços, formam o todo de um tempo difícil que marcou nossa história brasileira. Não precisa que tenha vivido aqueles dias, nem que seja um estudioso do assunto da ditadura. Você vai compreender de uma maneira fácil como tudo aconteceu. O leitor faz um passeio relaxante em paisagens não repetidas.

Os grandes homens do século XX

No prefácio do livro, Tarso Genro lembra os grandes homens do século XX, com os generais Rondon e Lott, os políticos e intelectuais Luis Carlos Prestes, Jacob Gorender, João Amazonas, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola, Getúlio Vargas, Alberto Pasqualini, Anísio Teixeira, Carlos Nelson Coutinho, Antônio Cândido, Leandro Konder, Florestan Fernandes e, em especial, João Goulart, o mais avançado, democrático e tolerante.

Conta ainda sobre os trinta dias que ficou na fazenda de Jango, em Tacuarembó, no Uruguai, em 1972. Quase 40 anos depois assinou, como ministro da Justiça, a anistia de Jango. Destacou que Jango não era socialista, nem comunista e nem pretendia instalar uma ditadura no país. Pretendia implantar a reforma agrária nas terras situadas a dez quilômetros à margem das rodovias. Essa nunca foi feita no Brasil. Ele ainda fundou a Eletrobrás; reescalonou a dívida externa; limitou a sangria da remessa de lucros para o exterior; e abriu relações comerciais com a China, pois teve a visão de perceber o potencial daquele país.

Afirma Tarso Genro que o ex-presidente foi vítima brutal de difamações dos grandes veículos de comunicação, das arengas das forças armadas, da classe média e da ampla maioria da Igreja Católica. “A elite direitista detestava ele e o considerava traidor. Falava com os grandes chefes de Estado, como Kennedy, Fidel Castro e Mao Tsé-tung. Era um social democrata de esquerda num tempo “errado”. Apenas achava que o capitalismo poderia ser mais justo e evitou uma guerra civil”. O Brasil continuava submisso e atrasado dependente das matérias-primas na exportação. Sessenta anos depois permanece o mesmo quadro descrito por Tarso.

O prólogo da obra fala do desconhecimento dos fatos que atingiram o país a partir de 1964. O autor ressalta se sentir no dever de contar a história de seus dias de exílio junto ao pai Jango, sua mãe Maria Thereza e a irmã Denize. Ele relata o dia a dia de uma família refugiada no exílio político, se situando no período de 1964 a 1976 quando o pai morreu. “O exílio nos faz peregrinos”. Essa história real da América Latina (“Veias Abertas”, de Eduardo Galeano) “chegou até nosso cotidiano dentro de casa”

Tudo se inicia quando pisou em terras uruguaias. Mais e mais ditaduras fechavam o cerco. Recorda das constantes perseguições dos exilados, desaparecimentos e trocas de prisioneiros entre as ditaduras, como se fosse contrabando. “A liberdade é uma só” – dizia o seu pai.

Quando tudo começou

Tudo começou no dia 31 de março de 1964, na Granja do Torto, com os rumores do golpe. Os telefonemas eram cada vez mais alarmantes. Darcy Ribeiro, ministro-chefe do Gabinete Civil avisou que Jango estava no Rio de Janeiro. “Pela manhã já havia malas arrumadas para irmos direto para o aeroporto. Não pudemos levar tudo”.

 

Canta, em forma de diário, que ele (João Vicente), sua mãe e a irmã saíram apressados num avião da FAB, que não era o mesmo em que viajavam, em direção a Porto Alegre. Deixaram para trás pertences pessoais que nunca foram devolvidos, inclusive joias e documentos públicos e privados. Segundo o autor, o governo Jango foi o único que não preparou sua saída do poder. Depois tiveram que lhe devolver o patrimônio que havia sido bloqueado. O voo para Porto Alegre foi demorado. Jango ainda estava em Brasília, a caminho do Rio Grande do Sul.

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A GRANDE MÍDIA BURGUESA E O ÁLCOOL GEL

Somente agora, e de forma tímida, a grande mídia burguesa está saindo de seus estúdios de apresentação, de seus boletins diários e entrevistas com infectologistas, médicos e especialistas para mostrar o outro lado do álcool e gel. Refiro-me aos pobres das periferias que não têm condições financeiras nenhuma de adquirir o produto para se proteger do coronavírus, o Covid-19.

Não é só isso. Moradores pobres que vivem em favelas e barracos não têm nem água nas torneiras e sabão para lavar as mãos. Essas pessoas, há muito tempo, vivem aglomeradas em cômodos apertados, sem saneamento básico, onde todos dormem juntos. Os jornalistas devem sair de seus confortos dos computadores, subir os morros e atravessar a linha de pobreza para mostrar essa triste realidade.

Quando se manda que todos lavem as mãos com álcool e gel, a impressão que passa é que toda população brasileira, com profundas desigualdades sociais, pode comprar o material, que subiu de preço pelos gananciosos. Gostaria de indagar quem olha para esse povo e vai fornecer o álcool e o gel?

Há dias que venho fazendo essa observação, mas sendo criticado por muita gente. Passou do tempo dos veículos de comunicação cobrarem providências urgentes por parte do poder público (municipal, estadual e federal), e não ficar fazendo de conta que vivemos num país rico, sem esses terríveis desníveis sociais de calamidade pública.

Outro problema que já venho falando é quanto a situação dos desempregados, daqueles trabalhadores intermitentes, comissionados e dos informais que dependem do que produzem para comprar suas necessidades básicas, principalmente os alimentos do dia a dia.

Quem vai socorrer essa gente, da qual pouco a mídia comenta e entrevista, mostrando o quadro de penúria, principalmente agora? Não estou aqui para contrariar a recomendação de que todos fiquem em suas casas, mas existe uma tremenda omissão da imprensa que pouco noticia como esses brasileiros esquecidos vivem, estão vivendo e vão viver daqui para a frente para enfrentar a luta contra o Covid-19.

Existe um plano dos governantes para atender esses milhões que já vivem em plena pobreza, com a tendência de piorar mais ainda com o confinamento e a falta de dinheiro para se proteger do vírus e se alimentar? Até o momento, só demagogias, falatórios, discurso e nada de concreto.

Na verdade, não existe um plano para sanar esse problema, e a nossa mídia não explora esta questão que pode se transformar numa convulsão social e invasão de casas comerciais, mercados, farmácias e supermercados. Como solucionar o problema das pessoas que têm doenças crônicas e precisam de fazer hemodiálises, quimioterapia e outros tratamentos inadiáveis, sem o transporte para deslocamentos para cidades e clínicas que prestam esses serviços?

É um alerta que fica, e um apelo para que a mídia comece mais firme a noticiar essa situação que pode se tornar crítica e caótica, se não forem tomadas as devidas medidas por parte do poder público. Mais uma vez, vamos deixar essa gente de lado e fazer de conta que ela não existe?

 

AS CONSEQUÊNCIAS FINANCEIRAS

O fechamento do comércio em várias cidades do pais, inclusive em Vitória da Conquista, é uma medida para se evitar aglomerações, mas quando começar a faltar dinheiro aos empregados e àqueles que trabalham na informalidade, para adquirir os produtos de primeira necessidade, como alimentos e remédios? Quem vai socorrer essa gente do setor privado que vai ficar sem receber? Já pensaram nessas consequências? Se o comerciante não produz, não tem como pagar.

Os funcionários públicos das repartições vão receber sua grana no final do mês. E os outros, quem vai socorrer? O poder público vai distribuir cestas básicas e ajuda financeira? Com essa pandemia do coronavírus se espalhando, estamos numa encruzilha daquelas que “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”, ou entre a cruz e a espada.

As autoridades precisam trabalhar nesse plano de socorro. Caso contrário pode até ocorrer invasões em mercados e supermercados por comida. Depois vão chamar as pessoas de vândalos? Prendê-las? A situação é grave e precisa ser estudada para que não haja uma convulsão social.

Outro fato são as pessoas com doenças crônicas da região que precisam de fazer hemodiálises, quimioterapias e outros procedimentos urgentes nas clínicas da cidade. Sem vans e o transporte, como elas vão se deslocar de suas cidades? As vans não vão rodar com pouca gente porque financeiramente não vai compensar, e a maioria não tem condições de pagar um veículo particular.

A mídia passa todo o tempo repetindo notícias e divulgando decretos dos governos. Trabalha com números de casos e entrevistando infectologistas sobre higienização, mas não questiona este outro lado da história que pode acontecer quando as pessoas começarem a ficar sem dinheiro na mão. No caso do comércio, os repórteres entrevistaram os representantes do setor, mas deixaram de lado os comerciários, os que trabalham por comissões e os informais.

Nesse quadro crítico que se vislumbra, até quando o comércio pode continuar fechado? Pelas informações da área da saúde, essa pandemia ainda vai durar por um tempo. Fala-se em meses. De um modo geral, esses trabalhadores não têm fundos para aguentar nem um mês. Os servidores públicos vão receber, sem problemas, como se estivessem em férias.

A questão não é somente baixar decretos, mas montar um plano “B” para controlar as consequências que podem vir na frente. Todos acham as medidas acertadas, mas somente poucos refletem sobre as consequências para os mais necessitados que dependem de um dinheirinho para fazer sua feira, principalmente os desempregados que estão atuando na informalidade.

Está também na hora de convocar os psicólogos e os psicanalistas para tentar evitar que a população entre em pânico. Nessas ocasiões, o medo é a pior coisa, e uma mente amedrontada deixa o corpo debilitado. Por enquanto, só estão tentando cuidar do corpo. Acima de tudo, a mente precisa estar preparada para o que vier daqui por diante. Numa tragédia, é comum as pessoas partirem em manada, e aí termina morrendo mais gente no corre-corre, empurradas e pisoteadas.





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