Em “Armas, Germes e Aço – os destinos das sociedades humanas”, o cientista e autor do livro, Jared Diamond, no capítulo “A Mãe da Necessidade”, fala das grandes invenções, principalmente no século XIX, e explica que o invento é mais a mãe da necessidade do que o contrário. A grande maioria dos inventores toma emprestado a tecnologia de outros para concretizar suas ideias.

A difusão, segundo ele, depende muito das condições geográficas e ecológicas entre as sociedades, bem como das dimensões populacionais entre os continentes.  Ele cita o “Disco de Festos”, na ilha de Creta, por volta de 1700 a. C , como primeiro documento silabário impresso mais antigo do mundo. Os sinais do disco foram gravados na argila temperada por carimbos que tinham um sinal em baixo relevo, mas não foi propagado como a impressão de Gutemberg em razão de diversos fatores desfavoráveis.

A CONQUISTA ATRAVÉS DA TECNOLOGIA

Sobre a tecnologia, destaca o autor da obra, que na forma de armas e transporte, ela proporciona os meios diretos pelos quais certos povos ampliaram seus reinos e conquistaram outros povos. Quem fica para trás e rejeita as invenções termina sendo subjugado por outras sociedades inovadoras.

Para ele, os avanços tecnológicos parecem vir, de modo desproporcional, de alguns gênios especiais, como Johannes Gutemberg, James Watt, Thomas Edison e os irmãos Wright. Eles eram europeus ou descentes de emigrantes na América. Existem os casos de Arquimedes e outros gênios raros dos tempos antigos, mas não é somente o intelecto que conta na criação.

Muitas sociedades, principalmente as mais conservadoras, demoram para assimilar e aceitar as invenções. A sua pergunta é do porquê a tecnologia se desenvolveu em ritmos diferentes nos vários continentes. Existe a ideia comum de que a necessidade é a mãe da invenção, mas o cientista também entra pela vertente da premissa contrária.

No entanto, muitas invenções, de acordo com o biólogo e fisiologista, encaixam nessa visão da necessidade como a mãe. Como exemplo, cita o Projeto Manhattan, do governo norte-americano, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. O objetivo foi o de construir uma bomba atômica antes que a Alemanha nazista fizesse. Em três anos foi concluído a um custo de dois bilhões de dólares (hoje mais de 20 bilhões).

Outros exemplos dessa necessidade foi o descaroçador de algodão, inventado por Eli Whitney, em 1794, para substituir o trabalho demorado e cansativo de limpeza do produto. Outro caso foi a máquina a vapor, concebida por James Watt, em 1769, para solucionar o problema de bombear a água para fora das minas de carvão britânicas. Assim, em sua opinião, a invenção é quase sempre a mãe da necessidade.

Um exemplo claro é a história do fonógrafo de Thomas Edison, “a criação mais original do maior inventor dos tempos modernos”. Quando ele fez o fonógrafo, em 1877, publicou um artigo sugerindo dez utilizações possíveis, entre elas preservar as últimas palavras de pessoas no leito de morte e gravar livros para deficientes visuais. A gravação de música não estava entre suas prioridades.

Anos depois, Edison passou a vender fonógrafos, para serem usados como máquinas para ditar textos nos escritórios. No entanto, os empresários criaram as vitrolas automáticas. Só depois de 20 anos, o inventor admitiu, com relutância, que a principal utilidade de seu fonógrafo era gravar e tocar música.

Por outro lado, o veículo motorizado não foi inventado para atender a uma demanda. Quando Nikolaus Otto construiu a primeira máquina a gás, em 1866, os cavalos já supriam as necessidades do transporte terrestre há quase seis mil anos. Por ser pesada, com mais de dois metros de altura, a máquina não era mais aceitável que os cavalos. Só depois de 1885, os motores foram aperfeiçoados, levando Gottfried Daimler a instalar um motor na bicicleta, surgindo, então, a motocicleta a gasolina.

O povo continuou satisfeito com os cavalos e as ferrovias até a Primeira Guerra Mundial, quando o exército concluiu que precisava de caminhões. O intenso lobby pós-guerra convenceu o público da necessidade dos caminhões no lugar das carroças puxadas a cavalo.

“As primeiras máquinas fotográficas, de escrever e os aparelhos de televisão eram tão terríveis quanto a medonha máquina a gás de dois metros de Otto. Embora Watt tivesse projetado a máquina a vapor para bombear água para fora das minas, tempos depois a invenção estava fornecendo energia para as fábricas de algodão e impulsionando locomotivas e barcos.

O APERFEIÇOAMENTO DE OUTROS

A famosa invenção da lâmpada incandescente de Edison, em 21 de outubro de 1879, era um aperfeiçoamento de muitas outras lâmpadas patenteado por outros inventores entre 1841 e 1878. Do mesmo modo, o avião tripulado dos irmãos Wright foi precedido pelos planadores de Otto Lilienthal e a máquina voadora de Samuel Lasngley. O telégrafo de Samuel Morse foi precedido pelos de Joseph Henry, William Cooke e Charles Wheatstone. O descaroçador de Eli Whitney foi aperfeiçoamento de outras máquinas

Para Diamond, a tecnologia evolui de modo cumulativo, não em atos heroicos, e que a descoberta da maioria das utilidades de uma invenção ´é feita depois, e não sempre antes para satisfazer uma necessidade prevista.

  Por volta de 2000 a. C., os mesopotâmicos estavam extraindo toneladas de petróleo pelo aquecimento de xisto perobetuminoso. Os antigos gregos descobriram os empregos de várias misturas de petróleo, piche, resinas, bombas incendiárias e navios. Os alquimistas islâmicos medievais conseguiram a técnica da destilação do álcool.

Essas substâncias incendiárias exerceram papel fundamental na derrota dos Cruzados para o Islã. Na mesma época, os chineses observaram que determinada mistura de enxofre, carvão e salitre, conhecida como pólvora, era explosiva.

RESISTÊNCIA ÀS MUDANÇAS

Quanto a resistência às mudanças na tecnologia, Diamond levanta a pergunta sobre o motivo das cidades britânicas na década de 1920 usarem a iluminação a gás em suas ruas, muito depois dos americanos e alemães terem passado para o processo elétrico. Os governos municipais britânicos tinham investido pesado na iluminação a gás e impuseram regulamentos que atrapalharam as companhias de eletricidade – esclarece o cientista.

Ele aponta diversos fatores que inibiram e aceleraram as invenções. Uma delas foi a disponibilidade de mão-de-obra escrava nos tempos clássicos, enquanto os salários altos e a escassez de mão-de-obra estimulam hoje a busca de soluções tecnológicas.

Nesse campo, Diamond aponta dez fatores que influenciam a tecnologia, dentre eles a guerra, governo centralizado, clima e a abundância de recursos que, também, podem servir de atraso. “Ao longo da história, a guerra foi importante motivador da inovação tecnológica”. Exemplo disso foram os investimentos em armas nucleares durante a II Guerra Mundial e em aviões e canhões na I Guerra.

A destruição das florestas na Inglaterra foi apontada como motivo por trás da sua liderança no desenvolvimento da tecnologia do carvão, mas o desmatamento na China não teve o mesmo efeito. Existe uma lista enorme para explicar por que as sociedades diferem na aceitação de uma nova tecnologia.

Acredita-se que os aborígines australianos compartilhavam características ideológicas que influíram no seu atraso tecnológico. Supostamente eram conservadores, não se preocupando em melhorar o presente. Assim como a Europa e a América industrializadas, a Nova Guiné tradicional tem sociedades conservadoras que resistem a novos métodos, vivendo lado a lado com comunidades inovadoras. Com a chegada da tecnologia ocidental, sociedades mais empreendedoras estão explorando essa tecnologia para subjugar vizinhos conservadores.

Hoje, as comunidades islâmicas são vistas como conservadoras, mas o Islã medieval era tecnologicamente avançado e aberta às novações. Alcançou taxas de alfabetização maiores que a Europa na mesma época. Assimilou o legado da civilização grega a tal ponto que só conhecemos muitos livros gregos por meio de exemplares árabes. Fez progressos importantes na metalurgia e outros setores, e até adotou o papel e a pólvora oriundos da China, e os difundiu para a Europa. Na Idade Média, o fluxo de tecnologia era do Islã para a Europa, e não o contrário como é hoje. Só depois de 1500 a direção foi invertida.

Segundo o cientista, a invenção na China também variou com o tempo. Até por volta de 1450, a China era mais inovadora e avançada que a Europa e o próprio Islã medieval. Dentre as inovações estão comportas para fechamento de canais, ferro fundido, perfuração em profundidade, pólvora, pipas, bússolas magnéticas, papel, porcelana e impressão. Depois a China deixou de ser inovadora.

Do outro lado, hoje consideramos a Europa e os norte-americanos que dela derivaram como líderes do mundo moderno em matéria de inovação tecnológica, mas suas tecnologias eram menos avançadas até o final da Idade Média.

O autor do livro explica que algumas inovações surgiram da manipulação de matérias-primas naturais, como a domesticação das plantas e da cerâmica, observando o comportamento da argila. Ela apareceu há cerca de 14 mil anos no Japão, há 10 mil no Crescente Fértil e na China e depois na Amazônia, na zona do Sael na África, no sudeste dos Estados Unidos e no México.

Ele destaca inovações difíceis, como a roda d´agua, o moinho de rolos, a roda dentada, a bússola, o moinho de vento e a câmara escura, todas concebidas no Velho Mundo. Muitas inovações foram obtidas por empréstimo em outros lugares, como a roda, comprovada pela primeira vez perto do Mar Negro, por volta de 3400 a. C. Um exemplo de tecnologia do Novo Mundo foi a metalurgia que se propagou dos Andes para a Mesoàmerica pelo Panamá.