:: 31/ago/2020 . 22:49
A PRIMEIRA LIVE DO SARAU A ESTRADA
Realizamos no último sábado (dia 29/08) a primeira Live do Sarau A Estrada com a participação de José Carlos (coordenação), professor Itamar Aguiar, Edna Brito, Alex Baducha, Regina Chaves, Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves. Não foi o ideal em termos de quantidade de pessoas (faltou mais divulgação), mas foi total sucesso no sentido de interação, empatia e quanto aos temas debatidos, com um bom conteúdo e aproveitamento.
Essa foi uma Live para matar a saudade dos nossos eventos presenciais costumeiros que estão sem ser realizados há sete meses (o último foi no início de fevereiro) por causa da pandemia que não vai acabar com o nosso Sarau. A Live de três horas, das oito e meia da noite até por volta de onze e meia do sábado, foi muito prazerosa e até diria emocional, num papo bastante descontraído e informal.
NAÇÃO CIGANA
Durante os debates falamos de muitos assuntos importantes, principalmente na área social e cultural. Discutimos um pouco sobre a tecnologia e suas influências na história da humanidade, moradores de rua, mas o principal assunto que rolou foi sobre as nações ciganas, povo sem pátria, e que sempre foram excluídas das nossas sociedades.
Para completar e temperar ainda mais a Live, ainda sobrou espaço para declamação de poemas, e o músico e cantor Alex Baducha nos animou apresentando várias canções ao som do violão. Podemos dizer que foi uma noite inspirada de muita troca de informações, conhecimentos e aprendizagem, mantendo o mesmo formato do Sarau presencial. Pretendemos fazer outra Live ainda neste mês de setembro com mais participantes. Em breve comunicaremos ao grupo o dia e hora do evento.
Sobre as nações ciganas, o jornalista Jeremias Macário fez um resumo histórico desse povo que tem várias origens, mais precisamente vindos da Ásia, e que depois adentraram na Europa. Os Calons e os Rum foram os grupos que mais se destacaram. Os primeiros, que viviam mais na Península Ibérica, vieram para o Brasil entre os séculos XVII, XVIII e XIX como degredados, mais por perseguições, exclusão e discriminação do que por crimes cometidos.
O rei D, João V, de Portugal foi um dos maiores perseguidores da nação Calon, também chamados de Kalé, mas no Brasil foram acolhidos até na corte de D. João VI, com apresentações artísticas durante saraus da família real. Como bons empreendedores, tudo fizeram na vida para sobreviver e manter unidos seus grupos, desde a venda de cavalos, consertos de caldeiras nos engenhos de cana, panelas, leitura das mãos pelas mulheres, venda de arreios e até de escravos de segunda mão para pequenos produtores rurais. No Rio de Janeiro, por muito tempo, viveram no Campo de Santana e dali sobressaíram homens ricos. Muitos foram tocados para o interior, para povoar o sertão – conforme ressaltou Itamar.
De acordo com Jeremias, no país por onde andavam sempre foram discriminados e perseguidos, e viviam em correrias tangidos pela polícia de um canto para outro, vistos como trapaceiros, preguiçosos, sujos, arruaceiros e até como bandidos. Quanto aos Rum, mais artísticos e circenses, esse povo chegou ao Brasil no final do século XIX com a leva de imigrantes estrangeiros, como italianos, alemães, poloneses e russos.
Como eram tão discriminados, eles davam nomes diferentes na alfândega. Uma curiosidade que poucos conhecem é que essa gente também tinha uma inclinação para política e, da sua descendência, saiu o primeiro presidente cigano brasileiro que foi Juscelino Kubitschek, neto de um cigano Rum legítimo de Diamantina. Portanto, já tivemos de tudo como presidente da República.
O professor Itamar Aguiar também fez algumas pinceladas sobre o tema, como todos os outros participantes, e até declamou um poema cigano. Logo, por acaso, enveredamos na questão dos moradores de rua através de um poema “No Olho da Rua”, de autoria de Jeremias Macário, declamado por ele mesmo.
Regina pediu a colaboração de todos do grupo para que contribuam com seu artigo que está elaborando para seu curso, falando da importância do Sarau A Estrada, que está completando dez anos de existência. No final da Live, cada um fez suas considerações finais e todos se despediram com emoção, com o gosto de mais outro evento virtual. É bom lembrar que durante essa pandemia, o Sarau vem produzindo uma série de vídeos, culminando numa curta-metragem colaborativa de 22 minutos que está sendo distribuída.
AS TRANSFERÊNCIAS TECNOLÓGICAS E AS QUESTÕES GEOGRÁFICAS E ECOLÓGICAS
Houve transferência de técnicas chinesas de fabricação de papel para o Islã quando o exército árabe derrotou o chinês na batalha do rio Talas. O Islã encontrou alguns artífices entre os prisioneiros de guerra e os levou com a intenção de montar uma fábrica de papel. Existia difusão de ideias proteladas, como foi o caso da porcelana inventada na China por volta do século VII. Chegou à Europa pela Rota da Seda no século XIV.
A narração consta do livro “Armas, Germes e Aço”, do cientista Jared Diamond, no capítulo que trata de “A Mãe da Necessidade”, destacando as questões das transferências tecnológicas e as interferências geográficas e ecológicas na difusão das ideias.
AS INVENÇÕES E LOCALIZAÇÕES GEOGRÁFICAS
Só em 1707 o alquimista Johann Bottger, depois de demoradas experiências, encontrou a solução e iniciou a fabricação das famosas porcelanas de Meissen. Do mesmo modo, os oleiros europeus tiveram que reinventar os métodos chineses de fabricação, por conta própria.
No caso da difusão, de acordo com Diamond, as sociedades diferem na rapidez com que recebem a tecnologia de outras comunidades, dependendo da localização geográfica. Os povos mais isolados da Terra na história recente eram os aborígines tasmanianos, que viviam em embarcações para atravessar oceanos em uma ilha a cerca de 160 quilômetros da Austrália, o continente mais isolado. Durante dez mil anos, os tasmanianos não tiveram nenhum contato com outras sociedades e não adquiriram nenhuma tecnologia diferente.
As sociedades localizadas nos principais continentes evoluíram a tecnologia mais depressa porque acumulavam suas próprias invenções e as de outras comunidades. O Islã medieval, localizada na Eurásia, absorveu invenções da Índia, da China e ainda herdou a cultura grega.
As tecnologias úteis persistem até serem substituídas por outras melhores. Qualquer sociedade passa por movimentos sociais, ou por modismos onde coisas economicamente inúteis se tornam valorizadas, e as úteis perdem, temporariamente, sua importância. Hoje quando todas sociedades estão conectadas umas às outras, não podemos imaginar que um modismo se perca ao ponto de uma tecnologia fundamental ser descartada.
Um exemplo foi o abandono de armas pelo Japão quando elas chegaram em 1543 por dois aventureiros portugueses com arcabuzes. Os japoneses ficaram impressionados e deram início a uma produção, aperfeiçoando a tecnologia. Por volta de 1600 possuíam armas melhores e em maior quantidade que qualquer outro país.
No entanto, existiam fatores contra a aceitação de armas, como a numerosa classe de guerreiros samurais para quem as espadas eram símbolos de status e consideradas obras de arte. A guerra japonesa envolvia combates isolados entre samurais que se orgulhavam de lutar elegantemente. Soldados camponeses atiravam deselegantemente. Além disso, as armas eram invenção estrangeira e passaram a ser menosprezadas. O governo começou a limitar a produção de armas através de uma licença para fabricação. Depois limitou a licença só para armas produzidas para o governo. Esse processo só terminou em 1853 quando uma frota americana cheia de canhões convenceu o Japão da necessidade de retomar a fabricação de armas.
Outros retrocessos desse tipo ocorreram na pré-história, como no caso dos aborígines tasmanianos que abandonaram até as ferramentas feitas de osso. A cerâmica foi abandonada em toda Polinésia. A maioria deixou de usar arcos e flechas na guerra.
A DIFUSÃO DA INVENÇÃO
- 1













