:: 27/ago/2020 . 23:26
“NO OLHO DA RUA”
O mais recente poema do jornalista Jeremias Macário, que aborda a situação dos moradores de rua
Foto de Jeremias Macário
Sentado aqui neste banco de jardim,
Vejo carros a passar entre mortos-vivos,
Mergulho nesse faminto doer em mim,
Do amor que se quebrou em desencanto,
Sonhos partidos de desalento e pranto,
Que um dia foram parar no olho da rua.
Oh quão desigual essa tirana divisão social!
De andantes invisíveis desse algoz capital,
De olhos vagos rasgados latinos franzinos,
Como dos meninos, filhos dessa droga diária,
Fuzilados na sangria matança da Candelária,
Quando a noite se silencia no olho da rua.
Da pandemia viral que mais trabalho cortou,
Como o cachorro que o dono o escorraçou,
O casal se refugia na procura da cura da dor,
Em cada marquise, em cada esquina e viaduto,
Tem a marca concreta desumana do produto,
Da crua realidade de ir morar no olho da rua.
Livre das amarras do sistema tempo e hora,
Sua coberta de papelão pode arder em fogo,
Nas labaredas intestinais roendo em fome,
E em cada ser existe uma história para contar,
Tem quem chora e quem apaga da memória,
Sua vida que lhe levou a cair no olho da rua.
O POLÍTICO É PRODUTO DO POVO
Por que o povo tolera a transferência do fruto do seu trabalho árduo para os cleptocratas? A pergunta, levantada por teóricos de Platão a Marx, é feita pelo cientista Jared Diamond em seu livro “Armas, Germes e Aço”. Nos tempos modernos, essa questão é comentada por muitos eleitores em todas as eleições.
No panorama atual brasileiro, diria que um dos motivos é porque os políticos que se desviam de suas funções e enveredam pelo caminho da corrupção, são produtos do povo que os elege. Aqui em nosso país, as cleptocracias não correm o risco de serem destituídas pelo povo oprimido, mas substituídas por novos ricos que buscam apoio público com promessas de proporções maiores de serviços em relação aos frutos roubados. Infelizmente, são atendidos e mantidos pelo voto.
Para conquistar apoio popular, os ricos recorrem a uma mistura de quatro soluções, conforme analisa o cientista. Dentre elas, desarmar a população e armar mais ainda a elite, como vem ocorrendo há séculos em nosso Brasil.
Outra é fazer a massa feliz, redistribuindo boa parte do produto recebido em coisas de apelo popular. A terceira solução é usar o monopólio da força e, por último, elaborar uma ideologia, ou uma religião (em nosso caso os evangélicos) que justifique o governo dos ricos e burgueses capitalistas.
Milhares de anos antes de Cristo, os bandos e as tribos tinham suas crenças sobrenaturais, assim como as religiões modernas. No entanto, as crenças nos bandos não serviam para justificar a autoridade central. Nas tribos centralizadas e no Estado, as crenças foram institucionalizadas e ganharam a função de religião. A partir daí os chefes passaram a ter uma ascendência divina, numa linha direta com os deuses. Eles, então, começaram a alegar que serviam o povo, intercedendo junto aos deuses.
Vivemos numa democracia cleptocrata onde os ricos são substituídos por outros, ou os eleitos governam voltados para as elites, com a promessa de fazer redistribuição de renda e reduzir as profundas desigualdades sociais, mas acabam praticando o populismo assistencialista através de esmolas que atraem o voto popular. O povo atende ao apelo do produto.
Em nossa história eleitoral, o político, que se apropria do fruto do nosso trabalho, tem sido um produto do povo, como o capitão-presidente que atenta contra nossa democracia; chama jornalistas de homossexuais e de bundões; apoia uma intervenção militar e; por outras atitudes, já deveria ter sido guilhotinado pelo impeachment. Por muito menos, Fernando Collor e Dilma foram cassados por uma camada da cleptocracia insatisfeita.
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