“NO OLHO DA RUA”
O mais recente poema do jornalista Jeremias Macário, que aborda a situação dos moradores de rua
Foto de Jeremias Macário
Sentado aqui neste banco de jardim,
Vejo carros a passar entre mortos-vivos,
Mergulho nesse faminto doer em mim,
Do amor que se quebrou em desencanto,
Sonhos partidos de desalento e pranto,
Que um dia foram parar no olho da rua.
Oh quão desigual essa tirana divisão social!
De andantes invisíveis desse algoz capital,
De olhos vagos rasgados latinos franzinos,
Como dos meninos, filhos dessa droga diária,
Fuzilados na sangria matança da Candelária,
Quando a noite se silencia no olho da rua.
Da pandemia viral que mais trabalho cortou,
Como o cachorro que o dono o escorraçou,
O casal se refugia na procura da cura da dor,
Em cada marquise, em cada esquina e viaduto,
Tem a marca concreta desumana do produto,
Da crua realidade de ir morar no olho da rua.
Livre das amarras do sistema tempo e hora,
Sua coberta de papelão pode arder em fogo,
Nas labaredas intestinais roendo em fome,
E em cada ser existe uma história para contar,
Tem quem chora e quem apaga da memória,
Sua vida que lhe levou a cair no olho da rua.












