ÚLTIMA CHAMADA
(Chico Ribeiro Neto)
Os japoneses costumam colocar no túmulo dos parentes ou amigos um pouco do doce ou comida que a pessoa falecida mais gostava, seguindo uma tradição. Uma vez um paulista perguntou ao japonês: “A que horas seu defunto vem comer a comida?” “Na mesma hora em que o seu vem cheirar as flores”, rebateu o japa.
Fui ao sepultamento de um amigo no Campo Santo e resolvi comprar uma coroa de flores. Escolhida a coroa, o funcionário da floricultura me entregou um caderno, já bem amarelado, com centenas de sugestões de frases para escrever no cartão, que começavam por “saudades eternas”.
Também no Campo Santo, enquanto esperava a hora de um sepultamento, convidei um amigo para tomar um cafezinho na cantina do cemitério. Ele me acompanhou, mas não quis o café. “Não tem problema, pode tomar”, disse eu. E ele reagiu preocupado: “Mas, e esse pozinho que vem de lá?”, e apontou para as sepulturas.
Quase todo cemitério tem o cara que adora discursar em enterro, mesmo que não conheça o falecido. Numa cidade do interior baiano, havia o Seu Zezinho, que não perdia um. Mas nesse sepultamento ele se deu mal. Com o surrado paletó marrom, chegou ao cemitério, procurou algum montinho ou lápide pra subir, já que era baixinho, e disparou: “Aqui vai mais um amigo, honesto e trabalhador. Será o destino de todos nós. Hoje é ele. E amanhã quem será?” “Seu Zezinho”, gritou um gaiato. “É a puta que lhe pariu”, reagiu Zezinho furioso, já pulando no chão e dobrando as mangas pra brigar.
O artista plástico Ângelo Roberto gostava de beber à noite no bar do Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Dizia que o bar não fechava, era seguro e tinha uma vizinhança muito tranquila. Parece que o bar fechou.
Ninguém sabe o que dizer ao viúvo ou viúva. Tenho um amigo que, na total falta do que dizer, acabou dando “Parabéns” à viúva. E esse não passou pelo bar do Jardim da Saudade.
Um velho jornalista baiano estava num velório no Jardim da Saudade quando um funcionário lhe ofereceu o Livro de Presença para assinar. Ele se recusou e o funcionário perguntou “por que o senhor não assina?” O conhecido repórter policial apontou para o céu e disse: “Ele faz a chamada é por aí”.
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