AS SEMELHANÇAS ENTRE A ESCRAVIDÃO AFRICANA E A DOS TEMPOS “MODERNOS”
Meu amigo e companheiro jornalista Carlos Gonzalez me pediu para que eu fizesse um comentário sobre as semelhanças da escravidão africana que durou mais de 300 anos no Brasil e as dos tempos “modernos”, como a mais recente encontrada em Bento Gonçalves (Rio Grande do Sul), praticada por vinícolas daquele estado. Tudo é uma questão de semântica e ponto de vista de cada um.
Sua sugestão é uma ordem e vamos lá fazer algumas pontuações. Para começar, os fatos atuais não deixam de ser uma herança da escravidão negreira. Claro que as formas são análogas, mas os termos empregados nos tempos de hoje são diferentes e não se pode comparar a violência e a crueldade sofridas pelos negros tirados a ferro e fogo da sua terra natal para atravessar o Atlântico em porões fedorentos da morte durante mais de dois meses. Milhares foram jogados vivos no mar.
Longe de querer contemporizar o uso da mão escrava por empresas e fazendeiros em pleno século XXI, que é ainda mais vergonhoso quando nos consideramos “civilizados”. Existe uma força de expressão quando usamos a palavra análoga. Nada se pode comparar com o que aconteceu com a escravidão passada, que inclusive era institucionalizada e aceita pelo Estado e a Igreja Católica.
No entanto, as práticas se parecem, inclusive na fala do vereador de Caxias do Sul (RS), Sandro Fantinel, do Patriota (que ironia!), quando arrota toda sua xenofobia contra os baianos (mais de 200) dizendo serem sujos; que não gostam de trabalhar; e só sabem curtir praias, carnaval e tocar tambor. Recomendou que as empresas contratassem os argentinos que, segundo ele, são limpos, dedicados e ainda agradecem o patrão.
Os senhores da cana, dos engenhos de açúcar e da mineração também xingavam os nagôs-iorubás, da região da antiga Nigéria, por serem mais atrevidos; resistirem as opressões e castigos; e tramarem revoltas e fugas. Eles preferiam os angolanos e do Golfo do Benin por serem mais dóceis e aceitarem as submissões, sem rebeliões.
Quem iam buscar os negros na África eram os capitães de navios, negociantes individuais e empresas donas das próprias embarcações que eram chamados de traficantes negreiros, não importando se sob encomenda dos patrões ou leiloados nos mercados. Todo sistema era feito na base dos atravessadores.
Esses traficantes hoje são chamados de contratadores ou de firmas terceirizadas, todos se utilizando de práticas ilegais através de propagandas salariais enganosas e burlando as leis trabalhistas. A escravidão já começa a partir do transporte irregular e precário através de um ônibus velho ou um pau-de-arara, diferente do porão escuro e infernal.
A escravidão africana era legalizada pelo Brasil, Portugal, Inglaterra, França, Espanha e até a Dinamarca. Os governos ou reinos ditavam as leis, mas, dentro desse tráfico (o nome já diz tudo) existiam os contrabandos, a clandestinidade e os corruptos.
Mesmo após a proibição do tráfico, em 1850, pela Lei Euzébio de Queirós, os traficantes continuaram a atuar por meio de suas trapaças, desvios de rotas para não serem aprisionados pelos ingleses e conluios com as autoridades. Depois de mais de 130 anos da abolição, essa escravidão ainda persiste.
Pelo que confessaram os trabalhadores baianos, em Bento Gonçalves, eles foram alojados em acampamentos indignos ao ser humano, sem água potável, dormitórios limpos e alimentação adequada. Levaram porradas; apanharam; e foram torturados quando não cumpriam bem as tarefas.
Na época da escravidão africana, os negros ficavam em senzalas horríveis e degradantes. Eram vítimas de chibatadas; iam para o tronco; mutilavam partes de seus corpos e até recebiam castigos de morte, sendo bem ou não comportados. Muitos surravam seus negros escravos por prazer, para serem obedientes e para servirem de exemplo para os outros.
Bem, meu amigo Gonzalez, os métodos empregados eram diferentes e mais violentos contra os cativos africanos, mas isso não quer dizer que essa forma de trabalho atual, a exemplo do descoberto nas vinícolas de Bento Gonçalves, deixe ser escravidão.
Aliás, no nosso Brasil de hoje, de mais de 11 milhões de desempregados, principalmente depois da reforma trabalhista, onde é quase nula a negociação bilateral entre o capital e o trabalho (o patrão manda e o empregado obedece), o regime é de escravidão, desde a remuneração mínima, as pressões de assédio moral, as longas jornadas até as condições inadequadas nos locais de atuação. Para disfarçar essa escravidão, os senhores capitalistas chamam seus servidores de colaboradores.











