Acordei pleno às 5 da manhã. Sensação de tudo resolvido e de que a vida caminha em paz.
Já escrevi crônicas e alguns poemas às 5 da manhã. Nesse horário os cachorros dos vizinhos ainda estão dormindo, ainda não ligaram a TV e parece que estou em dia com o mundo.
O dramaturgo e diretor teatral Deolindo Checcucci, de saudosa memória, me disse uma vez que não gostava de acordar tarde: “Tenho a sensação de que o dia andou na minha frente”.
Os passarinhos começam a cantar perto de minha janela e acredito que a vida ainda vale a pena. Outro dia me contaram que o bem-te-vi não canta sozinho, só canta em grupo, tem que ter outro pra responder.
As 5 da manhã têm gosto de viagem, aquele corre-corre de última hora senão vai perder o ônibus. A surpresa do menino de ver o mundo acordar com o galo cantando e o cheiro de café na cozinha da casa 25 da Rua 2 de Julho, em Ipiaú (BA), onde nasci.
É gostoso levantar às 5 da manhã, “acordar com as galinhas”. A gente coloca o passado em dia e fica em calma sintonia com a gente mesmo. O sono passou e a vontade de viver é imensa. Parece que ficamos cheios de graça e que um sorriso de criança alumia o mundo.
O jornalista Carlos Navarro me disse uma vez: “Experimente ver como é bom escrever às 5 da manhã”. Confirmo. A cabeça está zerada.
São 5:50. Volto pra cama, que ninguém é de ferro.
Antigamente, às 5 da manhã, o padeiro e o leiteiro já se preparavam para as entregas de casa em casa. Rubem Braga tem uma crônica maravilhosa, “O Padeiro”, de 1956, cujo trecho transcrevo: “Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: “Não é ninguém, é o padeiro!”
Escreveu ainda Rubem Braga: “Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos, alegre; ‘não é ninguém, é o padeiro!’ E assobiava pelas escadas”.