Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário (Uma homenagem ao meu pai)

Instrução ele não tinha,

Tinhoso, sim senhor!

Sozinho aprendeu a ler,

Assinar o nome também,

Lavrador e carpinteiro,

Trabalhador como ninguém;

Fazia telhado e curral,

Em fazenda de doutor;

Se metia a marceneiro;

Espantava qualquer dor,

Na busca do seu viver,

E até casa de farinha

O homem aprendeu a fazer.

 

Ainda menino criança,

Lembro bem daquele tempo,

Ele dizia, meu cumpade!

Nossa vida é uma pajelança:

Existe o certo e o confuso,

É como casa de farinha,

Onde o mais difícil aviamento,

É construir o tal do parafuso.

 

Com meu facão,

Espingarda e machado,

Carne seca e rapadura,

Agua e um punhado de farinha,

Reza e escapulário de lado,

Embrenho numa mata;

Peço licença ao curupira,

Para encontrar uma baraúna,

Bem roliça, forte e rosa;

Tem que ser formosa;

Não posso ser profuso,

Para no formão, talhar o parafuso.

 

Às vezes passo uma semana,

Para encontrar a madeira certa,

Como lagoa doce em savana;

A árvore precisa ser reta,

Para encaixar bem na rosca da peça;

No meio, faço um furo;

Sebo não se dispensa,

Com precisão não erro,

Para acochar a prensa,

Que pode ser de pau ferro.

 

Numa casa de farinha,

A de todas artesanal,

Antes de aparecer o motor,

Pode ser um simples galpão,

Com uma roda feita de cedro,

Alavancas puxadas em parceria,

No compasso da cantoria;

Um reio ligado ao ralador;

Que os índios chamam de caititu,

Com serras afiadas traiçoeiras,

Que podem tragar a mão,

Das mulheres raladeiras.

 

Para ficar a favor da corrente,

O forno de barro, à lenha,

Com duas ou três bocas,

Deve ficar em direção ao poente;

A pedra para torar a farinha,

Dão nome de atafona ou mó;

Falam também que é “sabão”;

Sei fazer tudo da cabeça,

Quem fizer melhor apareça;

No mais, cochos e peneiras,

Para classificar a farinha:

Grossa ou fina, com tapioca,

A ser testada nas feiras,

Mas tudo depende da mandioca.

 

Tudo começava na segunda,

E terminava na sexta-feira,

Desde o clarear do dia,

Com o arranque e as raspadeiras:

O melhor mesmo era ao entardecer,

Na chamada boca da noite,

Quando terminavam as trabalheiras:

Farinha quente, ensacada pra vender.

 

Nas visões da minha memória:

Era hora do prosear,

Tudo na camaradagem;

Contar causos e história,

Conversa fora jogar,

Cachaça e café quente no bule,

Pra comer beijus e biscoitos de tapioca,

Até inspirava um repente de modinha;

Não podia faltar uma fofoca,

Na tradicional casa de farinha.