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DUAS CARINHAS NO VIDRO TRASEIRO

(Chico Ribeiro Neto)

Estou no calorento e caótico trânsito de Salvador. São quase duas horas da tarde e enfrento um bruto de um engarrafamento na Avenida Paulo VI, na Pituba.

Alguém bateu em alguém ou então tem caminhão atravessado descarregando, Kombi de sorvete fazendo liquidação, três oficinas-estrela atuando, mais mesas de bar na pista e um guarda inteiramente descontrolado que só faz apitar.

Suspiro, enxugo o suor, olho pra cara do taxista ao lado, o que só faz piorar minha chateação. É quando algo à frente me chama atenção: dois garotos, de seus quatro ou cinco anos, ajoelhados no banco do fundo de um carro, começam a me dar adeusinhos pelo vidro. Fico sem responder, mas aos poucos e timidamente levanto a mão direita para acenar também.

Eles vibram e se agitam mais ainda no banco do carro. Novamente fico acenando e eles dando os adeusinhos cada vez mais rapidamente.

Os meninos usam farda da escolinha e começam a me fazer esquecer do engarrafamento. De repente, o de cara mais safada, com cabelo lourinho caído na testa, começa a fazer careta. Juro que tive vontade de responder a algumas – sei fazer boas caretas – mas fiquei com vergonha dos motoristas ao lado. Podiam até pensar que aquele engarrafamento estava deixando um maluco.

O carro se afasta só alguns metros, eles tomam aquele susto e, pra não caírem, apoiam-se um no outro. Riem de tudo, não dão a menor bola pro engarrafamento e agora começam a mostrar a merendeira, pasta, mochila, garrafa térmica e toda aquela pequena tralha de escolinha.

A cabeça vai longe, chega até a estrada Jequié-Ipiaú. Quando menino, gostava muito de dar adeus do ônibus para as crianças que ficavam naquelas casinhas onde Jequié começava a acabar pra começar a estrada.

Anos depois, causou-me espanto ver uma mãozinha de plástico que ficava presa ao vidro traseiro do carro e que dava adeus quando o veículo se movimentava. Muito sem graça, por sinal.

Volto ao engarrafamento, o suor escorre pelas costas, as caras em volta continuam a passar somente aborrecimento, mas aquelas duas carinhas à frente me confortam e chego até a ensaiar uma caretinha. Afinal  já estou acostumado é a receber histéricas buzinadas e até algumas “bananas” no trânsito.

Parece que agora o engarrafamento está terminando, o adeusinho deles vai ficando mais longe, até que o carro entra numa rua antes da minha. Tive vontade de segui-los até a escolinha, abraçá-los, beijá-los, pagar guaraná pros dois e dizer: “Vocês iluminaram hoje o meu dia”.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 5/12/1991)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

DESAFOGAR O CENTRO

  Ainda nesta semana estava conversando com um amigo sobre a necessidade urgente de desafogar o centro de Vitória da Conquista onde todas as decisões políticas, sociais e econômicas estão concentradas num só lugar. Todos os caminhos para resolver problemas burocráticos em repartições públicas, pagamentos, questões imobiliárias e outros “pepinos”, como se fala na gíria, levam ao centro, que se tornou um caos no trânsito e, principalmente, em termos de estacionamento. A Zona Azul se tornou uma torre de babel porque sempre está mudando de normas. Uma das soluções para desafogar o centro, conforme comentávamos, seria a criação de um Centro Administrativo unindo prefeitura e secretarias, questão que já foi posta em programas de candidatos em épocas de eleições. Além de solucionar vários problemas de circulação, oferecendo melhor qualidade de vida no aspecto humano, todos ganhariam com a instalação de um Centro Administrativo, sobretudo os usuários dos serviços públicos que iriam resolver seus problemas em menor tempo. A impressão é que os prefeitos eleitos sofrem certa pressão do setor lojista e temem apresentar um projeto que poderia contar com apoio estadual e federal no quesito recursos. Nos últimos 30 anos, Conquista experimentou um elevado crescimento, um dos maiores do Norte e Nordeste, só que houve um descompasso em comparação com a demanda populacional. A sua infraestrutura para os tempos modernos deixa muito a desejar. O centro, por exemplo, passou a ser um grande problema pelo acúmulo de pessoas e carros por metro quadrado. Os anos vão passando e a situação só tende a se agravar. Ir ao centro hoje é um tormento e se perde muito tempo, sem falar no estresse e na irritação. Falta planejamento e sobra desordenamento.

PEITO SECO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O leite sumiu,

O peito está seco,

Como o leito do rio,

No colo, a criança chora,

Nem a canção de ninar,

E o dedo na boca consola.

 

A mãe entra em desespero,

O pai em disparada,

Pela estrada corre,

Grita por amparo,

Mas o rebento morre.

 

O peito fica seco,

No sertão profundo,

Dos senhores da terra,

Onde a miséria explode,

Como na África da guerra,

Do sanguinário tirano

Que se diz enviado de Deus,

Impiedoso e desumano.

 

O peito está seco,

Na porta bate a morte,

E da fome foge o forte.

 

O peito está seco,

Como árido nordestino,

Não há tempo pra chorar,

O rato rói o intestino,

Lentamente até matar.

SARAU A ESTRADA VAI À RUA

  Pela primeira vez em toda sua história de 16 anos de existência, o “Sarau A Estrada” vai à rua levar cultura ao povo através da música, da declamação de poemas, roda de capoeira, teatro e falas de seus componentes, traduzindo a nossa trajetória na troca das ideias, do conhecimento e do saber entre artistas, intelectuais, professores, estudantes e interessados pela arte.

  O nosso encontro suprapartidário está marcado para o próximo dia 17/07, às 16 horas, numa sexta-feira, na Praça Nove de Novembro, conforme ficou decido pela Comissão Organizadora que já comunicou o evento à Prefeitura Municipal, na pessoa da prefeita Ana Sheila Lemos e às Secretarias de Cultura e a de Ordem Pública.

  Gostaríamos de contar com o apoio logístico do poder público, da mídia em geral, dos empresários, das diversas entidades, no sentido de que o “Sarau na Rua” seja um sucesso e outros venham a ser realizados em pontos diferentes da cidade, além do centro.

  O “Sarau na Rua” pretende encantar a população com suas atividades, de forma a mostrar a importância da cultura na vida do ser humano. Uma cidade sem cultura é uma cidade sem alma porque precisamos também cuidar do nosso espiritual.

 Na luta constante em defesa da cultura e pela sua revitalização, vamos também levantar as nossas reivindicações que são de toda comunidade conquistense, como a implantação do Plano Municipal de Cultura e abertura dos equipamentos culturais. Cultura gera desenvolvimento econômico e social.

   Para quem ainda não conhece, o nosso sarau já realizou diversos trabalhos, como a divulgação de um CD e vídeos, apresentação no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o Troféu Glauber Rocha pela sua atuação durante este período.

  Esse evento do dia 17 de julho será um marco, o mais significativo de todos porque os artistas estarão indo onde o povo está, como recomenda o nosso grande cancioneiro, cantor, músico e compositor Milton Nascimento.

   Neste dia histórico para o “Sarau A Estrada”, que sempre é realizado no Espaço Cultura do mesmo nome, esperamos contar com todos estradeiros da cultura, movimentos ligados ao setor e demais fazedores de cultura, que irão se juntar ao povo de Vitória da Conquista, para ouvir nossa palavra, contribuir e participar das nossas atividades.





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