E OS NOSSOS OUTROS APAGÕES?
NO VENTRE DA BARRIGA DA MÃE SE VIVE UM APAGÃO DE NOVE MESES. DEPOIS HABEMOS LUZ. UNS CONTINUAM SENDO ILUMINADOS E ILUMINANDO OS SERES POR ONDE PASSAM. OUTROS, INFELIZMENTE, PERMANECEM APAGADOS E PASSAM A VIDA SEM SER VIVIDA. NEM SÃO NOTADOS.
O apagão elétrico dos nossos tempos tecnológicos da era da informática e da inteligência artificial nos deixa desesperados, angustiados e ainda mais estressados. É a internet que não funciona, o metrô que para, o trânsito que fica louco sem os semáforos, os doentes que correm risco de vida nos hospitais, os alimentos que se deterioram nos frízeres; perdem-se bilhões nos negócios e até a violência com mortes aumenta nas grandes cidades. Os bandidos aproveitam para cometer suas atrocidades.
Quando era menino na pequena cidade de Piritiba, lembro do velho gerador a diesel que só funcionava das 18 às 22 horas, como se marcasse a hora de se recolher para dormir. A molecada não ligava e fica na rua de terra. No Império até a República eram os lampiões e, quando chegou a eletricidade, esta ainda era bem precária. Os apagões de hoje nos fazem retornar aos tempos antigos do fifó, das velas, das lenhas e de outros meios naturais.
O corte da energia nos deixa atordoados e paralisados, mesmo que seja em plena luz do dia, e nem valorizamos mais o nosso rei Sol que brilha nossos caminhos. Deixamos de louvar e abençoar o sobrenatural, o divino. Nos tornamos ingratos e cuspimos no prato que comemos.
Esquecemos, no entanto, que o nosso mundo atual vive outros apagões aos quais nem nos damos conta disso. Só nos importamos com o artificial físico que move nossos corpos gananciosos e competitivos. Para nós, o único alimento útil é somente aquele que entra pela boca. Estamos até desaprendendo a pronunciar corretamente as palavras.
Não paramos para pensar e refletir que os apagões espirituais dos tempos modernos são muito mais graves e são estes que estão levando os seres humanos ao desastre e à autodestruição. Não observamos, mas estamos vivendo no apagão da virtude, da paz, do amor, da tolerância, da preservação do meio ambiente, da perseverança, da bondade, da cordialidade, do respeito ao outro, da obediência aos pais, do bom viver, da valorização da vida, da amizade sincera, da cooperação e do perdão.
Vivemos no apagão das justiças e das igualdades sociais, de gênero e de cor, do saber e do conhecimento, da dignidade e dos direitos humanos, da liberdade e preferimos viver na escuridão da ignorância, da opressão, da ambição a todo custo, do consumismo sem trégua, do emporcalhar e desmatar a natureza, do errado que virou certo e do anormal que se tornou comum, do egoísmo e do individualismo.
Preferimos viver na escuridão da cegueira, da surdez e do silêncio, da indiferença para com os outros e nem notamos que dentro de nós falta luz porque apagamos ela como se não mais tivesse serventia. Acendemos a outra turva e sombria que nos consome, que nos torna mais brutos primitivos. Aos poucos estamos apagando a luz da razão.
O nosso mundo de hoje sofre do apagão humanitário, que mais interessa soltar foguetes aos ares do que cuidar dos bilhões que cá embaixo passam fome e miséria. Ao invés da limpeza do planeta, o mundo optou por soltar seus gases tóxicos que afetam o aquecimento global para até 50 graus. O negócio é elevar o PIB, fabricar mais armas e criar mais guerras.
O apagão energético progressista é temporário, polêmico e até conspiratório, mas existem os outros que fazemos questão de não os vês porque não queremos enxergá-los e estão dentro de nós, na escuridão das entranhas. As trevas internas do espírito são as piores e estas estão nos deixando mais desumanizados, numa sociedade mais cruel, mesmo com todas tecnologias nas palmas das mãos.











