Depois de ser humilhado e até sofrer um bloqueio naval por seis dias no Porto do Rio de Janeiro, o governo imperial de D. Pedro II se apressou em decretar, em 1850, o fim do tráfico negreiro através da lei chamada de Eusébio de Queirós Coutinho Matoso Câmara (africano de ascendência portuguesa nascido em Luanda), mas, mesmo assim, muitos continuaram fazendo algumas importações de cativos africanos de forma clandestina.

A lei parlamentar de 1831, apelidada depois para “inglês ver”, não evitou o tráfico e isso irritou os britânicos que fizeram diversas ameaças ao Brasil, inclusive com o aprisionamento de navios em portos e águas territoriais. O próprio Eusébio de Queirós era conivente e acobertava os capitães de navios, os fazendeiros do café e os traficantes.

O jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor da trilogia “Escravidão” narra os episódios que levaram o Brasil à proibição do tráfico de africanos, como no capítulo da terceira obra intitulada de “Na Mira dos Canhões” onde cita o incidente ocorrido no Porto de Paranaguá, no Paraná, justamente em 1º de julho de 1850.

O tiroteio aconteceu na antiga Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, construída na Ilha do Mel para proteger a entrada da barra. Na ocasião, o embaixador da Inglaterra no Rio de Janeiro, James Hudson chegou a dizer que “a coragem não é uma virtude brasileira”.

A guarnição do forte chegou a trocar tiros com um cruzador britânico, o HMS Cormorant, cujo comandante estava inspecionando navios suspeitos e apreendia todos que estivessem praticando o tráfico de escravos. Três barcos foram atrelados ao cruzador para serem rebocados para fora da baía quando o chefe da Fortaleza reagiu. Após o ocorrido, o capitão inglês mandou queimar dois navios, o Leônidas e o Sereia.

Na época, o litoral do Paraná, ainda sob a jurisdição da província de São Paulo, era um dos locais mais concorridos para refúgio do tráfico clandestino. Não muito longe dali se situavam as ricas fazendas de café, no Vale do Paraíba.

Diz Laurentino que em Paranaguá, o comércio ilegal de gente envolvia as mais altas autoridades, incluindo o delegado de polícia José Francisco Barroso, o juiz municipal Filastro Nunes Pires e o coronel Manuel Antônio Guimarães, comandante da Guarda Nacional. Mesmo assim, essa gente recebia títulos de nobreza do imperador.

Pelo revide, o padre Vicente Pires da Mota, presidente da província, elogiou a guarnição da fortaleza e os civis que participaram do combate. No entanto, o governo imperial, por temer retaliações militares e diplomáticas mais duras, preferiu se explicar perante a Inglaterra.

A partir disso, o governo inglês impôs que o Brasil parasse de traficar escravos africanos. Na época, os britânicos eram uma potência marítima e industrial. A única saída era mesmo acabar de uma vez com o comércio clandestino de escravos.

No mesmo mês de julho de 1850, o ministro da Justiça, Eusébio de Queirós convocou a Câmara dos Deputados para, às pressas, dar andamento a um projeto emperrado nos meandros da burocracia legislativa desde 1837.

Numa tramitação relâmpago, o projeto de Eusébio foi aprovado pelos deputados em 17 de julho. Em meados de agosto passou também no Senado. Em 4 de setembro de 1850 tornou-se lei sancionada pelo imperador.

Como destacou Laurentino, foi literalmente sob a mira dos canhões britânicos que o Brasil concordou em acabar com o tráfico de africanos escravizados no Atlântico. Logo depois, a marinha brasileira passou a se empenhar na repressão ao tráfico. Alguns dos principais traficantes estrangeiros, como os irmãos portugueses Antônio e Manuel Pinto da Fonseca foram presos e expulsos do país.