:: jun/2022
SEM ÂNIMO PARA ESCREVER
De tanto ver retrocessos nesse Brasil, de tantas barbaridades violentas, tanto desprezo pela educação e nossa cultura, de tanta destruição de nossas tradições e do nosso patrimônio, tantas atitudes fanáticas religiosas em nome de Deus e de Cristo, tantas imbecilidades poluindo nosso ar, tantas derrubadas e queimadas de nossas florestas, tantas atitudes de homofobia e racismo, de tanto ver prosperar a corrupção, muitas vezes perco o ânimo para escrever, porque é como se estivesse pregando num deserto sem fim.
Agora mesmo fico a matutar o porquê de estar rabiscando essas linhas, se elas não serão lidas? Antes de começar, muitos dirão que ninguém tem mais tempo, e que estou atrasado e defasado. A nova regra tecnológica diz que você tem que redigir e se expressar em textos curtos, coisa de cinco ou dez linhas. Seu espaço acabou. Você deixou de ser útil. Seja breve. Melhor ir catar conchas na praia ou morar numa tapera. Ufa, sou teimoso! Já fui longe demais!
Nosso Brasil de hoje está mais para uma sequidão de conhecimento, saber e de lideranças, com apenas alguns oásis aqui e acolá, sem um litoral de águas para refrescar seus habitantes e aliviar suas dores desse sol inclemente. O mau caráter virou moda e o fazer trambicagens, safadezas e roubos se tornaram práticas normais. Quase sempre, ninguém acredita mais em ninguém e, na concepção das pessoas, todos são desonestos, até que se prove o contrário. O quanta deterioração!
A maioria esmagadora não quer mais saber de ler, mas só clicar no celular; fazer o “ctrl c e o ctrl v”, copiar e colar; encaminhar as besteiras, as futilidades e as mentiras sem checar; agredir e xingar os outros, como loucos das extremas direita e esquerda. Mesmos assim, ainda existem os arautos que insistem em escrever, poetar e realizar arte, correndo o risco de serem queimados na fogueira da inquisição. No entanto, tem momentos que bate o desânimo.
Os assuntos são os mais variados. Não falta matéria prima. Todos os dias acontecem fatos inusitados e surpreendentes; coisas de horror que, infelizmente, se tornaram banais e poucos ficam chocados, estremecidos. Nosso país é um recheio de temas políticos, econômicos e sociais degradantes, tanto que fica difícil se inovar na escrita. A tinta quase sempre contém sangue. A pena sempre fala do penar, do choro e dos sofrimentos de milhões e milhões de brasileiros abandonados à própria sorte.
Nesse cenário, como escrever coisas positivas; delinear boas perspectivas a curto prazo; ser otimista e dizer que estamos num Brasil maravilha, abençoado por Deus, por todos os santos e orixás? Como enxugar as lágrimas? Como consolar os desamparados, os desempregados, os famintos, os tratados como apenas números, os injustiçados filhos da miséria, se essa grande maioria nem teve a chance de aprender a ler? Os que sabem se omitem em seus coitos de luxúria e individualismo.
Está difícil escrever, se poucos são os leitores para apreciar suas palavras. A maioria prefere o mais fácil, sem o esforço de pensar e refletir. Até os poetas, compositores e músicos não aceitam mais textos longos como nos festivais passados e nos tempos onde os grandes autores e escritores tinham suas torcidas, como nos estádios de futebol. Os jovens indicavam seus livros prediletos e havia o embate de ideias.
Nas ruas, bancos de praças, nos bares e restaurantes, todos estão com seus celulares na mão, e a conversa virou virtual, mesmo que exista um próximo ao lado. O outro sempre está distante, e não existe mais o olho no olho. Agora é tudo na base da curtida que se transforma em até milhões de “seguidores”. Inventaram até a profissão do digital influencer, ou influencer digital, sei lá. Pode até se tornar numa faculdade para os espertos ganharem dinheiro.
CONSELHO DE CULTURA DISCUTE PLANO MUNICIPAL E AUDIÊNCIA
Em sua reunião mensal, na Casa Regis Pacheco, o Conselho Municipal de Cultura discutiu, ontem, à noite, diversos assuntos pertinentes ao setor, como a questão dos festejos juninos, a audiência com a prefeita Scheia Lemos, no próximo dia 28 e a instalação do Plano Municipal de Cultura ainda em maturação.
Na ocasião, a convite do colegiado, esteve presente a presidente da Casa da Cultura, Poliana Policarpo, que falou sobre a história da criação da entidade em Vitória da Conquista, suas atividades ao longo de seus 50 anos e as principais dificuldades enfrentadas para disseminar a cultura.
Os membros do Conselho fizeram um apelo ao poder público e, particularmente, à Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, para realização de oficinas destinadas aos artistas, no sentido de passar informações sobre como lidar com as exigências burocráticas no momento de inscrições nos projetos e editais culturais.
Os artistas têm reclamado que existem muitos pedidos de papéis e documentos quando são abertos editais de participação nas festas, como agora no São João. Do outro lado, a Secretaria, através da sua coordenação, explica que são obrigações ditadas pelas leis, especialmente de responsabilidade fiscal, para que o executivo não caia em irregularidades. Outra resposta, enfatizou que os artistas precisam melhor se organizar para atender às normas estabelecidas.
Outro ponto em debate foi a audiência que a diretoria do Conselho terá no próximo dia 28 de junho com a prefeita quando estarão em pauta os problemas da interdição e da reforma do Teatro Carlos Jheová, a utilização do equipamento do Cine Madrigal, a conservação do monumento do Cristo de Mário Cravo, a necessidade de uma maior visibilidade para a cultura com a alocação de mais recursos e a realização de uma Conferência Pública, para elaboração do Plano Municipal e criação da Fundação Cultura de Vitória da Conquista.
OS REINOS DE DAOMÉ E OIÓ
No segundo volume da trilogia “Escravidão”, o autor jornalista e escritor Laurentino Gomes conta a história do rei Agaja, de Daomé que, com seus exércitos de guerreiros, invadiu, em 1727, Aladá, pertencente ao soberano Huffon que fugiu às pressas para uma ilha.
As tropas do Daomé tomaram o palácio e, em seguida dirigiram-se ao templo de Dangbe, onde as serpentes pítons eram cultuadas como divindades pelos huedas, designação do povo habitante do reino de Ajudá.
O saldo da ofensiva foi trágico. Dez mil pessoas foram escravizadas. Todos os fortes e entrepostos europeus existentes na região foram saqueados.
O capitão britânico William Snelgrave, que ancorou seu navio em Aladá (capital de um reino do mesmo nome vizinho de Ajudá), ficou horrorizado com a quantidade de moscas, todas atraídas pelas cabeças em decomposição de quatro mil guerreiros huedas sacrificados por Agaja em sinal de júbilo pela vitória em Ajudá.
Antes de Aladá, maior fornecedor de cativos na região, Agaja havia devastado dois reinos. Segundo relatos, ao fim dos combates, o rei capturou oito mil guerreiros que se tornaram cativos. De acordo com o historiador inglês Robin Law, “a guerra era a própria razão da existência do Daomé”.
No entanto, como descreve Laurentino em sua obra, o Daomé estava longe de dominar sozinho o tráfico de escravos na Costa da Mina (Golfo de Benin e região da Nigéria). Agaja e seus sucessores eram vulneráveis aos ataques de um reino ainda mais forte que o seu, o de Oió, situado a noroeste, no interior do continente, no território da atual Nigéria.
Os guerreiros de Oió eram exímios cavaleiros que, partindo do interior, conseguiam chegar ao litoral na época das secas. No tempo das chuvas, o charco impedia o avanço dos animais. Entre 1726/27, Oió destruiu vários vilarejos no campo do Daomé.
Em 1730, Agaja foi obrigado a fechar um acordo pelo qual concordava em pagar tributos e permitir que as caravanas de escravos dos adversários cruzassem seus territórios.
Laurentino narra que Daomé e Oió se tornaram tão eficientes no negócio negreiro que essa região logo se transformou na segunda maior fornecedora de cativos para a América, atrás apenas de Angola e Congo.
A demanda dos europeus (Portugal, Espanha, França, Inglaterra e o Brasil, na América do Sul) por escravos era grande no século XVIII. Os reinos de Daomé e Oió não tinham condições de suprir toda procura. Foi então que os reis passaram a promover novas guerras contra os vizinhos, com o objetivo de vender prisioneiros aos traficantes. “O comércio de escravos dependia essencialmente da violência” – escreveu Robin Law.
Como consequência dessas razias, foram embarcados para o Brasil milhares de negros escravizados falantes de línguas jejes (hulas, huedas, aves, adjas, aizos, mahis e outras etnias). Juntos vieram também falantes de línguas iorubás( egbas, egbados, saves e anagôs), povos que viviam sob a influência do reino de Oió.
Essas nações se concentraram na Bahia que são os jejes e os iorubás, identificados como nagôs, que forneceram o modelo organizacional de formas rituais e de associativismo religioso que resultaram no candomblé na Bahia, no xangó de Pernambuco e no tambor de mina no Maranhão – destacou o historiador Luis Nicolau Parés.
Para Laurentino, deve-se aos africanos escravizados dessa região a principal influência no desenvolvimento de religiões de matriz africana no Brasil.
SÃO SALVADOR DA CIDADE BAIXA
Uma imagem da Cidade Baixa da capital São Salvador onde estão localizados o Mercado Modelo, o Museu do Som, o imponente Elevador Lacerda, a Marinha e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Saudades das festas de largo. Bem nessa encosta da montanha, as ondas das águas do mar batiam no entorno da velha “serra do índio tupinambá”, quando aqui chegou o primeiro governador Thomé de Souza. Com o tempo, o mar foi sendo empurrado para mais distante, dando lugar a moradias, e depois prédios comerciais, bancos, um porto mais moderno, empresas de exportação e importação, lojas, bares e restaurantes, a Associação Comercial e outras instituições, como a sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia. Até os anos 80, o local representava o centro comercial e financeiro da capital, mas tudo isso depois foi deslocado para as bandas da hoje Avenida Bonocô, Iguatemi e Centro Administrativo, na Paralela, destruindo boa parte da Mata Atlântica. É o progresso desumanizando a vida e impactando o meio ambiente. Lembro muito bem dessa efervescência capitalista quando era repórter de economia do jornal “A Tarde”, e era ali onde estava minha principal matéria-prima das reportagens jornalísticas do dia a dia. Conheci, praticamente, cada edifício, andar por andar onde estavam instaladas minhas fontes. Numa época, entre os anos 90 e 2000, a chamada Cidade Baixa virou uma cidade fantasma, só tomando novo impulso de atividades nos últimos anos, mas ainda de forma tímida. Mesmo assim, ali ainda reside a história da Baia de Todos os Santos da São Salvador.
BA-HIA
Versos de autoria do jornalista Jeremias Macário
Ba-hia, rainha do mar,
Baia de Todos os Santos,
Do índio tupinambá,
Das mitologias dos orixás,
Aprendi a fazer essa prosa,
No Seminário de Amargosa,
Ba-hia escrita com “H”.
Ba-hia dos cancioneiros,
Abençoada pela natureza,
Gil, Caetano, Novos Baianos,
Raul “Maluco Beleza”,
Do Rio e São Paulo, pioneiros,
Do Águia de Haia para o mundo,
Ba-hia encanto do canto profundo.
Ba-hia de São Salvador,
Mistérios e dos Terreiros,
Com seu manto de igrejas,
Senhor do Bonfim ou Oxalá,
Nos guie e nos protejas,
Raízes jejes, nagôs e iorubá.
Ba-hia do sertanejo catingueiro,
Resistente menino de pés no chão,
Filho do cacto e do mandacaru,
Nordestino, estrangeiro no sul.
Ba-hia de se perder de vista,
Nas histórias de Jorge Amado,
Dos coronéis de Itabuna e Ilhéus,
Tem cacau, café e o sol de Jequié,
Memórias de Vitória da Conquista,
Anísio Teixeira de Caetité,
Filmes de faroeste agreste,
Glauber, Elomar menestrel,
Repentistas versando nas feiras,
E grãos do oeste Barreiras.
Ba-hia do gado de Itapetinga e Caatiba,
Tem a Chapada Diamantina;
Foi lá que namorei uma menina,
No Piemonte de Piritiba,
Com ela fui me banhar,
Nas águas do São Francisco,
Virei pescador ribeiro,
Nas fartas frutas de Juazeiro.
O RAPÉ NAS PROSAS DOS COMPADRES
Para uma boa prosa e contação de causos na varanda de uma casa sertaneja, nada melhor que acompanhadas de uns bules de café e um rapé. Quer espirrar? Toma um rapé do tabaco bem torrado e temperado, como faziam os mais antigos e o preto velho sentados em seus bancos de madeira na boca da noite, que seja enluarada de deixar o terreiro prateado.
Depois de uma semana de labutas na roça, os compadres vizinhos costumavam se reunir para prosear, falar do tempo, da seca, das histórias de gente que deixou tudo para trás e foi para São Paulo, dos cabras valentes, das rixas de mortes entre famílias por causa de terras e das moças perdidas que fugiam com os namorados porque os pais não aceitavam o casamento. Com o rádio, a televisão e até a internet, em muitas casas, hoje não se encontra mais essa tradição da cultura oral.
Eram conversas de varar a madrugada. Algumas comadres apareciam, mas elas batiam os papos de mulher em separado, na sala ou na cozinha. O costume, machista ou não, falava mais alto. Cada rodada de café era seguida de outra de binga com o rapé. Um tinha que provar a pitada do outro, e sempre havia aquela que era a melhor. O segredo estava no saber fazer o rapé, como a do preto velho, com 90 anos que mais escutava que proseava.
Oi compadi Amanço, passe ai a binga do seu fumo! Esse tempo tá anunciano sequidão e já tô furano um poço pra não fartá água pra nós. Vamo fazer um adjutório. É cumpadi Calixto, a coisa tá feia, tudo caro na fêra. Parece fim dos tempos. O mundo tá virano um furmiguêro de gente pra lá e pra cá. O outro comentava a moça que fugiu de casa para se amancebar com um sujeito que apareceu nas redondezas. Não era gente que prestava.
A prosa começava a ficar animada nos causos de coronéis, como de Honorato Calunga que foi morto por um jagunço vindo de lá das bandas das Minas Gerais para se vingar da irmã que foi desonrada por ele há muitos anos. Sua mãe morreu de desgosto e o pai até se matou. Coronel Honorato tinha fama de cruel naquelas bandas nordestinas.
O cabra se acoitou na fazenda e esperou o momento certo para dar o bote com uma espingarda papo amarelo e ainda sangrou o danado no chão. Foi num descuido dos seus capangas quando ele saiu para fazer suas necessidades fisiológicas no mato. Depois caiu no mundo. Ninguém teve mais notícias dele. Contam que o “bicho” tinha parte com o satanás e se transformava até num toco quando era perseguido pela polícia.
Lembro desde menino das estórias de assombração do cavaleiro invisível que nas noites sem lua saia de uma cancela da mata. Dava para se ouvir a batida nos mesmos horários. Descia e sobia a ladeira do Corcunda numa picada só, aboiando gado como se estivesse numa comitiva. O compadre do lado garantiu que já viu o tal vaqueiro passar por ele numa sexta-feira treze.
É cumpadi Selestino, sabe daquela linda moça que foi assassinada a faca toda vestida de noiva quando já ia pra igreja? Pois é, cumpadi, tudo por ciúme porque ia se casá com outro. Foi um horror, muito choro e bafafá. E o sem vergonha safado do coisa ruin do Tião que dormia com as fias! Teve três fios com as fias. Morreu berrano e espumano como boi no matadoro.
O preto velho, mais calado, com seu cachimbo, contava sempre as histórias de seus avós que eram escravos nas plantações de cana e levaram muitas chibatadas de um tal coronel Carvalho, muito perverso com os negros que ele mandava o capataz castigar no reio até cortar a carne. Amarrava o cativo no mourão e jogava sal e vinagre nas feridas do pobre coitado.
O preto velho, com sua sabedoria e conhecimento de quem já viu muito sofrimento do seu povo pela vida, tinha sempre um bom conselho para dar. Sua palavra ponderada, como de um profeta dos acontecimentos, era escutada com atenção. Previa anos difíceis para a população urbana e rural e recomendava a todos que preparassem seus espíritos para não se deixar enganar com a chegada dos anticristos.
Quando a prosa ficava mais baixa, era coisa de mulheres para as comadres não escutarem. Cada um tinha alguma quenga no povoado ou na cidade. Coisa bem escondida, na treita, por dentro da moita. O rapé rolava, e o compadre dono da casa dizia que era bom para jogar o catarro para fora.
Ali, naquela irmandade, cada um ajudava o outro quando a seca batia forte de rachar o chão nas lagoas e tanques sem água. Em alguns pedaços, a terra começava a virar sal. Apareciam as clareiras desérticas. O mandacaru e o xique-xique ainda sobreviviam, até nos lajedos e nos pedregulhos. Só bem tarde da noite, os compadres se despediam com abraços e louvar a Deus.
Para quem não sabe, o tabaco, do qual se fazia o bom rapé, o charuto e o cigarro, foi um dos primeiros produtos de exportação do Brasil colonial para a Europa e para África. Ao lado do açúcar, da cachaça, peles, o ouro, outras mercadorias e utensílios, era trocado por escravos na costa africana, principalmente na Nigéria, Gana, Benin, Angola, Congo, Guiné, Cabo Verde e até Madagascár. De lá nasceram as religiões matrizes do candomblé, mas ai são outras histórias antropológicas dos nossos antepassados.












