O CORONEL DAS DESCULPAS
Quem bate esquece, mas quem apanha, não. Dias desses vimos umas cenas de brutalidade de um policial desajustado esmurrando um jovem de menor em Salvador, se não me engano numa das ruas de Paripe ou Piripiri. O coronel deu suas justificativas costumeiras e chamou a mãe ao seu quartel para pedir desculpas pelo comportamento estúpido do militar.
O que me chamou a atenção foi que o coronel, comandante da Polícia Militar da Bahia, foi o mesmo que pediu desculpas à família do pintor de Dias D´Ávila que foi alvejado e morto por uma ação atrapalhada de seus subordinados. Isto aconteceu no ano passado e depois disso ninguém mais tocou no assunto.
Nesta semana ocorreu outro episódio idêntico de espancamentos em Salvador. Como todos já sabem, as vítimas são sempre negras e pobres das periferias, o que denota preconceito, racismo e homofobia, como foram registradas através das palavras proferidas pelo policial que nunca deveria ter vestido uma farda da corporação.
O caso Maicon
Fico aqui a imaginar, no primeiro fato a que me referi, por exemplo, como um cara daquele, que deu porrada no menino (as cenas são fortes), passou no concurso e no teste de psiquiatria! Será que ele perdeu e teve um QI (Quem Indica por fora). Falo isso porque conheci um fato assim.
No momento em que descrevo essas atitudes de violência desmedida e de tamanha ignorância, veio-me à cabeça o caso do menino Maicon aqui de Vitória da Conquista, que foi morto por policiais numa diligência atabalhoada. Primeiro, desapareceram com a criança. São quase dez anos e não se deu nenhuma solução para o problema. É mais um processo arquivado em nossa cidade, e a sociedade não se manifestou. Afinal, trata-se de uma família pobre e humilde.
Agora, pedir desculpas virou um marketing de relações públicas para dar condolências aos familiares e explicar, diante da mídia, que a instituição não tolera e nem compactua com esse tipo de abordagem brutal, e que vai apurar e punir os responsáveis. Nem é preciso dizer que tudo depois cai no esquecimento, e a imprensa pula para outra cena de tortura. Investigar mais o quê, senhor comandante? As imagens já dizem em tudo! Fosse comigo, ou com algum parente meu, dispensaria no ato as desculpas.
Nos últimos tempos essas práticas chocantes de violência contra os cidadãos civis, que têm seus direitos desrespeitados publicamente, e até mesmo de desvios de conduta dentro da corporação, se tornaram corriqueiras e comuns, e não mais fatos isolados e excepcionais como antigamente. Está havendo uma generalização, e a única coisa que ainda a pessoa tem coragem de clamar, entre choro e lágrimas, é por justiça, que quase nunca chega.
A instituição precisa ser repensada
Quero deixar bem claro que, quando faço essas críticas, não me julguem que quero colocar a polícia contra a população. Meu intuito é expressar meu pensamento, minha revolta e minha opinião (há anos que venho falando isso), de que esta instituição precisa urgentemente ser repensada, reformulada e recriada em outros moldes de atuação, com outra filosofia de trabalho. Não adianta discutir isso com um oficial. Sabemos qual é a resposta.
O nome “polícia militar”, como sistema de segurança, só existe no Brasil. Para começar, a corporação precisa criar e praticar o conceito de segurança pública onde não se confunda firmeza com abuso de poder e opressão. A lei para o policial do tipo banda podre é corporativa. Quando ele comete um ato “criminoso”, tem como penalidade o seu recolhimento ao quartel por uns dias e depois volta a atuar nas ruas. A prisão é ficar em seu batalhão.
Sabemos que a grande maioria dos policiais são originários de famílias pobres, negros e que passaram por vários tipos de discriminação. Quando o indivíduo cai dentro da corporação militar parece querer extravasar sua raiva e seus complexos justamente nos mais excluídos. Coloca-se na posição de empregado a serviço da elite, tida como patronal que lhe paga. Quanto a essa questão, a psicologia pode melhor explicar.
Para que servem os treinamentos que dão o passaporte para o policial trabalhar nas ruas e lidar com a população? São mais preparos de força e manuseio de armas e pouco de relações humanas, de como tratar o cidadão com respeito? Todos são considerados bandidos até que provem o contrário? Diante do quadro atual, prefiro ser assaltado por um bandido que ser abordado por um policial porque com este não tem diálogo. Vai logo no tabefe e acusa a pessoa de desacato à autoridade.
O que questiono são esses métodos de treinamento que têm gerado mais violência. Por que tanta resistência às mudanças para criação de uma nova polícia, a começar pelo nível de instrução e formação do candidato? Durante este tempo de preparação, o comando não percebe diferenciar o joio do trigo? Aqueles de caráter violento que não podem colocar uma arma na cintura e ir fazer diligências? Alguma coisa precisa mudar, para não ficarmos só nos pedidos de desculpas.
O SONO DA BORBOLETA
Enebriada pelo cheiro calmante da cidreira, a borboleta tira sua soneca e pousa para as lentes, num flagrante poético do encontro do tempo com a natureza, quando ela é bem cuidada e respeitada. A planta que serve para fazer um chá para quem sofre de insônia nessa vida depressiva do corre-corre humano e desesperador pelo capital, cedeu também seu espaço e sua erva para o ser que vive e embeleza o meio ambiente, e até leva esperança para quem está aflito e desanimado com o que acontece nesse nosso país de tantas injustiças sociais. Elas sempre sobrevoam meu quintal de dezenas de plantas que são aconchego para as aves que me saudam com alegria e cantares. É mais um flagrante do jornalista Jeremias Macário.
NINGUÉM QUER SABER DA LIÇÃO
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Estamos embarcando,
Rumo à última estação,
Numa viagem sem volta,
Na troca do ser pelo ter,
No insano guloso consumo,
No viço do cio pelo insumo,
E ninguém quer saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Vai o sol e vem o escuro;
O vento tufão gira mundo;
As florestas viram monturo;
Os mares lixeiras atômicas;
Megalônicas cidades da fome,
Das covas zumbi e o lobisomem,
E ninguém que saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Nascentes morrem nas cabeceiras;
Derretem dos polares as geleiras;
Desaparecem o urso e o salmão;
Das águas os monstros tsunamis;
Rios cimentados estouram canais,
E a selva de pedra vira um caos,
No calor de mais de 60 graus,
E ninguém que saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Tem gente que não acredita,
Nos sinais do aquecimento global;
E cada um aumenta as chaminés;
Mentem nas mesas do clima,
Com mais gases e torpedos no ar;
Adoram seus deuses como Ramsés,
Que não passam de estátuas do mal,
E ninguém quer aprender a lição
Prefere ter mais armas na mão.
NA AUSÊNCIA DE UM ESTADO FALIDO, O TRÁFICO E A RELIGIÃO OCUPAM ESPAÇO
Assim como o tráfico e as milícias com seus crimes dominaram as favelas onde o Estado elitista, burguês e capitalista, até mesmo conivente, sempre esteve ausente, negando a inserção de políticas públicas sociais, também correntes religiosas conservadoras e fanáticas ocuparam seus espaços nas pobres periferias excluídas, para inocular suas doutrinas oportunistas, muitas vezes de intolerância e ódio.
Nessa encruzilhada de bolsões de miséria e ignorância, é muito difícil saber onde está a diferença entre o mal e o bem. Para os esquecidos que não se sentem valorizados como gente, sem perspectivas de futuro, quem chega com o “bálsamo” da palavra de salvação e a proteção de vida é bem-vindo e até louvado. É um conforto. O mal, ou o mau, desaparece para se transformar em bem do bom que “sustenta” seu corpo faminto e “alimenta” a alma que se sentia vazia.
Dessa forma entram o tráfico e a religião dos oportunistas no espaço pobre e miserável deixado pelo Estado, que criou no país uma legião de ignorantes e excluídos do seio da sociedade, servos obedientes e fanáticos desses falsos profetas da verdade e da razão. Nos últimos anos, muitos deles galgaram o poder político com os votos desses rebanhos perdidos que foram atraídos para seus covis da maldade e do fanatismo religioso.
Terreno fértil
Não literalmente como na carta de Pero Vaz Caminha, do aqui em se plantando tudo dá, esse terreno de pobreza e de ignorância que perdura há séculos, com a falta de educação e saber, tornou-se fértil e de fácil cooptação, não somente para os políticos aventureiros e extremistas na caça dos votos, mas também para os traficantes de drogas e milicianos, bem como para o avanço do evangelismo fundamentalista.
Ao longo dos anos, os governantes aproveitadores e egoístas criaram um campo minado, altamente perigoso e prestes a explodir. Sem mais controle, para os traficantes e milicianos (mistura com militares) que invadiram os morros onde o Estado criminalizou os moradores, usa-se a força da violência na base do fuzil e dos tanques, matando até mesmo mais inocentes que criminosos.
Os monstros de várias cabeças dos dois lados (governo e tráfico) só fazem crescer, e quem aparece para denunciar as injustiças, realizar e cobrar programas sociais, se torna alvo das balas assassinas deles. A população fica entre a cruz e a espada. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.
Sem apoio político-social e opção de melhoria de vida, o tráfico encontra o campo propício para cooptar a população, principalmente os jovens, que entram numa viagem sem volta para o inferno. Por sua vez, o político bandido usa isso para lucrar, formando organizações criminosas empresariais, muitos delas se unindo aos traficantes e milicianos. Está assim montado um Estado paralelo num espaço que deveria ser responsabilidade dos governantes.
Há quase quarenta anos, o ex-presidente João Goulart já dizia que “a maior parte do povo brasileiro é pobre, desnutrida, desprotegida, desinformada, analfabeta e sem oportunidades de estudo. Quando surge um governo voltado para a maioria dos brasileiros, fere os privilégios dessa minoria que domina a economia e escraviza nossos trabalhadores”.
Neopentecostais
O quadro continua atual e aí sobra espaço para o tráfico e a religião, especialmente tomado pela nova onda de neopentecostais ultraconservadores que estão espalhados em cada esquina das cidades. Nas periferias estão mais concentradas as pessoas que chegam às levas dos brejões mais longínquos dos interiores abandonados em busca de sobrevivência e dias melhores.
Acontece que esse indivíduo é mais um número nas estatísticas da pobreza desassistida. Sem infraestrutura, na maioria das vezes sem moradia própria, sem contar com programas de ação social por parte dos órgãos públicos, convivendo numa situação de precária educação e saúde e sem o reconhecimento como pessoa humana, ele não passa de mais um zé ninguém.
Nesse ambiente de abandono e desvalorização do ser, entram as igrejas com suas doutrinas fanáticas como salvadoras de almas, que prometem alento para o desespero e dias melhores em troca de um dízimo. Um pedreiro, servente ou um encanador que nunca foram valorizados são acolhidos e passam a ter voz naquela comunidade religiosa, muitos até como novos pastores.
O contingente desses descamisados, desvalorizados e de baixo nível de instrução, cooptados e doutrinados num processo de lavagem cerebral, com a pregação de intolerância contra as outras religiões, como o candomblé, por exemplo, só faz aumentar no Brasil.
Muitas dessas religiões propagam e incutem em seus fiéis, a maioria frágil e de fácil manipulação, a ideia de que fora da igreja não há salvação, e que só Cristo salva. Nessa linha pentecostal extremista e conservadora, dia desses ouvimos de uma cantora gospel que os católicos não são filhos de Deus.
VEREADORES COBRAM OBRAS DO PREFEITO
Como já era esperando no “toma lá, dá cá” entre os poderes, depois da aprovação do empréstimo de mais de 60 milhões de reais feito pelo executivo à Caixa Econômica, agora os vereadores estão cobrando do prefeito Hérzem Gusmão a contrapartida de suas emendas através de obras em suas zonas eleitorais, tanto nos distritos como nos bairros da cidade.
O bombardeio foi quase geral, ontem (dia 28/02), na sessão da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, inclusive com críticas veladas de que o prefeito não tem atendido as indicações e os projetos de lei encaminhados pelos parlamentares. Não pouparam os secretários que, conforme os cobradores pelos serviços, não têm dado importância às solicitações dos vereadores.
A fala de Hermínio Oliveira foi a mais veemente, em tom de desabafo, e pediu que a Casa tome uma atitude para que o prefeito respeite as indicações e os projetos formulados pelo legislativo. Ele foi bem enfático quando destacou que o prefeito não está cumprindo com as emendas de recursos feitas pelos vereadores
Canalhas e carniças
A manifestação dos insatisfeitos só foi quebrada com o pronunciamento do vereador David Salomão, que começou afirmando que o país está de cabeça para baixo, e meteu o sarrafo no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, endossando a convocação do capitão-presidente da República para que o povo se levante nas ruas do país conta essas instituições.
Em seu discurso da Tribuna, chamou os deputados de canalhas e carniças, que estão querendo 30 bilhões de reais do governo federal. Na ocasião, atacou os cantores Kanário e Daniela Mercury – segundo ele, só esta recebeu 700 mil reais de cachê pago pelo – que destrataram abertamente a polícia militar, com termos pejorativos como “bundas moles”, durante o carnaval de Salvador. Lembrou que Daniela mandou o povo “tomar naquele lugar”.
De um modo geral, a sessão de ontem teve como maior alvo o prefeito, inclusive no que tange à precariedade na área da saúde, mas houve um momento de descontração com os parabéns dirigidos à vereadora Lúcia Rocha, em homenagem ao seu aniversário.
O parlamentar Cícero Custódio criticou a precária situação da saúde no município, citando a greve dos médicos na Santa Casa da Misericórdia onde muitos pacientes não estão sendo atendidos, e informando que a prefeitura não está fazendo o devido repasse de verbas. Outro que tratou da questão da saúde, criticando as filas enormes na Central de Marcação e a falta de equipamentos nos postos, foi Waldemir Dias
Coriolano Moraes voltou a acusar o estado de caos no setor do transporte público, e atacou o prefeito que, de acordo com ele, não está executando os projetos que a Câmara tem aprovado e enviado.
Ainda sobre as empresas de ônibus que rodam na cidade, Waldemir Dias declarou não entender os critérios da prefeitura quando libera recursos para a Viação Rosa por quilômetro rodado, enquanto que, para a Cidade Verde, é por passageiros transportados. Disse que a licitação prometida para escolha de uma nova empresa nunca é realizada.
Seu colega Edmilson Oliveira denunciou um acordo esdrúxulo que um preposto do governo municipal fez com um empresário, dispensando as multas em troca de material elétrico para iluminação de um campo no distrito de José Gonçalves. Ele quer que o legislativo forme uma comissão para apurar esse tipo de negociação, segundo ele, ilegal.
O CONTO DA CARTEIRA ASSINADA COM O FALSO SALÁRIO MÍNIMO
Como tantas outras no Brasil, a lei do salário mínimo padrão obrigatório, como parâmetro para que todo trabalhador tenha esse mísero ganho no final de cada mês, é uma deslavada mentira. A mídia anuncia que aumentou o número de carteiras assinadas no pais, mas não diz que milhares e milhares de empresas burlam o decreto e não pagam o valor real. É o conto do vigário da carteira que foi institucionalizado.
Aqui mesmo em Vitória da Conquista, principalmente médias e pequenas empresas, conheço várias que assinam a carteira, mas por fora só pagam a metade do mínimo, quando muito, 700 reais. É só fiscalizar, mas isso não existe porque a reforma trabalhista escravizou o pobre trabalhador, e ainda veio o capitão-presidente e acabou com o Ministério do Trabalho.
A CHAMADA “RACHADINHA”
A prática de assinar a carteira (não recolhem o FGTS e outros benefícios) e combinar com o empregado pagar outro valor bem abaixo do fixado está ficando comum. Diante da necessidade, e sabendo que uma enorme fila lá fora aceita estas mesmas condições humilhantes, o candidato não tem outra saída. É a chamada “rachadinha” trabalhista. Não adiante ter capacidade e preparo.
Isso ocorre em todas as profissões, inclusive de professores. A maioria das escolinhas particulares de Conquista assina a carteira do professor, mas avisa logo que só paga 500 ou 700 reais mensais por três ou quatro turnos de aulas por semana. Para ostentar e intimidar o pretendente a aceitar a oferta, o diretor, ou diretora, exibe um monte de currículos em sua mesa.
É muito vergonhoso e triste um professor no Brasil ter que se sujeitar a esse tipo de exploração desprezível, mas outras categorias também estão incluídas nesse pacote de escravidão. As empresas fazem isso porque sabem que não são incomodadas por fiscais do governo. Por outro lado, a mídia só faz mostrar a estatística do IBGE, mas não investiga o outro lado da verdade. Não divulga o outro lado macabro da moeda.
CONTO DO VIGÁRIO
É praticamente trabalhar de graça quem recebe 500 ou 700 reais por mês. Depois que a pessoa tira o dinheiro do transporte (a empresa não paga), no caso de Conquista, se for só um ônibus por dia, o funcionário fica com cerca de 400 a 600 reais, isso se não fizer um lanche na rua. Muitos trabalham com fome para ganhar uns trocados no final do mês.
Nenhum órgão, sindicato ou entidade do trabalhador investiga, fiscaliza e denuncia esta tremenda irregularidade do mercado. Fazem vistas grossas. Todos preferem acreditar na mentira e no conto do vigário do salário mínimo. Aliás, o brasileiro está sendo massacrado pelas fake news e pelas mentiras publicitárias, sem reagir e sem se indignar. Uma claque de lunáticos e fanáticos invadiu nosso território.
Dias desses fiquei horrorizado quando ouvi de uma psicóloga da área de recursos humanos afirmar que o empregado capaz e dedicado tem o poder de barganhar aumento salarial. Ela está totalmente por fora da atual realidade brasileira. Está sonhando! Estamos sim, num regime de escravidão, onde milhões se sujeitam a ganhar menos de um salário mínimo para não passar fome e, mesmo assim, passando.
OS TERCEIRIZADORES VIGARISTAS
Com a reforma trabalhista e o fim do Ministério do Trabalho, o Brasil virou terra de ninguém onde os coronéis de chibata e arma na mão ditam as ordens. O operário em geral segue de cabeça baixa, recebendo as migalhas, com exceção de algumas classes mais fortes e privilegiadas, como petroleiros, químicos, metalúrgicos, bancários e outras.
Está aí para constatar os fatos a praga da terceirização. Aproveitadores e oportunistas montam firmas sem dinheiro, e até mesmo irregulares, verdadeiras arapucas, para explorar mão-de-obra barata e escrava. Ganham licitações e contratos do poder público e do setor privado na base das tramoias. Depois deitam e rolam descumprindo as “leis”. Atrasam os salários, não pagam décimo terceiro, não recolhem o FGTS e outros benefícios. Os “responsáveis” nunca são punidos.
Muitos abrem um escritório fajuto, sem nenhuma estrutura, pegam a grana do contratante terceirizador e se mandam com o dinheiro do trabalhador. Geralmente não dá em nada, e o empregado fica a ver navios, passando fome e outras necessidades. Estamos no Brasil faroeste das vigarices e das mentiras, como a do salário mínimo da carteira assinada.
Neste país das castas, só os funcionários públicos diretos do executivo, legislativo e judiciário são os privilegiados, muitos com ganhos de até 100 mil reais mensais. Nunca falta dinheiro e não há atrasos no pagamento desses “servidores” dos três poderes, que jamais sofrem cortes de verbas. Eles continuam mamando nas tetas do povo, que come o “pão que o diabo amassou”, com a redução de recursos na educação, na saúde e nos programas sociais em geral, e ainda são vítimas da mentira do salário mínimo.
QUEM SE LEMBRA DO MADRIGAL?
Passaram-se muitos anos que o único cinema ainda funcionando em Vitória da Conquista, depois de tantos outros (a história deles pode ser encontrada nos livros “Andanças” e a “Imprensa e o Coronelismo”, do jornalista Jeremias Macário), foi fechado, se não me engano, quase 20 anos, ou mais, mas o prédio está lá na rua Ernesto Dantas, sem ser utilizado. Quem ainda se lembra do Cine Madrigal, sempre cheio e exibindo grandes filmes de sucesso? O prédio foi adquirido pela Prefeitura Municipal, no Governo do PT, para dele fazer um centro multicultural. Até hoje nada, e ninguém fala do assunto, principalmente a mídia regional, que pouco noticia fatos do nosso município e da região (prefere matérias repetidas, requentadas, da capital e federal). Aí muitos dirão: É o progresso. Os cinemas hoje estão localizados nos shoppings e só passam filmes empacotados norte-americanos, e outros de péssima qualidade. Um equipamento caro, comprado com o dinheiro do povo, continua lá, praticamente abandonado e sendo destruído pelo tempo. Uma vergonha! Vamos fazer uma matéria jornalística sobre o antigo Cine Madrigal e seu provável destino!
NOS BARES DA VIDA
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
A inspiração aflora e o casal do lado só namora
O papo rola com a turma do jogar conversa fora
Uns caras da saideira falam de política e fofocas
O poeta rabisca no guardanapo seu fiapo da letra
Canta uma canção de amor a viola cigana menina
Moucos das redes sociais navegam em suas locas
Num bar de Minas bateu asas o Clube da Esquina.
Nos bares da vida sempre tem freguês
Uns vão comemorar feliz suas glórias
Outros vão até lá suas mágoas consolar
Se está numa boa se diverte nas histórias
Se bate a crise toma pra esquecer a danada
Escutar o cancioneiro falar da mulher amada
Mesmo sabendo que a conta chega todo mês
Nos bares da vida discutem escritores e cordelistas
Olhares indiscretos trocam bilhetes com o garçom
Em Munique sentou num bar o corvo cruel da morte
O comuna Marx brigou com o anarquista Proudhon
Nas tabernas, bárbaros juraram derrubar os romanos
Num bar de Gori, Stalin tirano tramou a queda do czar
Hemingway tomava a santa cana na Bodeguita cubana.
Saiu o manifesto Bola-Bola Cinema Novo no Alcazar
No Vermelhinho cruzaram militantes contra a ditadura
O surrealismo francês ternura nasceu no Cyrano de Paris
Artistas baianos curtiram noites no Anjo Azul e Tabaris
Nas etílicas tintas das matérias escolheram seus pincéis
Naquele bar atiraram pistoleiros e jagunços dos coronéis
Nos bares da vida, sempre existiu aquele histórico bar.
O CARNAVAL CULTURAL DE CONQUISTA E A EXPLORAÇÃO NOS PREÇOS
Quando se fala em carnaval pensa-se logo em rua onde as pessoas têm mais espaço para se movimentar, brincar e criar blocos. A festa em lugar fechado dá a sensação de se estar num clube. Tem seu lado bom porque nos faz lembrar dos velhos tempos dos bons carnavais, que não mais existem.
Fotos de Vandilza Gonçalves
Neste ano, aconteceu no Espaço Glauber Rocha, no Bairro Brasil, o Carnaval Cultural de Conquista (ano passado foi no Bulevar Shopping). Até aí tudo bem, mas o que assustou os participantes foram os preços cobrados pelas bebidas e comidas lá dentro.
Os barraqueiros cobraram cinco reais por uma latinha de cerveja de 350 ml porque eram obrigados a pegar o produto só na distribuidora dos organizadores do evento, sem falar nos trezentos reais pelo ponto. Muitos preferiram tomar sua bebida na rua por três reais a latinha.
Nos supermercados e nas distribuidoras da cidade, o consumidor consegue comprar uma lata por dois reais e até menos que isso em alguns lugares. Por cinco reais significa mais de 100% de lucro, o que já é muita exploração, mesmo levando em consideração os gastos com as bandas e pessoas de segurança e do som.
Fora a exploração que foi a principal reclamação, o Carnaval Cultural de Conquista ocorreu em clima de paz e tranquilidade, com boas músicas que animaram os foliões, com as bandas de sopro circulando no circuito do Glauber Rocha, com marchinhas dos tempos antigos.
Mesmo com atraso, no domingo o mini trio da banda do cantor e compositor Baducha, com sua jinga de carnavalesco e boas músicas, arrasou e não deixou ninguém parado. Pela sua apresentação no palco, Baducha pode fazer sucesso em qualquer trio elétrico de Salvador, bem melhor que muitas porcarias que desfilam nas avenidas da capital.
Mesmo com alguns problemas, principalmente no quesito exploração, a organização ofereceu uma opção de diversão para quem não pode viajar por falta de grana e terminou ficando em Vitória da Conquista que nestes dias tem pouco movimento nas ruas.
Só para lembrar, Conquista já teve bons carnavais que começaram lá pelos idos de 1927 e teve suas micaretas de sucesso, competindo com Feira de Santana, em finais dos anos 80 e na década de 90. No Governo do PT a festa foi minguando até se acabar. Somente de uns anos para cá surgiu o Carnaval Cultural, com um pouco de raiz nos eventos do passado.
Mais uma vez volto a falar que o país, na situação em que se encontra, com toda essa crise social, econômica e política, não deveria se dar ao luxo de ficar uma semana parada. Os empresários e governantes dizem que a festa dá lucro, o que é uma tremenda mentira. Salvador, por exemplo, tira dos cofres públicos mais de 150 milhões de reais, sem contar os gastos com logística e segurança.
O contribuinte paga um absurdo para os artistas famosos de sempre (todos afortunados com recursos públicos), que apresentam um lixo em termos de músicas, e o povo alienado no asfalto cobre seus “ídolos” de aplausos e elogios. Os arrastas chinelos pipoqueiros fazem tudo o que eles mandam, sem consciência de que estão pagando um preço alto.
Se for fazer um cálculo através do PIB do país, contabilizando as perdas diárias na produção, mais prejuízos no SUS com o aumento de acidentes e outras despesas do Estado na prestação de serviços na organização, o carnaval gera um déficit e serve para deixar o rico mais rico e o pobre mais pobre.
Por outro lado, a nossa mídia, que embolsa muita verba dos patrocinadores, não divulga nem um terço da violência da festa, para não passar uma imagem negativa para os turistas, principalmente os gringos. Multidões vão às ruas e às praças, chegando a mais de um milhão em alguns blocos.
Vá organizar uma manifestação contra os desmandos dos governantes na falta de educação e saúde, principalmente, aparece, quando muito, uns poucos milhares, e olhe lá. Ninguém mais quer saber de política, enquanto os políticos se esbaldam e fazem o que bem querem, defendendo seus próprios interesses. Exploram, oprimem e até roubam nosso suado dinheiro.
A BANALIZAÇÃO DO EMPODERAMENTO
Nos últimos tempos, a palavra empoderamento foi e ainda está sendo a mais comentada, principalmente por mulheres e negros, mas também a mais deturpada e banalizada. Nesse carnaval, então, foi um tal de empoderamento pra lá e pra cá, sem sentido e de maneira leviana.
Muitas mulheres acham que rebolar a bunda e mostrar as pernas em trajes praticamente nus é empoderamento. Deixar o cabelo crespo e fazer outros gestos é empoderamento. Qualquer coisa que se faz diferente, lá vem o tal do empoderamento que sai da boca, sem pensar e refletir.
Tenha consciência política, conquiste seus objetivos, seja ponto de liderança, se instrua, aumente seu nível intelectual, seu conhecimento, seu nível econômico e social, participe ativamente da vida política do país e aí pode dizer que está se empoderando. De um modo geral, vejo um povo submisso e oprimido, muito longe do empoderamento, tão banalizado.
Não é cabelo, bunda, pernas e colocar besteiras de sua vida nas redes sociais que lhe faz de empoderado. Aliás, depois da internet e do celular, as pessoas ficaram mais ridículas, fazendo selfies de si em qualquer lugar e passando para todo mundo ver, como forma de necessidade de se aparecer, de descarregar suas frustrações interiores.
Num país de tão profundas desigualdades sociais, de tanta miséria, falta de justiça para os mais pobres, de tanta homofobia, preconceito, misoginia e racismo, o empoderamento passa longe. Temos um presidente com todos esses predicados negativos, mas, mesmo assim, conta com apoio de milhões e recebe votos das mulheres, negros e homossexuais.
Se toda essa gente de que falo se sentisse empoderada e não votasse nele, não teria sido eleito e nem mais pensaria em reeleição. Não é fazendo seu corpo de objeto que vai lhe dar poder. Muito pelo contrário, lhe aniquila como gente. No Brasil dos paradoxos e de tantas contradições, as pessoas saem por aí falando muita coisa sem refletir e colocar seus 10% da cabeça para raciocinar.
Nos apropriamos muito do termo empoderamento, enquanto o governo que aí está manda uma banana para a nação e profere palavras escandalosas de preconceito contra as mulheres, os negros e índios, e a reação é tímida. Estamos sendo engolidos pela besta fera e nem percebemos.
Multidões abarrotam ruas, praças e avenidas dos carnavais de uma semana, e pouco estão ligando para o que está ocorrendo com o povo, com o seu país de milhões de analfabetos e excluídos. Só pensam no seu eu individual, não importando as catástrofes e tragédias que há pouco tempo aconteceram em Belo Horizonte e em São Paulo.
Vamos lutar por mais dignidade e falar mais de política, sem rancor, intolerância e xingamentos. Precisamos nos unir e não se dividir como ocorreu nos últimos anos. Estamos é nos proibindo de falar em política para evitar briga e morte. O empoderamento ainda passa longe. Não seja banal e fútil com as palavras.
















