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O RETORNO SOFRIDO NUMA EMPRESA DE ÔNIBUS QUE JÁ DEVERIA ESTAR FECHADA

Para pagar minha língua, ou “nunca fale que dessa água não beberei”, disse que nunca mais entraria num carro da viação Novo Horizonte, mas aconteceu quando nosso veículo logo na ida para Goiás deu problema em Igaporã, entre 10 e 11 horas da manhã do último dia 15 de março passado.

Resolvemos prosseguir viagem para Anápolis e só tinha a Novo Horizonte e a Bahia Central que é da mesma companhia, saindo de Guanambi. Um monopólio que não deveria haver. Linha de ônibus entre municípios e estados mais parece demarcação de território de traficantes de drogas e armas.

Nem precisa aqui narrar com detalhes o sofrimento que passamos das 18 horas (ficamos do final da manhã e toda tarde na cidade) às 8 horas da manhã do outro dia dentro de um ônibus velho com sua vida útil ultrapassada, barulhento e com poltronas defeituosas, sem falar no mau cheiro do sanitário. Foi um teste para os fortes, ainda mais na minha idade e para o problema de coluna da minha esposa Vandilza. Mesmo assim, encaramos a jornada.

Como se diz no popular, uma barra pesada com paradas em todos os pontos desde povoados a cidades, sem contar o medo de ficarmos na estrada. Felizmente chegamos são e salvos em Brasília (completamos a viagem para Anápolis de carro), mas foi uma aventura e tanto. Coisa de louco, mas o pior nos aguardava que foi o retorno de Brasília, das 20 horas às 11 horas da manhã até Igaporã, na Bahia.

Muita reza e coragem para encarar uma empresa administrativamente desorganizada, bagunçada, veículos velhos, sem a devida manutenção e que sempre terminam ficando nas estradas, quando não acontecem acidentes fatais, como o mais recente perto de Potiraguá, com cinco mortes. De Anápolis, e Goiânia, passando por Brasília, não existe outra opção.

Pelo péssimo aspecto dos carros, se este país fosse sério e existisse fiscalização isenta, a Viação Novo Horizonte já deveria estar fechada há muito tempo.  Conheço bem seus problemas desde quando aqui cheguei em Vitória da Conquista, em 1991, e fiz coberturas jornalísticas de dezenas de ocorrências em razão do não cumprimento dos trâmites recomentados pelos órgãos de transportes.

Bem, partimos de Brasília no mesmo ritmo e na picada que foi a vinda, confiantes que tudo iria dar certo. Chegamos aos trancos e aos barrancos com o ônibus com defeito até a cidade de Possi, ainda em Goiás, por volta de duas horas da manhã, num ponto de apoio cavernoso da empresa.

A única lanchonete aberta era toda fechada de grades e só uma menina atendia, sinal de que a coisa ali era “boca zero nove”, com pessoas mal-encaradas, bêbadas e drogadas. Os passageiros começaram a reclamar de que estávamos àquela hora da madrugada no meio de uma rua deserta e perigosa.

Criticamos a falta de organização da Novo Horizonte, do veículo velho para continuar rodando longas distâncias e o próprio motorista teve que concordar conosco. Só me restou tomar um cafezinho frio intragável da lanchonete de grades, com receio daquela gente ali um tanto suspeita.

Tentei puxar uma conversa com a atendente, mas não estava de bom humor, também, coitada, trabalhando naquela hora para ganhar uma merreca e ainda se expondo ao perigo de ser assaltada! Senti que não era bom ficar ali por muito tempo. O bicho podia pegar feio.

Depois de um bom tempo, apareceu um mecânico e consertou ou trocou a peça defeituosa do ônibus, garantindo nossa viagem, mas, àquela altura, ninguém mais confiava em nada. Eram mais de três horas da manhã, distante 30 quilômetros de Rosário, fronteira com a Bahia.

Cruzamos por Correntina, Santa Maria da Vitória, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana e, aos solavancos, esticados quase que imóveis nas cadeiras, demos sorte de chegar em Igaporã por volta das 11 horas da manhã numa viagem hercúlea, mas que valeu a pena pelo conjunto da sua obra.

“PRAÇA DOS LEÕES” EM BOM JESUS DA LAPA

Mesmo cansados, ainda tivemos fôlego de retornar em nosso carrinho para dar uma espichada até Bom Jesus da Lapa e fazer uma visita à famosa gruta. Pernoitamos na cidade, cujo prefeito, no lugar de arborizar, para proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas, fez uma obra megalomaníaca, construindo, no centro, uma praça com altos arcos no estilo greco-romana, com esculturas de leões e deusas gregas.

Pode ter sido do agrado e orgulho da população, mas, em minha opinião, considerei um desperdício do dinheiro público pelo valor ali investido (não sei quantos milhões), que não deve ter sido pouco, sem falar na mania de grandeza. Imaginei comigo que o idealizador do projeto, no mínimo, deve ser um grande admirador do Império Romano. Eu chamaria de Praça dos Leões.

Racionei como meus botões: Já que derrubou as árvores no ponto mais movimentado da cidade, em torno de bares e restaurantes, para erguer aquela estrutura pesada de concreto, por que, então, não fez uma praça com esculturas religiosas em homenagem aos romeiros, numa honraria aos mais de 300 anos de romaria?

Como os antigos reis da Grécia e de Roma, talvez ele tenha pensado em deixar seu nome para ser lembrado na posteridade. São coisas inexplicáveis para o meu entendimento que acontecem nesses rincões do nosso Brasil.

Confesso que levei um susto quando me deparei com aquela praça e pensei que estivesse em outro país ou entrando no túnel do tempo greco-romano. Pelo menos foi feita a ampliação da esplanada da gruta (com os mesmos arcos e uma imagem do Bom Jesus), isolando o trânsito de veículos e oferecendo mais espaços para os romeiros.

Foram essas as nossas considerações numa viagem de conhecimento cultura, diversão e lazer pelo estado de Goiás onde fizemos paradas em Brasília, Anápolis, Pirenópolis, Goiás Velho, a capital Goiânia e outras cidades, numa visita prazerosa ao meu filho Caio, sua esposa Larissa, meu neto Samuel e outros parentes. Apesar dos percalços, foi memorável e digna de descrição. Aqui deixamos os nossos registros, críticas e elogios.

 

SALVADOR MEU AMOR

(Chico Ribeiro Neto)

Diz um velho ditado: “Na minha terra cego conserta relógio com luvas de boxe”.

Vindo de Ipiaú-Bahia, cheguei a Salvador em 1954 e ainda peguei o bonde. Eu tinha 6 anos, a cidade era grande e as pessoas maiores.

Salvador bonita, com gente dançando. Sentado na cadeira de lona que meu pai Waldemar colocou no passeio, vi na Avenida Sete os três grandes clubes desfilarem: Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso.

Meu tio Hugo precisava atravessar a Avenida Sete, mas a organização do desfile não permitia. Ele simulou um desmaio, parou o desfile e os amigos o carregaram até o outro lado, onde ele saltou e saiu andando calmamente, recebendo um monte de vaias.

Salvador do delicioso lombo num caminhão na Praça Castro Alves, de madrugada. Você subia uma escadinha e recebia seu prato maravilhoso para encerrar a noite.

Salvador do lindo Carnaval da década de 70 (“Não se perca de de mim/ Não se esqueça de mim/Não desapareça…), onde arranjei uma namorada que já tinha uma namorada que fez uma poesia pra mim que começava assim: “Para o amor do meu amor”.

Salvador do mergulho na praia do Unhão da minha infância. O maior desafio era nadar até avistar o Elevador Lacerda, e tinha que ir uma testemunha junto: “Chico viu o Elevador Lacerda!”

O pai do meu amigo trabalhava na companhia de aviação Panair do Brasil e deu a ele uma câmara de ar de pneu de avião ou de trator, não sei. Era uma bóia imensa que nós dois carregamos até a praia do Unhão. Duas filhas de um pescador, brotando beleza, pediram para dar uma volta com a gente. Fomos remando na bóia com as duas. Peitos, coxas e bocas boiando virados para o céu. Minha primeira lição de sexo. Vi estrelas e o Elevador Lacerda.

Teve um paulista que estava hospedado numa pensão perto do centro e foi conhecer Itapuã. Lá se encantou e tomou algumas doses de cambuí (frutinha redonda nativa usada de infusão na cachaça). Umas cervejas depois pegou o ônibus de volta. Foi orientado a saltar nas Mercês. Assim ele fez e perguntou onde ficava a Ladeira dos Desesperados. Ninguém  conhecia. Foi perguntando até a Praça da Sé até que  um iluminado matou a charada: a pensão ficava na Ladeira  dos Aflitos.

Um dia vi no Farol da Barra uma mulher abrir os braços para o mar e exclamar: “Obrigado, você é o meu melhor advogado”.

Obrigado, Salvador,  eu te amo de braços abertos para o mar.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

1o DE ABRIL, DIA DO ENGANO

Carlos Albán González – jornalista

Nos Estados Unidos, desde o final do século XIX, o burro e o elefante, tão reconhecíveis quanto o Tio Sam, participam das campanhas eleitorais, representando, respectivamente, os Partidos Democrata e Republicano. Em Vitória da Conquista, por iniciativa de um dos candidatos à Prefeitura nas eleições deste ano, animais das raças equina, caprina e bovina (os bens saudáveis) vão trocar a liberdade dos pastos por currais na área urbana da cidade.

Sem a menor experiência na política, a empresária Sheila Lemos viu de repente cair no seu colo a responsabilidade de governar o terceiro município baiano. Com poucos meses no cargo e orientada por ACM Neto, vice-presidente nacional do seu partido, o União Brasil, a prefeita conquistense elaborou o projeto de permanecer no cargo por mais quatro anos.

Educação, saúde e cultura não são convertidos em votos em cidades onde a maioria da população é desinformada; onde é mais vantajoso dar circo ao eleitor, como tem feito Bruno Reis, prefeito de Salvador,  que está praticamente reeleito.

Sheila e pecuaristas se reuniram na semana passada. A conversa durou pouco tempo. Governo e iniciativa privada anunciaram a realização, seis anos depois de sua última edição, da exposição agropecuária. A montagem dos estandes, currais, lojas, arena para rodeio, bares e restaurantes se dará no Parque Teopompo de Almeida. Por exigência da prefeita – estamos a poucos meses das eleições municipais – nos cinco dias (de 5 a 9 de junho) do evento os portões serão abertos ao público. Ônibus farão o trajeto entre os bairros e a Avenida Siqueira Campos.

“Estou alegre demais porque a exposição não é uma festa do agronegócio, mas da cidade”, confessou Isaac Figueira, presidente da Cooperativa Mista Agropecuária Conquistense (Coopmac), revelando que o convite partiu da prefeita. O custo para o município não foi divulgado, mas a entidade de classe orça a montagem do evento em mais de um milhão de reais.

A Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Vitória da Conquista representa para os governistas mais um veículo que irá impulsionar a candidatura de Sheila. “A Prefeitura sempre apoiou as iniciativas do agronegócio”, declarou Sheila, esquecendo que em novembro de 2018 a Coopmac recorreu ao seu antecessor Herzem Gusmão para promover a expo de 2019. A negativa do gestor prejudicou, entre outros, o setor cultural da cidade. O empresário de shows Ludson Gusmão lembra que já havia fechado contratos com artistas locais para se apresentar na feira.

A última edição da feira, em junho de 2018, movimentou negócios em torno de R$ 100 milhões e foi visitada por mais de 50 mil pessoas. A Bahia Farm Show, promovida pela iniciativa privada de Luís Eduardo Magalhães (município emancipado em 2000, com uma população de 107.909 habitantes), está entre os três maiores centros comerciais do agronegócio do país. Suas vendas no ano passado giraram por volta de R$ 8 bilhões.

Senhora prefeita, o povo quer saber o que foi reservado para a saúde, educação e cultura nesses últimos meses de sua administração. As migalhas, como sempre? Presente ao encontro com os dirigentes da Coopmac e na coletiva da imprensa, o coordenador de Cultura, Alecxandro Magno, entrou calado e saiu mudo. Os projetos elaborados pelo Conselho Municipal de Cultura nos últimos dois anos provavelmente foram engavetados.

Uma tragédia anunciada

Numa sociedade civilizada, onde os indivíduos compartilham valores éticos e democráticos, a urbanidade deve ser um procedimento a ser exercido pelos homens públicos. Pois bem, em novembro de 2023 a ministra da Saúde, Nísia Trindade (cientista social, pesquisadora e ex-presidente da Fundação Osvaldo Cruz), esteve em Vitória da Conquista. Não veio fazer política e nem o condenável assistencialismo. Veio trazer investimentos para o povo conquistense, desprovido de ações do município na área da saúde.

Como já havia feito nas visitas de outras autoridades estaduais e federais – Sheila odeia o PT e o presidente Lula, como revelam seus seguidores -, a administradora não foi ao encontro da ministra. Conquista vive hoje uma previsível – o alerta global foi dado pela Organização Mundial da (OMS) em janeiro do ano passado – crise sanitária.

O boletim epidemiológico desta semana mostra um aumento de 1.686% de notificações de pessoas com sintomas da dengue desde o início do ano. Foram registradas 18.925 notificações, com sete mortes. Postos de saúde municipais e emergências dos hospitais da rede privada estão sempre lotados. A seccional do SUS aqui tem 1.1 milhão de cadastrados e 700 mil ativos. O município tem 370.879 habitantes (Censo de 2022).

Houve um atraso na remessa das vacinas, não por culpa do Estado, como acusou Sheila, desmentida por seu secretário de Saúde, Vinicius Rodrigues. Medidas preventivas não foram adotadas pelas prefeituras, como, por exemplo, convencer os céticos de que devem se vacinar.

Segundo a OMS, 20% dos 700 mil brasileiros que morreram vítimas da Covid – não vamos esquecer os que perderam a vida em Manaus por falta de oxigênio – não estariam hoje sendo pranteados por seus familiares se não houvesse uma demora na aquisição de vacinas pelo governo de Jair Bolsonaro (PL).

Além disso, campanhas contra os imunizantes, incentivadas pelo inelegível, com a participação inclusive de profissionais de saúde, se alastraram pelas redes sociais e pelos templos evangélicos. Esses milicianos virtuais são responsáveis até hoje pela baixa procura de qualquer tipo de vacina.

Sheila comemora os números que lhe favorecem da pesquisa de intenção de votos para prefeito divulgados segunda-feira. Na minha querida Galiza, na Espanha, o 1º de abril é chamado de Dia dos Enganos.

 

 

 

 

PELA CIDADE DAS CASTAS

Passar por Brasília, a cidade das castas dos três poderes, foi relembrar aqueles velhos tempos, há cerca de 30 anos ou mais quando por lá estive para realizar um curso pelo Ceag, hoje Sebrae. Se não me engano, estive outra vez para uma reportagem jornalística na área de economia. Ainda não era uma metrópole como hoje.

Não tem muito e tem o que falar de Brasília, palco dos maiores acontecimentos, construída pelo presidente Juscelino Kubistchek, o cigano boêmio, com a força braçal dos candangos nordestinos, pelos idos de 1955 a 1960, quando foi inaugurada. Nem precisa dizer quem foi o arquiteto e urbanista que a projetou com aqueles traçados diferenciados que só ele, o Oscar Niemeyer, tinha como nenhum outro no mundo.

Não era para ser uma metrópole arrodeada de suas cidades satélites. A projeção inicial era em torno de 500 mil habitantes, mas hoje, de acordo com o último censo do IBGE, ultrapassa dois milhões e oitocentos mil moradores, com a maior renda per capita do Brasil, graças aos grandes salários dos marajás do executivo, do legislativo e do judiciário.

Ali estão concentradas as castas milionárias (porque não falar bilionárias), ao redor do Lago Paranoá, num país onde a maioria é pobre e milhões passam fome. Temos o Congresso Nacional mais caro do planeta, que não serve de orgulho, mas de vergonha, que manobra os presidentes com seus cambalachos.

Bem, não vou ficar aqui falando de política, mas da nossa viagem, coisa bem mais prazerosa. Numa passagem, vindos de Anápolis, ficamos hospedados em Águas Claras, distante do Plano Piloto, no apartamento da minha prima Rocia e seu esposo Adailton, ou melhor, o nosso querido Dadai, poeta e músico.

Fomos bem recepcionados pelos seus filhos Isabela, Isadora e Pedro, além de amigos divertidos, e aproveitamos para fazermos aquela farra num sábado até o dia amanhecer do domingo. Como se diz no interior, colocamos o papo em dia entre uma conversa e outra, num clima fraternal que nos faz esquecer das mazelas dessa nossa nação, principalmente dos políticos corruptos.

Antes disso, porém, Rocia e Dadai nos ciceroneou por alguns pontos dos três poderes que há anos havia passado. Para minha esposa Vandilza, tudo era novidade. Estivemos no Memorial JK,  na Torre da TV Brasília,  no Centro do Índio, no Bosque de Águas Claras, entre as alas dos ministérios, do Congresso, os Palácios do Planalto e Alvorada, sem falar na imponente Catedral.

Sua torre arquitetônica em forma de mão para o alto parece pedir perdão pelos pecados cometidos pelos homens que governam Brasília e o Brasil.  É um lugar de contrição e reflexão por tudo que acontece ali de ruim. O que mais importa é que valeu o reencontro com nossos parentes e amigos. Foi uma festa e só alegria.

Por citar o Centro ou Museu do Índio (olha eu falando novamente em política), ao lado do Memorial JK, achei que merecia ser mais rico em termos de objetos, peças e outros utensílios, unindo culturas de todas as tribos do Brasil, de norte a sul, de leste a oeste.

Ainda dentro do tema, considerei ridículo, demagógico e hipócrita a cerimônia promovida pela Comissão da Anistia, entre primeiro e dois de abril, onde a presidência (não me lembro o nome) se dirige aos indígenas ali presentes para pedir desculpas pelas atrocidades cometidas pela ditadura civil-militar de 1964 contra suas comunidades.

Essa gente é mesma cara de pau e aproveita da ingenuidade dos sofridos, discriminados e pisoteados para pedir desculpas, quando o correto seria uma reparação a todos brasileiros através da punição aos torturadores. Esqueceram de dizer que a anistia foi uma farsa montada pelos generais e aceita pelos nossos governantes, magistrados e legisladores.

Sem mais delongas, de lá tomamos rumo de volta para Nossa Vitória da Conquista, numa viagem complicada e cansativa, mas aí é outra história que vamos contar como final da nossa viagem, muito proveitosa no campo do conhecimento e do saber. Viajar é muito bom, e melhor ainda quando existem transtornos.

 

OS 60 ANOS DE UMA MALDITA DITADURA QUE DEIXOU MUITAS FERIDAS ABERTAS

Não é caso para comemorar e nem celebrar, mas para lembrar sua data em 1º de abril de 1964, que foi a ditadura civil-militar, para que nunca mais seja repetida. Como herança deixou feridas abertas na nação que foi a total impunidade contra os malditos torturadores que mataram e desapareceram com os corpos daqueles que lutaram pela liberdade.

Nesta data fatídica, o que mais ainda nos coloca em posição de indignação é que a nossa mídia de um modo geral, inclusive a da nossa terra conquistense, não fez nenhuma menção, nenhuma reportagem sobre o assunto, o que denota que temos hoje um jornalismo sem memória e história.

Condeno aqui também a postura das esquerdas (nem todas), especialmente do PT que governou durante mais de 20 anos o nosso país e se acovardou diante dos coronéis, delegados, oficiais e generais que cometeram suas atrocidades e depois retornaram para seus quartéis, seus palácios e suas poltronas confortáveis como se nada tivesse acontecido.

O Brasil foi talvez o único país da América do Sul que disse amém – e aqui incluo os três poderes – por não colocar esses criminosos no banco dos réus e não prendeu ninguém, ao contrário do que fez a Argentina, Uruguai e o Chile, somente para citar esses três hermanos. Na tese dessa dita “esquerda”, melhor deixar como está porque a condenação seria um ato de revanchismo.

Volto a afirmar que as feridas continuam abertas. É só alguém perguntar isso para as famílias que perderam seus entes queridos nos porões das torturas e outras que nem tiveram o direito de realizar seus ritos funerais porque esquartejaram, mutilaram e desapareceram com os corpos de seus parentes mais próximos, como fizeram com os guerrilheiros do Araguaia. Aqui mesmo em Vitória da Conquista tivemos o caso de Dinaelza Coqueiro.

Por falar em Vitória da Conquista, vem aí o seis de maio de 1964 quando a cidade, numa manhã frienta, foi cercada por cerca de 100 soldados do exército do capitão Bendock e simplesmente prenderam e cassaram o mandato do prefeito José Pedral Sampaio (teve seus direitos políticos cassados por 20 anos), eleito constitucionalmente pelo povo, se não me engano em 1962.

Essa operação (ocorreu o mesmo em Feira de Santana e Alagoinhas, na Bahia) durou pouco tempo, mas foi o suficiente para prender cerca de 100 dos nossos cidadãos. O mais grave é que o vereador Péricles Gusmão veio a morrer nas dependências do Batalhão Militar, segundo eles, um ato de suicídio, que não ficou totalmente comprovado. O professor Públio de Castro ficou nove meses presos (muitos foram levados para Salvador, inclusive o prefeito Pedral).

Tenho certeza que sobre essa data, quando a Câmara Municipal de Vereadores foi cercada pelas tropas do capitão e seus membros (nem todos) foram obrigados a cassar o mandato do prefeito, a nossa mídia vai passar “batida” e fazer de conta que nada existiu. Infelizmente, o nosso jornalismo de hoje mal cobre o factual ou registra os BOs (os boletins de ocorrências). Existe um monumento do escultor Romeu Ferreira na Praça Tancredo Neves em homenagem aos tombados baianos pela ditadura, mas a maioria desconhece.

Uma pena que nossos jovens em geral (existem poucas exceções) não sabem desse episódio cavernoso e vergonhoso que foi a ditadura civil-militar de 1964 (contou com apoio de civis e de muitas instituições, como da Igreja Católica) que exterminou com cerca de 500 brasileiros que se opuseram ao regime. Outros milhares foram presos e torturados.

É por essa mais criminosa impunidade da nossa história que vimos, até há pouco tempo, extremistas, negativistas, fascistas e nazistas saírem às ruas para pedirem uma intervenção militar, ou seja, outra ditadura dos generais. Tentaram um golpe em 8 de janeiro do ano passado.

Como essas feridas continuam abertas, nada nos garante uma tomada do poder pela força das armas, como queria o então ex-presidente capitão, que negou sua existência e ainda fez apologia a um dos maiores torturadores, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do Doi-Codi do II Exército (São Paulo), entre 1970 e 1974.

Não vou entrar aqui no âmbito mais profundo propriamente dito de como surgiu a ditadura de 1964 no Brasil, que, na verdade, começou com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961. Como João Goulart era o seu vice, por direito constitucional tinha que assumir a presidência, sem enfrentamentos, mas os generais se opuseram ferrenhamente, alegando ser ele da linha comunista, o maior inimigo da época.

A sociedade reagiu, tendo à sua frente os governadores Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul (Campanha da Legalidade e o Grupo dos Onze), Miguel Arraes, de Pernambuco e outras lideranças organizadas. Jango terminou sendo empossado, mas sob o regime parlamentarista.

Tentaram outra vez em 1954/55 quando Getúlio Vargas se suicidou, mas o general legalista Lott barrou. Eles ficaram armados na tocaia e aí conseguiram destilar todo seu ódio em 1º de abril de 1964 quando o golpe foi consumado e governaram com a mão de ferro por mais de 20 anos. O pior período, chamado era de chumbo, foi a partir de 13 de dezembro de 1968, com o AI-5, até 1974, final do mandato do general Médici.

É lamentável que a grande maioria dos nossos brasileiros nada ou pouco sabe sobre essa triste história, ao ponto de um estudante, depois de uma palestra de um historiador ativista a respeito do assunto, perguntar se tudo aquilo que ele havia narrado, aconteceu mesmo. Que essa maldita, nunca mais no Brasil!

UMA CIDADE BEM ESTRUTURADA

Duas cidades, dois olhares em estados diferentes. Do mesmo porte de Vitória da Conquista, cerca de 400 mil habitantes, distante 120 quilômetros de Brasília e 60 da capital Goiânia com vias duplicadas bem conservadas, base da força aérea brasileira, Anápolis é outra cidade do estado de Goiás bem arborizada e estruturada, principalmente em termos de saneamento básico.

Em minha visita, fiquei impressionado com o Jardim Botânico – lembrei do nosso Poço Escuro, tão maltratado e abandonado pelos governantes e de pouca visitação – um parque de muitas trilhas na mata com várias espécies de animais, fontes de água, limpo e com muitos locais de diversão e lazer para todas as idades. É aconchegante e acolhedor.

Outro local bem arborizado, amplo e com toda infraestrutura é o Bosque Ipiranga quase no centro da cidade e bastante visitado pela população. Deixa qualquer visitante confortável para apreciar suas belezas e atrações. Parques para crianças e outros equipamentos, com bastante água.

Quando faço comparação com Conquista não é no sentido de depreciação. Aqui também é um bom local para se viver e de boa qualidade de vida, mas ainda tem muita coisa para se fazer, como na área cultural, uma melhor e mais decente urbanização do Cristo da Serra, do próprio Poço Escuro e outros pontos da cidade, a terceira maior da Bahia.

A bem da verdade, o que tenho visto são serviços incompletos, do tipo maquiagem em épocas eleitoreiras para ganhar votos. Conquista tem muito por fazer para se tornar uma cidade turística onde o visitante possa ficar aqui dois ou três dias conhecendo os locais.

A Lagoa das Bateias não é somente fazer uma limpeza das sujeiras. É muito mais que isso.  Fora a Olivia Flores e outras avenidas, como a Juracy Magalhães, a única praça aprazível, bem estruturada e cuidada é a Tancredo Neves. Os museus regional e Padre Palmeira, não tem muita coisa para se ver. O outro de Cajaíba está abandonado e se acabando com o desgaste do tempo lá na Serra do Periperi. Não se trata de uma crítica negativa.

Outro ponto que me chamou a atenção foi a Biblioteca Municipal Zeca Batista de Anápolis, no centro da cidade, bem mais equipada como centro de leitura, área para exposições de artes plásticas e outros itens culturais. Ao seu lado, a popular conhecida Praça do Avião.

Para o nível de Conquista, a nossa, lá naquele canto escondido do Conquistinha, perde longe. Até diria que é uma vergonha para nós conquistenses. Uma cidade não se mede apenas pelo seu avanço econômico e desenvolvimentista de prédios e construções industriais e comerciais.

Bem, retornando a Anápolis, para não me alongar, trata-se de uma cidade moderna e, ao mesmo tempo, bucólica. Até há pouco tempo ainda existia fazendas funcionando quase que dentro da cidade. Uma coisa inusitada. Hoje estão se tornando lotes para moradias.

Conheci, por exemplo, uma fazenda agrícola de plantação de soja encostada num bairro de classe média (não que seja um apreciador desse agronegócio depredador destinado somente à exportação de grãos para o exterior). Não vi favelas nas periferias, nem gente lhe abordando nas ruas como pedintes.

No entanto, um ponto falho em Anápolis é o sistema de transporte público, com poucos ônibus onde as pessoas demoram muito tempo para se deslocar de um local para outro. Aqui é melhor, mas ainda a necessitar muito de melhorias. O comércio aqui é mais concentrado no centro, com mais variedades e divisões  por segmentos, enquanto lá é meio espalhado e disperso.

 

 

A DELICIOSA SOBREMESA DE GOIÁS

Antes de pegarmos a estrada para Anápolis, já no final da tarde, (eu, meu filho Caio e Vandilza), por recomendação da minha nora e sobrinha Larissa (quase esquecíamos) fomos tomar o delicioso sorvete no coreto da praça de Goiás Velho, localizada ao lado do mercado popular e próxima da casa da poetisa Cora Coralina. Confesso que foi o melhor sorvete que já provei depois de um almoço caseiro da terra. É como se ir à Roma e não visitar o Vaticano e conhecer a Basílica de São Pedro, mesmo que não se veja o papa. Também recomendo que no final da visita a Goiás, antiga capital do estado, prove o saboroso sorvete do coreto. Só em lembrar dá água na boca diante da variedade de sabores deliciosos.

Outra “sobremesa”, essa não comível, é dar uma parada à beira da estrada, logo na saída da cidade, para conhecer as variedades de lojas de artesanato. Tem de tudo, para todos os gostos, feitos de madeira, minerais, cerâmica e outros objetos. Essa “sobremesa” é mais cultural, confeccionada por artistas locais e da região. Como sou um admirador dessa arte, se tivesse muita grana levaria uma carreta cheia dessas peças maravilhosas. É um encanto e, mesmo com pouco dinheiro (meu caso), dá para levar pelo menos uma lembrancinha.

A GOIÁS VELHA DOS FAMOSOS FOGARÉUS E DA POETISA CORA CORALINA

Partimos pela manhã rumo a Anápolis para conhecer a Goiás Velha ou Velho (distante mais de 100 quilômetros), à cidade dos fogaréus da quinta-feira da Semana Santa (279 anos de tradição) e terra da grande poetisa Cora Coralina. A minha ansiedade estava mais ligada à artista e ao casario histórico, tombado pela Unesco em 2001 como patrimônio mundial.

Antes de chegarmos paramos no mirante bem estruturado (não é este armengue que estão construindo no Cristo da Serra do Periperi de Vitória da Conquista), para apreciarmos as belas paisagens cheias de montanhas cobertas pelas florestas. De lá avistamos a cidadezinha encravada nos morros e aproveitamos para as fotos. É prazeroso viajar.

Uns contam (são estórias orais) que a vila foi criada por garimpeiros rebeldes vindos de Minas Gerais que ali se instalaram à procura de ouro. Para os guias de turismo, foram os bandeirantes paulistas que alcançaram aquelas serras dos papagaios e das aratacas. Era o auge do ouro.

Na verdade, a história narra que a cidade de Goiás, hoje conhecida como Goiás Velho (Velha) foi a primeira capital do estado até 1937 e surgiu da existência de um vilarejo chamado Arraial de Santana (lá está erguida até hoje a Igreja de Santana), fundado em 1727 por Bartolomeu Bueno, filho de Bartolomeu Bueno da Silva, o bandeirante Anhanguera, vindo de São Paulo.

 

Nascido no apogeu da mineração do século XVIII, o arraial foi elevado por D. Luiz de |Mascarenhas a Villa Boa de Goyaz, no ano de 1739, em homenagem ao bandeirante e aos índios goyazes ou guaiás, que quer dizer indivíduo igual ou semelhante. Dez anos depois, em 1749, a Villa foi elevada à capital da província de Goiás. A cidade se desenvolveu entre morros ao longo do Rio Vermelho.

Vamos deixar um pouco de história de lado e descrever as nossas impressões como visitantes forasteiros. De início, senti um povo um tanto fechado, embora educado, logo na primeira recepção na casa onde residiu a poetisa Cora Coralina. Era por volta das 12 horas e estava fechando para almoço (coisas do nosso Brasil). A atente não procurou muito papo e nem perguntou quem éramos.

No primeiro contato considerei um absurdo ser uma associação privada (a gestão deveria estar a cargo da prefeitura ou de uma instituição pública de ensino) que administra o patrimônio. De forma impositiva colocou taxa única de dez reais para visitação, desrespeitando a lei federal que obriga cobrar meia para pessoas idosos, deficientes ou estudantes.

Tentei argumentar ao defender meus direitos e explicar que não estava correto (a lei teria que ser cumprida e ninguém reclama), como também proibir fotografar seu ambiente sob o argumento de direito de imagem quando já se tornou público). Essa de taxa única é uma usurpação e confesso que foi a primeira vez que vi essa arbitrariedade sem uma interferência do Ministério Público ou de outros órgãos de defesa do consumidor. Culpa também do consumidor da arte.

Procurei não me irritar para não estragar minha viagem de conhecimento cultural. Para não perder tempo, fomos até o prédio antigo, no mesmo estilo da nossa Rio de Contas, na Chapada Diamantina, onde funcionou a Câmara e a delegacia, que se transformou em Museu das Bandeiras. Alguns cartazes explicativos anunciavam “Pessoas Escravizadas. Prisão. Liberdade?”, “Cotidiano na Prisão”, “Sentenças  e a Força” e “Nasce um Museu das Ruínas da Cadeia”.

Além das cadeias separadas onde eram presos os homens e as mulheres que infringiam as leis da época (mulher que tentava estudar), com penas pesadas (chibatadas e torturas contra os escravos), inclusive com condenações de mortes por enforcamento, o edifício abriga também exposições de arte, como da Triz de Oliveira Paiva, intitulada “Minha Alma Sofre em Casa de Argila ou como Pensar a “Terra”.

Tivemos o privilégio de conhecer a obra de Triz (não conhecia), uma mostra para o Museu das Bandeiras. Ela materializa a um só tempo a maneira de cena de um crime e de uma espécie de sítio arqueológico. “Minha Alma Sofre em Casa de Argila” instaura ainda o que se poderia compreender como um entrelugar, em que se encenam negociações morfológico-matéricas. “Terra roubada. Terra usurpada. Terra da usura. Terra da morte e morte da terra” – segundo o apresentador da exposição, Marco Antônio Vieira.

Conhecemos a catedral que estava em reforma e a grande praça (lembrei da Rua Grande, em Conquista que foi destruída) com um chafariz antigo. Num formato de aldeia, em torno dela as casas coloniais ainda bem conservadas. Nas pequenas lojinhas de artesanato e lembranças, algumas com grandes bonecos mascarados do tradicional fogaréu da Semana Santa.

Finalmente fomos até a casa da poetisa que já estava aberta ao público. Mais uma vez questionei a taxa única imposta, e um funcionário reconheceu que eu estava certo. Lá dentro, os pertences de Cora Coralina, sua chácara, uma pequena mostra de arte e grandes fotografias sobre as enchentes que arrasaram a cidade em 2012.

Cora se chamava Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, um dos maiores nomes da literatura e se revelou para o Brasil com certa idade avançada. Naquela época era proibido as mulheres escrever ou publicar algum livro. Ela nasceu em 20 de agosto de 1889, ano da Proclamação da República, portanto há 135 anos, na cidade de Goiás. Era filha do desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães, nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão.

A poetisa cursou apenas até a terceira série do curso primário, mas escreveu poemas e contos desde aos 14 anos. Nessa época, contrariando os costumes, publicou, em 1908, no jornal de poemas, “A Rosa” com algumas amigas. Em 1910 veio o conto “Tragédia na Roça”, lançado no “Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás”, usando o pseudônimo de Cora Coralina.

De acordo com “Artpoesia”, livreto do poeta baiano José da Boa Morte, o rei das feiras literárias baianas, que o apelidei de Zè da Travessia, em 1911, Cora fugiu com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Bretas, indo morar em Jaboticabal, no interior de São Paulo. Como dá para se notar, era uma mulher evoluída e determinada para seu tempo.

Em 1922 foi convidada para participar da Semana de Arte Moderna, mas foi impedida pelo marido. Depois da morte do esposo, em 1934, foi doceira para sustentar os quatro filhos. Embora continuasse escrevendo, viveu por muito tempo da sua produção caseira. Se dizia mais doceira que escritora. Em 1934 chegou a trabalhar também como vendedora de livros. Em 1936 muda-se para Andradina, onde começa a escrever para o jornal da cidade.

Em 1956 voltou para sua cidade natal onde, em 1959, aos 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar seus poemas e entrega-los aos editores. Em 1956, com 75 anos, Cora conseguiu realizar o seu sonho de publicar o primeiro livro “O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Em 1970, tomou posse da cadeira número 5 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. O interesse do grande público pela poetisa se deveu aos elogios do poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1980.

Em Goiás Velha ainda visitamos o Instituto Biapo, um casarão que se tornou numa galeria de artes e uma espécie de museu sobre a história da cidade. O Instituto também foi vítima das enxurradas de 2012. Lá estava sendo exposta a obra do artista, galerista e arquiteto Fernando Madeira, cuja obra “Mudança” me fez refletir sobre vários pontos.

Como já era tarde e a fome bateu, fomos almoçar no pequeno mercado popular de Goiás, bem arrumado e aconchegante. Com uma comidinha bem caseira, tivemos o privilégio de receber as visitas das aratacas vindas das serras em torno da cidade. Achei que fossem papagaios, mas meu filho Caio, que morou um bom tempo no Amazonas, me corrigiu.

Claro que estava também acompanhado da minha esposa Vandilza Silva Gonçalves, sempre não perdendo um lance nas fotos do seu celular. Pegamos estrada de volta para Anápolis, numa viagem encantadora, na base do bate e volta, para não gastar muita grana, coisa escassa na nossa praça.

 

 

A MESA FICOU JIGA-JOGA

(Chico Ribeiro Neto)

Tem gente que tem traquejo e prazer em montar ou consertar coisas. Conta-se que Paulinho da Viola, além de excelente compositor, faz e conserta móveis e gosta de arrumar carros velhos.

Tenho um amigo que tem uns 40 rádios em casa, de tudo que é tamanho. Quando tá chateado, vai lá e desmonta um rádio só pra montar de novo. Se depender disso tô lenhado. Não monto nem quebra-cabeça infantil. Nem no cavalo eu acerto montar e desmontar. Já caí  de uma égua tão tranquila que se chamava “Mocinha”.

Não me dê nada para montar, sofá ou armário. Até o prego que bato na parede fica torto. Admiro meu amigo Noronha, um artista da carpintaria. Basta olhar uma vez para uma cama na loja que ele chega em casa e faz uma igualzinha.

No interior se dizia que uma mesa ou cômoda mal feita, armengada, quando ficava bamba, virou jiga-joga, tá sempre balançando prum lado.

Uma vez, na TV Itapoan, havia um comercial de sofá-cama. Ainda não tinha videoteipe e os comerciais eram ao vivo. Dizia a garota-propaganda: “Esse sofá abre-se com uma leve pressão dos dedos aqui”. Ela tentou e nada. Deu um sorriso amarelo e tentou de novo. Nada. Ela tentou umas 4 ou 5 vezes até que deu um safanão no sofá que virou uma cama. “Viram como é fácil, senhores telespectadores?”

Quando a gente se mudava tinha que levar os parafusos da cama num saquinho separado. Esses parafusos não podiam sumir de jeito nenhum. Problema também é quando a cama desaba no meio de um ato amoroso. Aí só resta sorrir.

Outro amigo comprou uma furadeira e resolveu  instalar um armário de cozinha. Cheio de arte, fez o primeiro furo e jorrou água na cara dele. Ele furou a coluna de água do prédio. Aposentou a furadeira.

A única coisa que sei montar são os sonhos, e alguns ainda acabam ficando jiga-joga.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

UMA CAPITAL VERTICAL, PLANEJADA E ARBORIZADA NO CORAÇÃO DO BRASIL

Vamos viajar de Anápolis numa rodovia duplicada até Goiânia de Goiás, deixando um pouco para trás a velha Goiás, da poetisa Cora Coralina. Aqui neste estado nasceu a nova capital do Brasil no início dos anos 60 pelo visionário Juscelino Kubistchek. Até hoje existe a polêmica se foi um projeto acertado ou não a transferência do Rio de Janeiro para Brasília.

Bem, em Goiânia, começamos pelo Centro Cultural Oscar Niemeyer, como todos sabem, um arquiteto de nível internacional que não precisa de apresentações. No estacionamento e naquele cenário de concreto, numa árvore, um passarinho de papo amarelo (não sei bem se era um canário) nos recepciona com sua linda cantoria e até pousou para minhas lentes fotográficas. Um sinal de que o dia seria positivo como viajante.

Logo na entrada do imponente prédio aparece a figura de uma concha emborcada ou uma oca, um anfiteatro que nos remete ao Congresso Nacional. Ao lado, um amplo espaço onde todos os anos é erguida a árvore natalina com shows musicais e espetáculos referentes à data.

No edifício que faz parte do conjunto arquitetônico, no primeiro ou segundo andar, quem nos acolhe é uma biblioteca com mais de 20 mil volumes, com uma ala para a categoria infantil e outra para adultos. Tudo bem organizado como manda o figurino.

Duas simpáticas bibliotecárias nos atendem com largos sorrisos para explicar as salas de pesquisas visitadas por estudantes, professores e intelectuais interessados em realizar pesquisas e leituras de variados gêneros literários. Em harmonia, o virtual com o tradicional de papel se complementam com os computadores. Sou mais conservador e prefiro as obras impressas.

Talvez porque chegamos um pouco cedo, o espaço estava vazio, mas logo me chamou a atenção a presença de duas crianças acompanhadas de seus pais. Num país tão carente em termos de leitores, aquilo me deu a sensação de que nada está perdido e não podemos desanimar sobre um futuro melhor para nosso Brasil, se bem que minha idade não permite mais pensar nisso. Vamos levar muito tempo para reconquistar a efervescência do saber e do conhecimento.

Na capital dos sertanejos – estava ávido para conhecer as lojas de chapéus, cintos, camisas, botas e outros acessórios de peças alusivas ao estilo. O que mais me chamou a atenção foram as largas avenidas e ruas de altos prédios, mas todas arborizadas, sem falar nos bosques do Areão e o Parque da Vaca.

Como sou apaixonado por coisas do sertão, sendo um nordestino e catingueiro da gema, com muito orgulho, se fosse um endinheirado ou tivesse ganhado na Mega-Sena, confesso que contrataria uma carreta e levaria uma casa comercial só de itens sertanejos, vaqueiros e boiadeiros.

Senti o cheiro das boiadas e comitivas da antiga novela Pantanal, da Manchete.  Para não ficar de mãos vazias me contentei em comprar um chapéu para completar minha modesta coleção que enriquece nosso Espaço Cultural A Estrada.

Entre as capitais que já conheci e conheço nesse país continental de tantas diversidades culturais, incluindo a velha Salvador onde morei por mais de 20 anos, o que mais me impressionou foi a limpeza e o planejamento (não vi moradores de ruas e nem favelas nas periferias).

Nos bares, restaurantes e locais por onde passamos (Vandilza, meu Filho Caio, sua esposa Larissa e meu fofo neto Samuel de três anos), senti a hospitalidade e cordialidade das pessoas, não que não exista isso em outras cidades. Tirei uns dedos de prosa com um garçom baterista de uma banda.

Vamos seguir nossa trajetória “épica” no próximo “diário” descrevendo a cultura, o patrimônio histórico, as paisagens de morros, as aratacas da Velha Goiás, terra da famosa poetisa Cora Coralina e que sofreu fortes enchentes há pouco tempo, tornando-se notícia nacional. Temos muitas coisas e surpresas para contar. Nos aguarde.

 

 





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