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A MULHER RENDEIRA E O ERUDITO
Depois de tanto fuçar nos estudos filosóficos, teológicos, da ciência, ler milhares de livros e colocar seu conhecimento e sabedoria acima da cabeça dos outros, o erudito foi acometido pelo vírus do sofrimento e da dor.
Não conseguiu desvendar os enigmas e os mistérios que nos cercam as origens planetária, do criador da vida, do infinito e o que há além da morte. Ele estava sendo consumido pelos próprios pensamentos, vivendo em compartimentos empoeirados. Suas pequenas máximas não alcançavam a fé.
Então, resolveu sair por aí pelo Nordeste para ouvir os mais humildes, os artesãos, os poetas, os cordelistas, repentistas e as expressões culturais do povo mais simples com suas crendices. Em suas andanças, no sertão mais agreste e profundo nordestino, terminou por se encontrar com uma velha senhora rendeira de bilros, que também sabia fiar, pacientemente, seu tecido naquele antigo tear que nos tempos atuais chamam de geringonça.
Por alguns instantes ficou embasbacado, boquiaberto ao ver a habilidade daquela mulher com os bilros e os fios entre os dedos das mãos no compasso certo com os pés no pedal, num ritmo perfeito da fiação, bem diferente do seu cérebro intrincado e confuso.
Deu um bom dia, ou boa tarde, sei lá, e cumprimentou a senhora em voz baixa, meio sem jeito, com receio de atrapalhar seu trabalho. Ao sentir sua inquietação, e ao olhar aquele senhor de barba de intelectual, aparência fina e educado, como é costume da gente do interior, a rendeira a ele se dirigiu:
– Pode falar, seu doutor, não fique aí parado. Seja bem-vindo à nossa renda e ao tear, profissões originárias e tradicionais das mulheres imigrantes portuguesas açorianas, mas que está se acabando com o tempo. As jovens agora só querem ir para as cidades de celular na mão.
– Como a senhora aprendeu essa arte tão preciosa e admirável de confeccionar fios que se entrelaçam, sem se embaralhar? – Indagou o doutor.
– Ah, seu doutor, tudo isso vem desde minha tataravó, que passou para minha bisavó e daí para minha avó, minha mãe e eu foi a única das sete filhas que aprendeu esse ofício de rendar. Ela contou a história de dona “Santinha”, Maria Amélia Furtado, a primeira rendeira famosa por essas redondezas. Tudo indica que ela era do Ceará.
O erudito, homem do querer esmiuçar, quis saber de mais coisas e até pediu desculpas se não estava atrapalhando sua obra. Poderia confundir sua ágil mão. Por um momento, ficou a matutar como o complicado se tornava simples e com resultados concretos no final, diferente das suas indagações filosóficas que paravam em algum ponto, confusas e sem respostas. Sua rotina era um quebra-cabeça.
– Não atrapalha não, seu doutor! Aqui a gente já faz tudo de olhos fechados, sem errar os pontos das linhas nos lugares certos. Pode ir falando que escuto. Passo o dia todo aqui sentada, no meu silêncio interior, que nem ouço o barulho dos humanos, só o canto dos pássaros e o gado berrando na cacimba quando bate a seca e a falta de água.
O erudito quis saber de mais detalhes sobre seu trabalho, quais fios usava, se não era cansativo, estressante e se aquilo dava algum sustento para a família, isto é dinheiro, “bufunfa”, grana.
– Aqui é uma terapia de vida e me sinto bem e feliz com isso. Faço com amor. Nada de estresse e cansaço! Evita a gente ficar pensando em besteiras. Nem me preocupo com o tempo e até entro pela noite com o nosso velho lampião. Normalmente utilizamos os fios de linho, algodão, seda, viscose e outros mais.
– Quanto a renda das rendas, seu doutor, dá para sobreviver e não passar fome com a venda de colchas, lençóis, fronhas, redes, blusas e outras peças artesanais que alguém compra ou levamos para as feiras das cidades. Tudo isso já é um outro processo depois da fiação no bilro e no tear.
Curioso, como todo estudioso do pensar e do saber, o doutor quis ver o produto final, que ele não consegue quando se depara com as dúvidas sobre Deus e outros mistérios existenciais e espirituais. Em sua mente, os temas e assuntos sempre estão além da sua cabeça. Mesmo assim, o mestre erudito acha entender de tudo.
A mulher rendeira o levou para uma sala apertada e mostrou suas rendas bem trabalhadas, feitas com todo carinho e dedicação, sem mistérios.
Ele ficou extasiado a olhar as rendas e bordados. Com as mãos, sentiu aquela textura fina, os traçados, os fios a deslizar e o cheiro do tecido em suas narinas.
Repentinamente bateu um estalo em sua cabeça, e o erudito propôs comprar toda produção da rendeira, e olha que nem pechinchou preço. O mais inesperado é que ele terminou por fazer uma parceria com a rendeira para adquirir seus produtos.
Depois daquela longa conversa experimental e prática, do hotel retornou para a capital e lá resolveu deixar tudo, inclusive sua cátedra como professor. Montou uma loja de rendas artesanais nordestinas com o nome “Mulher Rendeira”, para divulgar aquela cultura secular, ou porque não, milenar.
Passou a ser mais feliz, alegre, emotivo e baniu o sofrer. Deixou seus colegas estupefatos e sem entender aquela brusca mudança de atitude.
A mulher rendeira continuou a rendar, com toda paciência do mundo, e até melhorou de vida como fornecedora do novo cliente comerciante que garantiu a si mesmo não explorar sua mão-de-obra, ou de fada da artista da renda. “Olê, mulher rendeira,/olê mulher rendar,/me ensina a fazer renda/que te ensino a namorar”…
O FEMEAPÁ
Carlos González – jornalista
O carioca Sérgio Porto exerceu nas décadas de 50 e 60 várias atividades. Foi jornalista, escritor, teatrólogo e compositor. Uma das suas maiores criações como cronista do jornal “Última Hora” foi o “Festival de Besteiras que Assola o País”, o “Febeapá”, que ele assinava como Stanislaw Ponte Preta, cuja característica era criticar, com humor refinado, a ditadura militar e o moralismo social. Nos dias de hoje, Sérgio, se estivesse entre nós (morreu em setembro de 1968, com 45 anos), certamente teria idealizado o “Femeapá” – “Festival da Mentira que Assola o País”.
O criador das “Certinhas do Lalau” (concurso que reunia vedetes do teatro rebolado) elegeria Jair Bolsonaro como o principal protagonista das mentiras que, nos últimos anos, difundidas nas redes sociais, têm destroçado lares e amizades, incutido a desinformação de forma odiosa entre a população inculta, fácil de enganar, e sendo intolerante com a governança do país e o relacionamento entre os três poderes. Mentiroso e negacionista, ele tinha prometido “se recolher” se perdesse as eleições de 2022.
Provavelmente, Bolsonaro não teria passado mais de 30 anos como membro do baixo claro, entre sete mandatos como deputado federal e quatro como vereador da cidade do Rio de Janeiro, se no dia 16 de junho de 1988 o Superior Tribunal Militar (STM) – a maioria dos seus membros fora nomeada pela ditadura militar de 1964 a 1985 – não tivesse feito vista grossa para os planos terroristas do capitão Jair Messias Bolsonaro, absolvendo-o por nove votos a quatro. Cinco meses antes, em primeira instância, os juízes pediram, por unanimidade, a expulsão do militar “por ter praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”.
O capítulo que juntou insurreição com traição foi ao ar em 3 de setembro de 1986 com a publicação na revista “Veja” de um artigo assinado por Bolsonaro, reclamando dos baixos soldos pagos aos praças (soldado a aspirante) e oficiais subalternos (tenente e capitão). O crime de insubordinação lhe rendeu 15 dias de prisão. Um ano depois a mesma revista publicou uma entrevista, ilustrada com um croqui do funcionamento de uma bomba, com o ex-presidente detalhando um plano para espalhar o terror nos quarteis e no sistema de abastecimento de água do Rio.
A imprensa mentiu
Trinta e dois anos depois da audiência, no STM, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho conseguiu o áudio das cinco horas da sessão secreta. Em seu livro “O Cadete e o Capitão” (Editora Todavia) ele relata em 700 páginas a negativa de Bolsonaro a todas as acusações; a pressão impositiva na sala do Tribunal do general Newton Cruz (apontado por crimes contra a humanidade durante a ditadura e mentor do atentado ao Riocentro em 1981) e do general João Figueiredo (último presidente do regime militar); a defesa – “meus comandados sempre têm razão” – do ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves.
Maklouf mostra que os participantes dedicaram grande parte da sessão para insultar a imprensa, que havia se livrado três anos atrás dos grilões da censura imposta pelos militares golpistas. A repórter Cássia Maria, que ouviu Bolsonaro em quatro encontros, com a presença de testemunhas, foi chamada de famigerada. A “Veja” foi classificada como “um reduto de judeus argentinos em busca de dinheiro”.
Para o escritor, não resta dúvida que a aversão dos militares à imprensa ajudou a absolver Bolsonaro, que ganhou notoriedade entre cabos e sargentos, que o elegeram vereador pela cidade do Rio, e sete mandatos em Brasília. Os votos que ele e sua clã receberam foram digitados nas urnas eletrônicas, cuja segurança contestou e nunca provou, ao revelar ser um mau perdedor em 2022.
Maklouf acredita que um dia virão à tona as atividades dos 11 anos passados pelo tenente Bolsonaro na caserna, nos últimos anos da ditadura. Sabe-se, apenas, que ele servia numa unidade de Artilharia e da sua amizade com o general Newton Cruz, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). Após despir a farda, na condição de parlamentar e presidente, sempre exaltou as figuras dos torturadores que agiam nos porões da ditadura, e continua negando que o Brasil viveu 21 anos sob um regime de exceção.
Após tomar posse na Presidência da República, Bolsonaro incentivou a criação, não oficialmente, do “Gabinete do Ódio”, vinculado ao Palácio do Planalto. Sob a orientação dos filhos, os “fakes news” passaram a abarrotar as redes sociais, sendo as notícias aceitas como verdade por 89,77% dos eleitores bolsonaristas, segundo a organização Avaaz, exercendo uma influência muito grande no resultado do pleito presidencial de 2018. Contrapondo-se à desinformação, os jornais criaram uma seção de esclarecimento aos leitores.
Em abril, a Câmara dos Deputados rejeitou a proposta que tinha o objetivo de impedir os “fakes news”. Para Giovanni Cerini (PL-RS), “a iniciativa visa inviabilizar o projeto eleitoral de Bolsonaro”. Mais uma das muitas imoralidades patrocinadas por esse nosso Legislativo. Outros atos pusilânimes (anistia às irregularidades, inclusive financeiras, cometidas pelos partidos políticos; a condenação de crianças estupradas e a generosidade com os estupradores; e a proibição das delações premiadas) estão na pauta do Congresso para serem discutidos após o recesso do meio do ano.
Com Bolsonaro, 1º de abril é todo dia. A dedução é do site “Aos Fatos”, cujos pesquisadores checaram que em 1.185 dias de governo o ex-presidente deu 5.145 declarações falsas ou distorcidas, acolhidas por uma plateia de gente fanática e fundamentalista, que defende uma pauta de costumes semelhante a imposta pelo Talibã aos afegãos.
O jornalista Ruy Castro, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), escreveu em sua coluna na “Folha”, “que Bolsonaro tem processos e acusações suficientes para enjaulá-lo por 500 anos. Isso ainda não aconteceu porque a Justiça tem de seguir o seu curso “normal”. Vitorioso na eleição ou no golpe, implantaria uma ditadura que nos faria sentir saudade dos militares”.
CONVERSA DE CACHORROS
Antigamente os cachorros eram praticamente todos iguais e não tinham esse tratamento especial de hoje (nem todos). Não existiam lojas de Pet Shop e eram raros os veterinários para cuidá-los. Hoje, muitos têm até psicólogos, terapeutas e são melhores tratados que milhares de humanos. No entanto, os cachorros de rua continuam por aí abandonados e ao relento, mas se livraram das carrocinhas malvadas que eram um tormento e chororô.
Tem ainda o cachorro do rico e do pobre, o nordestino e o valentão feroz. Um dia essa cachorrada resolveu se reunir para bater aquele papo sério e contar os seus problemas, vantagens e histórias, como ocorre entre humanos, inclusive crianças, jovens e adultos, uns mais abastados e outros da pobreza. Cachorro também tem divisão de classes e é até marxista comunista.
No encontro, o primeiro a abrir a boca foi o cachorrinho (a) de madama e soltou seu escárnio e desprezo com seus irmãos de rua. Com toda aquela etiqueta e pose de privilegiado foi logo falando.
– Vocês vivem por aí sujos, pulguentos, comendo restos e sobras de comidas que dão, dormindo nas calçadas, marquises e no frio, fazendo suas “vergonhices” trepando até em público. Levam até chutes e pontapés desses brutos. Muitas vezes são até envenenados por importunações.
– Eu tenho casa confortável, como do bom e do melhor, vestido (a), sou vacinado, tenho meu veterinário e a madama me faz aquele carinho gostoso que excita até meu pingolinho. Ela toma banho nu comigo que me deixa doidão. Sou chamado de filho e que faço parte da família. O dono também faz aquele chamego e tem mais: tenho nome de gente famosa, de filósofo, poeta e celebridades. Ah, ganho festa de aniversário com bolos, decoração, velas, presentes e parabéns.
O cachorro (a) rico metido a besta esnobou o quanto pode, mas saiu de lá um vira lata peduro atrevido e outros amigos e começaram a jogar duro contra o serelepe boçal de raça estrangeirada de nomes complicados.
– Vocês não passam de uns manipulados objetos, brinquedos de diversão nas mãos dessas peruas e babacas da elite nojenta. São usados para pura diversão. Sua turma não tem liberdade de correr ruas e avenidas, não sabe se virar para sobreviver e nunca aprendeu atravessar uma rua na faixa certa, sem ser atropelado pelos carros.
Do grupo apareceu outro e disse mais umas boas de olho em riste fazendo tremer os intrometidos. Jogou duro! Como diz no popular, soltou os cachorros nos riquinhos perfumados.
– Experimentam sair por aí pelas cidades e logo serão mortos e massacrados. Vocês só sabem viver em apartamentos ou casas fechadas entre quatro paredes com horário marcado para sair para cagar e mijar fora. Nem têm o direito de transar com o parceiro ou a parceira que quer. O casamento e combinado. Aqui nossa comunidade é socialista onde um ajuda o outro e andamos em bando. A nossa prosa é bem mais interessante que essa conversa mole e fresca de burguês.
No meio da fuzarca, entrou outro de uma raça diferente esquisita e começou aquele bate boca acirrado. Pura baixaria! Os vira-latas chegaram juntos e encararam com dentes cerrados, com intenção de bater forte e partir para a briga. Foi aquela algazarra, e os mauricinhos e patricinhas murcharam as orelhas.
O cachorro nordestino, como cabra da peste, não deixou por menos com uma peixeira do lado.
– Qual é! Quer encarar? Vocês nem sabem nem o que é fome e ser retirante de lugar em lugar. Nosso couro é duro como de jacaré e somos bons de porrada, arretados e não temos medo de fantasmas. Sabemos caçar e já andamos até no cangaço. Botou para quebrar.
Nisso, entraram dois valentões, um rottweiler e outro pit bull, daqueles tipos guarda-costas e leões de chácaras, rosnando como feras selvagens com garras dentárias de estranguladores.
– Ei, vocês todos aí, vamos acabar com essa putaria, com essa pouca vergonha, coisa de cachorrada. Melhor ir circulando cada um para seus lugares, bando de fanfarrões! Querem apanhar?
Interessante! Em nossa sociedade brasileira acontecem coisas semelhantes no aspecto social e comportamental humano. Os mais fortes de poder são os que mandam e obedecem quem tem juízo.
CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS (2)
(Chico Ribeiro Neto)
Posto hoje a segunda parte da minha entrevista com Carybé, publicada na revista “Manchete” em 26/07/75.
Carybé faz uma afirmação de fé: “A força da Bahia dá mais verdade à civilização”.
Vamos ao texto:
“Carybé nasceu na cidade argentina de Lanus, de pai italiano e de mãe gaúcha de Santa Maria da Boca do Monte. Os pais tinham se casado em Missões, na Argentina, mas logo depois do casamento foram se instalar em Mato Grosso onde nasceu o filho mais velho, Arnaldo. Depois se transferiram para o Paraguai, onde nasceram mais duas irmãs. Na cidade de Pousadas, nas Missões, veio ao mundo o quarto filho, que também virou pintor.
Andarilho, o velho decidiu voltar para a Itália, onde Carybé viveu os primeiros oito anos de sua existência. Até hoje costuma relembrar que sua primeira língua foi o italiano. Depois da Primeira Grande Guerra, a família voltou para o Brasil estabelecendo-se no Rio de Janeiro, na zona da rua Pedro Américo.
Em 1929, os rapazes da família ganharam uma empreitada para a decoração do Carnaval dos três grandes hotéis da época: Copacabana Glória e o Palácio.
“Ganhamos uma verdadeira fortuna: 19 contos de réis. Aí, o velho inventou de viajar de novo e voltamos à Argentina, onde fiquei mandando crônicas e desenhos para os jornais.”
Carybé trabalhou em jornal durante 22 anos. Mas seu irmão curtia cerâmica e os dois começaram a fabricar louças e azulejos. Carybé entrou de forneiro depois ajudou a pintar as peças.
Em Buenos Aires, quando a barra começou a pesar, empregou-se numa fábrica de caixotes, de onde saiu com as mãos totalmente arrebentadas.
Sobre a história de seu nome, há várias versões. Como sempre, a verdadeira é a mais banal. Os dois irmãos artistas, Roberto e Hector Bernabo, eram bastante procurados. Mas sempre dava confusão quando alguém chamava um Bernabo. Hector tinha sido escoteiro quando criança, e entrou na Patrulha dos Peixes, onde ficara sendo um Carybé. Havia gostado do apelido por achá-lo sonoro e um belo dia, depois de grande, para acabar com a confusão entre os Bernabo, resolveu chamar-se apenas de Carybé. Pegou.
Artista inato, procurou uma vez frequentar um curso de pintura, em escola noturna que tinha professor, modelo e tudo.
“Mas achei chato, e em vez de ficar diante dos modelos posando achei melhor sair para a rua, e observar. Várias vezes fui convidado a ensinar em escolas de Belas-Artes. Numa, aceitei. Iria ensinar o quê? Nunca aprendi. Não sei fazer um quadro de uma vez. Começo apago tudo, deixo ele de castigo uns 15 dias contra a parede. Depois pego de novo, vejo o que está ruim e vou continuando. Mas acho que a escola vale, pelo menos para quem tem recursos porque fornece a ajuda de pessoas mais experientes, de eventuais orientadores.”
(Continua na próxima semana).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
EDUCAÇÃO PRECÁRIA, MAIS ATRASO E VIOLÊNCIA NUM PAÍS TÃO RICO E POBRE
Uma mistura indigesta neste Brasil tão rico, tão pobre e desigual. Se os governantes, desde passados remotos, tivessem atentado para a priorização da educação das nossas crianças e jovens, não teríamos tanto atraso e tanta violência, que só no trânsito e em homicídios, mata mais de 150 mil por ano, uma guerra que supera todas as outras no planeta atual.
Enquanto esse Congresso Nacional conservador discute questões do PL do Estupro, privatização das praias, flexibilização das leis ambientais, mais agrotóxicos no campo, armas nas mãos da população, proibição da deleção premiada de presos, normas eleitorais para os políticos se perpetuarem no poder e outros absurdos, lá fora existe uma guerra civil de brasileiros matando brasileiros.
Sobre o meu comentário “Quem alimenta a violência”?, o professor Durval Menezes, em áudio no Grupo do Museu de Kard, acrescentou considerações importantes quanto a fome em nosso país, o terceiro maior produtor de alimentos do mundo com a maior área agricultável e que desperdiça 70% dos produtos. A fome também é uma grande violência contra a dignidade primária do ser humano.
Sobre a violência no trânsito e os homicídios, como bem falou o professor, morre menos gente nos conflitos entre Israel/Palestina (30 a 40 mil), Rússia e Ucrânia do que no Brasil, levando em conta somente essas duas áreas citadas (trânsito e homicídios). Temos ainda a violência de gêneros contra mulheres, homossexuais, LGBTs e estupros.
Não dá para conceber que 30 ou 40 milhões passam fome e metade da população de mais de 200 milhões de habitantes vive em favelas, barracos e periferias sem saneamento básico. Volto a indagar: Que Brasil é esse, tão rico e tão desigual? É uma questão histórica de séculos.
Essa situação vem desde os tempos coloniais, passando pelo império e a república que se tornou coisa deles da oligarquia capitalista selvagem e não nossa. O Brasil atravessou levantes, rebeliões, conjurações, ditaduras e redemocratizações, com ciclos de altos e baixos no crescimento econômico acumulativo sempre nas mãos de poucos. Esse quadro da desigualdade do sobe e desce continua profundo e vergonhoso perante o mundo.
O professor falou também da violência no trânsito e o alto número de homicídios, incluindo aí a guerra entre traficantes, milicianos e a polícia. De acordo com pesquisa do Atlas da Violência, não é concebível que a Bahia seja o estado com maior violência, destacando pela ordem cinco cidades do interior, como Santo Antônio de Jesus, Jequié, Simões Filho, Camaçari, Simões Filho e Juazeiro. Salvador está na nova posição e Feira de Santana é a décima mais violenta do país.
Neste cenário devastador da violência estão envolvidos políticos bandidos e corruptos como chefes de organizações criminosas que comandam o tráfico, o aliciamento, o suborno e as matanças daqueles que atravessam seus caminhos e fazem parte do poder através de eleições viciadas onde o eleitor ignorante e pobre de espirito é apenas um instrumento de suas manobras e manipulações.
Na educação somos uma vergonha nos índices de aproveitamento mundial, como agora ficou atestado no aspecto da criatividade dos jovens estudantes. Somos ainda um gigante adormecido pela própria natureza. Costa Rica, Colômbia, Chile, Uruguai e a própria Argentina, nossos hermanos, com todas suas crises, nos supera na educação e na cultura.
Dentre mais de 60 países, estamos entre o 44º em criatividade, e pior ainda em matemática. Singapura, Coréia do Sul e Canadá tiveram as melhores pontuações e se desenvolveram através da educação, mas aos políticos e governantes retrógrados e egoístas do Brasil, o que interessa é ter o povo aos seus pés, votando em todas eleições por favor e dinheiro.
Estamos agora nas festas juninas gordas das eleições onde os prefeitos e o poder público em geral soltam milhões de reais superfaturados para bandas e cantores de ritmos alienantes e assassinos das nossas tradições, trocando o Gonzagão pelo Safadão.
No entanto, para enganar os bestas e idiotas, passam o ano alegando não ter recursos suficientes para melhorar a educação, a nossa cultura e a saúde. Como explicar esse paradoxo? São os próprios poderosos que mais alimentam a violência.
QUEM ALIMENTOU A VIOLÊNCIA?
POR QUE ELA? POR QUE ELE? POR QUE MEU FILHO OU MINHA FILHA? NINGUÉM ESTÁ MAIS LIVRE DA VIOLÊNCIA.
O título é uma pergunta que carece de muita reflexão sociológica e filosófica. Outra indagação seria: A violência se alimenta do Estado ou é o Estado que se alimenta da violência? Para a primeira, diria que foi a sociedade que ao longo dos últimos anos alimentou a violência quando ela sempre foi indiferente à pobreza e aos problemas sociais de desigualdades.
Quando a violência começou a crescer no Brasil, ela passou a se alimentar do Estado que, no lugar de ocupar seu espaço de direito, deixou que os bandidos fizessem o seu papel, tomou as favelas e se aproveitou do povo carente de tudo, tornando-o prisioneiro dos traficantes e milicianos. Ela entrou para explorar e dar a “proteção” que o Estado não fez.
Do outro lado, o Estado também se alimenta dessa violência quando gera mais violência com tanques, soldados despreparados e armas pesadas, como se fosse a solução. Temos uma corporação militar arcaica que precisa ser repensada, reformada ou até mesmo extinta para criação de outra com outra linha filosófica.
Essa polícia militar que temos, que mata mais pobres e negros, e que está a serviço dos patrões do Estado, não passa de bucha de canhões ou pau mandado de uma política que há séculos não tem dado certo. Tem um ditado popular que diz que errar é humano, mas continuar no erro é uma burrice.
O pior de tudo é não admitir isso como fazem os donos do Estado que preferem continuar investindo pesado em armamentos, contratação de mais e mais policiais, grupamentos de violência e construção de penitenciárias do que cuidar melhor das nossa crianças e jovens, com educação e amparo social.
Temos ainda uma sociedade conservadora às mudanças, como a descriminalização das drogas, e indiferente à miséria que só sabe dizer que bandido bom é bandido morto. Ela acha que apenas dando uma cesta básica ou uma esmola na esquina da rua, no semáforo, está fazendo sua parte. O resto que se dane. É uma sociedade egocêntrica.
Essa sociedade de mentalidade burguesa de maior poder aquisitivo e rica achou e ainda acha que resolveria seus problemas se trancando em apartamentos luxuosos cheios de grades, porteiros eletrônicos e equipamentos tecnológicos sofisticados de última geração.
Como a violência no país só fez aumentar, e a tendência é piorar, invadindo os asfaltos pobres e ricos das médias e grandes cidades, agora o indivíduo chora quando alguém da sua família é atingida com golpes fatais, como estão vendo recentemente no Rio de Janeiro e em Salvador.
Por que ela, cara? Com suas lágrimas nos olhos, foi a pergunta feita pelo marido da mulher que foi morta na troca de tiros entre a polícia e os traficantes, O problema é que você nunca parou para pensar que um ente querido poderia também ser a vítima dessa violência que a própria sociedade vem alimentando há anos.
Poderia ter acontecido com outra pessoa qualquer, no caso os mais pobres que mais sofrem com a violência, e aí você permaneceria indiferente, como sempre foi, porque não foi consigo. Ela estava na hora e no lugar errado, como também aconteceu com um senhor trabalhador idoso que se encontrava dentro de um ônibus.
Nesse momento trágico, a dor não tem distinção de classe, mas sem essa de indagar do porquê com ela, se com essa violência, do tipo guerra civil em que vivemos, ninguém pode abrir a boca e dizer que é inatingível. Nos falta a consciência de que foi essa nossa sociedade que criou o monstro que agora está devorando o próprio criador. É o filme de ficção se transformando em realidade, onde o criador é engolido pela criatura.
SARAU DEBATEU ÁRABES E JUDEUS NA PENÍNSULA IBÉRICA SÉCULO VIII AO XV
A ESCRAVIDÃO BRANCA OU CRISTÃ PELOS MUÇULMANOS TAMBÉM FOI UM TEMA EM DISCUSSÃO.
Mais uma vez, o Sarau A Estrada, que já recebeu o Troféu Glauber Rocha de Cultura e está completando 14 anos de existência, deu uma demonstração de força cultural e de resistência com a participação de intelectuais, professores, artistas, jovens estudantes e outras pessoas interessadas na troca do conhecimento e do saber.
Foi uma noite encantada na expressão das pessoas (mais de 30) que vieram ao nosso encontro no último sábado (dia 15/06/24), no Espaço Cultural A Estrada, quando foi discutido o tema “Árabes e Judeus na Península Ibérica no Século VIII ao Século XV e ainda sobre a “Escravidão Branca ou Cristã” que ocorreu no século XVI ao final do século XVIII na região da Berbéria (Tripoli, Tunísia e Argel”.
Árabes, Judeus e Escravidão Branca
Os trabalhos foram abertos pelo professor Itamar Aguiar que falou da importância do tema e das influências árabe e judaica que chegaram até o nosso país com a conquista de Portugal. Tratou da questão dos judeus trazidos por Portugal que chegando aqui eram obrigados a se tornarem cristãos, principalmente na época da inquisição.
Fernando fez uma profunda pesquisa dividida em diversos períodos, como o romano, visigótico, os judeus em Al-Andaluz, os judeus nos reinos cristãos, os árabes na Espanha, relação com os reinos cristãos, a economia e a cultura, o legado linguístico e toponímia – nomes de lugares.
“Para o que aqui nos interessa usaremos o fio do começo com algumas considerações dos passos da conquista romana que sustentaram a questão dos judeus em séculos antes de Cristo e adentraremos aos séc. V e VII d.C com os visigodos e a escravidão dos judeus, chegando ao sec. XV com a expulsão dos judeus não convertidos, em decreto assinado pelos reis Católicos, surgindo assim o grande movimento migratório de judeus, o dos sefarditas judeus provenientes de Sefarad, Espanha” – afirmou o palestrante em sua exposição.
Logo depois ele fez uma descrição sobre os árabes na Península Ibérica, destacando que a dominação islâmica não teve a mesma duração, nem as mesmas repercussões, em todas as zonas peninsulares entre Portugal e Espanha.
“Durante 781 anos, a Espanha medieval foi governada, total ou parcialmente por muçulmanos que presidiram uma extraordinária experiência cultural. A chave para entender o Al-Ándalus está em sua estrutura social não ortodoxa e em sua localização política entre dois mundos: oriental e ocidental”.
O jornalista e escritor Jeremias Macário falou sobre a Escravidão Branca que ocorreu na região da Berbéria (Tripoli, Tunísia e Argel), no período do século XVI ao final do século XVIII. Seu trabalho foi baseado no livro “Escravos Cristão, Senhores Muçulmanos”, do autor Robert. C, Davis, historiador e professor da Ohio State University, Phd em história do Mediterrâneo e da Itália.
Assinalou que essa escravidão foi um tipo de revanchismo dos muçulmanos às Cruzadas entre os séculos XI e XII. Eram corsários e piratas que aprisionavam os brancos ou cristãos em navios e nas regiões litorâneas da França, Portugal, Espanha e, principalmente, na Itália e depois pediam resgates ou levavam esses escravos para os banhos públicos (locais de prisões) que depois eram submetidos a trabalhos forçados.
O assunto é inesgotável, mas os nossos palestrantes Fernando Michelena, o professor Itamar Aguiar e o jornalista e escritor Jeremias Macário conseguiram fazer uma síntese histórica sobre o assunto, tão importante que deixaram legados e muitas de suas influências culturais para o nosso povo brasileiro desde a colonização portuguesa. Logo depois, os debates foram calorosos e valorosos, como do português Luis Altério, da historiadora Lídia, do professor Rubens Mascarenhas e tantos outros.
Cantorias, causos e poesias
Como sempre, após as palestras, o espaço foi aberto a declamações de poemas autorais, cantorias de viola por conta do nosso amigo Vanberto que nos abrilhantou com seu show, contos de causos, estórias populares e troca de ideias que vararam a madrugada. Num clima de interação cordial e fraternal entre amigos e amigas, tudo isso foi acompanhado de bebidas e comidas (cerveja, licor, vinho e uma cachacinha), com destaque para a saborosa dobradinha feita pela nossa anfitriã Vandilza Gonçalves, muito elogiada pela sua dedicação e gentileza.
Numa decoração totalmente junina, lembrando nossas tradições nordestinas, também de autoria de Vandilza, foi mais um sarau que marcou os corações dos participantes interessados por manter a nossa cultura e a nossa memória vivas. Tudo isso ficou registrado nos depoimentos das pessoas que fizeram parte do evento.
“Esses encontros lindos nos é de uma profundeza sem tamanho. O aconchego em que somos recebidos e acolhidos, então… Essa delicadeza e a voz que nos é permitida emanar e escutar (bater papo) atravessam o pensamento nos emergindo em um caldo de diferentes culturas. A cada encontro há uma energia boa. Assim também aos queridos amigos estradeiros que não puderam ir, fizeram muita falta. Contudo, todos foram lembrados nos nomes colocados nas bandeirinhas”- conforme impressão da nossa poetisa Maria Regina.
O nosso frequentador Dal Farias disse que a intervenção de Fernando, Itamar e Jeremias foi de uma contribuição primordial para nosso entendimento e compreensão do tema abordado, trazendo para todos a questão que foi a epopeia árabe para conquistar o ocidente, principalmente a península ibérica. Gostei das intervenções de Rubens e Luis Altério. Foi uma compilação dos meus estudos do velho mundo.
De acordo ainda com Dal, o que mais me encanta no sarau é o desprendimento. É surpreendente quando encontramos, não somente os intelectuais, mas também a fartura, a forma chique, mesmo que rústica, do bom receber e do compartilhamento. Vamos valorizar o Sarau Cultural A Estrada porque somos gratos por este espaço.
Cleu Flor também fez seus agradecimentos e apreciações, bem como Luis Altério, Itamar Aguiar, o nosso fotógrafo José Silva e seu filho Denis, o contador de causos Jhesus, Armando e sua esposa Rose, Humberto e Rose, Liu Telles, quando afirmou termos voltado ao tempo em que as pessoas batiam papo uns com os outros. Todos (mais de 30 presentes) expressaram seu grau de contentamento por mais uma noite cultural.
Segundo o palestrante Fernando, o querer unir a todos os que como eu, agradecemos por ter desfrutado de uma noite deliciosa onde respiramos cultura, tolerância, alegria e camaradagem. Obrigado a todos pela agradável companhia e pelo acolhimento dos anfitriões.
CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS(I)
(Chico Ribeiro Neto)
Esse foi o título da minha matéria sobre Carybé, publicada na revista “Manchete” número 1.214, em 26/07/1975. A foto é do saudoso Lázaro Torres.
Como a entrevista é um pouco longa, publico hoje a primeira parte da conversa com esse artista, que disse: “Quem está certo é o vira-lata”. Carybé morreu em outubro de 1997.
Segue a primeira parte da matéria:
“A talha monumental em que Carybé deu corpo e alma aos santos do Candomblé provoca, logo à primeira vista, dois fortíssimos impactos que a gente nunca mais esquece. O primeiro, de ordem propriamente artística, deixa o espectador em delírio. Há tanta força naquelas formas, tanta vida naquela madeira, e é tamanha a angústia do artista para iluminar mais ainda os orixás que até os buracos furados na tábua parecem transportar para a composição pedaços do firmamento. O outro impacto é da ordem do labor.
A massa de trabalho bruto que tem aquela talha é qualquer coisa de alucinante. Contam as testemunhas oculares que Carybé, com as mãos totalmente rachadas e os dedos em sangue, vivia com montes de panos amarrados nos braços para poder segurar o cinzel e aguentar a dor, até “esquentar”.
Estes dois aspectos definem a estrutura fundamental da personalidade de Carybé: um artista extraordinário, dotado de uma força de inspiração propriamente genial, e um trabalhador braçal absolutamente invulgar, um cavalo, um monstro. Sobre essas duas vigas-mestras de seu caráter correm então uma porção de traços diferente, contraditórios, tortuosos, difíceis, que fazem desse argentino-baiano um idólatra da liberdade e ao mesmo tempo um intransigente defensor da disciplina, uma alma de boêmio inveterado e um profissional rigoroso que não admite o amador nem mesmo no ramo da boemia. Esse novelo de virtudes e pecados incomuns confere a Carybé um poder de sedução praticamente irresistível.
Uma das conclusões filosóficas a que ele chegou sobre a vida, aos 64 anos de idade, resume sua visão de mundo:
“Quem está certo é o vira-lata. Dorme meia hora, acorda, dá um bordejo pelos restos de feira, dorme de novo, cansa de dormir, se espreguiça, boceja, e sai por aí catando vida no rumo de seu faro. Este negócio de dormir oito horas seguidas está errado. Porque o sujeito tem de ficar sempre de cabeça acesa”.
Carybé chega a essa conclusão refletindo sobre os tempos duros que atravessou antes de conhecer a estabilidade. Trabalhava no jornal “Pregón”, de Buenos Aires. Um ordenado fabuloso, máquinas novinhas, edifício próprio, enfim um jornal tão maravilhoso que tinha de ir à falência. E foi, Corria o ano de 1938 e o jornalista argentino mudou-se para São Salvador da Bahia, cidade pela qual vivia apaixonado. Mas a Bahia, contrariamente à lenda, não dá camisa assim tão facilmente. Sem dinheiro, Carybé foi morar debaixo do Trapiche Adelaide, na praia da Preguiça, partilhando a existência clássica dos que têm por cama uma folha de jornal.
“Foi um tempo maravilhoso, uma época de liberdade fantástica. Sem compromissos, dormia quando me dava sono, andava por aí, ia à Cidade Alta, e estava permanentemente de cuca acesa e limpa. Uma verdadeira vida de cachorro vira-lata”.
Mas nesses bordejos acabou conhecendo Mestre Bimba, criador da capoeira regional, homem respeitado por todas de cais de porto. Mestre Bimba arrumou para o argentino um lugar de foguista num daqueles “Ita” da canção e Carybé veio de porão para o Rio de Janeiro, onde tinha conhecidos com quem podia arranjar alguma grana para desarnar. Arrumou emprego na “Folha Carioca”, depois foi para a “Tribuna da Imprensa” do tempo do Lacerda, e depois para o “Mundo Ilustrado”.
Pela altura de 1950 já se tinha tornado íntimo amigo de Rubem Braga, que o apresentou ao Anísio Teixeira, que falou dele para o governador da Bahia, Otávio Mangabeira. O argentino foi contratado imediatamente pelo governo baiano e ficou trabalhando para o Estado, fazendo painéis para as escolas. Data também dessa época o álbum “Sete Portas da Bahia”, com mais de 300 desenhos. Carybé se estabelecia enfim, definitivamente, no reinado de seus sonhos, nessas terras da Bahia onde sempre desejara viver e morrer. Mas, até chegar lá conheceu muitas terras e longes mares. (Continua no próximo domingo)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
SÓCRATES CONTESTADO
Nesta semana postaram num grupo do Zap um possível texto do filósofo grego Sócrates (470-399 a.C) onde muitos contestaram suas ideias sobre a queda da democracia. Teve gente que expressou seu ponto de vista no sentido de que o escrito não foi dele, o Sócrates, mas de outro intelectual qualquer. Cada um tem o direito de duvidar ou concordar.
Seja do filósofo ou não, quem emitiu tal opinião teve uma leitura apequenada dos direitos humanos, sobretudo quanto as mulheres quererem ser iguais aos homens e os pobres serem ricos. “Para mim o texto é preconceituoso e deslocado do nosso tempo onde a liberdade e a igualdade dos homens e mulheres é um direito constitucional” – declarou um dos membros do grupo.
Leia o texto e faça sua análise da previsão de Sócrates sobre a queda da democracia. Diz o seguinte: “A democracia deve cair porque tentará se adaptar a todos… Os pobres vão quererá riqueza dos ricos, e a democracia a dará a eles. Os jovens vão querer ser respeitados como os idosos, e a democracia vai dar-lhes isso. As mulheres vão querer ser como os homens, e a democracia vai dar-lhes isso. Os estrangeiros vão querer os direitos dos nativos, e a democracia vai querer dar-lhes isso. Os ladrões e os fraudadores vão querer funções governamentais importantes, e a democracia vai dar-lhes isso. E naquela época, quando ladrões e fraudadores finalmente e democraticamente assumirem a autoridade; porque os criminosos e malfeitores querem o poder, haverá uma ditadura pior do que na época de qualquer monarquia ou oligarquia”.
Na minha visão, não acredito que o escrito tenha saído do punho de Sócrates e, no texto existem muitos vícios de linguagens, mas essa não é a questão. Concordo em algumas coisas, em parte, como a de que a nossa democracia vem sendo ameaçada pelo extremismo de direita com suas ideias arcaicas e medievais.
Os pobres continuam a lutar para terem, pelo menos, uma melhoria social em suas vidas, mas essa democracia não concederá porque ela ainda é subordinada à elite burguesa que não aceita distribuir suas rendas. No que se refere às mulheres, existe o direito constitucional de igualdade, e é justo, mas muitas, infelizmente, terminam se masculinizando quando assumem cargos importantes de chefia e esquecem sua valorização feminina de decisão e determinação. Para provar sua competência, a mulher não precisa renegar sua feminilidade. Não acho que o texto seja machista como muitos julgaram.
No Brasil, por exemplo, é verdade que os fraudadores e malfeitores almejam o poder e terminam exercendo funções governamentais. Podemos constatar isso nas infiltrações dos traficantes e milicianos na política e, quando lá estão, pregam a ditadura.
A extrema direita não deixa de ser uma impostora que chega com sua linguagem mansa e ilude os incautos que acreditam nas palavras de mudanças, tendo em vista que não suportam mais tanto tempo de repetição da mesma política onde só faz aumentar a pobreza e as desigualdades sociais.
“PERGUNTE AO CAVALO”
Como todos bem sabem, o cavalo é um dos animais mais antigos da humanidade e em algumas comunidades era considerado como um deus rei pela sua força e velocidade. Várias civilizações antigas tinham o cavalo como um ser mitológico, inclusive na cultura imaginária grega.
Os cavalos teriam sido originários da Ásia Central, mas existe outra versão de que tenham vindo da América Setentrional de onde emigraram para a Ásia e de lá para a Europa e África. Os árabes conseguiram apurar as raças mais velozes. Sempre foram utilizados nas guerras até meados do século passado (Segunda Guerra Mundial), quando foi substituído por armas mais sofisticadas, mortíferas e letais.
Graças aos cavalos, os romanos criaram seu vasto império. Cada rei e guerreiro tinha o seu predileto, como o de Napoleão, César Augusto, Alexandre, o Grande, Átila e outros. Até diziam que por onde o cavalo de Átila passava não nascia grama. Os índios idolatravam os cavalos, usados na caça e nas guerras.
Os incas quando viram os espanhóis em seus cavalos, sob o comando de Francisco Pizarro, chegando como trovões, os chamaram de deuses e assustados se rederam aos conquistadores. Na emboscada, o chefe Atahalpa foi feito prisioneiro, isso por volta de 1532.
Bem, fora sua história que é bastante rica, sobre o cavalo existe uma fábula budista. Contam que um buda saiu em disparada em seu cavalo e por pouco não esmagou o outro monge que conseguiu se salvar porque foi rápido e pulou fora do seu alcance.
Sem entender o que estava havendo diante daquela atitude agressiva e furiosa, o buda olhou assustado e gritou para seu colega: – Para onde vais tão apressado?
O outro virou rapidamente, e em alto e bom som respondeu: – Pergunte ao cavalo.
Estamos numa sociedade invertida em seus valores onde vivemos em disparada passando por cima dos outros, muitas vezes sem saber para onde vamos. É aí que está na hora de cada um procurar domar o seu cavalo que está dentro de si, senão você pode ferir o outro ou se arrebentar lá na frente. Livre-se do cavalo que está dentro de você.
Como dizia Nietzsche, “É preciso conter o coração, porque, se o deixarmos livre, depressa perdemos a cabeça”. O cavalo é um animal dócil quando bem cuidado. O pior é o cavalo que está dentro de cada. É desse que é preciso libertar-se.
Seu cavalo não deve sair por aí desbaratado atropelando quem quer que seja, como se estivesse numa guerra contra o inimigo. Infelizmente, é isso o que vem acontecendo nos dias atuais, nas competições, na indiferença, no ódio, na intolerância, na violência e na maneira de agir sem antes pensar no que está fazendo.
Cuidado para não passar seu cavalo por cima do outro com ofensas pessoais, mentiras, calúnias e difamações. As eleições estão chegando e é uma época propícia para cada um usar o seu cavalo que tem dentro de si para pisotear seu adversário com sua pata das fake news, da desonestidade e da corrupção através da compra do eleitor. Quando o sujeito é bruto, costuma-se chamá-lo de cavalo.
Treine seu cavalo para andar galante em seu galope e na sua picada cadenciados onde seja admirado por onde passar. O cavalo do russo Putin e o do judeu Benjamim Netanyahu, o “Bibi” tem o instinto do extermínio e da matança. E o seu cavalo agressivo contra o meio ambiente?
Para onde vais com tanta correria? Pergunte ao cavalo. Como dizia Nietsche em “Assim Falava Zaratustra”, não deixe seu voo (ou seu cavalo) se extraviar da terra. Todo poder a ela. Nesse mundo tão desumano, cada um deve se reconciliar consigo mesmo e aprender a controlar o seu cavalo. Não deixe que ele siga em disparada. Mantenha as rédeas firmes.


















