Costa a Sotavento da Mina: O tráfico em Ajudá (Uidá)

Os primeiros navegadores, os portugueses, fundaram o castelo de São Jorge da Mina, em 1482, na Costa da Mina. Mais tarde Portugal ficou sob domínio da coroa da Espanha, de 1580 a 1640. No século XVII os holandeses se apoderaram de Pernambuco e das ilhas de São Tomé e Príncipe, bem como de Angola e do castelo, em 1637.

Com essa intervenção holandesa, conforme cita o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger em sua clássica obra “Fluxo e Refluxo”, Portugal perdeu o monopólio do comércio na costa da África. Por mais de um século, o tráfico negreiro dos negociantes baianos, principalmente, viveu períodos de desordens e intrigas, sem falar no contrabando do ouro, subornos e conflitos.

Somente no final do século XVII o comércio na Costa da Mina se desenvolveu com a Bahia. Segundo Verger, o estatuto das nações europeias era diferente na Costa do Ouro e na Costa a Sotavento (Golfo do Benin).

Na Costa do Ouro, elas estavam fortemente entrincheiradas em fortalezas construídas à beira mar, sólidas para resistir aos assaltos dos chefes indígenas ou das embarcações piratas.  Os europeus dominavam o mercado local e proibiam o acesso aos navios das nações estrangeiras, caso de Portugal.

No entanto, na Costa da Mina, as fortificações em Uidá se situavam no interior das terras, sendo incapazes de resistir por muito tempo aos ataques das autoridades indígenas (reinos que sempre viviam em guerras).

Em “Fluxo e Refluxo” o autor destaca que havia ao longo da costa uma série de pequenos reinos que guerreavam uns contra os outros, especialmente na Costa da Mina. O reino de Ardra, por exemplo, controlava os caminhos desde o interior. Podia bloquear quando bem quisesse e cortar o abastecimento de escravos em benefício do seu porto. Por sua vez, esse reino era submisso ao seu vizinho Oyó, ou Ulcumy, que era grande inimigo do rei de Daomé.

Como a situação era vexatória e o comércio desorganizado por causa das intervenções holandesas que obrigavam que baianos e portugueses negociassem com eles no castelo de São Jorge pagando um tributo de dez por cento, desde 1680 Portugal tentava construir um forte em Uidá, mas sem sucesso.

Por volta de 1698 as desordens prosseguiam na costa em virtude dos conflitos entre os reinos que impediam que o tráfico fluísse. A situação dos portugueses era delicada e desconfortável depois da tomada do castelo de São Jorge pelos holandeses.

Os descendentes dos antigos comerciantes que viviam na costa serviam de intermediários para o fornecimento de escravos às embarcações do tráfico do Brasil e das diversas nações europeias.

No entanto, muitas vezes o comércio se invertia e as trocas ocorriam com os ingleses, franceses e holandeses que tinham interesses em negociar com tabaco e ouro que no Brasil levava para a Costa da Mina de forma clandestina.

As autoridades, como os vice-reis, governadores, o Conselho Ultramarino e os comitês (Mesas de Negócios da Bahia) tentavam estabelecer regras, mas eram violadas pelos próprios negociantes e donos de navios onde cada um procurava realizar seu negócio.

Essa falta de ordem e má conduta dos portugueses terminavam arruinando o comércio e elevando os preços dos escravos que já eram escassos por causa das guerras. Para ter cativos de qualidade, capitães de navios chegavam a pagar o dobro do preço.

Existia até uma rivalidade entre Lisboa e a Bahia pelo controle do comércio na costa da África. Os negociantes da Bahia se recusavam a buscar escravos em outras regiões, como recomendava Portugal.

Na tentativa de resolver o problema, o vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Menezes autorizou, em 1721, o capitão Joseph de Torres a construir um forte em Uidá (Ajudá), só que tempos depois foi destruído nas guerras. O próprio capitão tinha fama de trapaceiro e chegou a ser preso pelo reino de Portugal. O projeto não deu os resultados esperados.