Nos últimos anos a oposição e alguns contestadores de plantão têm apontado que as urnas eletrônicas brasileiras são passíveis de fraudes. No entanto, entendo que a fraude está nos próprios candidatos, muitos dos quais falsários, investigados por corrupção, embusteiros e não pagadores de promessas que enganam os incautos eleitores.

  A fraude está mais no próprio sistema eleitoral que por natureza favorece os mais fortes e astutos que usam as brechas para se eleger. A fraude está no conjunto das fake news, nos políticos mentirosos, nos engomadinhos engravatados maquiados de defensores do povo e agora nas montagens da IA – Inteligência Artificial.

A urna eletrônica no Brasil foi criada há 30 anos, automatizada por uma empresa brasileira, a Omnitech Serviços em Tecnologia e Marketing, introduzida nas eleições municipais de 1996. O primeiro presidente eleito eletronicamente foi Fernando Henrique Cardoso.

   As gerações de meia idade lembram muito bem daquelas urnas analógicas ou de papel onde os votos eram introduzidos numa caixa de madeira e até de papelão frágil. Meu primeiro voto, se não me engano, foi em 1966 durante o início do regime militar, no município de Amargosa, quando fui escolhido para ser mesário na brenha de um povoado.

  Após encerrada a votação (as eleições eram municipais e para deputados), os mesários retornaram à noite no breu de uma estrada de chão, acompanhados de um ou dois soldados, com um medo danado de sofrer um assalto de algum candidato insatisfeito interessado em reverter os resultados do pleito.

   Bem antes disso, na Velha República, as fraudes eleitorais eram generalizadas pelos “coronéis” do sertão, fazendeiros poderosos e pelos chefes políticos valentões que não hesitavam em matar seus adversários para se manter no poder. Muitos votos eram anulados, urnas extraviadas e até queimadas.

   Uma eleição ganha num município valia uma patente de “coronel”, que poderia deixar de ser se perdesse. O voto de cabresto (ainda existe até hoje num esquema mais sofisticado) era disputado na base da bala, da tocaia para eliminar o chamado “inimigo”.

   O “coronel”, ou candidato, sabia o voto de cada agregado seu que trabalhava para ele. Cada urna era marcada e se sabia quem votou contra ou a favor. O “traidor” era surrado e até pagava com a pena de morte.

    Com o passar do tempo, ainda em plena ditadura militar, o esquema modernizou-se um pouco, mas os métodos eram parecidos. Permanecia o medo de se votar contra o prometido e ser descoberto pelo candidato, os cabos eleitorais e os coordenadores da campanha.

  Confesso que votava naquele que meu pai indicasse, com receio de que ele viesse a saber depois que votei em outro que não era seu coligado. Esse medo no subconsciente sempre perseguiu o eleitor até hoje como resquício da votação no papel.

  As urnas antigas nos deixaram aquele saudosismo do eleitor revoltado contra o sistema e o regime de opressão, que escrevia nas cédulas sua opção por algum personagem folclórico da cidade, no jumento do seu Zé da Carroça ou expressava sua rebeldia com “abaixo a ditadura”, dentre outros recados ousados aos políticos.

    Hoje não dá mais para se fazer isso com a urna eletrônica que o Tribunal Superior Eleitoral garante que é segura, mas a fraude está mesmo na maioria dos candidatos eleitos que usam o dinheiro e se aproveitam da concorrência desleal que o sistema oferece para quem tem mais recursos e a máquina do poder na mão.