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:: jun/2023

MIL DESCULPAS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Desculpa, desculpa, desculpa,

Peço mil desculpas,

Nem todas são sinceras,

Meras palavras de boca oca,

Por vezes tão maquinal;

Desculpas pelo meu verso,

Se atravessou o seu,

Entre a linha do bem e do mal.

 

Desculpa, desculpa, desculpa,

Por não ter lhe telefonado,

Não retornado seu recado,

É que ando muito ocupado;

Desculpa ter acabado nosso amor,

Pela mensagem do celular,

Sem sentir de perto seu olhar,

Sua expressão de raiva e dor.

 

Desculpa, desculpa, desculpa,

Por ter matado o tempo,

Negado sua existência;

Seguir contrário ao vento;

Confundir anormal com normal,

Religião, fé e ciência,

Ser repetitivo superficial,

Como um agressivo ativo,

Com desculpas de passivo.

A BAHIA DE HOJE E A DE 200 ANOS NAS LUTAS PELA INDEPENDÊNCIA

Quando chega o “Dois de Julho”, data da independência da Bahia livre do jugo dos portugueses, historiadores e pesquisadores escrevem muito sobre a história daquela época, os fatos, os personagens, os símbolos e as lutas travadas que contaram com a participação popular de brancos, negros, mulatos, senhores de engenhos e índios.

No entanto, pouco se fala sobre a Bahia de hoje no campo socioeconômico e a de 200 anos na época das lutas pela independência. Os sociólogos, antropólogos e estudiosos precisam mais se aprofundar nesta questão e mostrar que, depois de 200 anos, continuamos um estado pobre, subjugado pelos poderosos e ainda com os mais baixos índices nos níveis da educação, da saúda, do desemprego e do saneamento básico em relação aos outros estados da federação.

É claro que evoluímos nos setores da economia, no progresso industrial e tecnológico, nos programas de políticas públicas e outros itens humanos, mas ainda é uma Bahia de muita pobreza, de baixa qualificação educacional, carente na saúde e ainda discriminatória e preconceituosa. Em termos de desenvolvimento humano e justiça social, a Bahia está atrasada depois de 200 anos.

Hoje Salvador é uma capital de cerca de quatro milhões de habitantes, onde mais da metade vive em habitações irregulares em terrenos insalubres e nos morros, sem a devida infraestrutura (um grande contingente proveniente do êxodo rural vindo do interior a partir dos anos 70 do século passado), cheia de problemas e com uma grande dívida social. As desigualdades sociais são gritantes.

Era uma Bahia de cerca de 100 ou 200 mil moradores da época da escravidão, do tráfico ilegal praticado pelos senhores de engenho, capitães de navios e traficantes de carne humana da costa africana, principalmente do Golfo do Benin, mesmo após as leis e acordos feitos, em 1831, com a Inglaterra para acabar com este comércio.

Foram estes mesmos negros cativos e emancipados que tiveram uma grande parcela de contribuição nas lutas pela independência do Dois de Julho de 1823. Ainda hoje, depois de 200 anos, de uma forma mais sofisticada, ao estilo selvagem capitalista, permanece a escravidão no trabalho com a exploração da mão de obra e com o poder na mão dos brancos, como os portugueses de outrora.

UM POUCO DE HISTÓRIA E O INTERIOR

Sobre um pouco de história desse bicentenário, um comentário de Alan Rodrigues, num jornal impresso da capital, diz que a conquista da independência do Brasil na Bahia é resultado de uma série de movimentos e mobilizações espalhados por todo estado. O sonho era se libertar da coroa portuguesa. O sonho continua em outras frentes libertárias, especialmente dos direitos humanos.

Segundo Alan, a origem da tropa patriota que enfrentaria os portugueses começou a se formar muito antes do Dois de Julho. Em fevereiro de 1822, antes de D. Pedro I decretar a independência no Grito do Ipiranga (Independência ou Morte), tiveram início os conflitos em solo baiano e tropas recuaram do Forte de São Pedro para o Recôncavo Norte, na Casa da Torre.

Conta o pesquisador que Antônio Joaquim Pires de Carvalho, senhor da Casa da Torre, arregimentou um embrião do exército libertador composto de brancos, negros, mestiços e índios. A Casa da Torre, que servia de ponto de vigilância contra os inimigos estrangeiros no mar, tornou-se uma das principais bases de comando da guerra.

Joaquim Pires de Carvalho, senhor de engenho se tornou capitão-mor agregado à vila de Santo Amaro da Purificação e primeiro comandante da tropa patriota, como ressalta Alan Rodrigues. A Feira de Capuame (Dias D´Ávila) forneceu mantimentos para os soldados e armazenou armas e munições, de acordo com o historiador Diego Copque em seu livro “A Presença do Recôncavo Norte da Bahia na Consolidação da independência”.

Historiadores descrevem que o acesso ao local era feito pela Estrada das Boiadas, com início na freguesia de Santo Antônio Além do Carmo e passava por Pirajá, Água Comprida (Simões Filho), Moritiba do Rio Joanes, chegando a Camassary, Capuame até chegar ao Açu da Torre. Por esse caminho o gado era levado para o matadouro de Barbalho. As tropas bloquearam essa estrada e os portugueses ficaram sem suprimentos.

Alan assinala que foi no primeiro centenário (1923) que foi inaugurada a primeira estrada Salvador-Feira (não essa BR-324). Às margens dessa estrada, em 27 de julho de 1822, foi instalado, no Engenho Novo Cotegipe, um quartel-general, a quatro léguas de São Bartolomeu de Pirajá.

Outros municípios também contribuíram para arregimentar apoiadores. A Câmara da Vila de Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro foi a primeira Casa Legislativa a se pronunciar pelo reconhecimento de D. Pedro I como regente constitucional do Brasil, como informa a diretora geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), Luciana Mandelli.

Outro município que teve importante papel na independência foi Saubara, pois sua localização representava entreposto para o Rio Paraguaçu e proteção de outras localidades. Vlademir Pinheiro, diretor da Fundação Pedro Calmon, enfatiza a participação feminina ao citar o movimento “As Caretas do Mingau”.

Eram mulheres de religião de matriz africana se fantasiavam para assustar os portugueses católicos e, assim, levar mingau para as tropas que se escondiam na mata. Dentro da história da independência, muita coisa foi resgatada através da oralidade do povo, como foi o caso de Felipa, de Itaparica, considerada uma das heroínas nas batalhas.

A Ilha de Itaparica teve também papel decisivo nos confrontos, interrompendo o abastecimento de tropas de Portugal – segundo Alan Rodrigues.  Outra cidade de destaque nas lutas foi Caetité, aqui em nossa região sudoeste, que aderiu, em 15 de agosto de 1822, a proposição do Brasil ter um único poder central executivo.

Caetité mobilizou o sertão baiano, com apoio financeiro, homens, armamentos e mantimentos para Cachoeira, sede do governo provisório. Os combatentes desta cidade ainda expulsaram os portugueses remanescentes após a vitória através de lutas travadas pelo grupo chamado “mata-marotos.

Embora o Dois de Julho seja tombado como bem imaterial da Bahia, em tese ficou resumido ao cortejo de Salvador. A diretora do IPAC, Luciana, vai entregar um projeto de revalidação do cortejo através de um edital para recebimento de propostas de inventário (Lei Paulo Gustavo), para levantamento de acontecimentos e personagens que fizeram parte das lutas.

De acordo com informações, cada município vai ganhar um busto que simbolize a passagem do Dois de Julho. Luciana cita a luta dos abolicionistas, a participação de Caetité e Vera Cruz. O projeto visa incluir todos baianos na luta de resistência e organização cívica, política e popular.

 

OS INIMIGOS DO POVO LEGISLAM A IMORALIDADE EM CAUSA PRÓPRIA

Além de se acharem intocáveis para cometer qualquer crime com a imunidade parlamentar, o Congresso Nacional não para de abusar da nossa paciência e nos tripudiar com suas leis imorais em defesa unicamente de seus interesses. Sem o menor respeito ao povo, e com o maior cinismo, esses parlamentares legislam em causa própria. Um dia a casa cai.

Como se não bastasse, agora mesmo, em votação relâmpago, a Câmara votou a lei da carteirada e quer punir com cadeia quem praticar a discriminação de políticos. Enquanto isso, a turma do mal suprime os direitos individuais e ninguém faz projeto para acabar com o desemprego, com a fome, a miséria no Brasil e a falta de punição.

Após quase um mês de a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal ter anulado a condenação do ex-deputado ladrão Eduardo Cunha, a Câmara aprovou um projeto histórico vergonhoso. Com rápida tramitação, passou por 252 votos contra 163, um projeto de Dani Cunha (União Brasil – RJ), filha do doutor Eduardo onde criminaliza práticas que venham a ser consideradas discriminatórias da atividade pública e a medida estende-se aos seus familiares.

Entre outras blindagens dos intocáveis inimigos do povo, os bancos não podem negar crédito a algumas pessoas de qualquer um dos três poderes porque elas têm atividade pública. Entre outras imoralidades esdrúxulas, o nojento projeto blinda cerca de 10 mil pessoas, parlamentares, magistrados, procuradores e dirigentes de partidos políticos e seus familiares.

Nessa hora, meu amigo eleitor do voto de cabresto e vendido por favores, direita, centro e gente das esquerdas se unem em causa própria, e que se dane a população. Para nos debochar por completo, ainda aparecem aqueles caras parlamentando da tribuna de que tudo está sendo feito pelo bem do Brasil.

As castas brasileiras da nossa frágil democracia cada vez mais se protegem e se fortalecem, enquanto os súditos e vassalos do rei ou dos reis, rainhas e príncipes são esmagados como farelos na máquina de triturar humanos. O projeto inconstitucional institucionaliza mais ainda a corrupção e protege os milhões de laranjas.

No século XIX (1826/27, 1831 e 1850), o parlamento brasileiro com sua aristocracia, procurava travar a aplicação de leis que proibiam o tráfico ilegal de escravos africanos e ainda dava guarida aos negociantes contrabandistas, como ainda ocorre nos tempos atuais.

Em pleno século XXI, essa Câmara imoral está a criar uma categoria especial de cidadãos com base em suas atividades ou malfeitos. As outras leis de proteção dos negros, dos menores, do consumidor e idosos são todas genéricas e desrespeitadas. Se o projeto passar pelo Senado, os 10 mil formarão uma máfia, uma gangue ou quadrilha organizada.

Somente cinco partidos votaram em bloco contra o projeto (PSOL, PC do B, Cidadania, Novo e Rede), somando 16 votos. Teve até gente do PT, como José Guimarães e Rui Falcão que votaram a favor. Também do PSDB, o senhor corrupto Aécio Neves se juntou a eles.  Para contrariar, Bia Kicis, do PL, votou contra. Nesse saco de farinha ou nesse caldeirão de feijoada, tem de tudo a gosto do freguês.

UM SARAU ARRETADO DE BOM!

Diva Santana Coqueiro, irmã de Dinaelza, morta na guerrilha do Araguaia durante a ditadura civil-militar de 1964, acompanhada da sua irmã Dilma Santana e da escritora Gilneide Padre, se deslocou de Salvador para participar e prestigiar o nosso “Sarau A Estrada” que teve como tema “Festa Junina – Cultura, Tradição e Religiosidade.

O evento colaborativo, que está completando 13 anos de existência e já merece uma grande comemoração em estilo pela sua duração e conteúdo cultural artístico (muitos falam que de fato já é de utilidade pública), foi realizado neste último sábado à noite (dia 17/06/23), no “Espaço Cultural A Estrada”, com as presenças de artistas, intelectuais, professores, jovens e outras pessoas interessadas que estiveram ao nosso encontro pela primeira vez.

Foi um sarau arretado de bom, que varou a madrugada com declamações de poemas autorais, causos e, principalmente, o show de violadas de cancioneiros da nossa música popular brasileira, no caso particular do momento, do nosso autêntico forró, com Walter Lajes, Manu di Souza, Dorinho Chaves, Marta Moreno e outros.

O pessoal foi chegando a partir das 20 horas com aquele espírito junino nordestino, recebidos pelos anfitriões Jeremias Macário e Vandilza Silva Gonçalves que preparou o nosso quentão e um assado de porco para dar mais sustança ao sarau.

Estiveram ainda presentes, João Paulo Oliveira Santana, Antônio Cilmo Monteiro de Brito, Sheila, Jurandi, Lany Fagundes, Adalberto (Dal), Jurandi, Conça, Cleide, Maria Luiza, Lídia, o nosso bom português Luis Altério, o professor José Carlos, o contador de causos Jhesus, o professor Itamar Aguiar, Alexandre Santana, nosso cantador e compositor Baducha que abrilhantaram nossa festa na troca de ideias, cantorias e recitais de poemas.

Como foi uma festa junina, não faltaram as comidas e bebidas típicas da época para não quebrar a nossa tradição cultural nordestina, a exemplo do quentão, do licor e também da cerveja e do vinho. Como sempre, a anfitriã Vandilza fez uns pratos deliciosos que foram saboreados por todos, num clima fraternal e festivo num bom papo bem proseado.

RELIGIOSIDADE, HISTÓRIA E TRADIÇÃO

Sobre o tema falaram o professor Itamar Aguiar, Jeremias Macário e Manu Di Souza. O professor fez uma relação antropológica e filosófica a respeito das festas juninas com as religiões católicas, o candomblé, as influências indígenas e a mistura de culturas africanas em seus ritmos, danças (o toré) e nas comidas.

O jornalista Jeremias Macário fez um breve histórico sobre o surgimento do forró lá pelos anos 30 e sua popularização nos anos 50 com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Marinês, Trio Nordestino e Dominguinhos. Forró vem do forrobodó e forrobodão de onde depois nasceram os gêneros baião, xote (danças dos salões europeus) e o xaxado que tem muita ligação com o cangaço nordestino.

Entre as décadas de 70 e 80, os chamados cabeludos Zé Ramalho, Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, principalmente, introduziram outros instrumentos no forró, como a guitarra, o sax, a bateria, o violão e o baixo, mas mantendo os mesmos conteúdos das letras que falam dos costumes, da vida nordestina, amor, dos retirantes e saudades da terra natal.

No entanto, a partir dos anos 90 a 2000, o nosso genuíno forro do zabumba, do triângulo e da sanfona, o chamado arrasta-pé do chão batido (o forró pé de serra) sofreu uma tremenda descaracterização, lamentavelmente com a introdução da lambada, do arrocha, do axé music, do sertanejo (sertanojo) e do pagode, com péssimas letras de cunho pornográfico, sendo a maioria de curtos versos sem sentido.

“FLUXO E REFLUXO” XXIV

CURIOSIDADES HISTÓRICAS DO TRÁFICO NEGREIRO, COMO A CAPELA DO SENHOR DO BONFIM E A REVOLTA DO PORTO.

A obra de Pierre Verger, “Fluxo e Refluxo” traz várias curiosidades a partir de pesquisas do autor em documentos e correspondências entre cônsules, vice-reis, capitães de navios e os próprios traficantes de carnes humanas. As negociações entre a Bahia e o Golfo do Benin eram cheias de intrigas e mortes que violavam as leis e os tratados.

Em uma de suas anotações, Verger registra que, em 1745, o capitão Theodózio Rodriguez de Faria, um traficante dono de três embarcações, construiu, por devoção, uma capela dedicada ao Senhor do Bonfim Crucificado de Setúbal, em Portugal, a mesma que, ainda hoje ergue-se acima do altar da mais popular igreja da Bahia. A capela foi inaugurada por ele em 1754.

Diante da desorganização que era o tráfico negreiro, um grupo de negociantes da Bahia propôs criar uma companhia onde limitaria o número de navios em 24 que iriam fazer o comércio na Costa da Mina, divididos e repartidos de três em três com uma espera de três meses entre a saída de uns e a partida de outros, fazendo assim o turno de dois anos. A empresa seria constituída entre Bahia e Pernambuco.

A companhia teria 31 artigos e o projeto previa a duração de dez anos. Os diretores seriam eleitos pelos interessados e a administração da Bahia, sob a proteção do vice-rei. Os navios seriam de uma capacidade de 440 a 600 escravos cada um e seriam armados para se defenderem dos piratas.

A carga principal seria o tabaco, completada com açúcar e aguardente. O tráfico seria feito à razão de cinco a seis rolos de tabaco, e não doze, quinze ou vinte, como acontecia de se fazer, por força da concorrência. A companhia seria obrigada a trazer todos os anos pelo menos quatro mil escravos à Bahia. Os cativos seriam vendidos por 130 mil reis os da primeira escolha, e por um preço menos elevado os de segunda e terceira escolhas.

Outra questão abordada por Verger foi quanto a criação da Companhia das Vinhas do Alto Douro, em 1757, da qual Joaquim Ignácio da Cruz era o administrador. Isso ocorreu durante o vice-reinado do conde dos Arcos. Fazia parte dessa sociedade o futuro marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello.

Na mesma época, na cidade do Porto, os atos e críticas dirigidos contra um organismo administrativo sob a proteção do rei de Portugal, na época D. José, eram considerados crimes de lesa-majestade, conforme a doutrina do futuro marquês de Pombal.

Alguns meses após a sua constituição, a Companhia das Vinhas (um monopólio) tornou-se tão impopular que todos os habitantes do Porto se levantaram contra ela, e os taverneiros lesados provocaram um tumulto, em fevereiro de 1757. Gritavam: Viva o povo! Morra a Companhia! Eles levaram o “juiz do povo” ao chanceler, rogando que a empresa fosse abolida, com ordens para que cada um pudesse vender e comprar o vinho livremente.

Os revoltosos invadiram a casa da companhia, quebraram móveis e rasgaram os documentos. O castigo exigido pelo governo foi o mais severo e foi conduzido pelo desembargador João Pacheco Pereira de Vasconcelos e o escrivão José Mascarenhas.

A manifestação foi considerada como crime de lesa-majestade. No total, 478 pessoas foram condenadas (424 homens e 54 mulheres), sendo 21 homens e cinco mulheres condenadas à pena capital. Outros tantos foram mandados para o exílio em diversas galés da África, além de outras penas, como proibição de permanecer no Porto, confiscos e penas pecuniárias.

AS LENTES FAZEM TUDO

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Sempre falam que uma boa imagem vale por mil palavras, isto é, dispensa até a linguagem dos textos. Existem matérias jornalísticas que, por mais que sejam bem-feitas, têm que vir acompanhadas de uma ou mais fotos. E por falar em fotografia, vem logo na cabeça a máquina fotográfica profissional que ainda sobrevive (estão comentando que a analógica vai voltar), mesmo com o advento do celular que pode registrar tudo, mas não com aquela resolução desejada. No entanto, o nosso papo aqui são as lentes, as peças mais importantes de uma máquina, que fazem tudo. Elas são delicadas e precisam ser bem cuidadas, senão pegam fungos e estraga tudo. São sensíveis à luz, na abertura e no fechamento, com a velocidade ideal para captar a imagem no foco certo. Desde quando foram inventadas, elas são preciosas e poéticas, a depender da imagem, como uma bela paisagem e até o desabrochar de uma flor, mas são também instrumentos de denúncia e registro de tragédias, catástrofes e da nossa história. Mesmo assim, o bom trabalho delas estão nas mãos, na sensibilidade e no olhar de um grande fotógrafo. Em Vitória da Conquista temos muitos bons profissionais, com seus notáveis legados na imprensa e nos acontecimentos em geral, mas não vamos citar nomes para não cometer injustiças. As lentes fazem tudo e ainda nos impressiona.

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DO PARAÍSO AO FIM

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Da explosão, o Supremo fez o paraíso,

O irracional ateou fogo;

O profeta alertou sobre o final juízo;

Ganância e arrogo;

Foguetes rasgam os céus desse espaço,

Do universo sideral;

O homem estúpido dele fez lixo e bagaço,

Selvageria do vil capital;

As florestas em labaredas ardem chamas,

Fumaças, cinzas, poluição;

Enchentes arrastam casas, morros e lamas,

Ciclones, ventos e furacão;

Lero-leros de reduzir gazes na atmosfera;

O incentivo é consumir;

Natureza não perdoa, nem o tempo espera,

Sem essa de choro e mimimi;

Não mais reversão do aquecimento global;

Primeiro vão os pobres,

Na tragédia do derretimento do gelo glacial,

E chega a vez dos nobres;

Aumentam os níveis dos rios e dos mares;

Somem ilhas e cidades;

A enxada tini no agreste salgado dos secos ares,

Prenuncio do fim das eras idades.

A DESONERAÇÃO DE IMPOSTOS DOS RICOS ONDE OS POBRES FICAM A VER NAVIOS

É sempre assim. Eles dizem que vão repartir, mas é tudo uma mentira, como foi a reforma trabalhista, ou escravista, onde os empresários gananciosos garantiram que iam gerar mais empregos e rendas para os trabalhadores. Tudo uma mutreta para explorar e escravizar mais ainda a mão-de-obra subserviente e necessitada que é obrigada a calar a boca a denunciar a transgressão às leis.

Aliás é mais uma lei “para inglês ver”, como foi a de 1813 selada num tratado entre Inglaterra e Portugal para acabar com o tráfico de negros trazidos da África para o Brasil. Ao contrário, os traficantes aumentaram mais ainda seus negócios ilegais e continuaram com seus navios negreiros comprando carnes humanas no Golfo do Benin, na Costa da Guiné e em Lagos.

A esta altura estou falando da dita desoneração de impostos dos setores mais ricos da economia onde eles prometem distribuir essas benesses coloniais, imperiais e republicanas mantendo os empregos e contratando mais gente, só se for para serviços de baixa qualificação, sem carteira assinada no chamado subemprego temporário ou intermitente. Enquanto isso, nossa educação, a saúde e o saneamento básico estão na lista dos níveis mais baixos do mundo. Aqui, os mais pobres pagam o máximo e recebem o mínimo.

Essa desoneração vai servir para encher mais ainda os bolsos deles e aumentar a concentração de rendas com o consequente aprofundamento das desigualdades sociais. Alguém aí acha que eles vão ser bonzinhos e dividir a bolada com seus trabalhadores, melhorando o salário ou promovendo cargos? O brasileiro acredita em tudo, mesmo depois de levar uma porrada. É do tipo que dá a outra face para apanhar.

Com um forte lobbie dos empresários (a maioria dos parlamentares é do ramo), esse Congresso Nacional aprova com a maior rapidez qualquer projeto do interesse de seus pares (caso da desoneração de impostos) e, com a maior cara de pau, dizem que é para o bem do Brasil.

No Senado e na Câmara existe todo tipo de bancada, desde a evangélica, a ruralista, do comércio, da indústria, da máfia e até a da bala, menos a do povo, que só serve mesmo para votar. Esse Congresso aristocrático, anacrônico e coronelista sempre foi imoral. Com ele, o Brasil vai continuar atrasado como nos tempos coloniais.

Para enganar os otários e fazer de conta que estão trabalhando, agora eles vão exibir, em horários nobres nas televisões, as novelas das CPIs (Comissões Parlamentares de Inquéritos) para distrair e divertir a população. O lamentável em tudo isso é que ainda tem gente que acha que essas CPIs vão resultar em punição contra criminosos e ladrões da pátria. Temos o pior e o mais caro Congresso do mundo.

O AGRO É TAMBÉM QUILOMBOLA?

O Brasil carrega o agro nas costas com um plano safra de 348 bilhões de reais e isenção fiscal, inclusive do ICMS de exportação pela velha Lei Kandir, para beneficiar o mercado exterior dos produtos in natura, os chamados grãos de “ouro” (soja, milho, algodão e outros).

Na propaganda, o agro é tech, é pop, é riqueza do Brasil e agora é até quilombola para convocar o pequeno a defender a pauta do grande empresário. Até pouco tempo, o pequeno era considerado pela economia como trabalhador autônomo individual ou familiar, mas passou a fazer parte do grupo empreendedor, incluso na pauta do capital, para confundir.

O roceiro que tem um sítio, ou o assentado do movimento do sem-terra com seu lote, acha que é agro porque dizem para ele que faz parte da categoria tech e pop. No sistema sempre os “sabidos e estudiosos” estão mudando a nomenclatura para ninguém entender nada. O propósito é este mesmo.

AGRICULTURA FAMILIAR

Costumo afirmar que minha alimentação na mesa do dia a dia vem da agricultura familiar e não da desse agro devastador dos nossos biomas (cerrado, pantanal, caatinga, pampas, amazônico e até da mata atlântica) que queima e derruba nossas vegetação e floresta, para expandir suas lavouras e criar gado para exportar para o mercado internacional.

É precisamente essa riqueza do Brasil latifundiário que encarece nossos produtos aqui dentro, porque é esse agro que dita os preços de suas culturas de acordo com as cotações das bolsas no mercado internacional. Sem consciência política do que ocorre, o pequeno termina defendendo a pauta que é só deles, dos grandes das bancadas ruralistas.

Neste último final de semana terminou no município de Luis Eduardo Magalhães, no oeste baiano, a maior feira agro do Norte e Nordeste, que movimentou mais de oito bilhões de reais. A exposição foi um desfile grandioso de máquinas potentes e sofisticadas. Não se ouviu falar sobre os financiadores, mas certamente lá estiveram o BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Esse agro é tão “pop” que, ironicamente, o milho e seus derivados, os quais fazem parte das comidas típicas do nosso São João Nordestino, sofreram aumentos em seus preços nessa época do ano porque esses grandes produtores beneficiários do suor do pequeno trabalhador preferem vender a matéria-prima (o milho) para o exterior (bem mais lucrativo e em dólar) e não para os próprios brasileiros.

Por causa deles vamos ter que substituir o milho por outro item alimentar fora da nossa tradição cultural, talvez por aqueles bagulhos norte-americanos, como o hambúrguer, o sanduiche ou o cachorro-quente. Só nesse pequeno detalhe, ou exemplo, você tem uma ideia mais exata de como funciona esse agro capitalista que vem causando sérios impactos ao nosso meio-ambiente.

Ainda na semana passada estava assistindo uma reportagem na televisão sobre a seca e a falta de água para os pequenos agricultores no sertão agreste de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Paraíba por onde passam os canais da transposição do Rio São Francisco, o nosso “Velho Chico”, tão maltratado.

As imagens mostravam justamente o contraditório desse sistema. De um lado, em Petrolina (Pernambuco), um assentamento do movimento do sem-terra praticamente sem água onde vizinhos chegam até a brigar pelo líquido. Pouco mais adiante, ao lado, um canal do rio nas terras de um empresário, com água em abundância, para irrigar suas frutas (uva, manga, melão, melancia) e outras lavouras.

Os assentados e até um núcleo de um quilombo sem acesso à água, enquanto o rico se deleita produzindo em grande quantidade suas frutas para exportação. Agora os assentados e os quilombolas estão inclusos como “agro é tech”, “agro é pop”.

OS ELEITOS DE DEUS

Tudo isso me faz lembrar a Nobreza Real e a Igreja Católica latifundiárias na Idade Média. A Igreja consolava os servos e vassalos de que a nobreza era eleita por Deus e que os pobres tinham que servir e trabalhar para ela, incluindo a própria Igreja, com todo fervor, devoção e submissão.

Bem, como nos tempos atuais do nosso capitalismo selvagem ocidental, herdado dos burgueses do Norte, tanto a plebe de lá, como a de cá também desses tempos modernos tecnológicos, acreditava e acredita, aceitava e aceita, com toda sua humildade, nesse papo sobrenatural dos eleitos do Senhor, isto porque dizia para si mesma e ainda diz que eles estavam e estão certos, com toda razão, porque detinham e detém a “sabedoria e o conhecimento” sobre os assuntos mais profundos e teológicos do Reino de Deus.

 

O DESCARTE DE “AMIGOS” COMO COISAS QUE PERDEM A VALIDADE E AS DESCULPAS

Nos tempos atuais, amigos são tratados como se fossem aparelhos celulares, geladeiras, fogões ou outros bens materiais que só servem enquanto estão funcionando. Quando dão defeitos, joga-se no lixo como imprestáveis ou objetos descartáveis. O mesmo se faz com os “amigos” quando eles não representam mais interesse para o interessado. Simplesmente joga-se fora, pede-se desculpas e vira-se as costas. “Amigo” hoje tem prazo de validade.

Antigamente, amigo não tinha prazo de validade vencida. Valia para sempre. Podia ter em conta que o amigo era sincero e eterno. Hoje, o tempo de duração, na maioria das vezes, é bem curto, dependendo do ter posses ou do sucesso social e econômico.

Se entre os dois um entra em fracasso financeiro ou perde seu destaque na sociedade, o outro que ainda estiver numa boa, não mais o procura e, quando o encontra por acaso, sempre vem com aquelas desculpas fajutas na tentativa de justificar seu afastamento, ausência ou sumiço. Não existe mais aquele amigo certo nas horas incertas, dos problemas e dos momentos difíceis.

– Oh, “amigo”, desculpa aí não ter comparecido ao seu aniversário. É que tenho andado com a vida corrida, com falta de tempo. Sabe como é a vida hoje: É aquela loucura! Desculpe por não ter lhe telefonado, passado uma mensagem ou feito um áudio! Meu celular estava com problema! Esqueci totalmente…

É assim o papo que rola quando o “amigo da onça” se encontra com o outro que tanto lhe dava atenção e depositava nele consideração e confiança. O sujeito até inventa que estava doente ou em viagem, na maior cara de pau. Ele já está em outro esquema, se passando de “amigo” para um novo conhecido abonado.

-Entendo a situação, tudo bem, sem problema! Para um bom entendedor, tudo basta, só que não dá para engolir as desculpas mentirosas. Lá se vai mais uma “amizade” em que o outro achava ser firme e sincera. Lá se vai mais uma ilusão, mais uma decepção com o ser humano.

Por falar em desculpas, coisa também são as quantidades delas que se pedem atualmente ao outro, desde a falta de pontualidade corriqueira nos encontros marcados até às agressões verbais e físicas, principalmente quando se trata do homem que bate na mulher.

A desculpa se tornou tão maquinal que a pessoa repete a palavra tantas vezes sejam as ofensas cometidas, isto sem corrigir o erro, e nem sente. No caso da violência contra a mulher, ele pede mais desculpas do que o número de agressões. É um rosário de desculpas

Existe até a desculpa pelas desculpas, e a do namorado ou namorada que termina o relacionamento pelo celular e depois pede desculpas pelo mesmo aparelho por não ter praticado o ato pessoalmente, como deveria ser.

Essa ação repetitiva de pedir desculpas e não refletir depois que foi errado se tornou coisa normal nos dias de hoje. Você solicita desculpa hoje por um gesto desagradável contra o outro e amanhã faz a mesma coisa e volta a pedir desculpas da mesma forma, sem perceber que está sendo falso.

Tem também os grosseiros e as grosseiras que nem pedem desculpas, quanto mais perdão pelo que faz. Há quarenta ou cinquenta anos, as pessoas tinham mais consideração uns para com os outros, e um pedido de desculpas era carregado de sentimentos verdadeiros, sem contar que se procurava não mais cometer o mesmo erro.

Nesse mundo tecnológico e superficial, a desculpa virou sinônimo de falsidade na boca das pessoas, tanto quanto chamar o outro de amigo-irmão numa mesa de bar, puramente por interesse. Basta um aperto de mão para a pessoa desconhecida chamar a outra de “amigo”.

 





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