:: 23/jun/2023 . 23:49
TIMES NÃO PODEM SER PENALIZADOS PELA VIOLÊNCIA DE CERTOS TORCEDORES
No Brasil sempre se procura o atalho mais simples para se resolver questão mais complicadas por falta da aplicação de medidas e leis mais rígidas das autoridades que deveriam cuidar do problema. É fácil se eximir da responsabilidade e punir um terceiro que não tem culpa no cartório. É uma maneira de querer tapar o sol ou a chuva com uma peneira.
Um caso típico disso está relacionado com a crescente violência nos estádios de futebol no Brasil, a exemplo, do que ocorreu esta semana na Vila Belmiro no jogo entre Santos e Corinthians e no São Januário entre o Vasco e o Goiás onde torcedores soltaram foguetes, bombas, rojões e objetos perigosos no campo, revoltados com as derrotas de seus times.
Imediatamente a Justiça Desportiva da CBF penaliza as equipes com as perdas de público em seus estádios como se os times tivessem algum controle sobre a estupidez e a violência de determinados torcedores em momentos de raiva e ira. Não passam de bandidos assassinos que deveriam ser encarcerados. Para o reconhecimento desses brutos existe toda uma tecnologia disponível.
Como esses indivíduos violentos passam nesses portões com todo esse arsenal de guerra? Não existe fiscalização da polícia e dos agentes que cuidam da organização das partidas? Cadê o Ministério Público estadual e federal que não toma outras providências para evitar essas ocorrências e distúrbios de agressão? Quais órgãos estão sendo negligentes na manutenção da ordem?
A mesma coisa é quando grupos de torcedores praticam o racismo, a xenofobia e a homofobia contra jogadores. Por ser mais fácil, a tal justiça cega e os órgãos preguiçosos multam financeiramente o time e até existe ameaça de tirar os pontos ganhos no certame. Confesso que não consigo compreender essa lógica.
Como é possível a diretoria de um time ser responsável por um cara ou caras malucos que numa multidão de 50 ou 70 mil pessoas soltam palavrões e xingamentos racistas contra um atleta? Existem certos episódios que nem se tem certeza que esses agressores são mesmo torcedores do time que é penalizado.
Enquanto perdurar esse modus operandi simplificado, a violência e as atitudes de racismos vão perdurar nos estádios porque o sujeito malfeitor não está nem aí se seu time vai ser punido. A raiva e o ódio dele sempre vão estar acima da razão. É uma questão de educação e formação de caráter. Tem que haver outra forma rígida de se acabar de vez com esses tipos de comportamentos inadmissíveis.
Se vão continuar com a decisão de somente penalizar os times, pode até fomentar a ideia de “torcedores”, com a camisa de outro clube, penetrarem na torcida adversária para provocar violência e racismo, justamente com intuito de prejudicar seu rival. Afinal de contas, estamos num país da malandragem onde o absurdo pode acontecer.
“FLUXO E REFLUXO” XXV
BRIGAM OS PORTUGUESES, OS INGLESES, HOLANDESES, FRANCESESS E OS BRASILEIROS PELO TRÁFICO NEGREIRO NO GOLFO DO BENIN, NA COSTA DA ÁFRICA OU SOTAVENTO, TUDO PELA COMPRA DE CARNES HUMANAS EM TORCA DO TABACO, DO AGUARDENTE, DO AÇÚCAR, DO OURO CONTRABANDEADO E ATÉ POR CONCHAS – MOEDAS CHAMADAS DE CAURI (MALDÁVIA) e do ZIMBO (ILHA DE LUANDA, NA ANGOLA.
Em Notas de pesquisadores, relatadas no livro “Fluxo e Refluxo”, de Pierre Verger, conta que o rei do Dahomey (Daomé) Adandozan, por volta de 1778, tinha visto durante muito tempo com olhos invejosos Apée, Porto Novo (pertencente a Ardra) e Badagre, em razão do grande número de vasos que iam traficar nesses portos, enquanto Whidah (Uidá) estava quase totalmente abandonado. Ele adotou a política do seu avô Agaja, e resolveu estender suas possessões e apropriar-se das mercadorias europeias acumuladas por seus vizinhos.
Como seus vizinhos estavam cercados de lagos e pântanos, difíceis de serem atingidos, o rei resolveu fazer amizades com um dos príncipes da região, no caso o rei de Ardra. No fim a conspiração foi descoberta. Apée era a vítima prevista, que foi devastada e muitos foram feitos prisioneiros pelos daomeanos. Mesmo assim, o rei com sua tropa de fieis conseguiu escapar para outro reino. Apée resistiu e colocou Ardra em fuga, com ajuda de um negro brasileiro negociante chamado Antônio Vaz Coelho que conseguiu uma boa posição política em Ardra.
AS LUTAS NAS BUSCAS POR ESCRAVOS
Durante mais de 300 anos, entre o final do século XV ao XIX, os traficantes donos de navios, capitães das embarcações (os vasos), os senhores de engenhos e das minas, diretores de feitorias, negociantes de todas as partes e até escravos emancipados arriscavam suas vidas na busca incessante por cativos que rendiam altos lucros.
Nesse comércio ambicioso, valia a lei do mais forte, as astúcias, armadilhas, as trapaças e as traições entre eles. Cabeças eram decapitadas, muitos eram encarcerados em calabouços e exilados por reis por enganar e sonegar o pagamento do fisco pela parte que cabia aos reinos e coroas. Holandeses e piratas perseguiam e saqueavam as cargas dos navios, principalmente dos portugueses e brasileiros.
Nessa época, a costa africana era um coito de intrigas e um enxame de maribondos na disputa para ver quem mais lotava de escravos os navios negreiros nos porões da morte, sujos e fedorentos. Os oceanos se transformaram em cemitérios de negros que eram jogados vivos e doentes nos mares para a festa dos tubarões.
Os reis do Daomé (Golfo do Benin) sempre foram os poderosos e guerreiros que brigavam pelo domínio de outros reinos (de Ardra, Porto Novo, Badagre, Lagos) na conquista por mais e mais prisioneiros que eram vendidos como escravos. Reis, rainhas e príncipes, considerados como inimigos, eram embarcados em navios como cativos.
Toda essa tragédia humana, vergonhosa e criminosa, institucionalizada pelos governantes onde até o escravo desejava ter um escravo como um bem que dava status e servia como uma hipoteca, inspirou escritores, intelectuais, pesquisadores e, especialmente, poetas, como o baiano Castro Alves em “Espumas Flutuantes” no célebre poema “O Navio Negreiro” onde clama num trecho: Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…/ Ô mar! Por que não apagas/ Com a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?…/ Astros! Noite! Tempestades!/ Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão… / Quem são estes desgraçados…
Foram estes negros trazidos de vários reinos da África, dominados pelas potências de colonizadores que aqui deixaram no Brasil suas culturas na música, nas comidas, na capoeira, em seus gingados, nas palavras e no sincretismo religioso.
Aqui foram colocados nos troncos e sofreram horríveis torturas de seus senhores, e até a Igreja Católica foi escravista e conivente. No entanto, até hoje são vítimas de racismo e de todo tipo de discriminação, como a social. A maioria vive na pobreza em favelas e nas periferias das cidades.
Muitos desses relatos estão na obra do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, “ Fluxo e “Refluxo”, que da Bahia se fez filho e se tornou adepto da religião de matriz africana. Pelos meados do século XIX, a partir de 1835, com a revolta dos malês, esses negros, por vontade própria e outros por expulsão das autoridades brasileiras, fizeram a viagem de volta para suas terras de origens e formaram colônias, sobretudo em Ajudá (Uidá), Porto Novo, Badagre e em Lagos.
Eram várias etnias e nações, como os nagôs-iorubás, os jêjes-mahis, os tapas, haussás que atravessaram o Atlântico com suas bagagens e pertences, mas, mesmo assim, a grande maioria não teve o destino certo porque os brancos roubaram seus bens e não lhes deixaram nos portos desejados e contratados.
Tiveram que amargar o sofrimento de se aventurar pelo interior africano para alcançar sua terra natal ou aportar em outros reinos diferentes. Em vários locais formaram “colônias brasileiras”, hostilizadas pelos nativos e indígenas. Muitos eram até chamados de “brancos” por serem considerados boçais que falavam o português e praticavam o catolicismo e o islamismo.
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