:: out/2022
COMO FAZER TURISMO EM CONQUISTA SEM FORTALECER A NOSSA CULTURA?
Tenho dito aqui repetidas vezes que nos últimos anos a cultura em Vitória da Conquista passou a se resumir em festa junina e Natal. Podem até me chamarem de chato, mas continuarei batendo na mesma tecla até que um governante tome consciência política e implante um Plano Municipal de Cultura que sirva de base e diretrizes para nortear as atividades do setor e prestigiar os artistas em todas suas linguagens.
Recentemente a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, em parceria com o Sebrae, elaborou o Plano Municipal de Turismo, mas em seu diagnóstico se percebe uma lacuna por não contemplar projetos culturais. A minha pergunta é como falar de turismo sem fortalecer a nossa cultura? Turismo é acima de tudo ter cultura para apresentar ao turista.
O visitante de fora não quer apenas ver a cidade, fazer trilhas, subir morros, se banhar em cachoeiras, mas conhecer também seu patrimônio histórico preservado e participar de eventos, como uma feira literária, um festival de música com premiações, festival de dança, de um salão de artes plásticas, peças teatrais e outras expressões populares da terra.
Para uma cidade do porte de Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia, que já viveu no passado momentos de efervescência cultural, lamentavelmente ainda deixa a desejar por falta de uma política que privilegie o setor, com uma Secretaria desmembrada do esporte e lazer e recursos orçamentários suficientes para atender a demanda.
A Conquista cultural de hoje está com seus equipamentos fechados, como o Teatro Carlos Jheová, a Casa Glauber Rocha e o Cine Madrigal, adquirido no governo Guilherme Menezes por um milhão e cem mil reais, em 2015, hoje sob a gestão da Secretaria da Educação (não dá para entender).
Temos ainda a Praça J.Murilo (Praça Céus), lá no Bairro Alto Maron, um local multiuso para a comunidade, com espaço de teatro, quadras de esporte, parque para crianças, skate, sala de reuniões e outros serviços, mas funciona precariamente. Além do mais, está a necessitar de reformas gerais em suas instalações.
Quanto ao Teatro Carlos Jheová, este está interditado desde a pandemia para reforma e não se tem uma definição se será ampliado ou até mesmo demolido. Há um ano os artistas de artes cênicas fizeram um movimento em defesa da sua abertura, mas continua lá sendo destruído pelo tempo.
O prédio do Cine Madrigal há anos se encontra também fechado. A informação que temos é que existe um projeto em licitação para obras de reformas, de maneira que seja adequado no conceito de acessibilidade com entradas e saídas de segurança em caso de incidentes. A aspiração dos que lidam com a arte e cultura é que ali seja transformado num Cineteatro, mas nada definido.
Outro equipamento parado é a Casa Glauber Rocha, na Rua Dois de Julho, também comprado pela Prefeitura Municipal. Existem muitas propostas para ocupar aquele espaço, como transformar ali num tipo museu do som e imagem, semelhante ao que hoje existe em Salvador, na Cidade Baixa.
Por meio de recursos visuais e sonoros, em cada ponto da Casa Glauber poderia ser contada a história de Conquista desde sua formação, com destaques para os principais personagens do município nas áreas da cultura, social, da política, das artes em geral, da economia e da indústria. O nome permaneceria o mesmo do cineasta conquistense.
Conquista cresce por todos os lados, de leste ao oeste, de norte ao sul e se desenvolve de forma acelerada, mas, infelizmente, estamos atrasados no quesito cultura, sem um plano de ações artísticas para preencher durante todo ano, não somente com São João e Natal.
Não temos nem um centro cultural ou um centro de convenções para realização de seminários, congressos e outros eventos. Como então pretender atrair turistas de fora sem um suporte forte na cultura? É preciso entender que a cultura, também chamada de economia criativa, rende emprego e dinheiro para a cidade e atrai visitantes, mas os governantes não enxergam assim.
Nos últimos anos, os prefeitos só têm pensado em ladrilhar avenidas ricas, calçadões para beneficiar o comércio e nem tem cuidado bem das nossas escolas, dos nossos postos de saúde, dos monumentos e preservação do pouco que ainda resta do nosso patrimônio histórico. Muitas edificações estão ameaçadas de desaparecimento. Vamos lutar pela cultura!
O ISOLAMENTO DO NORDESTE
- Carlos Albán González – jornalista
- O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais irrompeu entre os seguidores fanáticos de Jair Bolsonaro uma onda de insultos contra os nordestinos. O nazifascismo tropical, que usa desrespeitosamente o verde e o amarelo, quer transformar a terra berço do Brasil num imenso campo de concentração. Costurada por um presidente que há quatro anos faz de conta que trabalha, uma cortina de ódio foi erguida nas nossas divisas.“Morte (a bala ou de fome) aos nordestinos”, esbravejam os mais exaltados. Os parâmetros de retaliação criados por mentes poluídas vão desde a venda das nossas praias (a idéia do ministro Paulo Guedes, da Economia, esbarra na Constituição), à morte – seria em câmeras de gás como nos campos de concentração nazistas ? . Houve até quem sugerisse a construção de muros nas divisas dos estados nordestinos (o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump seria consultado).Se uma barbárie desabar sobre a cabeça dos brasileiros no dia 30, o nordestino, no futuro, vai precisar de salvo-conduto para ir a uma cidade do Sul ou Sudeste, ou a Brasília. O capim será nosso alimento, como induz o presidente, mesmo porque, os que passam fome, imaginaram um dia comer carne humana.
O incitamento à violência, à intolerância religiosa, à xenofobia – que não é de hoje – contra o nordestino revelam que o Brasil pode se tornar o bastião da extrema direita no continente. A cruzada antidemocrática do militar expulso do Exército foi reforçada pela eleição para o Congresso do que há de mais retrógado neste país, em termos de política.
Antes mesmo da posse os radicais escarrados das urnas já falam em alterar a Constituição para tornar permanente o orçamento secreto, o que significa seqüestrar as verbas da merenda escolar, das pesquisas, das universidades, da cultura e da saúde.
Além dos assédios moral e sexual, a classe trabalhadora vem sendo vítima de um novo tipo de assédio, o eleitoral. A opressão do empregador bolsonarista tem ocorrido principalmente no meio rural. Uma produtora de Luís Eduardo Magalhães (um dos dois municípios baianos onde o ex-capitão venceu) divulgou um vídeo pedindo a “demissão sem dó do eleitor de Lula”.
Servidores da Prefeitura de Salvador reclamam de que estão sendo pressionados para votar em ACM Neto. Esse tipo de coação, que pode ser denunciado ao Ministério Público do Trabalho e aos sindicatos, está enquadrado no artigo 301 do Código Eleitoral, sujeito a pena de quatro anos de reclusão,
Separatismo
No Brasil nunca houve uma forte tendência separatista entre regiões, muito menos entre os nordestinos, embora a cantora paraibana Elba Ramalho tenha sugerido oficializar a música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, como hino da região. Lá pelas bandas do Sul, o gaúcho, de tempos em tempos, reúne seus vizinhos do Paraná e de Santa Catarina, para reacender o sonho de criação de uma nação que se chamaria Pampas..
A Espanha, minha segunda pátria, convive há quase um século com os movimentos de independência da Catalunha e do País Basco. Líder de uma das mais longevas ditaduras (1936-1975) no mundo, Francisco Franco procurou sufocar os opositores, inclusive proibindo que os povos de diferentes etnias que unificaram o país se comunicassem em suas próprias línguas, no caso, o catalão, o basco e o galego.
O Generalíssimo, como gostava de ser chamado, enfrentou uma guerra civil, que matou 500 mil espanhóis, nos seus três primeiros anos no poder, graças ao apoio que recebeu de outros dois ditadores europeus, Adolf Hitler e Benito Mussolini. Para demonstrar força, Franco pediu ao III Reich que bombardeasse uma das cidades do norte da Espanha.
A pequena Guernica, no País Basco, com apenas 5 mil habitantes, foi atacada em 26 de abril de 1937. A aviação nazista lançou 22 toneladas de bombas, matando 1.645 pessoas. O massacre inspirou o artista andaluz Pablo Picasso a pintar “La Guernica”, a mais famosa tela do século XX, mantida num museu de Nova Iorque até o fim da ditadura franquista.
O sentimento separatista de catalões e bascos não se rompeu com a morte de Franco em 1975 e a conseqüente volta da Espanha ao regime democrático. O ETA, organização nacionalista basca, que evoluiu para o terrorismo, vive hoje na clandestinidade. A Catalunha optou pelo repúdio à monarquia, ao hino, à bandeira e ao idioma espanhóis.
“Matar, em nome de Deus”
Para evitar uma punição após a passagem da faixa presidencial pelos crimes cometidos durante seu mandato, Bolsonaro vai usar de todos os meios, lícitos e ilícitos, para vencer no segundo turno. Neste fim de semana, desagradando seus apoiadores evangélicos, compareceu ao Círio de Nazaré.
O arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira, divulgou nota informando que Bolsonaro não foi convidado e que não permitiria que o evento da Igreja Católica fosse usado com fins políticos. Contrariado, o “penetra” ficou confinado num navio da Marinha..
Afinal, qual a religião professada pelo genocida? Isso não importa para os líderes evangélicos do Brasil. Leonel Brizola, um dos mais brilhantes políticos brasileiros, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, perguntou certa vez: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo fluminense? Assumem posição ambígua, se queixam de tudo, fazem denúncias, mas não deixam os cargos que ocupam”. E profetizou: “Se necessário, matarão em nome de Deus, para chegarem ao poder”
“Fundamentalismo evangélico ameaça a democracia”, título do artigo assinado há nove anos pelo Reverendo Carlos Calvani, publicado num jornal de Campo Grande (MS). Membro da Igreja Anglicana no Brasil, Calvani advertiu que os pentecostais “têm um projeto político muito perigoso para o Brasil, utilizando as Escrituras Sagradas como lhes convém”.
Calvani comparou o movimento evangélico carismático com o fanatismo islâmico do talibã, movimento nacionalista e fundamentalista difundido no Paquistão e Afeganistão, países asiáticos onde a mulher é humilhada.
“ESSE SAPATO É A SUA CARA”!
(Chico Ribeiro Neto) – jornalista
“Parece que foi feito de encomenda. E aproveite logo, porque só tem esse do seu número, é o único par. E essa semana vai ter aumento”.
Atendimento nas lojas tem hora que é fogo! Tem aquele vendedor que gruda logo em você assim que você entra na loja e não lhe deixa à vontade para circular e escolher.
Se o sapato está apertado nos dedos: “É bom assim, porque depois folga, e esse couro elastece bem”.
Se o sapato está folgado: “Melhor assim, porque os dedos ficam soltos e não incomoda”.
Uma amiga de São Paulo me contou que lá o chinês da loja já fica aborrecido quando você pega um segundo produto na hora de escolher. Ele acha que se você pega o primeiro produto tem que pagar logo e ir embora. E o pior é que quando paulista chega aqui diz que é mal atendido.
Mas também tem o comprador chato. Aquela mulher que experimenta mais de dez pares de sapatos e depois vai embora prometendo voltar. “O meu nome é Ivan”, diz o vendedor sem acreditar muito no retorno daquela escolhe-escolhe.
Meu irmão Zé Carlos, de saudosa memória, trabalhou na seção de tecidos da loja Duas Américas, na época a melhor loja da Rua Chile ou talvez de Salvador. Ele contou que às vezes chegava uma mulher, pedia amostras de 12 tipos de tecidos e depois ia embora: “Qualquer coisa eu volto”.
E o atendimento no serviço público? Com exceção do SAC, onde você é sempre bem atendido e em pouco tempo, o resto é brabo. Quem já precisou resolver alguma coisa na Secretaria de Educação sabe o que é padecer. Tem muita secretaria em que logo atrás da recepção está colado um cartaz em letras garrafais: “Artigo 331 do Código Penal Brasileiro: Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela: Pena – Detenção de seis meses a dois anos ou multa”.
Tem aquele funcionário que perdeu a voz e só sabe apontar onde fica o próximo atendimento. Tem a funcionária que está limpando as unhas com um palito e que dispara logo: “Estou no meu horário de descanso, a outra moça tá vindo aí”, e retorna ao celular. Acho que uma boa solução seria tudo virar SAC.
Ainda não aprendi a comprar pela Internet. Mas ela também tem os seus chatos. Outro dia consultei preços de máquina de lavar e logo depois choveram ofertas no meu Face.
Enfim, não acredite muito quando o vendedor disser: “Essa camisa é a sua cara”. Um cara de pau.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
AS REBELIÕES E OS MANUAIS DOS SENHORES
Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, os senhores escravocratas passaram a ter comportamentos mais brandos com seus cativos diante das rebeliões e fugas dos negros que pipocavam em vários estados contra a escravidão, lembrando sempre o massacre que ocorreu no Haiti, em 1791, quando milhares de brancos foram mortos cruelmente.
Diante dos fatos, os patrões começaram a formular cartilhas e manuais para tratar os pretos com mais moderação nos castigos, recomendando mais divertimento, folga do trabalho aos domingos para a prática da religião, folguedos e até cederam pedaços de terra para o cultivo, de modo a evitar levantes e preservar seu capital investido. Com a proibição do tráfico, os negros ficaram mais caros.
Quem narra essas mudanças é o jornalista e escritor Laurentino Gomes em sua trilogia “Escravidão” e cita dois manuais importantes divulgados pelo baiano Miguel Calmon Du Pin e Almeida e Carlos Augusto Taunay que orientavam os fazendeiros de como não perder seus cativos, mas sempre com disciplina, não deixando de castigá-los quando cometessem “erros”.
No capítulo “Medo, Morte e Repressão” ele começa a descrever a revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, que deixou as autoridades apreensivas e reforçaram as seguranças. Na noite em que tudo aconteceu celebrava-se a “Noite do Destino” e o encerramento do Ramadã pelos haussás e os nagôs iorubás da Nigéria.
Na noite de 24 de janeiro, os boatos corriam na Cidade Baixa nas proximidades do porto do Mercado Modelo, de que cativos mulçumanos procedentes de Santo Amaro tinham ali desembarcado para se juntar a um africano de nome Ahuna, líder envolvido em algum tipo de conspiração.
Houve vazamento, e uma mulher de nome Guilhermina procurou um vizinho de chamado André Pinto da Silveira que comunicou tudo ao juiz de paz José Mendes da Costa Coelho. Este foi ao palácio e fez um relato ao presidente da província, Francisco de Souza Martins. O que se viu em seguida foi uma explosão de violência que se desdobrou em brutais confrontos entre forças militares e negros escravizados.
Na manhã seguinte já havia cadáveres espalhados por diversas ruas, praças e ladeiras da capital. Estima-se em setenta o número de mortos. Nessa devassa, mais de quinhentos pessoas foram punidas com penas de morte, prisão, deportações e açoites. A revolta dos malês levou pânico a outras regiões do país.
Nas quatro primeiras décadas do século XIX foram mais de trinta na capital, no Recôncavo e outras províncias. Metade delas, segundo Laurentino, ocorreu entre 1826 e 1830. Nunca houve uma sequência tão grande de fugas e rebeliões. Os senhores ficaram assustados.
A primeira delas, liderada pela etnia haussá, se deu em 1807. Em 1814 e 1816, os haussás fizeram uma série de ataques no Recôncavo e em bairros de Salvador. Em 1826, um grupo procedente do “Quilombo Urubu” tentou invadir Salvador aos gritos de “morra branco e viva o negro”.
Na revolta de 1835, a rebelião foi antecipada por cousa das delações, mas ampliou-se em vários lugares, como no centro, nas imediações do Campo Grande e Cidade Baixa. Tudo começou na Ladeira da Praça com a prisão de líderes, como Aprígio e Manuel Calafate. No local, cerca de cinquenta negros enfrentaram os soldados com pistolas e espadas. No confronto inicial morreram um africano e um soldado.
Mesmo às pressas, os rebeldes conseguiram arregimentar quinhentos combatentes que passariam as três horas seguintes enfrentando os agentes da lei nas ruas de Salvador. Acuados pela guarda, eles se espalharam entre o Terreiro de Jesus e na Praça Castro Alves. Seguiram depois rumo ao Bairro da Vitória. Houve assaltos no quartel da polícia no Largo da Lapa.
A última batalha aconteceu no Quartel da Cavalaria (Água de Meninos). Cerca de duzentos escravos participaram da luta com porretes, pistolas, espadas e lanças. Foram recebidos a bala e muitos terminaram sendo retalhados e baleados, enquanto outros se refugiaram no mato, morros e até se afogando no mar. Na conspiração ficou evidenciado que o levante teve motivação religiosa. A liderança era toda mulçumana com aspecto de guerra santa, uma jihad.
Laurentino destaca que, na época da Revolta dos Malês, entre oito a dez mil africanos escravizados desembarcavam anualmente no Porto de Salvador, a grande maioria do Golfo do Benin (Togo, Benin, Nigéria e Camarões). A região se converteu na principal fonte de escravos enviados à Bahia durante o século XVIII em razão da prolongada guerra entre o reino do Daomé e seus vizinhos.
Eram designados como pretos minas, devido a proximidade do antigo castelo de São Jorge da Mina, Elmina, em Gana. O censo de 1808, realizado em Salvador e freguesias próximas, constatou que dos 250 mil habitantes, só pouco mais de 50 mil eram brancos.
Nesse período de 1835 reinava ainda um clima de agitação originária da independência brasileira. Na Bahia, negros, mestiços, cativos e libertos foram recrutados e participaram de episódios como a Conjuração Baiana (Revolta dos Alfaiates), de 1798, da Independência da Bahia em 2 de julho de 1823 e da Sabinada, movimento republicano e federativo comandado por Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira.
Outras revoltas ocorreram durante a Regência entre a abdicação de D. Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II, em 1840, em Minas Gerais e no Maranhão, em 1838, com a Balaiada. Essas rebeliões escravas fizeram com que as autoridades adotassem medidas drásticas. Na Bahia, as batidas policiais depois de 1835 resultaram na detenção de centenas de suspeitos.
Essas questões serviram de roteiro para uma série de manuais e roteiros, muitos deles escritos por grandes fazendeiros, com o objetivo de adequar aos novos tempos o tratamento dedicado aos escravos. Alguns eram chamados de manuais agrícolas.
O baiano Miguel Calmon, por exemplo, escreveu “Ensaio sobre o Fabrico de Açúcar”, aconselhando moderação com os cativos, como fornecer moradia, alimentação e vestuário mais decentes, liberação de pedaços de terra para o trabalho deles, que constituíssem famílias, cuidados com a criação dos filhos dos escravos, divertimentos e castigos com prudência.
UMA CARTA DE REPÚDIO AOS FASCISTAS
INTELECTUAIS, OAB, PROFESSORES, ESTUDANTES, CLASSES, CATEGORIAS, TRABALHADORES, ARTISTAS E TODO POVO NORDESTINO, ESTÁ NA HORA DE SE UNIR EM TORNO DE UMA CARTA ABERTA DE REPÚDIO EM DEFESA DO NOSSO QUERIDO NORDESTE. NÃO SOMOS BAGAÇOS DESSES SENHORES TIRANOS. ATÉ QUANDO VAMOS CONTINUAR LEVANDO CHIBATADAS SEM DAR UM BASTA NISSO TUDO? AFINAL, FOI AQUI QUE NASCEU O BRASIL. FICO UMA FERA QUANDO FALAM MAL DO MEU NORDESTE.
No Rio de Janeiro eles são chamados de “paraíbas” e em São Paulo de “baianos”. Não se trata de carinho, mas de chacotas e discriminação, uma maneira de tratar os nordestinos de forma desprezível e preconceituosa, como se fossem gente inferior, esquisita, não civilizada fora do contexto padrão do resto do país.
Como se não bastasse tudo isso, nos últimos anos nas eleições, principalmente agora na voz do psicopata nazista capitão-presidente que injeta ódio em seus seguidores, os sulistas aproveitaram para descarregar seus xingamentos ao povo do Nordeste, chegando a apelar para a pratica da matança.
Contra esses bárbaros, o que mais nos incomoda é o silêncio perturbador e a falta de indignação, inclusive por parte da mídia. Tem um ditado que diz: “Quem cala consente”. Estamos agindo como o escrevo que baixa a cabeça diante do seu senhor para não ser chicoteado.
Na Faculdade de Direito de São Paulo, um movimento se uniu para defender a democracia ferida pelos agressores extremistas que se manifestaram a favor de uma ditadura. Foi divulgado uma carta em defesa do estado de direito e da liberdade de expressão.
Somos humilhados, chamados de candangos imprestáveis e não reagimos. Passou da hora dos intelectuais, dos artistas, líderes políticos da esquerda, estudantes, professores, trabalhadores em geral, entidades e associações, sindicatos, OAB e outras instituições fazerem uma carta aberta em defesa da nossa região.
O que me deixa inquieto é que poucos levantam a voz pedindo respeito para calar a boca desses imbecis cretinos que ainda falam em pátria, Deus, família e liberdade, mas não passam de anticristos demoníacos que só destilam veneno e nada têm de cristãos, muitos menos prezam o livre pensar.
O Nordeste que já fez tantas rebeliões, como a conjuração baiana, a revolta do malês, a balaiada, canudos, a expulsão dos portugueses na Bahia, com a independência do Brasil, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e em seus outros estados, agora se faz submisso e se deixa ser humilhado como raça inferior.
Onde está a fibra do nordestino, celeiro da cultura e das artes, de gente forte e destemida que enfrenta todas as adversidades, como a inclemência da seca, e não arreda pé de uma boa briga, nem leva desaforo para casa? Vamos continuar inertes ouvindo xingamentos e preconceitos xenófobos contra nós, sem nada fazer? Viro uma fera quando falam mal do meu Nordeste.
O MAIOR QUEBRA-MOLA DO MUNDO
Dizem que o brasileiro e o baiano são os maiores piadeiros do mundo, com tudo faz chacotas e gozações, no bom sentido. Vitória da Conquista já foi a cidade das flores, das boiadas, do frio, capital dos quebra-molas e agora inventaram essa de “Suíça Baiana”, coisa de complexo de pobre querendo ser rico. Quando se quiser dar uma referência para um encontro qualquer nas imediações da Avenida Régis Pacheco se diz perto do “Bigode de Pedral”, uma piada que pegou. Essa obra também levou a alcunha de maior quebra-mola do mundo. Poderia até ser inscrito no livro dos recordes. É a nossa Conquista de clima ameno e inverno rigorosos como foi neste ano. Com a minha idade já avançada ando pensando até em passar esse período em Teresina, em Palmas, Fortaleza ou aqui mesmo em algumas terras quentes baianas, mas sem grana para isso, preciso de um benfeitor ou patrocinadores porque o véio não aguenta mais essas baixas temperaturas. Mudei até de assunto, mas aqui, ou em outro lugar, sempre vou lembrar do maior quebra-mola do mundo onde milhares todos os dias cruzam aquele elevado vindo do oeste com destino ao centro resolver seus problemas do dia-a-dia naquela cotidiana correria pela sobrevivência.
UNS TÊM, OUTROS NÃO…
Mais recente poema de autoria de Jeremias Macário
Uns nascem,
Outros morrem.
Muita gente a guerrear,
Outros preferem amar;
Uns a brigar por ideologia;
Outros na labuta do dia a dia.
Tem a luta de classe,
Do capital contra o trabalho,
A crise e a boa fase,
Encruzilhada e atalho.
Uns se casam,
Outros se separam.
Tem a despedida na partida,
Os que ficam,
No adeus da saudade.
Existem os livres,
E os que não têm liberdade;
Os oprimidos e opressores,
Os rotos e esfarrapados,
Nobres, pobres e doutores,
Nesse mundo de todos,
Dos odiados e amados.
Uns colhem espinhos,
Outros rosas e flores.
Tem as mesclas e os linhos,
E cada um com suas dores.
Para uns, o céu,
Outros, o inferno.
Tem a abelha no mel,
A praga no plantio,
O simples passageiro,
O Supremo eterno,
E a terra com seu cio.
Uns pensam ser duque e barão,
Outros só querem viola e canção.
Tem a tirania,
A prosa e a democracia,
O alvorecer e o poente,
O pensar em cada mente.
Uns sobem e outros descem,
Nessa louca multidão,
Onde o monge faz sua oração.
Uns protestam,
Outros ficam calados;
Uns no forró e samba,
Outros vão de valsa e fados;
Uns gozam e amam,
Outros fingem que sim,
No início, meio e fim.
Tem o choro em pranto;
Muitos sem nada,
E poucos com tanto.
Muita fonte e fartura,
Tanque seco, gado berrando;
Saúde e doente sem cura.
Uns com alma de menino,
Outros com instinto assassino.
Tem o pau-de-arara retirante,
E o patrão escravista arrogante.
Uns semeiam primaveras,
Outros taras e feras.
Tem a pura ternura,
O sangue frio da secura,
Os estradeiros da poeira,
E os que nem abrem porteira.
Tudo é mistério e filosofia,
Encanto e poesia.
UM FUTURO SOMBRIO E TENEBROSO
Até o dia 30 de outubro não sabemos o que pode acontecer com o Brasil nos próximos quatro anos. Por enquanto estamos atravessando uma tempestade em mar revolto e não sabemos quanto tempo irá durar para termos uma calmaria e navegar em águas tranquilas.
Os ventos fortes com ciclones e tufões, os trovões e os relâmpagos nessa travessia tormentosa podem nos levar a um futuro sombrio de mais ódio, intolerância e destruição. Até pouco tempo era apenas uma ideologia de cunho fascista e conservadora que está se transformando numa seita tenebrosa.
Essa metáfora do tormento é o Brasil que há quatro anos vem sendo ameaçado em sua frágil democracia, e tudo começou com os movimentos de rua para dar um recado de que “o PT nunca mais” depois dos desastres na corrupção e nos malfeitos.
No entanto, pelo bem da nação, essa sentença feiticeira deve ser desfeita. Acontece que os raivosos não querem saber mais disso, não sabendo que também vão cair em desgraça. Chegou-se a uma cegueira tamanha que eles não querem mais enxergar a realidade e nem têm mais capacidade para tanto.
Essa tormenta tem origem também numa elite burguesa e num grupo de extremistas nazifascistas que viviam calados no armário porque não tinham quem lhes dessem voz e ação. Nas sombras das trevas surge um desconhecido que aproveitou a oportunidade dos conflitos e das divisões para renascer da sua tumba.
A senha já estava sendo anunciada por governos de extrema que tomaram o poder no exterior, principalmente na Europa. Os cientistas políticos, os sociólogos, os intelectuais e os analistas de plantão deram pouco ouvido para o que estava ocorrendo e não previram o pior.
A esquerda acomodada foi caindo nessa armadilha e não deu conta que por detrás de suas barreiras havia um inimigo perigoso. Uma turma aloprada foi fazendo suas estripulias e só pensou em tirar proveito e viver em suas mordomias, esquecendo do povo. Traiu um socialismo humano que havia pregado anos atrás. Da cachacinha tomou gosto pelo uísque e não quis mais largar o copo.
Outro fator que muito contribuiu para essa derrocada desastrosa foi o ajuntamento de 35 partidos, cuja maioria de tendência conservadora e moralista, formada, principalmente, por pastores evangélicos moralistas, foi comendo pelas beiradas do poder, sem contar a própria ajuda de um sistema eleitoral anacrônico coronelista que excluiu os bons de participarem da política.
O Congresso Nacional com suas negociatas escandalosas, inclusive contando como uma “oposição” que perdeu sua função histórica e filosófica, foi aninhando monstros do terror em sua casa, os quais se elegeram com o voto de um povo desassistido e desiludido com as promessas perdidas pelo meio do caminho.
Esse conjunto de fatores foi nos empurrando até os dias atuais para um precipício incerto de um país dividido. Para nos livrar dessa praga demoníaca e satânica de um futuro sombrio que se apresenta, a única saída é esquecer aquele grito de ordem de “PT nunca mais”, mas está muito difícil convencer o outro lado que, a esta altura está hipnotizada pelo mal.
O QUE SERÁ DO CINE MADRIGAL?
Lá está aquele imponente prédio na rua Ernesto Dantas há cerca de 15 anos fechado sendo desgastado pelo tempo. Ali tem história quando bons filmes atraíram milhares de moradores conquistenses. Guarda lembranças na mente de muita gente, namorados, casais, jovens, professores, intelectuais e gente do nosso povo. Eu mesmo estive lá por várias vezes assistindo boas películas.
Foi o último dos cinemas de rua de Vitória da Conquista. Como se diz no popular, o último dos moicanos. Quando encerrou suas atividades por causa da onda da internet, dos DVDs e fitas cassetes, a Igreja Universal – se não me engano – tentou compra o prédio, mas não deu certo.
Depois de muito discutir, a Prefeitura Municipal, entre os anos 2015/16, no governo de Guilherme Menezes, adquiriu o antigo Cine Madrigal por cerca de um milhão e 100 mil reais, barato pela sua estrutura e localização. Foi utilizado o dinheiro do Tesoura, isto é, do povo, e passado para a gestão da Secretaria de Educação.
São sete anos sem ser utilizado, coisas da Bahia e do nosso Brasil. A intenção do governo passado era transformar o antigo Madrigal num cineteatro, conforme garantiu o secretário de Educação da época, Valdemir Dias, hoje vereador. Até o momento nada aconteceu e lá está o elefante branco.
Quando de uma audiência do Conselho Municipal de Cultura, a prefeita Sheila Lemos explicou que o propósito era reativar o Cine Madrigal, mas antes tem que ser realizadas obras de reforma interna e externa de acessibilidade de modo a atender as exigências do Corpo de Bombeiros e do Conselho de Engenharia e Arquitetura.
Estamos sabendo que já existe um projeto de licitação para fazer os devidos reparos visando a abertura de suas instalações. No entanto, fica a pergunta, inclusive dos artistas em geral e da população sobre a sua utilização. Vai ser mesmo um cine teatro, ou apenas mais um estabelecimento de uso da Secretaria de Educação para reuniões, oficinas de capacitação e local de eventos de formatura? É isso que toda sociedade está querendo saber.
Existe a discussão de que haja uma gestão compartilhada entre a Educação e a Cultura através das duas secretarias, mas até o momento pouco se sabe e se anuncia sobre o assunto. O poder público tem a obrigação de informar e dar uma satisfação, mesmo porque é recurso do contribuinte. A Câmara de Vereadores também precisa se pronunciar e entrar nesse debate.
Com a interdição do Teatro Carlos Jheová, na Praça 10 de Novembro, os artistas em geral, músicos, as artes cênicas e outras linguagens ficaram sem local para realizar seus ensaios e eventos. Estão indo, com sacrifícios para outros locais, como o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima que pertence ao estado.
O antigo Cine Madrigal seria o ideal para atender a demanda, mas a nossa cultura, infelizmente, está órfã de pai e mães. Anda aí pelas ruas como uma mendiga maltrapilha com a cuia na mão pedindo esmolas. Todos passam e poucos dão alguma atenção jogando umas moedinhas em seu prato.
Queremos uma posição sobre este e outros equipamentos culturais, como a Casa Glauber Rocha que também se encontra fechada a mercê do tempo que não perdoa no quesito desgaste e destruição do nosso patrimônio histórico, na verdade, um resto que ainda está de pé. Tende misericórdia de nós, oh Senhor!
O NORDESTE NÃO É CURRAL DO SUL
BASTA DO POVO NORDESTINO SER TRATADO COMO COISA INFERIOR QUE PODE SER DESCARTADO!
Os extremistas de direita nazifascistas do Sul têm o desejo de transformar o Nordeste num holocausto e sempre menosprezam nosso povo com xingamentos e até com expressões assassinas de que todo nordestino deveria ser morto.
Isto ocorre, principalmente, em épocas de eleições quando a região vota ao contrário de suas ideias burguesas, como agora com a onda de áudios malditos e raivosos nas redes sociais, tratando o Nordeste como se fosse uma escória do país que merece ser varrido do Brasil.
Quero apenas dizer a esses imbecis retrógrados e amantes do retrocesso saídos da era medieval, ou para ser mais recente, do nazismo hitlerista, que sinto muito orgulho de ser sertanejo catingueiro nordestino, e não somos currais desses escravocratas. Se no Brasil as leis fossem severas para punir com rigor esses xenófobos, esses elementos bandidos e bandidas deveriam ir para a cadeia.
Estão circulando mensagens de ódio porque o Nordeste deu maioria ao candidato do PT. Não se trata apenas de uma questão política, mas de uma barbárie praticada por indivíduos do Sul onde mais cresce a ideologia nazista de supremacia da raça. Entendem eles que os nordestinos devem ser extintos.
Esquecem esses radicais conservadores que numa “guerra” de expressões culturais, de ideias, de escritores, poetas, cancioneiros, compositores, repentistas, músicos e pensadores, o Nordeste escorraça todos eles e ainda ganhamos nas tradições populares.
Não somos só bons no facão, na foice e na peixeira, mas também na coragem, na resistência, no trabalho, no caráter e na força da palavra. Somos fortes, e todo nordestino já nasce lutador com espirito de vencer, mesmo diante de tantas adversidades, inclusive das climáticas e da própria exploração do Sul.
Existe sim uma grande desigualdade regional secular e ela foi criada desde o período imperial, o qual se submetia ao patronato dos senhores do café e do comércio. Na República, o quadro continuou o mesmo onde os governantes tiraram recursos do Nordeste para despejar no Sul, especialmente enquanto perdurou a política do café com leite.
Quando o grande planejador economista Celso Furtado idealizou a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento Regional) muitos sulistas foram contra. Outros até aproveitaram das facilidades dadas através da liberação de impostos para passar o calote e não implantar as empresas previstas nos contratos.
De forma direta e indireta, o Sul cresceu às custas do Nordeste quando serviu da sua mão-de-obra e utilizou do seu poder de barganha para desviar verbas da região. Como a elite rica capitalista que não quer ver o pobre melhorar de vida, o Sul sempre teve o mesmo comportamento com relação ao Nordeste.
Qual moral tem esses meliantes de ameaçar a matança de nordestino quando eles próprios destruíram o seu meio ambiente e definharam suas terras com plantios de soja e milho e depois vieram para nossos cerrados da Bahia (região Barreiras), do Piauí e Maranhão explorar nossos solos?
Eles estão aqui utilizando nossas águas, nosso chão, secando nossos rios com suas barragens e escravizando nosso trabalhador para lucrar com a exportação de grãos para China e outros países. A bancada ruralista xenófoba no Congresso Nacional é formada por qual região, ou quais?
Quem mais recebe dinheiro com juros subsidiados do governo federal, através dos bancos oficiais, para depois derrubar e queimar florestas para plantar soja e criar bois? Como jornalista acompanhei a criação do Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, e os cargos de diretoria e chefias foram ocupados pelos sulistas.
Os nossos governantes do Nordeste, tanto de direita como de esquerda, têm grande parcela de culpa quando aceitam isentar impostos (ICMS) por dez ou mais anos a indústrias sulistas em troca de umas migalhas de empregos com salários mais baixos que os operários de suas matrizes.
Um exemplo disso são as fábricas de sapatos, tecidos e tênis que são instaladas em nossa região, inclusive com doações de terrenos. Esses empresários do Sul usam o tempo em que o imposto é liberado e depois fecham as portas deixando os trabalhadores na amargura. Depois levantam acampamento e vão para outro lugar utilizando dos mesmos métodos.
As lojas Avan do fascista fazem o mesmo nos municípios onde chegam, se apropriando da isenção do ISS. É o dinheiro do povo sofrido do Nordeste que alimenta esses sanguessugas que depois desprezam os nordestinos e os trata como se fossem inferiores e um bando de imprestáveis que merecem ser mortos.


















